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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A ditadura nas universidades: repressão, modernização e acomodação]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="CENTER"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/artigos.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b><a name="title"></a>A ditadura nas universidades: repress&atilde;o, moderniza&ccedil;&atilde;o     e acomoda&ccedil;&atilde;o<a href="#nt"><sup>*</sup></a></b></font></P>     <P><font size="3">Rodrigo Patto S&aacute; Motta</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3"> <font size=5><b>O</b></font> foco nas institui&ccedil;&otilde;es de ensino superior nos oferece a oportunidade de observar a atua&ccedil;&atilde;o dos militares e seus aliados civis em &aacute;rea estrat&eacute;gica e de grande repercuss&atilde;o. Nas universidades, os paradoxos e as ambiguidades do regime militar se manifestaram plenamente, revelando a complexidade dessa experi&ecirc;ncia autorit&aacute;ria. De fato, o regime pol&iacute;tico constru&iacute;do a partir de 1964 teve dupla dimens&atilde;o: ele foi, simultaneamente, destrutivo e reformador, e, nunca &eacute; demais ressaltar, o seu impulso modernizador foi viabilizado por meios repressivos.</font></P>     <p><font size="3">Por&eacute;m, tal como nas outras &aacute;reas do novo governo, a pol&iacute;tica universit&aacute;ria n&atilde;o estava pronta em 1964, pois os vencedores n&atilde;o tinham rumos claros sobre o que fazer ap&oacute;s a conquista do poder, salvo a necessidade de "limpar" o pa&iacute;s de inimigos reais e imagin&aacute;rios. Os grupos que deram sustenta&ccedil;&atilde;o ao golpe de 1964 compunham frente heterog&ecirc;nea: liberais, conservadores, reacion&aacute;rios, nacionalistas autorit&aacute;rios e at&eacute; alguns reformistas moderados receberam com al&iacute;vio o golpe, pois haviam perdido a confian&ccedil;a no governo de Jo&atilde;o Goulart. O &uacute;nico consenso era negativo: tirar do poder um governo acusado de conduzir o pa&iacute;s para o precip&iacute;cio.</font></P>     <p><font size="3">O golpe de 1964 n&atilde;o foi um movimento essencialmente antirreformista, mas, sobretudo, anticomunista. Tradi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica enraizada no Brasil desde os anos 1930, quando foi constru&iacute;do o mito da "Intentona Comunista", o anticomunismo ocupou lugar central nos embates dos anos 1960, alimentado nesse contexto pela cultura da Guerra Fria e pela ascens&atilde;o de movimentos sociais hegemonizados pela esquerda. A campanha contra os comunistas que, na verdade, gerou expurgos que afetaram setores muito mais amplos do campo "progressista", foi a principal justificativa de apoio ao golpe de 1964 aos olhos de parte expressiva da opini&atilde;o p&uacute;blica.</font></P>     <p><font size="3">No entanto, uma parcela dos grupos golpistas era favor&aacute;vel a reformas, desde que afastado qualquer perigo de radicaliza&ccedil;&atilde;o e fortalecimento de lideran&ccedil;as revolucion&aacute;rias. Tamb&eacute;m &agrave; direita aceitava&#45;se o argumento reformista de que as universidades precisavam de mudan&ccedil;as para superar certos arca&iacute;smos. A unidade b&aacute;sica das faculdades eram os catedr&aacute;ticos, professores poderosos que, entre outros privil&eacute;gios, tinham cargos vital&iacute;cios. Tal sistema era considerado respons&aacute;vel pela fraca produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento e pela apatia dos professores situados nos n&iacute;veis hier&aacute;rquicos inferiores. Outro problema sens&iacute;vel era a escassez de vagas para os jovens em condi&ccedil;&otilde;es de ingressar na universidade, um grupo em expans&atilde;o devido ao aumento das taxas de urbaniza&ccedil;&atilde;o e ao crescimento demogr&aacute;fico nos anos 1950&#45;60.</font></P>     <p><font size="3">Nesse quadro, era forte a sensa&ccedil;&atilde;o de que as universidades precisavam ser transformadas, embora os projetos pol&iacute;tico&#45;ideol&oacute;gicos em disputa divergissem sobre os rumos a adotar. De modo simplificado, esquerda e direita convergiam no diagn&oacute;stico de que era necess&aacute;rio modernizar e produzir mais conhecimento, por&eacute;m, os primeiros desejavam tamb&eacute;m situar as universidades ao lado das causas socialistas. Esse era o tom dos debates sobre reforma universit&aacute;ria organizados, antes de 1964, por lideran&ccedil;as estudantis e pela Uni&atilde;o Nacional de Estudantes (UNE), que almejavam tamb&eacute;m mudar a estrutura de poder dentro das institui&ccedil;&otilde;es de ensino. A partir de tais debates, a demanda por reforma universit&aacute;ria foi incorporada &agrave;s "reformas de base" anunciadas por Jo&atilde;o Goulart, cujos planos incipientes para o ensino superior n&atilde;o tiveram oportunidade de se concretizar.