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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br> MEDICINA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Les&atilde;o medular: para al&eacute;m do chute da copa</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Marina Gomes</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Voc&ecirc; j&aacute; andou hoje?", essa &eacute; uma das perguntas que mais se ouve no Laborat&oacute;rio de Biomec&acirc;nica e Reabilita&ccedil;&atilde;o do Aparelho Locomotor, do Hospital das Cl&iacute;nicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A frequ&ecirc;ncia do questionamento n&atilde;o causaria espanto se a sala, quase escondida ao fim do longo corredor, n&atilde;o fosse o local de tratamento de pacientes com les&atilde;o medular.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">L&aacute;, cem cadeirantes recebem tratamento com eletroestimula&ccedil;&atilde;o neuronal, t&eacute;cnica que consiste em ligar eletrodos que transmitem pequenos choques ao m&uacute;sculo paralisado, provocando contra&ccedil;&atilde;o muscular. A partir desses est&iacute;mulos, "eles apresentam movimentos involunt&aacute;rios e depois, de forma ainda n&atilde;o completamente compreendida, &eacute; reestabelecida a conex&atilde;o com o c&eacute;rebro", explica Alberto Cliquet J&uacute;nior, professor do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ci&ecirc;ncias M&eacute;dicas da Unicamp e do Departamento de Engenharia Eletr&ocirc;nica da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Les&otilde;es na medula, se graves, interrompem a comunica&ccedil;&atilde;o, via impulsos nervosos, entre o c&eacute;rebro e as partes do corpo abaixo da &aacute;rea lesionada. Com a eletroestimula&ccedil;&atilde;o esses impulsos, &agrave;s vezes, encontram um caminho alternativo e restabelecem a conex&atilde;o. O tratamento envolve uma equipe multidisciplinar com fisioterapeutas, psic&oacute;logos, ortopedistas e urologistas, o que permite uma an&aacute;lise integral do paciente. O laborat&oacute;rio da Unicamp &eacute; o &uacute;nico no Hemisf&eacute;rio Sul dedicado a esse tipo de pesquisa e um dos tr&ecirc;s no mundo - os outros dois ficam na Alemanha e nos Estados Unidos - que s&atilde;o refer&ecirc;ncia na &aacute;rea. Apesar de serem poucos os casos em que &eacute; poss&iacute;vel retomar movimentos completos, de forma volunt&aacute;ria, todos os pacientes apresentam benef&iacute;cios no controle de comorbidades relacionadas &agrave; les&atilde;o medular, como obesidade, osteoporose, doen&ccedil;as cardiovasculares, infec&ccedil;&otilde;es no trato urin&aacute;rio e diabetes. Com a estimula&ccedil;&atilde;o, a massa &oacute;ssea aumenta, melhora a fun&ccedil;&atilde;o cardiopulmonar e a percep&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio corpo (propriocep&ccedil;&atilde;o). Em alguns pacientes, o ganho de firmeza nas pernas possibilita que eles consigam se levantar e dar alguns passos com o aux&iacute;lio de um andador. "A estimula&ccedil;&atilde;o el&eacute;trica associada a um treinamento funcional facilitou a plasticidade neuronal para o reaprendizado de tarefas da vida di&aacute;ria. Isso ocorreu em 16 sess&otilde;es com todos os participantes", conta Karina C. Alonso, fisioterapeuta especialista em ortopedia e traumatologia, da Faculdade de Ci&ecirc;ncias M&eacute;dicas da Unicamp. A cada hora, tr&ecirc;s brasileiros entram na lista de pessoas com les&atilde;o medular. 40% dessas les&otilde;es s&atilde;o causadas por acidentes de tr&acirc;nsito (veja box). O relat&oacute;rio "Diretrizes de aten&ccedil;&atilde;o &agrave; pessoa com les&atilde;o medular", do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, de 2013, revelou que surgem anualmente 10 mil casos novos no Brasil. A imensa maioria dessas pessoas, no entanto, n&atilde;o tem acesso a um centro de tratamento de ponta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NO CENTRO DAS ATEN&Ccedil;&Otilde;ES</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Devolver a capacidade de se movimentar a pessoas com les&otilde;es medulares e com outros tipos de restri&ccedil;&otilde;es de locomo&ccedil;&atilde;o &eacute; um dos grandes desafios para m&eacute;dicos e pesquisadores. Este ano ao menos uma dessas pesquisas ganhar&aacute; as aten&ccedil;&otilde;es do mundo quando uma pessoa parapl&eacute;gica vai usar um exoesqueleto para caminhar e dar o chute inicial da Copa do Mundo da Fifa. O prot&oacute;tipo &eacute; resultado do esfor&ccedil;o de um cons&oacute;rcio internacional de pesquisas liderado pelo