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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br>   FOTOGRAFIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sebasti&atilde;o Salgado em cores e movimento</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 2014, Sebasti&atilde;o Salgado completou 70 anos, 41 deles dedicados &agrave; fotografia. Duas obras, mesmo que n&atilde;o intencionalmente, marcaram a data. Uma delas, o document&aacute;rio <i>O sal da terra</i>, dirigido pelo cineasta Juliano Salgado, filho mais velho do fot&oacute;grafo, e co-dirigido por Wim Wenders, acabou recebendo o pr&ecirc;mio especial do j&uacute;ri, da se&ccedil;&atilde;o "Um certo olhar" no Festival de Cannes 2014. A outra, a biografia <i>Sebasti&atilde;o Salgado - da minha terra &agrave; Terra</i> (Editora Paralela) foi escrita em parceria com a jornalista francesa Isabelle Francq e conta a hist&oacute;ria de Sebasti&atilde;o Salgado desde sua inf&acirc;ncia, na pequena Aimor&eacute;s, interior de Minas Gerais, at&eacute; o mais recente projeto, <i>G&ecirc;nesis</i>, que resultou em um livro e diversas exposi&ccedil;&otilde;es em todo mundo, em 2013. Filme e livro tentam revelar o homem al&eacute;m do artista - militante, fotojornalista, ativista - temperando com cores e movimento a hist&oacute;ria de vida de um principais nomes da fotografia mundial hoje.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diferentemente de outros filmes realizados sobre a obra de Salgado, <i>O sal da terra </i>&eacute;, acima de tudo, um olhar afetuoso, de seu filho, que redescobre o fot&oacute;grafo para o p&uacute;blico e para si mesmo. "Meu pai sempre viajou muito. Nossa rela&ccedil;&atilde;o era boa, por&eacute;m distante. Com o filme houve uma conex&atilde;o entre n&oacute;s", conta Juliano Salgado. Em 2009, j&aacute; envolvido no projeto <i>G&ecirc;nesis</i>, que tinha por objetivo fotografar regi&otilde;es do mundo ainda intocadas pelo processo de urbaniza&ccedil;&atilde;o, Sebasti&atilde;o Salgado convidou o filho para acompanh&aacute;-lo na viagem para Amaz&ocirc;nia, onde ficaria com a tribo Zo'&eacute;, que vive no norte do estado do Par&aacute;, com pouqu&iacute;ssimo contato com os humanos, e que ornamentam o l&aacute;bio com um longo filete de madeira, introduzido no l&aacute;bio inferior. "Ele me prop&ocirc;s que filmasse o trabalho dele e sua rotina com os &iacute;ndios, gostou do resultado e, ent&atilde;o, surgiu a ideia do document&aacute;rio", lembra o cineasta. "Meu pai sempre chegava das viagens contando muitas hist&oacute;rias, sobre as pessoas e os lugares onde tinha ficado, nem sempre com final feliz. Eu queria entender como ele chegava ao resultado final, &agrave;s fotos que n&oacute;s conhecemos e como ele enfrentava as situa&ccedil;&otilde;es dif&iacute;ceis. Descobri que ele tem um modo muito emp&aacute;tico para se relacionar com as pessoas", diz Juliano, que o acompanhou em outras cinco viagens. O document&aacute;rio foi uma maneira de dar coer&ecirc;ncia a essas experi&ecirc;ncias, a essas hist&oacute;rias.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n3/a18img01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>EMPATIA E PACI&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sebasti&atilde;o Salgado &eacute; um homem t&iacute;mido. Talvez por isso ele tenha um profundo respeito pelo espa&ccedil;o e pela imagem do outro. Antes de fotografar ele estabelece uma rela&ccedil;&atilde;o de empatia com o espa&ccedil;o e com as pessoas que quer retratar. "As pessoas que fotografo posam para mim. Fazem isso porque querem fazer, porque t&ecirc;m confian&ccedil;a", diz ele em sua biografia. E essa rela&ccedil;&atilde;o s&oacute; acontece com o tempo. "Quem quer ser fot&oacute;grafo n&atilde;o pode ter pressa. N&atilde;o h&aacute; como acelerar os fatos. &Eacute; preciso descobrir o prazer da paci&ecirc;ncia", afirma. Assim como cada fotografia requer tempo certo para capturar o instante desejado, os projetos de Sebasti&atilde;o Salgado tamb&eacute;m s&atilde;o longos, sempre desenvolvidos ao longo de v&aacute;rios anos. No &uacute;ltimo projeto, <i>G&ecirc;nesis</i>, percorreu 32 regi&otilde;es de todos os continentes do mundo, exceto a Europa, de 2004 a 2012, para fotografar lugares e habitantes de partes intocadas do planeta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A confian&ccedil;a tamb&eacute;m foi um dos ingredientes fundamentais para a produ&ccedil;&atilde;o do document&aacute;rio, feita de distanciamentos e aproxima&ccedil;&otilde;es. "&Eacute; claro que o fato dele ser meu pai interferiria no resultado, mas desde o come&ccedil;o Sebasti&atilde;o confiou na maneira como eu conduzia o trabalho. Por isso  a figura de Wim Wenders foi t&atilde;o importante. Ele ajudou a encontrar a dist&acirc;ncia certa, foi um ponto de equil&iacute;brio", afirmou Juliano. Wenders, diretor alem&atilde;o de <i>Paris, Texas </i>(1984), <i>Asas do desejo</i> (1987) e <i>Buena Vista Social Club</i> (1999), se juntou ao projeto pouco tempo depois que Juliano iniciou as filmagens. Amigo de Sebasti&atilde;o Salgado desde a d&eacute;cada de 1990, ele queria fazer um filme sobre o fot&oacute;grafo, e, segundo Juliano, viu uma oportunidade de fazer isso, quando ele lhe mostrou as mais de 15 mil horas de filmagens que tinha feito.