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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> HIST&Oacute;RIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A Primeira Guerra Mundial pelas lentes do cinema</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patr&iacute;cia Mariuzzo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desde o come&ccedil;o deste ano, em todo o mundo, e especialmente na Europa, uma extensa produ&ccedil;&atilde;o cultural com exposi&ccedil;&otilde;es de artes visuais, festivais de cinema, lan&ccedil;amento de livros etc, volta-se para as comemora&ccedil;&otilde;es dos 100 anos do in&iacute;cio da Primeira Guerra Mundial, conflito que definiu um novo mapa do mundo e que teve consequ&ecirc;ncias ao longo de todo o s&eacute;culo XX. Um desses projetos &eacute; a exposi&ccedil;&atilde;o "Cinema Europeu e a Primeira Guerra Mundial", um portal on-line que re&uacute;ne dezenas de documentos hist&oacute;ricos e filmes preservados em arquivos e cinematecas europeias de cinema. Coordenado pelo Instituto Alem&atilde;o de Cinema (DIF, na sigla em alem&atilde;o) e com a participa&ccedil;&atilde;o de parceiros de 15 pa&iacute;ses europeus, a exposi&ccedil;&atilde;o faz parte do o "European Film Gateway 1914" (<a href="http://exhibition.europeanfilmgateway.eu" target="_blank">http://exhibition.europeanfilmgateway.eu</a>) que, desde 2012, digitalizou mais de 650 horas de document&aacute;rios, notici&aacute;rios, anima&ccedil;&otilde;es e filmes de longa-metragem sobre a Primeira Guerra.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOT&Iacute;CIAS DA GUERRA</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O cinema ainda era uma arte jovem, em 1914, quando come&ccedil;ou a Primeira Guerra Mundial. Rapidamente, no entanto, a s&eacute;tima arte tornou-se uma ferramenta para fazer propaganda da guerra e recrutar soldados. Diferentemente do que nos acostumamos a ver em canais como a rede norte-americana CNN, as cenas retratadas n&atilde;o eram imagens em tempo real. Segundo Felix Sch&uuml;rmann, um dos coordenadores do projeto, proibi&ccedil;&otilde;es de filmagens impostas pelos militares e uma s&eacute;rie de limita&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas, como por exemplo o tamanho e o peso dos equipamentos, impediam uma cobertura pr&oacute;xima dos combates. Por isso, a a&ccedil;&atilde;o tinha que ser capturada a partir de um ponto de vista fixo e distante. Mesmo assim, o filme-batalha tornou-se um g&ecirc;nero em si mesmo. Edi&ccedil;&otilde;es mostrando grandes opera&ccedil;&otilde;es de guerra eram imensamente populares com o p&uacute;blico de cinema. E, aut&ecirc;nticas ou n&atilde;o, essas representa&ccedil;&otilde;es foram largamente utilizadas como ferramentas de propaganda para refor&ccedil;ar as no&ccedil;&otilde;es de superioridade militar e moral sobre as for&ccedil;as opostas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Havia tamb&eacute;m um tipo de filme especialmente produzido para persuadir as pessoas a financiar privadamente o esfor&ccedil;o de guerra e ainda para recrutar pessoal tanto para o <i>front </i>de batalha como para a ind&uacute;stria que surgiu em torno da guerra, como a de muni&ccedil;&atilde;o por exemplo. "A Primeira Guerra Mundial n&atilde;o foi apenas uma guerra sem precedentes em rela&ccedil;&atilde;o ao n&uacute;mero de na&ccedil;&otilde;es e da quantidade de novos equipamentos utilizados, foi tamb&eacute;m uma guerra de imagens, onde o cinema, uma m&iacute;dia relativamente nova, foi utilizado pela primeira vez na hist&oacute;ria para documentar o conflito em larga escala", explica Anette Groschke, da Cinemateca Alem&atilde; - Museu de Cinema e Televis&atilde;o, em Berlim.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PARA O IMP&Eacute;RIO</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Primeira Guerra Mundial tamb&eacute;m foi o primeiro conflito que envolveu grande parte da sociedade. Um imenso n&uacute;mero de mulheres foi trabalhar nas f&aacute;bricas para substituir o bra&ccedil;o masculino, tanto na ind&uacute;stria convencional como na de muni&ccedil;&atilde;o. Para manter o esp&iacute;rito e moral elevados durante as dificuldades da guerra, o cinema representou um meio ideal para influenciar as pessoas. O document&aacute;rio <i>Fabrication des munitions et du mat&eacute;riel de guerre</i> (Reino Unido, 1916), mostra mulheres, algumas bem jovens, trabalhando na linha de montagem da ind&uacute;stria sider&uacute;rgica brit&acirc;nica Vickers que, durante a guerra, fabricava bombas e granadas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> No mesmo sentido, existiu uma produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica especialmente voltada para incentivar os cidad&atilde;os europeus a doar dinheiro e outros objetos de valor para pagar os custos da guerra.O document&aacute;rio ingl&ecirc;s <i>Para o imp&eacute;rio</i>, de 1916, dirigido por George Pearson, mostra soldados cavando trincheiras e a luta na linha de frente. Em seguida, se v&ecirc; cenas de soldados mortos e cidades destru&iacute;das. Na cena final um homem est&aacute; em uma ag&ecirc;ncia dos correios fazendo uma doa&ccedil;&atilde;o. O filme usa a no&ccedil;&atilde;o de sofrimento para persuadir o expectador a comprar b&ocirc;nus de guerra, uma esp&eacute;cie de t&iacute;tulo de investimento com rendimentos baixos, com objetivo de levantar dinheiro para financiar a guerra.