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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> NEUROCI&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Desvendando os mecanismos do prazer de    ouvir m&uacute;sica</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sentimos um imenso prazer quando escutamos m&uacute;sicas das quais gostamos. Mas como nosso c&eacute;rebro decide se gostou ou n&atilde;o de uma m&uacute;sica in&eacute;dita a ponto de pagar por ela?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A m&uacute;sica nos proporciona uma ampla gama de emo&ccedil;&otilde;es. &Eacute; capaz de excitar ou relaxar, alegrar ou deprimir, motivar ou irritar. Dificilmente conseguimos ser indiferentes a uma can&ccedil;&atilde;o. A capacidade de fazer e ouvir m&uacute;sica &eacute; exclusiva da esp&eacute;cie humana. A m&uacute;sica est&aacute; presente em todas as culturas do mundo e estudos indicam que ela precede a linguagem.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>OS EFEITOS DA M&Uacute;SICA</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Podemos ouvir uma melodia e ela ser interpretada apenas como um ru&iacute;do dentre tantos outros. Entretanto, quando escutamos uma can&ccedil;&atilde;o que nos d&aacute; prazer criamos empatia. "Se estabelecemos sincronia com uma determinada m&uacute;sica, ocorre um tipo de recompensa afetivo-emocional", explica Mauro Muszkat, m&uacute;sico e m&eacute;dico neurologista, coordenador do N&uacute;cleo de Atendimento Neuropsicol&oacute;gico Infantil Interdisciplinar (Nani), do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de S&atilde;o Paulo (Unifesp). "Neste estado ocorrem respostas perif&eacute;ricas da pele, tais como ere&ccedil;&atilde;o do pelo, podendo levar a uma vasoconstri&ccedil;&atilde;o e tremores. Al&eacute;m disso, h&aacute; per&iacute;odos da m&uacute;sica nos quais as pessoas atingem outro estado de consci&ecirc;ncia por conta do envolvimento intenso com a melodia", complementa. Ainda segundo ele, ocorre uma integra&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios circuitos emocionais, cognitivos e perceptuais levando o ouvinte a um estado de alegria instant&acirc;nea.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ATIVIDADE CEREBRAL</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; alguns fatores individuais que devem ser considerados ao analisarmos os sentimentos causados por um determinado som. M&uacute;sicas diferentes levam a ativa&ccedil;&otilde;es neurais diversas, proporcionando, assim, rea&ccedil;&otilde;es diferentes em pessoas distintas. A idade, personalidade, cultura e forma&ccedil;&atilde;o musical, influenciam muito o chamado gosto musical de cada indiv&iacute;duo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 2009, um grupo de neurocientistas da Universidade de Columbia realizou um experimento com o escritor Oliver Sacks, no qual ele ouviu o compositor alem&atilde;o Johann Sebastian Bach, de quem &eacute; f&atilde; desde a inf&acirc;ncia, e Ludwig van Beethoven, de quem gosta pouco. Sacks teve suas atividades cerebrais mensuradas por um aparelho de resson&acirc;ncia enquanto ouvia trechos de m&uacute;sicas dos dois artistas. Seu c&eacute;rebro foi muito mais ativado ap&oacute;s escutar Bach do que Beethoven. A am&iacute;gdala, essencial para processar emo&ccedil;&otilde;es e respons&aacute;vel pela forma&ccedil;&atilde;o da associa&ccedil;&atilde;o entre est&iacute;mulos e recompensas, foi a regi&atilde;o mais ativada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando submetido a outro experimento, no qual escutava uma m&uacute;sica de quem n&atilde;o sabia a autoria, Beethoven ou Bach, Sacks foi capaz de distingui-la inconscientemente, e novamente seu c&eacute;rebro apresentou maior ativa&ccedil;&atilde;o ap&oacute;s escutar a sonata de Bach, sem que o cientista os diferenciasse conscientemente. "M&uacute;sicas diferentes levam a ativa&ccedil;&otilde;es neurais diferentes, &aacute;reas sensoriais que te levar&atilde;o &agrave; distin&ccedil;&atilde;o de um instrumento do outro. A m&uacute;sica r&iacute;tmica ativa a chamada &aacute;rea de Broca, localizada do lado esquerdo do c&eacute;rebro, respons&aacute;vel pela linguagem, isso se diferencia independentemente do indiv&iacute;duo ser m&uacute;sico ou n&atilde;o", explica Muszkat.