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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL     <br> SA&Uacute;DE</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Novas abordagens   para esquizofrenia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Alice Giraldi e Silvia Campolim</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A morte recente do cineasta e documentarista Eduardo Coutinho trouxe &agrave; tona os problemas enfrentados pelos portadores da esquizofrenia e suas fam&iacute;lias. Coutinho e sua mulher foram esfaqueados durante um surto do filho Daniel, que tem a doen&ccedil;a. Uma das principais caracter&iacute;sticas da doen&ccedil;a &eacute; a perda do contato com a realidade. "Depois de um s&eacute;culo estudando a esquizofrenia, as causas desse dist&uacute;rbio permanecem desconhecidas. V&aacute;rios tratamentos, especialmente os farmacol&oacute;gicos, t&ecirc;m sido amplamente usados durante cerca de meio s&eacute;culo e ainda n&atilde;o existem evid&ecirc;ncias de que tenham trazido melhoras substanciais para a maioria das pessoas com esquizofrenia", afirmou o psiquiatra Thomas R. Insel, diretor do Instituto Nacional de Sa&uacute;de Mental, nos Estados Unidos, em artigo publicado em 2010, na revista <i>Nature.</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n2/a03img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os primeiros sintomas desse dist&uacute;rbio mental surgem, em geral, durante a transi&ccedil;&atilde;o da adolesc&ecirc;ncia para a fase adulta, quando o c&oacute;rtex pr&eacute;-frontal est&aacute; em processo final de amadurecimento e os circuitos neurais ainda buscam um equil&iacute;brio. No artigo de 2010, o psiquiatra norte-americano j&aacute; destacava ser preciso investir em pesquisas que desvendassem a complexidade das estruturas e dos circuitos cerebrais, em busca de respostas sobre as causas da esquizofrenia e os caminhos efetivos de seu tratamento. Insel define a esquizofrenia como uma desordem do desenvolvimento neurol&oacute;gico - o que, segundo ele, al&eacute;m de ser "profundamente diferente da maneira como se via essa doen&ccedil;a no s&eacute;culo passado", significaria "uma nova esperan&ccedil;a para a sua preven&ccedil;&atilde;o e cura nas pr&oacute;ximas duas d&eacute;cadas".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sinais desse novo olhar sobre a doen&ccedil;a j&aacute; s&atilde;o notados desde 2009, quando o Instituto Nacional de Sa&uacute;de Mental dos EUA lan&ccedil;ou o programa Research Domain Criteria (RDoc), com o objetivo de desvendar as dimens&otilde;es b&aacute;sicas do funcionamento cerebral, como os circuitos de mem&oacute;rias, emo&ccedil;&otilde;es e medo. A ideia era vasculhar desde os genes &agrave;s conex&otilde;es neuronais, passando pelas subst&acirc;ncias neurotransmissoras envolvidas nas sinapses para entender melhor algumas psicopatologias e, assim, oferecer uma assist&ecirc;ncia integral aos pacientes. Essa tend&ecirc;ncia ganhou for&ccedil;a em 2013, quando o presidente Barack Obama anunciou o projeto Breakthrough Research And Innovation in Neurotechnology (Brain, na sigla em ingl&ecirc;s para pesquisa de ponta e inova&ccedil;&atilde;o em neurotecnologia). A iniciativa - que vem sendo considerada ambiciosa pela sua abrang&ecirc;ncia -, promete mapear a atividade cerebral nos pr&oacute;ximos 10 anos com novidades sobre seus princ&iacute;pios de funcionamento. A ideia &eacute; descobrir como as c&eacute;lulas cerebrais interagem, usando tecnologias que produzam "imagens din&acirc;micas" do c&eacute;rebro. O projeto est&aacute; sendo desenvolvido de forma conjunta por v&aacute;rios institutos de pesquisa p&uacute;blicos e privados nos EUA, com uma previs&atilde;o de investimento de US$ 10 bilh&otilde;es.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SINTOMAS DA S&Iacute;NDROME</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Considerando a dimens&atilde;o dos preju&iacute;zos advindos de uma doen&ccedil;a como a esquizofrenia, todos os esfor&ccedil;os se justificam. A esquizofrenia atinge - na maioria das vezes de maneira devastadora -, cerca de 1% da popula&ccedil;&atilde;o ou 70 milh&otilde;es de pessoas ao redor do mundo, segundo dados da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de (OMS). Classificada hoje pela psiquiatria como uma s&iacute;ndrome, ela &eacute; caracterizada por uma s&eacute;rie de sintomas e sinais que costumam surgir pela primeira vez, na forma de um surto psic&oacute;tico, por volta dos 20 anos, nos homens, e 25, nas mulheres. Os portadores apresentam um conjunto de "sintomas positivos", como alucina&ccedil;&otilde;es, del&iacute;rios e desorganiza&ccedil;&atilde;o do pensamento, durante as crises agudas, intercalados por per&iacute;odos de remiss&atilde;o. A doen&ccedil;a &eacute; acompanhada tamb&eacute;m pelos chamados "sintomas negativos": dificuldade de express&atilde;o das emo&ccedil;&otilde;es, apatia, isolamento social e um sentimento profundo de desesperan&ccedil;a, que acentua tend&ecirc;ncias ao suic&iacute;dio. O portador de esquizofrenia apresenta ainda problemas cognitivos, tais como dificuldade de abstra&ccedil;&atilde;o, d&eacute;ficit de mem&oacute;ria, comprometimento da linguagem e falhas no aprendizado. A combina&ccedil;&atilde;o desses sintomas causa grande sofrimento ps&iacute;quico, com preju&iacute;zos nas rela&ccedil;&otilde;es familiares e na vida profissional e demais rela&ccedil;&otilde;es sociais dos portadores da s&iacute;ndrome. Ao mesmo tempo, a cura, &eacute; uma esperan&ccedil;a para poucos: estudos realizados nos Estados Unidos mostraram que menos que 14% dos portadores podem ser considerados curados cinco anos ap&oacute;s o primeiro surto psic&oacute;tico, per&iacute;odo considerado cr&iacute;tico para o desfecho da doen&ccedil;a.