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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Cristalografia: uma ci&ecirc;ncia multidisciplinar</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Iris L. Torriani</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O ano de 2014 foi institu&iacute;do como o Ano Internacional da Cristalografia pela Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o, a Ci&ecirc;ncia e a Cultura (Unesco). Esse reconhecimento foi baseado na import&acirc;ncia dessa ci&ecirc;ncia multidisciplinar que serviu de base para um grande n&uacute;mero de descobrimentos cient&iacute;ficos fundamentais, 29 deles merecedores de pr&ecirc;mios Nobel. Surge a pergunta: qual &eacute; o dom&iacute;nio da cristalografia e porqu&ecirc; ela permeia tantas ci&ecirc;ncias b&aacute;sicas como a matem&aacute;tica, a geologia, a qu&iacute;mica, a f&iacute;sica, a biologia, e muitas ci&ecirc;ncias aplicadas relacionadas com a engenharia, ci&ecirc;ncia dos materiais e a medicina?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1895 Wilhelm R&ouml;ntgen descobriu os raios X, os quais imediatamente mostraram ser uma excelente ferramenta nos diagn&oacute;sticos m&eacute;dicos. Mas levaria mais de uma d&eacute;cada para que a radia&ccedil;&atilde;o X e sua intera&ccedil;&atilde;o com &aacute;tomos e mol&eacute;culas fossem estudados pelos f&iacute;sicos e levassem &agrave; elucida&ccedil;&atilde;o da estrutura de materiais org&acirc;nicos e inorg&acirc;nicos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1912, Max von Laue provou que um cristal atravessado por um feixe colimado de raios X provocava efeitos de difra&ccedil;&atilde;o. A imagem captada numa placa de filme perpendicular &agrave; dire&ccedil;&atilde;o de incid&ecirc;ncia revelava a simetria e a perfei&ccedil;&atilde;o de uma rede cristalina. Essa experi&ecirc;ncia abriu caminho para o uso dos raios X como ferramenta fundamental no estudo dos materiais, e mereceu o pr&ecirc;mio Nobel de F&iacute;sica de 1914.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Captar a informa&ccedil;&atilde;o sobre a estrutura da mat&eacute;ria a n&iacute;vel at&ocirc;mico foi ent&atilde;o a tarefa que coube &agrave; comunidade cient&iacute;fica durante o s&eacute;culo passado. E assim foram se sucedendo os descobrimentos. Em 1915, William Henry e William Lawrence Bragg ganharam o pr&ecirc;mio Nobel de F&iacute;sica pela determina&ccedil;&atilde;o das primeiras estruturas cristalinas. Seguidamente, foram os pr&ecirc;mios Nobel de Charles Glover Barkla (F&iacute;sica, 1917), Karl Manne Georg Siegbahn (F&iacute;sica, 1924), Arthur Holly Compton (F&iacute;sica, 1927), os quais se adentraram na natureza da radia&ccedil;&atilde;o X e mostraram novos caminhos para os estudos da mat&eacute;ria condensada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Petrus (Peter) Josephus Wilhelmus Debye (Qu&iacute;mica, 1936), Max F. Perutz e John C. Kendrew (Qu&iacute;mica, 1962), e nesse mesmo ano James D. Watson, Francis H.C. Crick e Maurice H.F. Wilkins (Fisiologia ou Medicina, 1962) mostraram as enormes possibilidades do estudo das estruturas desordenadas e da mat&eacute;ria org&acirc;nica. Essa &uacute;ltima distin&ccedil;&atilde;o outorgada aos investigadores Watson, Crick e Wilkins foi baseada em experi&ecirc;ncias de difra&ccedil;&atilde;o de raios X por DNA realizadas por Rosalind Franklin. Esta &eacute; considerada uma das maiores descobertas do s&eacute;culo XX por "ter aberto as mais espetaculares possibilidades de desvendar os detalhes do controle e transfer&ecirc;ncia da informa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica" como reza a outorga desse pr&ecirc;mio Nobel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A nova ci&ecirc;ncia baseada na cristalografia de raios X continuou crescendo e o mundo viu a possibilidade de sintetizar princ&iacute;pios ativos de medicamentos essenciais, como a vitamina B12, a penicilina e a insulina, a partir da contribui&ccedil;&atilde;o de cristal&oacute;grafos excepcionais, como Dorothy Crowfoot Hodgkin, que resolveu essas estruturas e 50 anos atr&aacute;s ganhou o pr&ecirc;mio Nobel de Qu&iacute;mica, por ter desenvolvido m&eacute;todos de an&aacute;lise capazes de determinar a estrutura at&ocirc;mica de macromol&eacute;culas de import&acirc;ncia biol&oacute;gica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dorothy Hodgkin fez um coment&aacute;rio famoso sobre os resultados de sua estrutura da insulina em 1935: "ver o primeiro diagrama de raios X obtido com cristais de insulina foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Mas a emo&ccedil;&atilde;o foi muito maior em 1969 quando vimos a estrutura da insulina totalmente resolvida, mostrando o mapa de densidade eletr&ocirc;nica" (x). At&eacute; hoje, as conquistas alcan&ccedil;adas pela cristalografia e os m&eacute;todos cient&iacute;ficos que acompanham seu desenvolvimento nos surpreendem com novas conquistas fundamentais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um marco nas descobertas dentro das ci&ecirc;ncias biol&oacute;gicas foi a determina&ccedil;&atilde;o da estrutura do complexo molecular que comp&otilde;em os ribossomos. De import&acirc;ncia fundamental na s&iacute;ntese proteica, eles s&atilde;o formados por subunidades independentes, de diferentes tamanhos, dif&iacute;ceis de isolar e formar cristais para realizar experi&ecirc;ncias de cristalografia de raios X. Uma tarefa considerada quase imposs&iacute;vel. O desafio foi vencido pelos ganhadores do pr&ecirc;mio Nobel de Qu&iacute;mica de 2009: V. Ramakrishnan, Thomas A. Steitz e Ada Yonah.