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Entre os advers&aacute;rios das esquerdas, sobretudo nos grupos influenciados por argumentos liberais, circulavam tamb&eacute;m teses reformistas. Entretanto, ao contr&aacute;rio da perspectiva socialista e revolucion&aacute;ria, eles queriam mudar o ensino superior para torn&aacute;&#45;lo mais eficiente e produtivo, tendo em vista as necessidades do desenvolvimento econ&ocirc;mico e de moderniza&ccedil;&atilde;o da m&aacute;quina p&uacute;blica. Conferia&#45;se &ecirc;nfase ao ensino t&eacute;cnico, em detrimento da tradi&ccedil;&atilde;o humanista, e privilegiava&#45;se o desenvolvimento tecnol&oacute;gico, em preju&iacute;zo da pesquisa voltada para a ci&ecirc;ncia pura (1). Para as vertentes &agrave; direita, as universidades n&atilde;o precisavam ser p&uacute;blicas e tampouco gratuitas. Ao contr&aacute;rio, questionava&#45;se o estatuto da gratuidade do ensino e defendia&#45;se a cobran&ccedil;a de taxas dos estudantes que pudessem pagar.</font></P>     <p><font size="3">Assim, nos debates pol&iacute;ticos e culturais realizados no in&iacute;cio dos anos 1960 era amplo o leque das op&ccedil;&otilde;es para o futuro do Brasil. Com a vit&oacute;ria da coaliz&atilde;o golpista e a derrota pol&iacute;tica das esquerdas, acabou por vencer uma vertente autorit&aacute;ria e liberal&#45;conservadora do projeto modernizador que, paradoxalmente, se apropriou de ideias sugeridas por l&iacute;deres derrotados em 1964.</font></P>     <p><font size="3">A pol&iacute;tica universit&aacute;ria implantada pela ditadura foi se desenhando ao longo do tempo, e suas linhas mestras s&oacute; se definiram plenamente no in&iacute;cio dos anos 1970, resultando de choques entre grupos e opini&otilde;es divergentes, da press&atilde;o do movimento estudantil e da apropria&ccedil;&atilde;o de ideias gestadas no pr&eacute;&#45;1964, inclusive do pr&oacute;prio conceito de reforma universit&aacute;ria. A reforma afinal realizada pelo regime militar foi o efeito paradoxal de press&otilde;es contr&aacute;rias, de liberais, conservadores, militares, religiosos, intelectuais (e professores universit&aacute;rios), a que se somaram os conselhos de assessores e diplomatas norte&#45;americanos, tendo como cen&aacute;rio de fundo a rebeldia estudantil. A ditadura, apesar do poder autorit&aacute;rio de que dispunham seus l&iacute;deres, acabou por acomodar essas press&otilde;es e opini&otilde;es diferentes, do que derivaram pol&iacute;ticas paradoxais e, &agrave;s vezes, contradit&oacute;rias.</font></P>     <p><font size="3"><b>CAR&Aacute;TER MODERNIZADOR&#45;AUTORIT&Aacute;RIO DO ESTADO</b> Praticamente desde o seu in&iacute;cio tem&#45;se procurado conceituar adequadamente o regime pol&iacute;tico que surgiu a partir de 1964. H&aacute; bastante tempo tornou&#45;se corrente a ado&ccedil;&atilde;o de conceitos como moderniza&ccedil;&atilde;o conservadora ou autorit&aacute;ria para explicar o que aconteceu no Brasil ap&oacute;s o golpe. Esse campo conceitual &eacute; atraente por expressar bem os paradoxos de um projeto marcado pela heterogeneidade pol&iacute;tica. No barco da ditadura viajaram juntos grupos com ideias e propostas diferentes. Por isso, h&aacute; que distinguir entre conservadorismo e autoritarismo nas pol&iacute;ticas implantadas pelo regime militar. O impulso conservador foi importante na montagem do Estado p&oacute;s&#45;64, expressando anseios de manuten&ccedil;&atilde;o do <I>status quo</I> e da ordem tradicional. No entanto, em v&aacute;rios momentos, as demandas conservadoras entraram em contradi&ccedil;&atilde;o com os prop&oacute;sitos dos grupos modernizadores; &agrave;s vezes os conservadores levaram a pior em tais disputas, enquanto o autoritarismo sempre esteve presente na ditadura, em que pesem certas ambiguidades e a influ&ecirc;ncia moderadora da opini&atilde;o liberal, que tamb&eacute;m ocupava espa&ccedil;o nesse "barco".</font></P>     <p><font size="3">S&atilde;o recorrentes na hist&oacute;ria brasileira e fazem parte de sua cultura pol&iacute;tica as experi&ecirc;ncias de moderniza&ccedil;&atilde;o conservadora e autorit&aacute;ria &#150; processos de mudan&ccedil;a contradit&oacute;rios em que o novo negocia com o velho, mantendo em vigor e atualizando certos tra&ccedil;os do passado, enquanto outros s&atilde;o transformados. Pode&#45;se chamar isso de arte de fazer mudan&ccedil;as conservando, processo que teve momentos culminantes nas duas grandes ditaduras do s&eacute;culo XX, o Estado Novo e o regime militar. Certos aspectos tradicionais do comportamento pol&iacute;tico (principalmente dos grupos dirigentes brasileiros) se reproduziram durante o regime militar, em especial a tend&ecirc;ncia &agrave; concilia&ccedil;&atilde;o e acomoda&ccedil;&atilde;o, estrat&eacute;gia utilizada para evitar conflitos agudos, e o personalismo, entendido como pr&aacute;tica arraigada de privilegiar la&ccedil;os e fidelidades pessoais em detrimento de normas universais.