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n3/a21img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CAMINHOS DA M&Uacute;SICA</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Atualmente, t&eacute;cnicas como imagem por resson&acirc;ncia magn&eacute;tica funcional (IRMF) e eletroencefalografia (EEG) t&ecirc;m possibilitado a observa&ccedil;&atilde;o das regi&otilde;es que s&atilde;o ativadas no c&eacute;rebro quando ouvimos uma m&uacute;sica. Elas podem ajudar a responder por que algumas pessoas gostam mais de m&uacute;sica do que outras, por exemplo. Em 1999, Robert Zatorre, professor do Instituto Neurol&oacute;gico de Montreal, com seus colaboradores, realizou estudos, publicados na revista <i>Nature Neuroscience,</i> que revelaram a presen&ccedil;a de uma rede cerebral funcional especificamente associada a respostas emocionais &agrave; m&uacute;sica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desde ent&atilde;o, outros estudos t&ecirc;m sido realizados e at&eacute; o momento sabe-se que a m&uacute;sica estimula estruturas do sistema l&iacute;mbico, respons&aacute;vel pela autorregular&atilde;o emocional, principalmente das regi&otilde;es corticais do c&eacute;rebro. Em outras palavras, a m&uacute;sica atinge uma regi&atilde;o cerebral relacionada ao chamado sistema de recompensa, ativando tamb&eacute;m o sistema dopamin&eacute;rgico.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>M&Uacute;SICA COMO RECOMPENSA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 2011, Zatorre e seu grupo de pesquisa, utilizando a t&eacute;cnica de IRMF, demonstraram que enquanto escutamos can&ccedil;&otilde;es das quais gostamos, em determinado momento, chegamos ao "auge" emocional, sentimos um arrepio de prazer, o que resulta em maior atividade cerebral.  Al&eacute;m disso, segundos antes da ocorr&ecirc;ncia do auge emocional, h&aacute; libera&ccedil;&atilde;o de dopamina. Este pequeno intervalo de tempo foi denominado per&iacute;odo antecipat&oacute;rio, que prov&eacute;m das expectativas criadas com base no conhecimento de cada indiv&iacute;duo sobre m&uacute;sica e seu padr&atilde;o de organiza&ccedil;&atilde;o no c&eacute;rebro. A dopamina promove sensa&ccedil;&otilde;es de surpresa e expectativa com rela&ccedil;&atilde;o ao que vai acontecer posteriormente. O mecanismo de antecipa&ccedil;&atilde;o da recompensa &eacute; fundamental para refor&ccedil;ar comportamentos necess&aacute;rios para a sobreviv&ecirc;ncia, como a alimenta&ccedil;&atilde;o e na atividade sexual.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra observa&ccedil;&atilde;o interessante, feita por esses pesquisadores, foi que existe uma conex&atilde;o entre o n&uacute;cleo accumbens e o c&oacute;rtex auditivo. Essa intera&ccedil;&atilde;o sugere que as expectativas em rela&ccedil;&atilde;o ao desenrolar da m&uacute;sica baseiam-se no que foi aprendido e armazenado no c&oacute;rtex auditivo ao longo da vida. Alguns estudos pretendem compreender como a mem&oacute;ria musical pode auxiliar na recupera&ccedil;&atilde;o de lembran&ccedil;as em pacientes com dist&uacute;rbios de mem&oacute;ria, como na doen&ccedil;a de Alzheimer. "A m&uacute;sica ativa v&aacute;rias &aacute;reas cerebrais, mesmo aquelas que est&atilde;o comprometidas com fun&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas como a linguagem, mem&oacute;ria e &aacute;rea motora. A musicoterapia pode facilitar o aprendizado, ativar alguns movimentos do corpo e reabilitar a linguagem verbal", explica Cl&eacute;o Correia, musicoterapeuta do Setor de Neurologia do Comportamento do Departamento de Neurologia Cl&iacute;nica e Neurocirurgia da Unifesp.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"A m&uacute;sica pode atuar como terapia para qualquer tipo de transtorno. Na verdade, muitas pessoas fazem isso naturalmente ao ouvir m&uacute;sica. Quando estamos deprimidos ouvimos m&uacute;sicas mais tristes e, por outro lado, tendemos a escutar can&ccedil;&otilde;es mais agitadas para nos alegrar", afirma Muszkat. Pesquisas recentes est&atilde;o investigando de que modo podemos utilizar a m&uacute;sica para ajudar pacientes com dist&uacute;rbios neurol&oacute;gicos, de modo complementar aos tratamentos convencionais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Tatiana Venancio </i></font></p>      ]]></body>
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