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esta&ccedil;&otilde;es experimentais instaladas em grandes laborat&oacute;rios de luz s&iacute;ncrotron, nos quais os raios X s&atilde;o produzidos por um anel acelerador de el&eacute;trons, permitem obter imagens instant&acirc;neas em experi&ecirc;ncias <i>in situ</i>, que detectam a estrutura das mol&eacute;culas sob mudan&ccedil;as durante processos funcionais. Isto permite a realiza&ccedil;&atilde;o de pesquisas in&eacute;ditas, e j&aacute; podem ser encarados os desafios do futuro: entender o funcionamento de mecanismos biol&oacute;gicos fundamentais. "Ver" uma fibra muscular em a&ccedil;&atilde;o? Ou a oxigena&ccedil;&atilde;o de uma mol&eacute;cula de hemoglobina? Esses processos podem ser observados e monitorados atrav&eacute;s das mudan&ccedil;as estruturais das macromol&eacute;culas envolvidas nessas fun&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um marco nas descobertas dentro das ci&ecirc;ncias biol&oacute;gicas foi a determina&ccedil;&atilde;o da estrutura do complexo molecular que comp&otilde;em os ribossomos. De import&acirc;ncia fundamental na s&iacute;ntese prot&eacute;ica, eles s&atilde;o formados por subunidades independentes, de diferentes tamanhos, dif&iacute;ceis de isolar, fomrar cristais ou realizar experi&ecirc;ncias de cristalografia de raios X. O desafio foi vencido pelos ganhadores do pr&ecirc;mio Nobel de Qu&iacute;mica de 2009: V. Ramakrishman, Thomas Steitz e Ada Yonah.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Uni&atilde;o Internacional de Cristalografia (IUCr), vem acompanhando os grupos de pesquisadores de todo o mundo, desde sua funda&ccedil;&atilde;o em 1948, e tem sido muito importante para o desenvolvimento da cristalografia como ci&ecirc;ncia b&aacute;sica e multidisciplinar. Existem grupos de pesquisa em cristalografia em mais de 80 pa&iacute;ses, dos quais aproximadamente 50 s&atilde;o membros efetivos dessa institui&ccedil;&atilde;o. Desde o in&iacute;cio, a IUCr tem promovido o acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e a coopera&ccedil;&atilde;o internacional, edita v&aacute;rios jornais indexados e organiza congressos internacionais. O Ano Internacional da Cristalografia est&aacute; sendo organizado pela IUCr conjuntamente com a Unesco.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desde 1951 o Brasil &eacute; membro da IUCr, e os pesquisadores brasileiros t&ecirc;m participado das atividades dessa entidade. A Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Cristalografia, fundada em 1971, agrupa os cristal&oacute;grafos brasileiros, e comparte o desenvolvimento da &aacute;rea com pa&iacute;ses de Am&eacute;rica Latina e com a maioria dos pa&iacute;ses do mundo. Na comemora&ccedil;&atilde;o do Ano Internacional da Cristalografia, estamos todos empenhados em mostrar o papel fundamental dessa ci&ecirc;ncia no desenvolvimento industrial, e promover a conscientiza&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico sobre a import&acirc;ncia da cristalografia no estudo dos materiais e nas aplica&ccedil;&otilde;es em todas as ci&ecirc;ncias.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essas ideias ser&atilde;o o foco de um encontro de c&uacute;pula que ter&aacute; lugar em setembro de 2014 no Laborat&oacute;rio Nacional de Luz S&iacute;ncrotron (LNLS/CNPEM), que reunir&aacute; participantes da Am&eacute;rica Latina para discutir os avan&ccedil;os que a regi&atilde;o pode alcan&ccedil;ar nas pr&oacute;ximas d&eacute;cadas. A escolha do LNLS como local desse evento n&atilde;o &eacute; fortuito. Desde 1997 funciona nessa institui&ccedil;&atilde;o a &uacute;nica fonte de luz s&iacute;ncrotron da Am&eacute;rica do Sul. At&eacute; hoje, as instala&ccedil;&otilde;es experimentais desse laborat&oacute;rio foram fundamentais para a realiza&ccedil;&atilde;o de trabalhos cient&iacute;ficos de alto n&iacute;vel, compar&aacute;veis aos realizados em laborat&oacute;rios no exterior.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A cristalografia brasileira viu-se muito favorecida com o uso das linhas de luz do LNLS dedicadas a raios X, para realiza&ccedil;&atilde;o de projetos nas &aacute;reas de f&iacute;sica, qu&iacute;mica, engenharia de materiais e biologia. E o futuro &eacute; promissor: uma nova m&aacute;quina est&aacute; sendo constru&iacute;da com perspectivas de come&ccedil;ar a funcionar em 2015/16. O desafio ser&aacute; formar mais pesquisadores em todos as &aacute;reas da cristalografia. Porque esta ci&ecirc;ncia vai continuar a ser a que captura a imagina&ccedil;&atilde;o e guia os passos dos que estudam a estrutura da mat&eacute;ria em todas as formas em que a natureza se apresenta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Iris L. Torriani </b>&eacute; professora associada do Instituto de F&iacute;sica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pesquisadora colaboradora do Laborat&oacute;rio Nacional de Luz S&iacute;ncrotron. Foi presidente de Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Cristalografia, vice-presidente do conselho executivo da Uni&atilde;o Internacional de Cristalografia e coordena as atividades no Brasil relativas ao Ano Internacional da Cristalografia.</font></p>      ]]></body>
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