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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br> PRECARIADO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Uma nova classe social ou o proletariado que se transforma?</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Leonor Assad</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De repente, as ruas foram invadidas por descontentes. De in&iacute;cio, eram alguns poucos milhares em S&atilde;o Paulo; protestavam contra o pre&ccedil;o das passagens de transporte p&uacute;blico. Em tr&ecirc;s semanas, mais de 100 cidades viram suas ruas tomadas por manifestantes, que somavam, segundo estimativas da &eacute;poca, mais de dois milh&otilde;es de pessoas. Quem eram eles? Andr&eacute; Singer, professor da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), utilizou dados de institutos de pesquisa de opini&atilde;o num artigo publicado na revista <i>Novos Estudos</i> e sugeriu que as manifesta&ccedil;&otilde;es, principalmente no seu auge, eram compostas por uma classe m&eacute;dia tradicional inconformada com diferentes aspectos da realidade nacional e por trabalhadores, em geral jovens, com emprego formal, de baixa remunera&ccedil;&atilde;o, alta rotatividade e condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias de trabalho. Singer lembra que os de renda familiar mensal at&eacute; cinco sal&aacute;rios m&iacute;nimos, respondiam por cerca de 50% dos manifestantes.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Semelhante ao observado em outros pa&iacute;ses, principalmente da Europa, as manifesta&ccedil;&otilde;es no Brasil em junho de 2013 colocaram em evid&ecirc;ncia uma frustra&ccedil;&atilde;o geral com governos e  com a pol&iacute;tica. Segundo Andr&eacute; Singer, a maior parte dos manifestantes, apesar da escolaridade alta que os colocaria na classe m&eacute;dia tradicional, em termos de renda salarial fazia parte de um novo proletariado, o precariado.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOVA CLASSE SOCIAL</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Resultado da jun&ccedil;&atilde;o das palavras prolet&aacute;rio e prec&aacute;rio, o termo precariado suscita ainda muitos debates sobre o que realmente representa. Um grupo importante, no qual se destacam o soci&oacute;logo franc&ecirc;s Robert Castel e o professor de economia ingl&ecirc;s Guy Standing, considera o precariado uma nova classe social formada por profissionais, geralmente jovens qualificados, que enfrentam condi&ccedil;&otilde;es de trabalho cada vez mais prec&aacute;rias. Castel, falecido em mar&ccedil;o &uacute;ltimo, j&aacute; discutia a precariza&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o salarial no livro <i>As metamorfoses da quest&atilde;o social: uma cr&ocirc;nica do sal&aacute;rio</i>, lan&ccedil;ado na Fran&ccedil;a em 1995. Em entrevista &agrave; Revue d'Information Sociale, em 2010, Castel insistia: "a situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o melhorou... o fen&ocirc;meno da precariza&ccedil;&atilde;o permanece importante e parece ter sido ocultado pelo problema do desemprego... muitos continuam a trabalhar em condi&ccedil;&otilde;es abaixo do que foi e do que ainda &eacute; considerado um emprego".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Standing, o precariado &eacute; uma nova classe social, emergente e heterog&ecirc;nea, composta pelos que n&atilde;o t&ecirc;m educa&ccedil;&atilde;o ou status para compreender a situa&ccedil;&atilde;o e ouvem neofascistas; pelas minorias de imigrantes e deficientes, que est&atilde;o perdidos e podem explodir; e por jovens educados que n&atilde;o t&ecirc;m futuro e que n&atilde;o aceitam propostas pol&iacute;ticas da direita ou da esquerda. Standing identifica tr&ecirc;s caracter&iacute;sticas comuns a esses grupos: o emprego &eacute; casual e n&atilde;o lhes d&aacute; um senso de identidade profissional; os sal&aacute;rios s&atilde;o muito baixos, com perda de benef&iacute;cios e &eacute; necess&aacute;rio fazer muitas coisas n&atilde;o remuneradas (preparar curr&iacute;culo, procurar constantemente emprego, passar por treinamento etc); e faltam direitos a benef&iacute;cios al&eacute;m do sal&aacute;rio, como pens&otilde;es, seguro-sa&uacute;de e licen&ccedil;a-maternidade. Autor do livro <i>O precariado - a nova classe perigosa</i>, Standing, que &eacute; ex-diretor da Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho (OIT), afirma que o precariado &eacute; a primeira classe social com n&iacute;vel de educa&ccedil;&atilde;o e qualifica&ccedil;&atilde;o acima do exigido pelo trabalho: "a pessoa tem grau universit&aacute;rio, mas trabalha como gar&ccedil;om".