neurocientista Miguel Nicolelis. A interface c&eacute;rebro-computador &eacute; uma das vertentes de pesquisa para auxiliar na reabilita&ccedil;&atilde;o de pacientes com les&atilde;o medular. "As pessoas com les&atilde;o muitas vezes n&atilde;o conseguem ativar o teclado de um computador porque n&atilde;o t&ecirc;m movimento nos dedos. No entanto, a inten&ccedil;&atilde;o est&aacute; no c&eacute;rebro, falta apenas fazer a "liga&ccedil;&atilde;o" entre os dois", afirma Jana&iacute;na Vall, professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Cear&aacute; (UFC). Outra &aacute;rea promissora para novos tratamentos &eacute; a de desenvolvimento de membros rob&oacute;ticos e pr&oacute;teses neurais. Existe tamb&eacute;m grande expectativa em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s c&eacute;lulas-tronco ou terapia celular. No Brasil h&aacute; um projeto sendo desenvolvido em Salvador (Bahia) com 19 pacientes. "Precisamos aguardar o final da pesquisa, mas, de forma geral, avaliando o uso das c&eacute;lulas-tronco no mundo, os resultados ainda s&atilde;o muito discretos se comparados a terapias celulares para outras doen&ccedil;as", exp&otilde;e a professora. O SUS n&atilde;o tem um programa espec&iacute;fico para tratamento de pessoas com les&atilde;o medular. Esses pacientes s&atilde;o tratados como politraumatizados e, em muitos casos, demoram a serem operados.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PRIMEIROS SOCORROS </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A reabilita&ccedil;&atilde;o est&aacute; intimamente ligada aos cuidados recebidos no in&iacute;cio do tratamento. Segundo Jana&iacute;na Vall, o atendimento adequado para uma pessoa com les&atilde;o medular inclui estabilizar a coluna e manter o p&eacute; em posi&ccedil;&atilde;o correta. "Se esses cuidados n&atilde;o forem tomados, pode acontecer o que chamamos de 'p&eacute; equino', que &eacute; irrevers&iacute;vel e impossibilita depois o bom posicionamento na cadeira de rodas", explica ela. "O uso prolongado da sonda, quando o paciente fica muito tempo na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), pode ter consequ&ecirc;ncias no trato urin&aacute;rio. Esses fatores, que ocorrem no in&iacute;cio da les&atilde;o, t&ecirc;m impacto direto e repercutem por toda a vida", afirma a professora. Pacientes com les&atilde;o medular perdem entre 30 e 60% da densidade mineral &oacute;ssea do f&ecirc;mur e da t&iacute;bia nos primeiros dois anos de les&atilde;o, o que os predisp&otilde;e a sofrerem fraturas. Infec&ccedil;&otilde;es do trato urin&aacute;rio e fal&ecirc;ncia renal s&atilde;o as maiores causas de morte.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ESPORTE E QUALIDADE DE VIDA</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Marcelo Ares, gerente m&eacute;dico do Centro de Reabilita&ccedil;&atilde;o da Associa&ccedil;&atilde;o de Assist&ecirc;ncia &agrave; Crian&ccedil;a Deficiente (AACD), afirma que a qualidade de vida de um lesionado medular que realiza acompanhamento m&eacute;dico peri&oacute;dico e adota medidas preventivas para as complica&ccedil;&otilde;es pertinentes &agrave; les&atilde;o &eacute; muito boa. "A tecnologia pode ajudar se associada aos m&eacute;todos terap&ecirc;uticos convencionais com objetivos funcionais e no aux&iacute;lio na execu&ccedil;&atilde;o das atividades de vida di&aacute;ria", diz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O tratamento correto e medidas de reabilita&ccedil;&atilde;o permitem que muitas pessoas com les&atilde;o medular tenham uma vida produtiva e independente, com inser&ccedil;&atilde;o no mercado de trabalho. Uma parcela dessas pessoas tamb&eacute;m se realiza por meio da pr&aacute;tica de esportes. &Eacute; o caso de Yves Carbinatti, 27 anos, de Rio Claro, interior de S&atilde;o Paulo, que, em 2008, sofreu um acidente de tr&acirc;nsito. Hoje ele pratica jiu jitsu e &eacute; piloto de kart. A maior dificuldade, segundo ele, &eacute; conscientizar a sociedade sobre a inclus&atilde;o de pessoas com defici&ecirc;ncia. "Eu sou embaixador da categoria de deficientes f&iacute;sicos no jiu jitsu e trabalho em um projeto de boxe adaptado para cadeirantes. O esporte contribui para uma vida saud&aacute;vel, inclus&atilde;o social e a motiva&ccedil;&atilde;o, essencial para melhorar e vencer sempre", afirma ele, que foi o &uacute;nico piloto com mobilidade reduzida a disputar a Stock Car Junior. E promete muito mais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n2/a04img01.jpg"></p>      ]]></body>
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