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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br> DITADURA E DEMOCRACIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Rela&ccedil;&otilde;es ambivalentes desafiam a historiografia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Carolina Cantarino</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n3/a04img01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Criar uma nova narrativa que possa abordar a rela&ccedil;&atilde;o entre a ditadura e a sociedade brasileira de maneira mais complexa, considerando suas ambiguidades e a dimens&atilde;o civil do regime ditatorial. Esse &eacute; o principal intuito do livro <i>Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988</i>, lan&ccedil;ado no in&iacute;cio de 2014, por Daniel Aar&atilde;o Reis, professor de hist&oacute;ria contempor&acirc;nea da Universidade Federal Fluminense (UFF). Partindo da cr&iacute;tica &agrave;s mem&oacute;rias apaziguadoras e reconciliat&oacute;rias a respeito do per&iacute;odo que se inicia com o golpe contra o governo de Jo&atilde;o Goulart, em 1964, e se estende, segundo a perspectiva do autor, at&eacute; 1979, quando come&ccedil;a a chamada transi&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica, a abordagem de Aar&atilde;o Reis insere-se numa historiografia mais recente, que desloca a vers&atilde;o hegem&ocirc;nica da ditadura enquanto regime imposto de cima para baixo e exercido exclusivamente pelos militares. Tal interpreta&ccedil;&atilde;o - contestada pelo autor - enfatizaria ainda, e por oposi&ccedil;&atilde;o, uma resist&ecirc;ncia &agrave; ditadura exercida por uma esquerda revolucion&aacute;ria, sem considerar a exist&ecirc;ncia de uma zona cinzenta formada pela grande maioria da popula&ccedil;&atilde;o, que oscilava entre "a simpatia n&atilde;o entusiasta, a neutralidade ben&eacute;vola, a indiferen&ccedil;a ou, no limite, a sensa&ccedil;&atilde;o de absoluta impot&ecirc;ncia", escreve Aar&atilde;o Reis. Sem esse apoio civil - amb&iacute;guo, mas ativo e consciente - os militares n&atilde;o teriam conseguido governar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>UM TEMA DIF&Iacute;CIL</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os impasses enfrentados pela Comiss&atilde;o Nacional da Verdade, instaurada em 2012, pelo governo federal, com o objetivo de apurar as viola&ccedil;&otilde;es de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, estariam relacionados &agrave; dif&iacute;cil tarefa de lidar com as ambiguidades que marcam o regime ditatorial de 1964.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O pa&iacute;s enfrenta dificuldades em lidar com o tema do apoio civil &agrave; ditadura. Para sinalizar tal recusa, Aar&atilde;o Reis tece uma forte compara&ccedil;&atilde;o com outras sociedades que tiveram que encarar as raz&otilde;es e desraz&otilde;es da colabora&ccedil;&atilde;o com regimes ditatoriais e totalit&aacute;rios: a sociedade francesa e o colaboracionismo com a domina&ccedil;&atilde;o nazista; os alem&atilde;es, em rela&ccedil;&atilde;o ao nazismo; os italianos e o fascismo; e a Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica stalinista. O senso comum de que "o brasileiro n&atilde;o tem mem&oacute;ria" expressaria a dificuldade em se elaborar esse passado ambivalente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ANOS DE CHUMBO, ANOS DE OURO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Moderniza&ccedil;&atilde;o combinada com resist&ecirc;ncia e repress&atilde;o - "anos de chumbo" e, ao mesmo tempo, "anos de ouro". Dentre as ambival&ecirc;ncias da ditadura de 1964, destaca-se, ainda, a moderniza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, que contrariou as expectativas dos opositores que apostavam num fracasso da ditadura. Crescimento econ&ocirc;mico, aparecimento e expans&atilde;o de diversos setores industriais, incremento das telecomunica&ccedil;&otilde;es, do sistema banc&aacute;rio, das rodovias e do complexo hidrel&eacute;trico. Tal per&iacute;odo (1968-1974) conhecido como o do "milagre econ&ocirc;mico" coincidiu com o recrudescimento da ditadura - enquanto estado de exce&ccedil;&atilde;o - com o Ato Institucional n&uacute;mero 5, decretado por Costa e Silva, em 1968, fechando os parlamentos por um per&iacute;odo indeterminado, dando poderes ilimitados ao presidente, proibindo atividades ou manifesta&ccedil;&otilde;es de natureza pol&iacute;tica. Tal recrudescimento visava fazer frente &agrave; oposi&ccedil;&atilde;o ao regime, que n&atilde;o era homog&ecirc;nea e coesa, e se fortaleceu, especialmente, nesse per&iacute;odo. Havia a corrente moderada, articulada em torno do MDB (partido que, juntamente com a Arena, partido da situa&ccedil;&atilde;o, compunha o sistema bipartid&aacute;rio em voga); o movimento estudantil; e as organiza&ccedil;&otilde;es revolucion&aacute;rias clandestinas, que apostavam na guerrilha urbana e rural e a&ccedil;&otilde;es de captura de diplomatas estrangeiros. Em rela&ccedil;&atilde;o a essa resist&ecirc;ncia, a luta desigual acabou em massacre. "Encurralados por uma repress&atilde;o crescentemente sofisticada e