</font></P>     <p><font size="3">A influ&ecirc;ncia de tais caracter&iacute;sticas da cultura pol&iacute;tica brasileira ajuda a explicar o car&aacute;ter modernizador&#45;autorit&aacute;rio do Estado durante o regime militar, inclusive em sua manifesta&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica nas universidades. Al&eacute;m disso, o influxo cultural pode ajudar a compreender, tamb&eacute;m, o modo peculiar como se deram as rela&ccedil;&otilde;es do aparato repressivo com os meios acad&ecirc;micos e intelectuais. Como sabemos, as a&ccedil;&otilde;es repressivas da ditadura foram intensas e provocaram viol&ecirc;ncia e persegui&ccedil;&otilde;es de diversas naturezas, desde a pris&atilde;o, a expuls&atilde;o do servi&ccedil;o p&uacute;blico, a censura, para n&atilde;o falar de a&ccedil;&otilde;es mais cruentas como tortura e morte. Esse impulso repressivo &eacute; inerente &agrave; ditadura e n&atilde;o pode ser minimizado, nem perdoado. No entanto, nos meios acad&ecirc;micos, tais rela&ccedil;&otilde;es foram permeadas tamb&eacute;m por jogos de acomoda&ccedil;&atilde;o, estrat&eacute;gias de a&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o se enquadram bem em an&aacute;lises bin&aacute;rias.</font></P>     <p><font size="3">O tema da tradi&ccedil;&atilde;o conciliat&oacute;ria mereceu a aten&ccedil;&atilde;o de autores influentes no pensamento social brasileiro, tanto nacionais como estrangeiros (2). Os analistas da "concilia&ccedil;&atilde;o", tema que j&aacute; se tornou cl&aacute;ssico, convergem para a interpreta&ccedil;&atilde;o de que a cultura brasileira tem como marcas centrais a flexibilidade, a recusa a defini&ccedil;&otilde;es r&iacute;gidas e a nega&ccedil;&atilde;o dos conflitos, que s&atilde;o evitados ou escamoteados por meio de a&ccedil;&otilde;es gradativas, moderadoras, conciliat&oacute;rias e integradoras. Ressalte&#45;se: a recusa de reconhecer e agudizar os conflitos, a tentativa de neg&aacute;&#45;los ou contorn&aacute;&#45;los, serve &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o da ordem desigual e elitista, pois as estrat&eacute;gias conciliadoras ajudam a escamotear os problemas sociais e a exclus&atilde;o pol&iacute;tica, bem como a postergar sua solu&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a10img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Assim, &eacute; forte na nossa cultura o recurso &agrave; concilia&ccedil;&atilde;o, &agrave; busca de solu&ccedil;&otilde;es de compromisso que evitem o caminho de rupturas radicais. Procura&#45;se acomodar os interesses de grupos em disputa, em um jogo de m&uacute;tuas concess&otilde;es, para evitar conflito agudo, sobretudo quando os contendores principais pertencem &agrave;s elites sociais. Entretanto, nem todos os agentes pol&iacute;ticos fazem uso de tais estrat&eacute;gias, e os que o fazem n&atilde;o s&atilde;o movidos por l&oacute;gica f&eacute;rrea ou qualquer forma de determinismo, pois, em alguns contextos, os apelos &agrave; concilia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&atilde;o bem recebidos. A concilia&ccedil;&atilde;o e a acomoda&ccedil;&atilde;o fazem parte do repert&oacute;rio de estrat&eacute;gias &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o dos que disputam os jogos de poder no Brasil &#150; ou seja, elas integram a cultura pol&iacute;tica do pa&iacute;s &#150;, e, como h&aacute; larga tradi&ccedil;&atilde;o e v&aacute;rios exemplos bem&#45;sucedidos, muitos l&iacute;deres s&atilde;o incentivados a escolher tal caminho, na esperan&ccedil;a de construir projetos pol&iacute;ticos est&aacute;veis.</font></P>     <p><font size="3">A percep&ccedil;&atilde;o da influ&ecirc;ncia desses tra&ccedil;os arraigados na cultura &#150; levando em conta tamb&eacute;m a heterogeneidade das bases de apoio da ditadura &#150; permite compreender os paradoxos e as contradi&ccedil;&otilde;es das pol&iacute;ticas dos governos militares, que, de outro modo, poderiam parecer ca&oacute;ticas e irracionais. O Estado constru&iacute;do ap&oacute;s o golpe de 1964 representou tentativa de conciliar demandas opostas, j&aacute; que o car&aacute;ter heterog&ecirc;neo de sua base de apoio gerou press&otilde;es em dire&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias. Em lugar de fazer escolha clara e irrestrita por alguma das op&ccedil;&otilde;es &#150; como, por exemplo, fez a ditadura chilena em favor de programa econ&ocirc;mico liberal &#150;, os dirigentes brasileiros preferiram atender a projetos diferentes e estabelecer compromissos.</font></P>     <p><font size="3">Observando o quadro geral, pode&#45;se dizer que o prop&oacute;sito modernizador se concentrava na perspectiva econ&ocirc;mica e administrativa, com vistas ao crescimento, &agrave; acelera&ccedil;&atilde;o da industrializa&ccedil;&atilde;o e &agrave; melhoria da m&aacute;quina estatal. J&aacute; o projeto autorit&aacute;rio&#45;conservador se pautava em manter os segmentos subalternos exclu&iacute;dos, especialmente como atores pol&iacute;ticos, bem como em combater as ideias e os agentes da esquerda &#150; por vezes, qualquer tipo de vanguarda &#150; nos campos da pol&iacute;tica e da cultura, defendendo valores tradicionais como p&aacute;tria, fam&iacute;lia e religi&atilde;o, incluindo a moral crist&atilde;.