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>T&Eacute;DIO E TECNOLOGIA</b> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre junho de 1915 e novembro de 1917, ocorreu uma s&eacute;rie de batalhas entre italianos e austro-h&uacute;ngaros, que ficaram conhecidas como "Batalhas de Isonzo". Elas foram documentadas no filme <i>Isonz&oacute;i-csata</i> (&Aacute;ustria-Hungria, 1917) que mostra nitidamente o principal centro de opera&ccedil;&otilde;es da Primeira Guerra, as trincheiras. Eram buracos, de cerca de dois metros de profundidade, onde os soldados permaneciam por dias, em uma guerra que, pela dificuldade de avan&ccedil;ar no territ&oacute;rio inimigo, consistia, em boa parte do tempo, em esperar. Ao mesmo tempo, a vida nas trincheiras era dific&iacute;lima para os soldados. Exposto ao frio e &agrave; umidade, o ambiente das trincheiras acabou por se tornar um criadouro de pragas como piolhos, pulgas e ratos, e prop&iacute;cio ao surgimento de doen&ccedil;as infecciosas como a febre tifoide, gripe e leptospirose que resultaram em um n&uacute;mero significativo de baixas. Por outro lado, a Primeira Guerra Mundial impulsionou programas especiais para o desenvolvimento de novos armamentos e tecnologias capazes de dar alguma vantagem sobre a estrat&eacute;gia de trincheiras, arame farpado (utilizados para dificultar a movimenta&ccedil;&atilde;o do inimigo) e o deslocamento em cavalos. G&aacute;s venenoso, os primeiros tanques, avi&otilde;es, artilharia moderna, lan&ccedil;a-chamas e submarinos foram introduzidos ao longo dos quatro anos do conflito. Essa guerra mecanizada resultou em um n&uacute;mero de soldados feridos, aleijados e mutilados em uma escala at&eacute; ent&atilde;o desconhecida na hist&oacute;ria, al&eacute;m de mais de 16 milh&otilde;es de mortes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O cinema lidou com essas quest&otilde;es de v&aacute;rias maneiras. "Durante a guerra, muitos filmes minimizaram a extens&atilde;o do sofrimento, mostrando hospitais militares com soldados levemente feridos. <i>La reeduca&ccedil;&atilde;o professionelle des mutile&eacute;s de la guerre em  France </i>(Edmond Dronsart, 1917), por exemplo, retrata o cotidiano de uma escola para soldados com defici&ecirc;ncia. Gra&ccedil;as a pr&oacute;teses e treinamento especial, os feridos s&atilde;o salvos "do desespero e da solid&atilde;o", o que d&aacute; a eles, e ao p&uacute;blico, a expectativa de que seriam capazes de trabalhar e viver quando terminasse o conflito.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n2/a24img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CINEMA P&Oacute;S-GUERRA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Apenas depois de 1918 as experi&ecirc;ncias e sofrimento, os custos humanos e morais passam a ser retratados em longas-metragens. "Al&eacute;m de filmes que abordavam explicitamente a morte ou ferimentos na frente de batalha, muitas produ&ccedil;&otilde;es da d&eacute;cada de 1920 podem ser lidas como respostas indiretas &agrave; experi&ecirc;ncia de sofrimento relacionado &agrave; guerra", escreveu F&eacute;lix Sch&uuml;rmann, em texto publicado no site do European Film Gateway. De acordo com ele, a guerra serviu tamb&eacute;m como um pano de fundo para o lan&ccedil;amento de filmes de espionagem, romances e outros filmes do g&ecirc;neros. Lan&ccedil;ado em 1931, <i>Niemandsland </i>foi um dos primeiros filmes que troca o &oacute;dio pelo inimigo pelo &oacute;dio &agrave; guerra em si. Ele conta a hist&oacute;ria de cinco homens presos em um bunker, onde sua &uacute;nica luta &eacute; para sobreviver, independentemente do lado da guerra em que cada um est&aacute;. Alguns desses filmes usavam imagens de arquivo de notici&aacute;rios ou filmes de propaganda sobrepostas, a fim de sugerir autenticidade. Em entrevista para a ag&ecirc;ncia de not&iacute;cias alem&atilde; DW (Deutsch Welle), o cientista pol&iacute;tico alem&atilde;o da Universidade Humboldt, em Berlim, Herfried Munkler, afirmou que a Primeira Guerra Mundial mostrou o tipo e o grau de viol&ecirc;ncia que assolaria o s&eacute;culo XX. Para ele, um especialista na hist&oacute;ria do per&iacute;odo, "foi a Guerra que determinou o s&eacute;culo XX. Sem ela n&atilde;o teria havido a Segunda Guerra Mundial, possivelmente n&atilde;o teria havido o nazismo, nem o stalinismo, nem a tomada de poder bolchevique em Petrogrado (hoje S&atilde;o Petersburgo), R&uacute;ssia". A Primeira Guerra mudou tamb&eacute;m a hist&oacute;ria do cinema europeu. A ind&uacute;stria cinematogr&aacute;fica europeia, em plena ascens&atilde;o antes do conflito, n&atilde;o resistiu &agrave; Guerra. Somente cerca de 20% da produ&ccedil;&atilde;o do cinema mudo sobreviveu nas institui&ccedil;&otilde;es que preservam o patrim&ocirc;nio cinematogr&aacute;fico. Parte desse acervo pode ser livremente acessado por pesquisadores, amantes do cinema e o p&uacute;blico em geral. Por meio dele &eacute; poss&iacute;vel conhecer parte da hist&oacute;ria da Primeira Guerra e da hist&oacute;ria do cinema.</font></p>      ]]></body>
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