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO EM PRETO E BRANCO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diferentemente de grande parte da obra de Sebasti&atilde;o Salgado, o document&aacute;rio usa a cor, mas sua fun&ccedil;&atilde;o &eacute; para marcar uma temporalidade. "S&atilde;o v&aacute;rios formatos de cor, cada um permite entender um momento da vida dele. Nas mem&oacute;rias usamos o preto e branco. J&aacute; as refer&ecirc;ncias ao tempo presente est&atilde;o em cores", explica Juliano. Sebasti&atilde;o Salgado h&aacute; muito tempo abandonou as cores em suas fotografias, sempre em preto e branco, destacando a luz e o negro. "N&atilde;o preciso do verde para mostrar &aacute;rvores, nem do azul para mostrar o mar ou o c&eacute;u. A cor pouco me interessa na fotografia", escreve ele. "Com o preto e o branco e todas as gamas de cinza, posso me concentrar na densidade das pessoas, suas atitudes, seus olhares sem que sejam parasitados pela cor. Quando contemplamos uma imagem em branco e preto, ela penetra em n&oacute;s, n&oacute;s a digerimos e, inconscientemente, a colorimos e isso &eacute; fenomenal", completa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O document&aacute;rio mostra duas mudan&ccedil;as importantes na vida e no trabalho de Sebasti&atilde;o Salgado, tamb&eacute;m descritos na biografia: o uso das imagens digitais e o tema "paisagens e animais". Desde o in&iacute;cio de seu trabalho como fot&oacute;grafo Salgado escolheu o homem, a mulher, a crian&ccedil;a, em situa&ccedil;&otilde;es de ex&iacute;lio, fome, guerra. "A fotografia para mim &eacute; uma escrita, uma linguagem poderosa porque pode ser lida em todo o mundo sem tradu&ccedil;&atilde;o. Queria mostrar, por meio da minha fotografia, um mundo privado de quase tudo", escreveu. "Ningu&eacute;m tem o direito de se proteger das trag&eacute;dias de seu tempo, porque somos todos respons&aacute;veis, de certo modo, pelo que acontece na sociedade em que escolhemos viver", disse.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>(RE)NASCIMENTOS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em sua biografia, Salgado relata que uma das coisas que aprendeu nos anos em que fotografou homens trabalhando, nas mais diversas ocupa&ccedil;&otilde;es, em v&aacute;rios lugares do mundo e que resultariam no livro <i>Trabalhadores</i> (1997), foi que o trabalho que faz o homem, o transforma, o molda. Pois a fotografia tamb&eacute;m transformou o fot&oacute;grafo. Depois de <i>&Ecirc;xodos</i> (2000), pensou em desistir, tamanho o sofrimento, &oacute;dio e viol&ecirc;ncia que presenciou. Foi nesse momento que surgiu o Instituto Terra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O projeto, ideia original de sua mulher, L&eacute;lia Deluiz Wanick Salgado, come&ccedil;ou com o reflorestamento de uma &aacute;rea devastada da fazenda que Sebasti&atilde;o Salgado herdou dos pais, em Aimor&eacute;s. Hoje se dedica ao desenvolvimento sustent&aacute;vel da regi&atilde;o do Vale do Rio Doce, fornecendo mudas para programas de reflorestamento nos estados de Minas Gerais e Esp&iacute;rito Santo. "O espet&aacute;culo de ver a vida voltar para a fazenda me deu certo encantamento, como se, depois de tanta tristeza e desola&ccedil;&atilde;o, a vida voltasse para mim tamb&eacute;m", escreveu. Foi a&iacute; que surgiu o projeto de contar uma hist&oacute;ria fotogr&aacute;fica que mostrasse a beleza do mundo. Nascia <i>G&ecirc;nesis</i>. "Depois de passar anos mostrando homens, mulheres e crian&ccedil;as em seu cotidiano, eu fotografaria vulc&otilde;es, dunas, geleiras, florestas, rios, c&acirc;nions, baleias, renas, le&otilde;es, pelicanos, o mundo da selva, do deserto e das geleiras. Descobrindo o planeta, descobri a mim mesmo", revelou.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A biografia <i>Da minha terra &agrave; Terra</i> e o document&aacute;rio <i>O sal da terra</i>, acompanham essas transforma&ccedil;&otilde;es, de um modo simples, direto e, &agrave;s vezes, comovente. "Eu tinha v&aacute;rias perguntas a responder com esse document&aacute;rio, algumas respostas est&atilde;o no filme, outras pertencem s&oacute; a nossa rela&ccedil;&atilde;o de pai e filho", conta Juliano Salgado. Declarando-se feliz com a receptividade e surpreso com a premia&ccedil;&atilde;o em Cannes, ele acredita que ambas se devem &agrave; mensagem que o filme passa: "A hist&oacute;ria do Ti&atilde;o e da L&eacute;lia &eacute; uma hist&oacute;ria de transforma&ccedil;&atilde;o. Eles escolheram um modo de agir que &eacute; positivo, mostrando que mesmo diante de experi&ecirc;ncias dif&iacute;ceis &eacute; poss&iacute;vel fazer do mundo um lugar melhor". O document&aacute;rio deve ser exibido no Brasil no &uacute;ltimo trimestre deste ano.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Patr&iacute;cia Mariuzzo </i></font></p>      ]]></body>
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