</font></P>     <p><font size="3">No que toca especificamente &agrave;s universidades, a moderniza&ccedil;&atilde;o conservadora implicou: racionaliza&ccedil;&atilde;o de recursos, busca de efici&ecirc;ncia, expans&atilde;o de vagas, refor&ccedil;o da iniciativa privada, organiza&ccedil;&atilde;o da carreira docente, cria&ccedil;&atilde;o de departamentos em substitui&ccedil;&atilde;o ao sistema de c&aacute;tedras, fomento &agrave; pesquisa e &agrave; p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o. Para viabilizar a desejada moderniza&ccedil;&atilde;o, sobretudo durante o per&iacute;odo inicial do regime militar (1964&#45;68), enfatizou&#45;se a ado&ccedil;&atilde;o de modelos universit&aacute;rios vindos dos pa&iacute;ses desenvolvidos, em particular dos Estados Unidos. </font></P>     <p><font size="3">Os militares e seus aliados civis implantaram reformas (3) de impacto duradouro no ensino superior que ainda d&atilde;o forma ao nosso sistema universit&aacute;rio, embora mudan&ccedil;as visando &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o tenham sido adotadas em anos recentes. Da estrutura departamental ao sistema de p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o, passando pelos exames vestibulares (neste momento em processo de mudan&ccedil;a com a ado&ccedil;&atilde;o do sistema Enem), a base da estrutura universit&aacute;ria em vigor foi constru&iacute;da sob a ditadura; ou melhor, foi imposta &agrave; for&ccedil;a, embora a ess&ecirc;ncia desse desenho tenha sido elaborada por l&iacute;deres docentes, e a press&atilde;o do movimento estudantil &#150; ou o temor que ela despertava nos militares &#150; tenha servido de contrapeso e evitado a aplica&ccedil;&atilde;o de certas medidas pretendidas pelo Estado.</font></P>     <p><font size="3">No eixo conservador, o regime militar combateu e censurou as ideias de esquerda e tudo mais que achasse perigoso e desviante &#150; e, naturalmente, os defensores dessas ideias &#150;; controlou e subjugou o movimento estudantil; criou as ASI (Assessorias de Seguran&ccedil;a e Informa&ccedil;&atilde;o) para vigiar a comunidade universit&aacute;ria; censurou a pesquisa, assim como a publica&ccedil;&atilde;o e circula&ccedil;&atilde;o de livros; e tentou incutir valores tradicionais por meio de t&eacute;cnicas de propaganda, da cria&ccedil;&atilde;o de disciplinas dedicadas ao ensino de moral e civismo e de iniciativas como o Projeto Rondon.</font></P>     <p><font size="3">Em sua faceta destrutiva, o Estado autorit&aacute;rio prendeu, demitiu ou aposentou professores considerados ideologicamente suspeitos &#150; em geral acusados de comunistas &#150;, assim como afastou l&iacute;deres docentes acusados de cumplicidade com a "subvers&atilde;o estudantil". Al&eacute;m disso, torturou e matou alguns membros da comunidade acad&ecirc;mica que considerava mais "perigosos". O anseio por uma "limpeza" ideol&oacute;gica levou ao bloqueio da livre circula&ccedil;&atilde;o de ideias e de textos, e &agrave; instala&ccedil;&atilde;o de mecanismos para vigiar a comunidade universit&aacute;ria. As ASI, juntamente com outros &oacute;rg&atilde;os de informa&ccedil;&atilde;o, triaram contrata&ccedil;&otilde;es, concess&otilde;es de bolsa e autoriza&ccedil;&otilde;es para est&aacute;gios no exterior.</font></P>     <p><font size="3">Quando assumiram o poder, ap&oacute;s a vit&oacute;ria inesperadamente f&aacute;cil do golpe, os militares e seus aliados civis encontraram situa&ccedil;&atilde;o conturbada nos meios universit&aacute;rios. No in&iacute;cio dos anos 1960, o movimento estudantil havia se tornado aguerrido e bem estruturado, sob o comando de l&iacute;deres da esquerda cat&oacute;lica e de comunistas. No clima de radicaliza&ccedil;&atilde;o anterior ao golpe, as universidades se tornaram centros importantes da mobiliza&ccedil;&atilde;o esquerdista, com a realiza&ccedil;&atilde;o de semin&aacute;rios, eventos culturais e pol&iacute;ticos, manifesta&ccedil;&otilde;es as mais diversas; e os estudantes se tornaram forte grupo de press&atilde;o no cen&aacute;rio p&uacute;blico. Para al&eacute;m do fato de as universidades reunirem inimigos do novo regime, "credenciando&#45;se", portanto, como alvos privilegiados das primeiras opera&ccedil;&otilde;es de expurgo, elas ocupavam lugar estrat&eacute;gico na forma&ccedil;&atilde;o das elites intelectuais e pol&iacute;ticas do pa&iacute;s, e, secundariamente, dos dirigentes econ&ocirc;micos. Assim, eram indispens&aacute;veis ao projeto modernizador acalentado por setores da coaliz&atilde;o dominante, com duas fun&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas. Primeiro, continuar cumprindo, agora em escala ampliada, o papel de formar profissionais indispens&aacute;veis &agrave;s atividades econ&ocirc;micas. Em segundo lugar vinha o potencial para desenvolver novas tecnologias, algo ainda incipiente na realidade brasileira de meados dos anos 1960, e que n&atilde;o era considerado priorit&aacute;rio por todos os envolvidos, pois a importa&ccedil;&atilde;o de tecnologia era regra nas grandes empresas.