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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Pesquisador considera posição atual do Haiti na economia mundial como uma colônia dos países imperialistas]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/mundo.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">E<small>NTREVISTA &#150;</small> F<small>RANCK</small> S<small>EGUY</small></font></P>     <p><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/line_blk.jpg"></font></P>     <P><font size="3"><b>Pesquisador considera posi&ccedil;&atilde;o atual do Haiti na economia mundial como uma col&ocirc;nia dos pa&iacute;ses imperialistas</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Desde o terremoto de 2010, que matou 300 mil pessoas no Haiti e arrasou o territ&oacute;rio, o pa&iacute;s est&aacute; ocupado por tropas internacionais de militares que visam manter a ordem local. O epis&oacute;dio s&iacute;smico aumentou a di&aacute;spora haitiana pelo mundo e a fragilidade da popula&ccedil;&atilde;o, que sofre com a falta de empregos, de infraestrutura e de autonomia. Para o soci&oacute;logo e pesquisador haitiano Franck Seguy, o Haiti ocupa a epiperiferia, pois al&eacute;m de estar na periferia dos Estados Unidos, passa a ser ocupado por pa&iacute;ses em desenvolvimento como o Brasil. </font></P>     <p><font size="3">Col&ocirc;nia francesa at&eacute; 1804, quando obteve sua independ&ecirc;ncia mediante pagamento de multa, o Haiti ainda n&atilde;o conquistou sua soberania e continua sendo explorado como col&ocirc;nia, sobretudo em fun&ccedil;&atilde;o da fragilidade pol&iacute;tica, da m&atilde;o de obra barata e especializada, afirma Seguy. </font></P>     <p><font size="3">Em sua tese "A cat&aacute;strofe de janeiro de 2010, a Internacional Comunit&aacute;ria e a recoloniza&ccedil;&atilde;o do Haiti", defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob orienta&ccedil;&atilde;o do soci&oacute;logo Ricardo Antunes, Seguy analisa a explora&ccedil;&atilde;o sofrida pelo Haiti desde 1915, quando os norte&#45;americanos se apossaram do territ&oacute;rio, embasando&#45;se na doutrina Monroe que tem como lema: A Am&eacute;rica para os americanos. "A Am&eacute;rica para os norte&#45;americanos", corrige. </font></P>     <p><font size="3">Segundo o soci&oacute;logo, o interesse pelo Haiti ocorre pela posi&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica ocupada, devido ao Canal do Panam&aacute; e &agrave; proximidade com grandes centros. Em 2004, com o golpe ao presidente Jean Bertrand Aristide, a Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), ocupou o pa&iacute;s e criou a Minustah, uma for&ccedil;a militar para a estabiliza&ccedil;&atilde;o do Haiti, conduzida h&aacute; dez anos pelo Brasil. Para o pesquisador, a miss&atilde;o n&atilde;o &eacute; evitar conflitos no pa&iacute;s, mas movimentos sociais contr&aacute;rios &agrave; pol&iacute;tica das zonas francas e &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es trabalhistas prec&aacute;rias.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Nesta entrevista, Seguy aborda quest&otilde;es pol&ecirc;micas sobre a situa&ccedil;&atilde;o atual do Haiti. "O Haiti &eacute; a nova col&ocirc;nia dos Estados Unidos que, entre outros interesses, fazem uso da m&atilde;o de obra barata para fomentar ind&uacute;strias norte&#45;americanas", aponta referindo&#45;se &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es desiguais entre os pa&iacute;ses que devem se intensificar com a cria&ccedil;&atilde;o de 42 novas zonas francas no Haiti. O soci&oacute;logo defende a retirada imediata das tropas militares.</font></P>     <p><font size="3"><i>Em sua tese, voc&ecirc; cita um estudo do economista norte&#45;americano Paul Collier sobre controle da m&atilde;o de obra haitiana, um ano antes do terremoto. Voc&ecirc; acredita que o sismo criou as condi&ccedil;&otilde;es para que esse projeto fosse posto em pr&aacute;tica?