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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Fundadora da Rede da África e do Caribe para a ciência e a tecnologia (ACNST)]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br> ENTREVISTA: ELIZABETH RASEKOALA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Fundadora da Rede da &Aacute;frica e do Caribe para a ci&ecirc;ncia e a tecnologia (ACNST)</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Giselle Soares </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n2/a10img01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Rede da &Aacute;frica e do Caribe para a Ci&ecirc;ncia e a Tecnologia (ACNST) &eacute; uma ONG criada em 1995, na Cidade do Cabo, &Aacute;frica do Sul, pela engenheira qu&iacute;mica nigeriana Elizabeth Rasekoala. O trabalho da rede &eacute; promover o desenvolvimento do capital humano; discutir quest&otilde;es de ra&ccedil;a e igualdade de g&ecirc;nero e incentivar a inclus&atilde;o social no empreendimento cient&iacute;fico. "Eu diria que o trabalho da rede teve um impacto profundo, com mudan&ccedil;as reais", afirma Elizabeth". A fundadora da ACNST &eacute; uma das palestrantes da 13ª Confer&ecirc;ncia Internacional de Comunica&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (PCST), realizada de 5 a 8 de maio em Salvador, Bahia. Ela debater&aacute; sobre o principal tema do evento: comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da ci&ecirc;ncia para inclus&atilde;o social e engajamento pol&iacute;tico. Nesta entrevista, Rasekoala fala sobre os principais desafios do desenvolvimento cient&iacute;fico no continente africano e sobre as mudan&ccedil;as que ocorreram desde que a ACNST foi criada.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Ci&ecirc;ncia e Cultura: Quais s&atilde;o os principais desafios para o desenvolvimento cient&iacute;fico no continente africano?</i></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Elizabeth Rasekoala:</b> O primeiro grande desafio &eacute; a vontade pol&iacute;tica. Isso se aplica a todos os pa&iacute;ses africanos. Nossos pol&iacute;ticos parecem n&atilde;o entender que a ci&ecirc;ncia tem papel fundamental para o desenvolvimento. Isso &eacute; uma grande frustra&ccedil;&atilde;o. O segundo problema &eacute; o financiamento para ci&ecirc;ncia e para pesquisa. H&aacute; mais de vinte anos, todos os pa&iacute;ses africanos se comprometeram, no &acirc;mbito do Plano de A&ccedil;&atilde;o de Lagos, em gastar pelo menos 1% de seu PIB em pesquisa cient&iacute;fica. At&eacute; agora, apenas cinco pa&iacute;ses atingiram esse objetivo: Egito, Marrocos, Tun&iacute;sia, Maur&iacute;cio e Ruanda, &uacute;nico pa&iacute;s que n&atilde;o s&oacute; atingiu como excedeu esse objetivo. Hoje, Ruanda emprega 3% do PIB em pesquisa cient&iacute;fica e o governo se comprometeu a ampliar essa porcentagem para 5% at&eacute; o fim desta d&eacute;cada. Nossos institutos de pesquisa cient&iacute;fica dependem de financiamento estrangeiro. Ent&atilde;o, a realidade &eacute; que as necessidades de desenvolvimento do continente n&atilde;o s&atilde;o atendidas. O tipo de pesquisa que se faz na &Aacute;frica &eacute; totalmente desconectado da realidade da vida das pessoas comuns, o que nos leva ao terceiro desafio: essa desconex&atilde;o significa que a mentalidade cient&iacute;fica n&atilde;o est&aacute; incorporada na cultura da maioria do nosso povo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ci&ecirc;ncia continua sendo praticada por uma elite. Isso &eacute; um problema grande. O quarto desafio &eacute; o desenvolvimento de capital humano, de encontrar maneiras de ampliar a for&ccedil;a de trabalho cient&iacute;fica a partir do n&iacute;vel escolar at&eacute; a universidade e os institutos de pesquisa. Acabamos perdendo o capital humano limitado que somos capazes de formar atrav&eacute;s da "fuga de c&eacute;rebros". As pessoas se qualificam, fazem doutorado e v&atilde;o para o exterior porque n&atilde;o h&aacute; oportunidades no continente. N&oacute;s continuamos nesse ciclo vicioso. Eu diria que esses quatro principais desafios se aplicam a todos os 54 pa&iacute;ses do continente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Como &eacute; poss&iacute;vel tornar a ci&ecirc;ncia importante para o debate p&uacute;blico e inclus&atilde;o social nos pa&iacute;ses em desenvolvimento em que a popula&ccedil;&atilde;o sofre com a falta de condi&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas de sobreviv&ecirc;ncia?