</font></P>     <p><font size="3">Por&eacute;m, o impulso modernizador do novo regime era contrabalan&ccedil;ado por for&ccedil;as retr&oacute;gradas que o apoiavam, amedrontadas com os riscos &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o da ordem e aos valores tradicionais. Esses setores, geralmente representados por religiosos, intelectuais conservadores e militares, n&atilde;o se contentavam t&atilde;o somente com o expurgo da esquerda revolucion&aacute;ria e da corrup&ccedil;&atilde;o. Eles desejavam aproveitar o momento para impor agenda conservadora mais ampla, que contemplasse a luta contra comportamentos morais desviantes, a imposi&ccedil;&atilde;o de censura e a ado&ccedil;&atilde;o de medidas para fortalecer os valores caros &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o, sobretudo p&aacute;tria e religi&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">As universidades representam espa&ccedil;o privilegiado para observar os entrechoques das diferentes for&ccedil;as que moveram o experimento autorit&aacute;rio brasileiro. Elas eram importantes l&oacute;cus de moderniza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, bem como campo de batalha entre os valores conservadores e os ideais de esquerda e de vanguarda; eram institui&ccedil;&otilde;es que o regime militar, simultaneamente, procurou modernizar e reprimir, reformar e censurar. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Sob o influxo da cultura pol&iacute;tica brasileira, os governos militares estabeleceram pol&iacute;ticas amb&iacute;guas, conciliat&oacute;rias, em que os paradoxos beiravam a contradi&ccedil;&atilde;o: demitir professores que depois eram convidados a voltar, para em seguida afast&aacute;&#45;los novamente; invadir e ocupar universidades que ao mesmo tempo recebiam mais recursos; apreender livros subversivos, mas tamb&eacute;m permitir que fossem publicados e que circulassem. Como explicar o paradoxo de uma ditadura anticomunista que permitiu a contrata&ccedil;&atilde;o de professores marxistas e manteve comunistas em seus cargos p&uacute;blicos, enquanto outros eram barrados e demitidos? Como foi poss&iacute;vel, no mesmo contexto, o marxismo ter ampliado sua influ&ecirc;ncia e circula&ccedil;&atilde;o nas universidades? (4)</font></P>     <p><font size="3">Outros elementos tradicionais da pol&iacute;tica brasileira tamb&eacute;m se fizeram presentes nesse per&iacute;odo: o Estado autorit&aacute;rio lan&ccedil;ou m&atilde;o de estrat&eacute;gias de coopta&ccedil;&atilde;o, e v&aacute;rios agentes demonstraram flexibilidade em rela&ccedil;&atilde;o a normas e valores dominantes, com tend&ecirc;ncia a tangenciar os preceitos legais e confiar mais na autoridade pessoal, nos la&ccedil;os sociais e em arranjos informais. Essas pr&aacute;ticas permitiram ao Estado contar com o talento de profissionais provenientes de campo ideol&oacute;gico advers&aacute;rio, mas tamb&eacute;m propiciaram o amortecimento da repress&atilde;o, com base na mobiliza&ccedil;&atilde;o de fidelidades pessoais e compromissos informais. Certamente que tais processos foram simult&acirc;neos &agrave;s a&ccedil;&otilde;es de repress&atilde;o, afinal, cumpre lembrar que muita viol&ecirc;ncia ocorreu nos <I>campi</I>, sobretudo nos momentos de invas&atilde;o policial, que tiveram lugar em 1968 e, com menor intensidade, em 1977. Ainda assim, nas universidades, a repress&atilde;o foi temperada por jogos de acomoda&ccedil;&atilde;o e concilia&ccedil;&atilde;o, cujo entendimento &eacute; indispens&aacute;vel para que se explique de forma adequada o processo autorit&aacute;rio, no seu desenrolar e em sua conclus&atilde;o peculiar.</font></P>     <p><font size="3">No Brasil, a estrat&eacute;gia conciliat&oacute;ria tende a ser mais mobilizada quando os agentes em conflito pertencem &agrave;s elites sociais. E &eacute; este precisamente o caso, pois nos meios universit&aacute;rios, em grande propor&ccedil;&atilde;o, estavam pessoas origin&aacute;rias das classes m&eacute;dias e altas, que tinham possibilidade de mobilizar liga&ccedil;&otilde;es sociais em seu benef&iacute;cio, n&atilde;o obstante houvesse muitos "pag&atilde;os" tamb&eacute;m, ou seja, pessoas sem la&ccedil;os sociais protetores. Esse jogo complexo e, &agrave;s vezes, amb&iacute;guo, sugere uma an&aacute;lise mais sutil do impacto do autoritarismo nas universidades, capaz de iluminar processos que n&atilde;o se encaixam no tradicional par repress&atilde;o/resist&ecirc;ncia. Houve tamb&eacute;m arranjo entre repress&atilde;o/acomoda&ccedil;&atilde;o, repress&atilde;o/negocia&ccedil;&atilde;o e repress&atilde;o/coopta&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">No caso dos meios acad&ecirc;micos, esse aspecto foi mais marcante, pois muitos dos seus membros tinham la&ccedil;os pessoais ou familiares com membros do governo e mesmo das For&ccedil;as Armadas. Assim, caracter&iacute;sticas peculiares da sociedade brasileira, altamente elitizada e com recursos educacionais e culturais concentrados nos estratos superiores, geraram situa&ccedil;&otilde;es em que as lideran&ccedil;as acad&ecirc;micas esquerdistas e os l&iacute;deres do Estado militar pertenciam aos mesmos grupos sociais, o que implicava, muitas vezes, la&ccedil;os de parentesco, amizade ou de conviv&ecirc;ncia escolar anterior.