profissional, onde se misturavam oficiais das For&ccedil;as Armadas, policiais civis e militares e not&oacute;rios torturadores, os guerrilheiros, quase sempre inexperientes, dispondo apenas da vontade e da ousadia, foram escorra&ccedil;ados da hist&oacute;ria", lembra o autor. No livro ele assinala que pensar as ambival&ecirc;ncias da ditadura n&atilde;o implica em deixar de levar em considera&ccedil;&atilde;o suas for&ccedil;as conservadoras e sua face mais radical: os aparelhos de repress&atilde;o e a tortura como pol&iacute;tica de Estado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ideia de que tais aparelhos funcionassem de forma aut&ocirc;noma, sem o conhecimento dos ministros de Estado ou da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica carece de evid&ecirc;ncias e de sentido, tendo em vista a obedi&ecirc;ncia &agrave; hierarquia e comando militar, enfatiza o historiador.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ESTATISMO COMO TRADI&Ccedil;&Atilde;O POL&Iacute;TICA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra linha de argumenta&ccedil;&atilde;o que atravessa o livro &eacute; a que diz respeito ao Estado hipertrofiado como caracter&iacute;stica de uma cultura pol&iacute;tica brasileira. Se, a princ&iacute;pio, a ditadura, com o governo de Castello Branco, buscou investir num programa liberal internacionalista e revogar as tradi&ccedil;&otilde;es controladoras do Estado brasileiro - fundadas com o Estado Novo, na ditadura de Get&uacute;lio Vargas (1937-1945) - acabou, na pr&aacute;tica, marcada pelo desenvolvimentismo e intervencionismo estatal, criando uma s&eacute;rie de institui&ccedil;&otilde;es, empresas p&uacute;blicas e programas econ&ocirc;micos, mantendo, inclusive, a estrutura corporativa dos sindicados atrelados ao Estado. Uma ditadura que se instaurou em nome da democracia e contra a corrup&ccedil;&atilde;o. Muitas lideran&ccedil;as pol&iacute;ticas - como Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, Adhemar de Barros - apoiaram, num primeiro momento, o golpe, imaginando que os militares fariam uma interven&ccedil;&atilde;o pontual que impediria o pa&iacute;s de caminhar rumo ao socialismo: as reformas de base promovidas por Jango (reforma agr&aacute;ria, banc&aacute;ria, urbana etc) juntamente com a atmosfera internacional - a revolu&ccedil;&atilde;o cubana, os movimentos de liberta&ccedil;&atilde;o nacional na &Aacute;frica e no mundo &aacute;rabe - criaram um clima de medo de uma revolu&ccedil;&atilde;o socialista, ao qual responderam com um golpe defensivo aqueles que desejavam "salvar a democracia".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RUPTURAS E PERMAN&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse &iacute;nterim, um dos pontos mais instigantes do livro, desenvolvido no cap&iacute;tulo sobre a g&ecirc;nese da ditadura, aborda a aus&ecirc;ncia de resist&ecirc;ncia ao golpe militar concretizado na noite do dia 30 de mar&ccedil;o de 1964, e a "estranha derrota" dos reformistas que compunham e apoiavam o governo de Jo&atilde;o Goulart. O pr&oacute;prio presidente decidiu n&atilde;o fazer nada e se exilar no Uruguai. "Conferir at&eacute; que ponto esse medo n&atilde;o teria contaminado lideran&ccedil;as reformistas pode oferecer uma chave para compreender melhor a paralisia e a irresolu&ccedil;&atilde;o frente ao golpe", destaca Aar&atilde;o Reis, lembrando, tamb&eacute;m, que uma quest&atilde;o que merece mais pesquisa e estudo &eacute; o movimento Marcha da Fam&iacute;lia com Deus pela Liberdade, realizado em v&aacute;rias e grandes cidades brasileiras, contando com milhares de pessoas. Pensar a rela&ccedil;&atilde;o entre ditadura e democracia no Brasil, implica, portanto, levar em considera&ccedil;&atilde;o as complexas configura&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e hist&oacute;ricas que n&atilde;o admitem simplifica&ccedil;&otilde;es, oposi&ccedil;&otilde;es e julgamentos f&aacute;ceis. Um dos caminhos sugeridos por Daniel Aar&atilde;o Reis, &eacute; o de considerar a intermit&ecirc;ncia entre estados de exce&ccedil;&atilde;o (que abolem e criam leis a seu bel-prazer) e estados de direito, que n&atilde;o deixam de ser atravessados pelo autoritarismo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lan&ccedil;ando m&atilde;o de pesquisas realizadas anteriormente e criando uma narrativa fluente e acess&iacute;vel, Daniel Aar&atilde;o Reis faz uma historiografia com foco na pol&iacute;tica institucional e nos grandes personagens da hist&oacute;ria. No posf&aacute;cio o autor faz refer&ecirc;ncias mais intensas ao per&iacute;odo recente, que elegeu Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff como presidentes, o que seria impens&aacute;vel h&aacute; 50 anos. "Numa revolu&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o disse o seu nome, an&ocirc;nima, sem datas precisas, &eacute;picas, sem claros divisores de &aacute;gua, de forma molecular, o pa&iacute;s virou pelo avesso, refez-se uma cara. E mudou". Abre, assim, outras possibilidades de tratamento do tempo e suas transforma&ccedil;&otilde;es.</font></p>      ]]></body>
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