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ASSIST&Ecirc;NCIA PREVENTIVA</b> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com base nessas pesquisas, programas de preven&ccedil;&atilde;o voltados para o paciente de primeiro surto foram surgindo em v&aacute;rios pa&iacute;ses. No Brasil, o programa pioneiro de pesquisa e atendimento ao Primeiro Epis&oacute;dio Psic&oacute;tico (PEP) foi criado em 1999, pelo grupo da psiquiatra Ana Cristina Chaves, do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp). O programa promove encontros de grupos de pacientes e familiares, que trocam experi&ecirc;ncias sobre uso de medica&ccedil;&atilde;o, sintomas, reinser&ccedil;&atilde;o social e no mercado de trabalho. "A troca de informa&ccedil;&otilde;es entre as pessoas envolvidas com a doen&ccedil;a ou entre o pr&oacute;prio doente e seus pares &eacute; muito importante", diz Chaves, lembrando que os participantes desses grupos sabem mais do dia a dia da doen&ccedil;a do que os profissionais do servi&ccedil;o. Segundo ela, os temas mais discutidos s&atilde;o a manuten&ccedil;&atilde;o da medica&ccedil;&atilde;o e a "volta ao mundo", passada a crise. "A psicose, de maneira geral, n&atilde;o s&oacute; a esquizofrenia, deveria ser tratada institucionalmente, por meio de servi&ccedil;os de assist&ecirc;ncia que permitem compartilhar experi&ecirc;ncias e oferecem suporte ao tratamento", afirma a psiquiatra da Unifesp.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOVAS HIP&Oacute;TESES TERAP&Ecirc;UTICAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> As drogas antipsic&oacute;ticas, que integram a primeira linha de tratamento para os indiv&iacute;duos com esquizofrenia e outras doen&ccedil;as mentais relacionadas, podem causar s&eacute;rios efeitos colaterais, tais como desordens do metabolismo, ganho de peso e cardiopatias. Por conta desses efeitos, muitos pacientes abandonam a medica&ccedil;&atilde;o, o que motiva, atualmente, a pesquisa para encontrar novas drogas. "As medica&ccedil;&otilde;es usadas como antipsic&oacute;ticos at&eacute; agora agem bloqueando alguns tipos de receptores de dopamina", explica o psiquiatra Jaime Hallak, professor da Faculdade de Medicina de Ribeir&atilde;o Preto, da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Ele lidera um estudo que tem uma nova abordagem farmacol&oacute;gica para o tratamento de s&iacute;ndromes como a esquizofrenia. Hallak e sua equipe se debru&ccedil;aram sobre os receptores de glutamina. "J&aacute; se sabe que o receptor glutamat&eacute;rgico tem sua a&ccedil;&atilde;o diminu&iacute;da na esquizofrenia", explica. Ainda de acordo com ele, a ativa&ccedil;&atilde;o desse receptor desencadeia a produ&ccedil;&atilde;o de &oacute;xido n&iacute;trico, subst&acirc;ncia respons&aacute;vel por modular a comunica&ccedil;&atilde;o entre as c&eacute;lulas nervosas. "Se esse mecanismo for prejudicado, o sistema nervoso passa a reagir de maneira disfuncional e pode provocar altera&ccedil;&otilde;es comportamentais, como as que aparecem na esquizofrenia", diz o pesquisador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O estudo do grupo de Ribeir&atilde;o Preto foi realizado em parceria com pesquisadores da Universidade de Alberta, no Canad&aacute;, e publicado no <i>Jama Psychiatry</i> (maio, 2013). Para aumentar os n&iacute;veis de &oacute;xido n&iacute;trico e controlar os sintomas psi-c&oacute;ticos, os pesquisadores testaram o uso do nitroprussiato de s&oacute;dio, um medicamento antigo, usado desde 1893 para tratar a hipertens&atilde;o arterial sist&ecirc;mica. A subst&acirc;ncia foi administrada em ambiente hospitalar, por via intravenosa, com resultados positivos, tais como a melhoria do funcionamento do sistema nervoso central e a redu&ccedil;&atilde;o dos sintomas de alucina&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&Eacute;LULAS-TRONCO</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra linha de pesquisa que tem se mostrado promissora para entender a esquizofrenia e desenvolver novos tratamentos &eacute; a reprograma&ccedil;&atilde;o de c&eacute;lulas-tronco. Utilizando c&eacute;lulas-tronco de pluripot&ecirc;ncia induzida, fabricadas a partir de amostras celulares de pacientes com esquizofrenia, o biom&eacute;dico Stevens Rehen, do Laborat&oacute;rio Nacional de C&eacute;lulas-Tronco Embrion&aacute;rias, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), descobriu que c&eacute;lulas de portadores de esquizofrenia consomem duas vezes mais oxig&ecirc;nio do que as de n&atilde;o portadores do transtorno. A partir dessa descoberta, Rehen e sua equipe conseguiram "reparar" os neur&ocirc;nios <i>in vitro</i>, por meio da administra&ccedil;&atilde;o de &aacute;cido valproico. O grupo foi o primeiro no mundo a fazer a revers&atilde;o das marcas bioqu&iacute;micas de neur&ocirc;nios humanos com esquizofrenia em laborat&oacute;rio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n2/a03img02.jpg"></p>     ]]></body>
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