</font></P>     <p><font size="3">Isso explica porque, em certas situa&ccedil;&otilde;es, quando as caracter&iacute;sticas do regime autorizavam a&ccedil;&otilde;es repressivas duras, certos agentes estatais optaram por modera&ccedil;&atilde;o, toler&acirc;ncia e/ou negocia&ccedil;&atilde;o. Gest&otilde;es de natureza pessoal permitiram que vetos pol&iacute;ticos &agrave; contrata&ccedil;&atilde;o de alguns professores fossem contornados; sugest&otilde;es para aposentadoria compuls&oacute;ria fossem engavetadas; passaportes bloqueados fossem liberados; bolsas de pesquisa retidas fossem autorizadas; condena&ccedil;&otilde;es judiciais se tornassem mais leves; e, tamb&eacute;m, alguns presos fossem libertados, e certas pris&otilde;es, evitadas.</font></P>     <p><font size="3">Claro, nem todos os servidores do regime estavam predispostos &agrave; modera&ccedil;&atilde;o, e nem sempre ela funcionou bem, pois centenas de professores e intelectuais perderam cargos ou tiveram sua contrata&ccedil;&atilde;o barrada. Considerando os dois grandes expurgos, em 1964 e 1969, entre aposentadorias e exonera&ccedil;&otilde;es, pode&#45;se estimar que mais de 300 docentes foram afastados das universidades p&uacute;blicas. O n&uacute;mero dos que tiveram sua contrata&ccedil;&atilde;o bloqueada por raz&otilde;es ideol&oacute;gicas &eacute; mais dif&iacute;cil de precisar, pela escassez de evid&ecirc;ncias. Por outro lado, a disposi&ccedil;&atilde;o das autoridades para agir com modera&ccedil;&atilde;o era tanto maior quanto menor o impacto p&uacute;blico das atividades promovidas no espa&ccedil;o universit&aacute;rio. Em outras palavras, se o radicalismo acad&ecirc;mico n&atilde;o transpusesse os muros das faculdades, maiores as chances de ser tolerado e de n&atilde;o atrair medidas repressivas. </font></P>     <p><font size="3">No entanto, apesar dessas ressalvas, nas universidades com frequ&ecirc;ncia as vozes moderadas prevaleceram, e a repress&atilde;o foi temperada com negocia&ccedil;&atilde;o e tentativas de acomoda&ccedil;&atilde;o, em certos casos com a anu&ecirc;ncia dos &oacute;rg&atilde;os de repress&atilde;o. Importa ressaltar que esses jogos de acomoda&ccedil;&atilde;o, que se situavam em espa&ccedil;o intermedi&aacute;rio entre as op&ccedil;&otilde;es de resistir ou aderir ao regime militar, implicavam compromissos de m&atilde;o dupla. Os intelectuais visados pelas ag&ecirc;ncias de repress&atilde;o que conseguiam escapar de persegui&ccedil;&otilde;es deveriam comportar&#45;se com discri&ccedil;&atilde;o, evitando ataques p&uacute;blicos contra a ditadura.</font></P>     <p><font size="3">&Eacute; fundamental levar em conta a exist&ecirc;ncia de tais espa&ccedil;os de acomoda&ccedil;&atilde;o e negocia&ccedil;&atilde;o, tanto para entender a natureza do regime militar quanto porque eles tiveram impacto no processo de supera&ccedil;&atilde;o do autoritarismo. Os expurgos nas universidades teriam sido maiores n&atilde;o fosse a influ&ecirc;ncia moderada em alguns c&iacute;rculos do poder, e gra&ccedil;as &agrave;s estrat&eacute;gias de acomoda&ccedil;&atilde;o que adotaram em certas circunst&acirc;ncias. Tanto alguns membros do governo quanto dirigentes universit&aacute;rios trabalharam para evitar demiss&otilde;es e liberar contrata&ccedil;&otilde;es, contrariando a indica&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;os repressivos. Fizeram&#45;no pelo interesse de contar com o talento de certos profissionais acad&ecirc;micos, o que a seus olhos justificava a toler&acirc;ncia pol&iacute;tica, ou para evitar perda de prest&iacute;gio junto &agrave; comunidade universit&aacute;ria e &agrave; opini&atilde;o p&uacute;blica. Da&iacute; ser comum encontrar reitores que tomavam medidas repressivas com uma m&atilde;o e com a outra protegiam pessoas visadas.</font></P>     <p><font size="3">Com isso, evitou&#45;se o expurgo completo da esquerda acad&ecirc;mica, e, apesar dos esfor&ccedil;os da direita militante, que teve for&ccedil;a para bloquear muitas contrata&ccedil;&otilde;es de "suspeitos", alguns professores com perfil esquerdista foram admitidos durante a ditadura. Essas situa&ccedil;&otilde;es foram mais frequentes antes do AI&#45;5 (entre 1965 e 1968) e depois da distens&atilde;o (de 1974 em diante), por&eacute;m, ocorreram tamb&eacute;m durante os anos de repress&atilde;o mais intensa. Tal n&atilde;o se deu apenas nas universidades, mas tamb&eacute;m em outros &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos, da administra&ccedil;&atilde;o direta e indireta, em que algumas pessoas visadas pela repress&atilde;o foram protegidas por sua compet&ecirc;ncia presumida ou por la&ccedil;os pessoais. Essas situa&ccedil;&otilde;es provocaram a ira da direita radical, principalmente de grupos encastelados no aparato de repress&atilde;o, que, a partir de meados dos anos 1970, passaram a acusar a "infiltra&ccedil;&atilde;o comunista" no governo, elemento que se tornou um dos ingredientes na disputa pelo poder na sucess&atilde;o do general Geisel.