</i></font></P>     <p><font size="3">Desde 1915, o Haiti n&atilde;o deixou de ser um tipo de propriedade privada dos sucessivos governos norte&#45;americanos; apenas as formas de cada governo lidar com o Haiti &eacute; que mudam de acordo com o contexto. Atualmente, o conceito fundamental para entender essa domina&ccedil;&atilde;o  &eacute; a lei PARDN (Plano de A&ccedil;&atilde;o para Reerguer e Desenvolver o Haiti), ou lei Hope, como &eacute; conhecida no Haiti. Esta lei nasceu em 2006, a partir do relat&oacute;rio do economista norte&#45;americano, Paul Collier, enviado ao pa&iacute;s pelo secret&aacute;rio geral da ONU. O economista apresentou o relat&oacute;rio, em 2009, que foi posto em pr&aacute;tica ap&oacute;s a destrui&ccedil;&atilde;o que o pa&iacute;s sofreu em 2010, devido ao terremoto. O plano emergencial para reerguer a economia haitiana era, na verdade, uma medida premeditada que encontrou, no terremoto, o cen&aacute;rio perfeito para se realizar.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a08img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i>Qual o teor da lei Hope e como ela impacta o Haiti?</i></font></P>     <p><font size="3">No relat&oacute;rio, o economista diz que o Haiti &eacute; um pa&iacute;s que possui estabilidade social e que &eacute; estrat&eacute;gico, por ser vizinho de grandes mercados. Possui, ainda, m&atilde;o de obra mais barata que a chinesa, e &eacute; um pa&iacute;s pouco regulamentado, sem muitas leis trabalhistas, sindicatos ou prote&ccedil;&atilde;o ao trabalhador. Al&eacute;m disso, oferece trabalhadores qualificados, pois o pa&iacute;s tem tradi&ccedil;&atilde;o na produ&ccedil;&atilde;o t&ecirc;xtil oriunda das d&eacute;cadas de 1960, 1970 e 1980, dispensando, assim, treinamento oneroso para as empresas. O economista acrescenta que, do ponto de vista da ind&uacute;stria do vestu&aacute;rio, o Haiti &eacute; o pa&iacute;s mais seguro para investir. Empresas que produzem artigos como cal&ccedil;ados e vestu&aacute;rios no Haiti t&ecirc;m a liberdade de entrar no mercado norte&#45;americano sem pagar impostos. J&aacute; para  produtos, que est&atilde;o nos EUA, voltarem para o Haiti e serem comercializados, h&aacute; duas condi&ccedil;&otilde;es: a porcentagem da produ&ccedil;&atilde;o que pode voltar para o pa&iacute;s­ de origem &eacute; de 25 a 30%. Quando o produto volta para o Haiti, torna&#45;se mercadoria importada, ou seja, deve&#45;se pagar taxas de importa&ccedil;&atilde;o para adquirir o produto em solo haitiano. Esse plano &eacute; fundamental para entender todo o processo em andamento, que n&atilde;o dispensa a constru&ccedil;&atilde;o de zonas francas em pontos estrat&eacute;gicos do pa&iacute;s. </font></P>     <p><font size="3"><i>Como se d&aacute; o processo de constru&ccedil;&atilde;o de zonas francas?</i></font></P>     <p><font size="3">O Haiti &eacute; a nova col&ocirc;nia dos Estados Unidos, com sua produ&ccedil;&atilde;o destinada somente &agrave;quele mercado e com forte presen&ccedil;a norte&#45;americana em solo haitiano atrav&eacute;s da figura do ex&#45;presidente Bill Clinton. Somente parte da produ&ccedil;&atilde;o fica no Haiti, que n&atilde;o se constitui como mercado consumidor relevante. No projeto de cria&ccedil;&atilde;o de 42 zonas francas, as leis haitianas n&atilde;o t&ecirc;m validade, somente o sal&aacute;rio m&iacute;nimo local &eacute; v&aacute;lido, cujo valor &eacute; de US$ 4 ao dia. Para as zonas francas, as terras dos camponeses haitianos s&atilde;o expropriadas, e eles se tornam m&atilde;o de obra barata. A mais nova zona franca fica na regi&atilde;o de Caracol. O projeto &eacute; de que se construa 42 zonas com a possibilidade de se empregar 75 mil trabalhadores at&eacute; 2020. N&atilde;o h&aacute;, por&eacute;m, nenhuma garantia de que esse n&uacute;mero de pessoas ser&aacute; respeitado.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i>A mais nova cidade haitiana &eacute; Cana&atilde;, qual o cen&aacute;rio em que ela foi constitu&iacute;da?