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>POL&Ecirc;MICA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas h&aacute; controv&eacute;rsias em rela&ccedil;&atilde;o a algumas coloca&ccedil;&otilde;es de Standing. Nomes como os dos professores Ruy Braga e Giovanni Alves, no Brasil, e Peter Alexander e Edward Webster, na &Aacute;frica do Sul, consideram que o precariado n&atilde;o &eacute; uma classe nova e sim uma camada do proletariado. Ruy Braga, professor da USP, aponta que o proletariado precarizado existe desde os prim&oacute;rdios do capitalismo hist&oacute;rico. Autor do livro <i>A pol&iacute;tica do precariado: do populismo &agrave; hegemonia lulista</i>, Braga remete a Karl Marx para delimitar o conceito de precariado como sendo a superpopula&ccedil;&atilde;o relativa, excluindo-se os trabalhadores qualificados e a popula&ccedil;&atilde;o pauperizada; ou seja, o precariado &eacute; formado pela camada da popula&ccedil;&atilde;o latente, flutuante e estagnada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O conceito de superpopula&ccedil;&atilde;o relativa (ou ex&eacute;rcito industrial de reserva) foi cunhado por Marx na segunda metade do s&eacute;culo XIX. A popula&ccedil;&atilde;o flutuante &eacute; a parte da classe trabalhadora formada pelos que entram e saem do mercado de trabalho, pois s&atilde;o contratados e demitidos muito rapidamente pelas empresas; a popula&ccedil;&atilde;o latente &eacute; composta por trabalhadores muito jovens que est&atilde;o no campo e migram para a cidade, mas ainda n&atilde;o ingressaram no mercado formal; j&aacute; a popula&ccedil;&atilde;o estagnada engloba trabalhadores submetidos a condi&ccedil;&otilde;es absolutamente degradantes e que recebem sal&aacute;rios baix&iacute;ssimos. Para Braga o precariado &eacute; a fra&ccedil;&atilde;o mais numerosa e mais explorada da classe trabalhadora, mantida na periferia do sistema capitalista.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Giovanni Alves, soci&oacute;logo e professor da Universidade Estadual de S&atilde;o Paulo (Unesp), concorda que o precariado n&atilde;o &eacute;  uma classe nova mas "inclui apenas jovens adultos altamente escolarizados, desempregados ou inseridos em rela&ccedil;&otilde;es de trabalho e vida prec&aacute;rias". Segundo ele, "evid&ecirc;ncias emp&iacute;ricas demonstram efetivamente que esse &eacute; o perfil da juventude trabalhadora no seio dos novos movimentos sociais de rebeldia, tanto na Europa e Estados Unidos, quanto no Brasil".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n3/a09img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra diverg&ecirc;ncia &eacute; quanto ao perigo do precariado. Enquanto Guy Standing considera o precariado uma classe perigosa por ser massa de manobra para grupos de direita, Ruy Braga considera que trata-se de uma classe progressista: "luta para conservar direitos sociais e proteger conquistas dos trabalhadores, protegendo-se do ataque conservador aos direitos dos trabalhadores". Por outro lado, Alves defende que, politicamente, o precariado tem car&aacute;ter dual, intrinsecamente contradit&oacute;rio: "muitos integrantes do precariado cultivam aspira&ccedil;&otilde;es fetichistas de consumo e adotam o individualismo competitivo pr&oacute;prio do ethos burgu&ecirc;s, mas est&atilde;o profundamente imersos na condi&ccedil;&atilde;o de proletariado".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CAPITAL EM CRISE, TRABALHO PREC&Aacute;RIO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Visto como uma camada do proletariado ou como nova classe social, o precariado &eacute; consequ&ecirc;ncia do neoliberalismo e da globaliza&ccedil;&atilde;o do capital. Sucessivas crises do capital, como a crise do M&eacute;xico, em 1994, da R&uacute;ssia em 1998 e a crise econ&ocirc;mica de 20082009, que come&ccedil;ou nos Estados Unidos e se alastrou por v&aacute;rios pa&iacute;ses da Europa, afetaram principalmente pessoas que constituem o grande contingente de reserva de m&atilde;o de obra. Elas se viram destitu&iacute;das das garantias sociais relativas ao v&iacute;nculo empregat&iacute;cio, como estabilidade de emprego e renda e a representa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Ou seja, as garantias conquistadas na Europa e nos Estados Unidos, sobretudo ap&oacute;s a Segunda Guerra Mundial, v&ecirc;m sendo negadas aos que ingressam no mercado de trabalho atualmente.</font></p>      ]]></body>

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