</font></P>     <p><font size="3">Os jogos de acomoda&ccedil;&atilde;o analisados sumariamente aqui t&ecirc;m uma peculiaridade que cabe ressaltar: como em todo jogo, as coisas n&atilde;o funcionam se houver apenas um contendor. Explicitando a met&aacute;fora, as negocia&ccedil;&otilde;es visando a moderar a repress&atilde;o sobre as elites intelectuais implicavam concess&otilde;es m&uacute;tuas, envolvendo os dois lados. Por isso, n&atilde;o deve causar estranheza que pr&aacute;ticas semelhantes tenham marcado tamb&eacute;m a sa&iacute;da da ditadura, estimulando o pacto e o arranjo entre os c&iacute;rculos no poder e as for&ccedil;as de oposi&ccedil;&atilde;o. Encontra&#45;se a&iacute; uma explica&ccedil;&atilde;o para o car&aacute;ter relativamente indolor (para os quadros do regime militar) da transi&ccedil;&atilde;o p&oacute;s&#45;autorit&aacute;ria no Brasil, marcada pela aus&ecirc;ncia de puni&ccedil;&otilde;es contra os agentes da viol&ecirc;ncia estatal e pela acomoda&ccedil;&atilde;o das antigas elites pol&iacute;ticas no novo quadro "democr&aacute;tico".</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O processo de sa&iacute;da do regime militar e de constru&ccedil;&atilde;o da democracia foi marcado por acomoda&ccedil;&otilde;es e concilia&ccedil;&otilde;es que permitiram reduzir os custos para os agentes da ditadura. Por&eacute;m, vale a pena insistir, esse caminho foi poss&iacute;vel porque mesmo nos momentos intensos da repress&atilde;o o Estado autorit&aacute;rio mostrou&#45;se transigente em certas situa&ccedil;&otilde;es. A acomoda&ccedil;&atilde;o beneficiou membros das elites sociais que, embora avessos aos valores oficiais, foram poupados da repress&atilde;o por considera&ccedil;&otilde;es pragm&aacute;ticas ou pela mobiliza&ccedil;&atilde;o de la&ccedil;os sociais. </font></P>     <p><font size="3">A linha de an&aacute;lise desenvolvida aqui n&atilde;o implica desvalorizar as lutas e a resist&ecirc;ncia &agrave; ditadura nos meios acad&ecirc;micos. Desde o come&ccedil;o as universidades foram um dos espa&ccedil;os sociais mais hostis &agrave; ditadura, em que ocorreram muitas lutas e a&ccedil;&otilde;es de resist&ecirc;ncia, desde as mais sutis at&eacute; os protestos ostensivos como paralisa&ccedil;&otilde;es, ocupa&ccedil;&otilde;es de pr&eacute;dios, passeatas etc. No contexto da distens&atilde;o pol&iacute;tica empreendida pela ditadura, as lideran&ccedil;as da comunidade acad&ecirc;mica aproveitaram o clima menos repressivo para fortalecer ou criar entidades associativas, sobretudo discentes e docentes. Na segunda metade dos anos 1970, o movimento estudantil se reorganizou e se tonificou, tamb&eacute;m devido &agrave; reorienta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica resultante da derrota da utopia guerrilheira, e os professores criaram uma rede de associa&ccedil;&otilde;es docentes. Tais entidades lutaram para ampliar o escopo da distens&atilde;o/abertura e denunciaram as a&ccedil;&otilde;es da ditadura, causando inc&ocirc;modo ao poder. Importante considerar que a pr&oacute;pria disposi&ccedil;&atilde;o de setores da ditadura &agrave; acomoda&ccedil;&atilde;o devia&#45;se &agrave; estrat&eacute;gia de evitar a radicaliza&ccedil;&atilde;o de tais lutas. Entretanto, n&atilde;o devemos superestimar os efeitos da resist&ecirc;ncia, sobretudo, n&atilde;o podemos deixar na sombra que os processos de negocia&ccedil;&atilde;o e acomoda&ccedil;&atilde;o deram o tom da sa&iacute;da da ditadura, nas universidades e em outros espa&ccedil;os sociais e pol&iacute;ticos.</font></P>     <p><font size="3">Assim, a influ&ecirc;ncia de tra&ccedil;os marcantes da cultura pol&iacute;tica do pa&iacute;s se fez presente tamb&eacute;m no regime militar, sobretudo a tend&ecirc;ncia &agrave; acomoda&ccedil;&atilde;o inter&#45;elites. Tendo adotado pol&iacute;ticas voltadas simultaneamente para a conserva&ccedil;&atilde;o e a moderniza&ccedil;&atilde;o, e mostrado, em certos contextos, indecis&atilde;o entre erradicar os inimigos ou acomodar&#45;se com parte deles, e oscilado entre a ditadura e as institui&ccedil;&otilde;es liberais, o Estado autorit&aacute;rio acabou por negociar sua sa&iacute;da do poder de maneira igualmente amb&iacute;gua. Embora com protestos de setores da oposi&ccedil;&atilde;o, o arranjo se fez tendo como corol&aacute;rio o esquecimento de todos os crimes cometidos e a incorpora&ccedil;&atilde;o de antigos apoiadores do regime ao novo quadro pol&iacute;tico.</font></P>     <p><font size="3">Considerando os pa&iacute;ses do cone sul, o Brasil &eacute; o &uacute;nico em que os agentes repressivos da ditadura continuam impunes, apesar das press&otilde;es em contr&aacute;rio. Tradicionalmente receptiva a acordos e acomoda&ccedil;&otilde;es, mais uma vez, a for&ccedil;a da cultura pol&iacute;tica se faz valer. E as a&ccedil;&otilde;es de alguns integrantes do regime militar que aceitaram arranjos para diminuir o impacto da repress&atilde;o contribu&iacute;ram para esse quadro, pois, ao reduzir a escala dos atingidos, eles aumentaram, no campo das antigas oposi&ccedil;&otilde;es, o n&uacute;mero de lideran&ccedil;as dispostas a negociar e a se acomodar com seus antigos inimigos.