</b></i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o se trata apenas de sobreviv&ecirc;ncia. Precisamos de um debate p&uacute;blico sobre ci&ecirc;ncia que realmente permita &agrave; maioria da popula&ccedil;&atilde;o estabelecer a rela&ccedil;&atilde;o entre a vacina&ccedil;&atilde;o e as doen&ccedil;as infantis, como p&oacute;lio, sarampo e o impacto na mortalidade infantil, algo que fa&ccedil;a mulheres entenderem a liga&ccedil;&atilde;o entre planejamento familiar, contracep&ccedil;&atilde;o e o impacto no &iacute;ndice de mortalidade materna, um dos principais indicadores de desenvolvimento. Um dos consensos sobre o continente africano &eacute; que a falta de inclus&atilde;o social &eacute; a causa principal de conflitos. A ci&ecirc;ncia pode auxiliar a inclus&atilde;o social nesses pa&iacute;ses o que evitaria v&aacute;rios conflitos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Voc&ecirc; afirmou que a ACNST foi criada porque havia uma grande preocupa&ccedil;&atilde;o com a sub-representa&ccedil;&atilde;o de pessoas negras em ci&ecirc;ncia, engenharia e tecnologia. O que mudou de 1995 at&eacute; hoje?</b> </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Antes de a rede come&ccedil;ar, essa quest&atilde;o era ocultada no Reino Unido e na Europa. Todos conheciam a situa&ccedil;&atilde;o, mas ningu&eacute;m queria comentar. O que n&oacute;s fizemos foi mostrar que autoridades do setor educacional e dos governos escondiam dados que demonstravam essa segrega&ccedil;&atilde;o. A partir desses dados, mudamos o discurso para que a quest&atilde;o da segrega&ccedil;&atilde;o por ra&ccedil;a e g&ecirc;nero fosse integrada &agrave;s discuss&otilde;es sobre o sistema de ci&ecirc;ncia e tecnologia. Foi uma luta que levou cinco anos, mas chegamos l&aacute;. Hoje, o governo &eacute; respons&aacute;vel pela coleta de dados em n&iacute;veis escolares e nas universidades para mostrar as realiza&ccedil;&otilde;es por g&ecirc;nero e ra&ccedil;a em matem&aacute;tica e ci&ecirc;ncia. Tamb&eacute;m conseguimos mudan&ccedil;as na forma&ccedil;&atilde;o de professores, al&eacute;m da elabora&ccedil;&atilde;o de materiais culturalmente apropriados de aperfei&ccedil;oamento em matem&aacute;tica e ci&ecirc;ncia, alguns desses produzidos por autoridades do setor educacional. Finalmente, conseguimos fazer o sistema cient&iacute;fico aceitar que havia um problema e que era necess&aacute;rio mudar. Eu diria que o trabalho da rede realmente teve um impacto profundo. Foi uma batalha que alcan&ccedil;ou mudan&ccedil;as reais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Ainda existe muito preconceito em rela&ccedil;&atilde;o a quest&otilde;es de g&ecirc;nero. Como est&aacute; a situa&ccedil;&atilde;o na &Aacute;frica?</b></i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; um desafio em todos os pa&iacute;ses do continente. Alguns est&atilde;o melhores que outros. O leste africano &eacute; uma regi&atilde;o modelo em termos de g&ecirc;nero na ci&ecirc;ncia e tecnologia. Eles t&ecirc;m institui&ccedil;&otilde;es bastante s&oacute;lidas que ajudam a sustentar os avan&ccedil;os nesta quest&atilde;o. A regi&atilde;o do oeste africano est&aacute; bem, n&atilde;o por causa das institui&ccedil;&otilde;es, mas por causa das dimens&otilde;es culturais. Os Iorubas, por exemplo, tem uma cultura que realmente valoriza a mulher. O mesmo acontece com as mulheres Igbo. Acredito que, por isso, as pessoas acham que n&atilde;o existe uma necessidade de inserir as mulheres nos quadros das institui&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o &eacute; verdade. Devemos olhar para o continente de maneira mais institucional para tratar quest&otilde;es de g&ecirc;nero em ci&ecirc;ncia e tecnologia. De modo geral, a parte boa &eacute; que nos n&iacute;veis fundamental, m&eacute;dio e na universidade, a participa&ccedil;&atilde;o de garotas em temas relacionados a matem&aacute;tica e ci&ecirc;ncias est&aacute; crescendo. A luta &eacute; para que as mulheres tamb&eacute;m fa&ccedil;am mestrado e doutorado e se insiram no mercado de trabalho. &Eacute; na p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o que mais perdemos mulheres, o que &eacute; realmente uma pena, pois n&atilde;o temos um modelo para convencer as meninas mais jovens de que elas podem ter uma carreira valiosa.</font></p>      ]]></body>
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