</i></font></P>     <p><font size="3">A cidade de Cana&atilde;, que se situa a 10 quil&ocirc;metros de Porto Pr&iacute;ncipe, nasceu como medida do governo para abrigar moradores da capital haitiana que perderam suas casas durante o terremoto. Cana&atilde; passou de acampamento provis&oacute;rio para novo lar dos desalojados. Por se tratar de um grande espa&ccedil;o desocupado, as fam&iacute;lias come&ccedil;aram por si mesmas a demarcar espa&ccedil;os e, de maneira irregular, come&ccedil;aram a erguer as pr&oacute;prias casas, sem nenhum tipo de avalia&ccedil;&atilde;o de risco ou licen&ccedil;a de constru&ccedil;&atilde;o. Um engenheiro me assegurou que os moradores j&aacute; investiram US$60 milh&otilde;es nas constru&ccedil;&otilde;es irregulares que, no caso de outro terremoto, apresentam grande risco para a popula&ccedil;&atilde;o, podendo causar novo mortic&iacute;nio.</font></P>     <p><font size="3"><i>O que &eacute; a Internacional Comunit&aacute;ria e como ela afeta o Haiti?</i></font></P>     <p><font size="3">&Eacute; um termo criado pelo professor haitiano Jean Anil Louis&#45;Juste, assassinado duas horas antes do terremoto. A Internacional Comunit&aacute;ria &eacute; o que a literatura dominante chama de comunidade internacional. Quando as pessoas dizem  "a comunidade internacional n&atilde;o vai aceitar isso", n&atilde;o   est&atilde;o se referindo ao Haiti, &agrave; Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo, ou ao conjunto de pa&iacute;ses do mundo, mas sim  &agrave;s economias dominantes, como Estados Unidos, Fran&ccedil;a, Alemanha, Canad&aacute;. Com a cria&ccedil;&atilde;o do termo, Louis&#45;Juste quis dizer que n&atilde;o existe uma comunidade internacional, o que existe &eacute; um conjunto de pa&iacute;ses imperialistas que t&ecirc;m interesses diferentes, que se unem no momento de dominar os pa&iacute;ses em desenvolvimento. O professor que foi assassinado ainda dizia que esse grupo se une quando um pa&iacute;s em desenvolvimento quer fugir do controle das regras impostas pelo capitalismo, que &eacute; representado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e pela OMC (Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio), entre outros. O Haiti &eacute;, ent&atilde;o, afetado atrav&eacute;s do bra&ccedil;o ideol&oacute;gico desses pa&iacute;ses e institui&ccedil;&otilde;es que se apresentam como ONGs, cuja atua&ccedil;&atilde;o influencia pol&iacute;ticas p&uacute;blicas.</font></P>     <p><font size="3"><i>O Brasil est&aacute;, desde 2004, no comando da Minustah. Qual &eacute; o papel do Brasil no Haiti? </i></font></P>     <p><font size="3">A Minustah tem a miss&atilde;o de reprimir movimentos sociais e manter a estabiliza&ccedil;&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o no Haiti. A verdadeira fun&ccedil;&atilde;o desse ex&eacute;rcito internacional &eacute; evitar que o povo se revolte contra a pol&iacute;tica das zonas francas que est&aacute; sendo implantada no pa&iacute;s, &eacute; fazer o povo se contentar em trabalhar muito, produzir muito e receber baixos sal&aacute;rios. A &uacute;nica ajuda proporcionada por essa for&ccedil;a &eacute; ao capital estrangeiro. O papel n&atilde;o s&oacute; do Brasil, como de muitos outros pa&iacute;ses em desenvolvimento presentes no Haiti, &eacute; a terceiriza&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as armadas. Os Estados Unidos decidiram que n&atilde;o queriam mais ter ex&eacute;rcito presente no Haiti e terceirizaram essa fun&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <p><font size="3"><i>Qual a sa&iacute;da para o Haiti?</i></font></P>     <p><font size="3">O primeiro passo &eacute; a sa&iacute;da da Minustah, sa&iacute;da imediata e n&atilde;o gradual. Com isso, as classes sociais se enfrentariam para decidir os rumos do pa&iacute;s, num confronto decorrente do aspecto organizador da sociedade e que poderia criar um novo rumo para o Haiti. Esse enfrentamento pode melhorar ou n&atilde;o o pa&iacute;s, mas o povo teria sua soberania recuperada e poderia se organizar enquanto sociedade. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><I>Viviane Lucio</i></font></p>     ]]></body>
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