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a10img02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">No que toca &agrave; moderniza&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es universit&aacute;rias e de pesquisa, dificilmente se poderia negar que a ditadura trouxe impacto significativo, ao aumentar recursos e investimentos e ao legar uma infraestrutura que seria retomada anos depois. No entanto, a faceta modernizadora da ditadura possu&iacute;a desequil&iacute;brios agudos e deixou legado contradit&oacute;rio. No fim do ciclo militar, as universidades estavam em crise, &agrave;s voltas com falta de recursos e sal&aacute;rios corro&iacute;dos pela infla&ccedil;&atilde;o. O conhecimento produzido exercia limitado impacto sobre o sistema produtivo, e a institui&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria era mais importante por seu papel na forma&ccedil;&atilde;o de t&eacute;cnicos, profissionais, burocratas e intelectuais ligados &agrave; academia. Ademais, o modelo implantado foi elitista e socialmente injusto, como era o tom geral das pol&iacute;ticas modernizadoras e desenvolvimentistas da ditadura. Os investimentos nas universidades favoreceram os grupos sociais e as regi&otilde;es mais ricas do pa&iacute;s, consolidando &#150; e ampliando &#150; as tradicionais desigualdades sociais e regionais.</font></P>     <p><font size="3">Em suma, o reconhecimento do car&aacute;ter paradoxal do impacto da ditadura nas universidades &eacute; necess&aacute;rio do ponto de vista cient&iacute;fico, e tamb&eacute;m importante desde uma &oacute;tica pol&iacute;tica, para compreens&atilde;o adequada dos embates atuais e dos limites da nossa transi&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica, em que a chamada justi&ccedil;a de transi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o alcan&ccedil;ou realizar a&ccedil;&otilde;es propriamente criminais. </font></P>     <p><font size="3">Entretanto, reconhecer a exist&ecirc;ncia dos jogos de acomoda&ccedil;&atilde;o e demais paradoxos da ditadura, e perceb&ecirc;&#45;los como parte da cultura pol&iacute;tica brasileira, n&atilde;o significa aceitar uma perspectiva conformista. Tampouco devemos aceitar os discursos que procuram justificar o autoritarismo com o argumento de que ele foi modernizador. Como se isso compensasse a repress&atilde;o e a censura, que implicaram verdadeira regress&atilde;o pol&iacute;tica. Bem ao contr&aacute;rio, a expectativa &eacute; que o esfor&ccedil;o anal&iacute;tico para compreender e explicar os processos complexos do autoritarismo sirva de est&iacute;mulo para a sua supera&ccedil;&atilde;o.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Rodrigo Patto S&aacute; Motta</b> &eacute; professor do Departamento de Hist&oacute;ria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenador do grupo de pesquisa "Hist&oacute;ria Pol&iacute;tica &#150; Culturas Pol&iacute;ticas na Hist&oacute;ria" e pesquisador do CNPq e da Fapemig. Autor dos livros </i>Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil (1917&#45;1964); Jango e o golpe de 1964 na caricatura; As universidades e o regime militar.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1.  Salgado de Souza, M. I. <i>Os empres&aacute;rios e a educa&ccedil;&atilde;o. O Ipes e a pol&iacute;tica educacional ap&oacute;s 1964</i>. Petr&oacute;polis, Vozes, 1981.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">2.  Cf. Freyre, G. <i>Ordem e progresso</i>. Rio de Janeiro, Jos&eacute; Olympio, 1959;    <!-- ref --> Buarque de Holanda, S. <i>Ra&iacute;zes do Brasil</i>. 26a ed. S&atilde;o Paulo, Companhia das Letras, 1995;    <!-- ref --> DaMatta, R. <i>A casa &amp; a rua</i>. 5a ed. Rio de Janeiro, Rocco, 1997;    <!-- ref --> Rodrigues, J. H. Concilia&ccedil;&atilde;o<i> e reforma no Brasil: um desafio hist&oacute;rico&#45;cultural</i>. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1965;    <!-- ref --> Schmitter, P. C. <i>Interest conflict and political change in Brazil</i>. Stanford, Stanford University Press, 1971.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">3.  Entre os estudos que analisam a reforma universit&aacute;ria da ditadura vale a pena citar: Celeste Filho, M.. <i>A constitui&ccedil;&atilde;o da USP e a reforma universit&aacute;ria da d&eacute;cada de 1960</i>. S&atilde;o Paulo, Edunesp, 2013;    <!-- ref --> Cunha, L. A. <i>A universidade reformada: o golpe de 1964 e a moderniza&ccedil;&atilde;o do ensino superior</i>. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1988;    <!-- ref --> Nicolato, M. A. "A caminho da Lei 5.540/68 &#150;  a participa&ccedil;&atilde;o dos diferentes atores na defini&ccedil;&atilde;o da reforma universit&aacute;ria". Disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado apresentada ao Departamento de Educa&ccedil;&atilde;o. Belo Horizonte, UFMG, 1986.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">4.  Devido ao limite de espa&ccedil;o esse tema est&aacute; sendo tratando de maneira esquem&aacute;tica. Para uma an&aacute;lise mais cuidadosa recomenda&#45;se consulta a Motta, R. P. S. <i>As universidades e o regime militar</i>. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.    </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">(<a name="nt"></a><a href="#title">*</a>) Este artigo &eacute; baseado em Motta, R. P. S. <I>As universidades e o regime militar.</I> Rio de Janeiro: Zahar, 2014.</font></P>     ]]></body>
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