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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Vigiar e, depois de 1964, punir: sobre Samuel Pessoa e o Departamento Vermelho da USP]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="CENTER"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/artigos.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>Vigiar e, depois de 1964,     punir: sobre Samuel     Pessoa e o Departamento Vermelho da USP</b></font></P>     <P><font size="3">Gilberto Hochman</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>E</b></font><font size="3">ste ensaio come&ccedil;a pelo ato final. Imediatamente ap&oacute;s o golpe civil&#45;militar de 1964, um autodenominado grupo de acad&ecirc;micos "democratas e verdadeiramente crist&atilde;os" enviou carta an&ocirc;nima ao ent&atilde;o governador de S&atilde;o Paulo, Adhemar Pereira de Barros. Essa carta denunciava professores da Faculdade de Medicina da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) que seriam comunistas. Solicitavam a&ccedil;&otilde;es urgentes e eficazes para acabar com o "poderoso n&uacute;cleo sino&#45;bolch&eacute;vico" (grifo no original) que teria se instalado naquela institui&ccedil;&atilde;o (1). A lista inclu&iacute;a 23 nomes de v&aacute;rios departamentos, como o de Fisiologia, de Qu&iacute;mica, da Faculdade de Higiene e Sa&uacute;de P&uacute;blica &#150; em alguns casos tamb&eacute;m os respectivos c&ocirc;njuges eram citados. Indicavam com um asterisco aqueles que tinham sido mais ativos na primeira hora da resist&ecirc;ncia ao golpe dentro da universidade, participando de assembleias e reuni&otilde;es. O maior n&uacute;mero de denunciados, doze do total, eram de membros do Instituto de Medicina Tropical, ent&atilde;o vinculado &agrave; Faculdade de Medicina e, principalmente, do Departamento de Parasitologia (2). Essa carta &eacute; reveladora do clima de acusa&ccedil;&otilde;es, persegui&ccedil;&otilde;es e acertos de contas que tomou conta da Faculdade de Medicina da USP a partir de abril de 1964.</font></P>     <p><font size="3">Ainda em maio do mesmo ano, a den&uacute;ncia foi encaminhada pelo governador &agrave;s autoridades militares e policiais para provid&ecirc;ncias. E essa mesma lista de denunciados foi reproduzida no pedido de informa&ccedil;&otilde;es ao Departamento Estadual de Ordem Pol&iacute;tica e Social (Deops) feito em julho pelo tenente&#45;coronel Enio dos Santos Pinheiro que fora encarregado do Inqu&eacute;rito Policial&#45;Militar (IPM) que investigaria "atividades subversivas na Faculdade de Medicina" da USP (3). O cerco pol&iacute;tico e ideol&oacute;gico a esses professores, e a outros profissionais da Faculdade de Medicina, se completaria com a identifica&ccedil;&atilde;o de "comunistas fichados" que atuavam tamb&eacute;m no Hospital das Cl&iacute;nicas (HC), em listas de funcion&aacute;rios fornecidas pela dire&ccedil;&atilde;o do hospital e enviadas pelo ­Deops­­ &agrave; Secretaria de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica (SSP). Ao receber essa lista, em 20 de abril, um bilhete do governador foi anexado solicitando ao Deops e &agrave; SSP que o ent&atilde;o diretor do hospital, Sylvio Alves de Barros, fosse ouvido "sobre como iniciar o processo de exclus&atilde;o desse pessoal" baseado no Ato Institucional nº1 (4). Alguns nomes constavam de ambas as listas, como o de Luiz Hildebrando Pereira da Silva. O desfecho violento &eacute; conhecido: pris&otilde;es, ex&iacute;lio, inqu&eacute;ritos, persegui&ccedil;&otilde;es, demiss&otilde;es e aposentadoria compuls&oacute;ria de grande parte dos listados, primeiro em 1964 e, depois, em 1969, j&aacute; sob a vig&ecirc;ncia do AI&#45;5.</font></P>     <p><font size="3">Como j&aacute; indicado por documentos e outros trabalhos (5), a Faculdade de Medicina foi certamente uma das mais atingidas nos expurgos de 1964 na USP e, nela, o departamento mais vitimado foi aquele intitulado de "vermelho" &#150; tanto por admiradores como pelos detratores: o Departamento de Parasitologia. Este departamento se caracterizava pela expressiva presen&ccedil;a de militantes e simpatizantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e se conformara em torno da lideran&ccedil;a cient&iacute;fica e pol&iacute;tica de Samuel Barnsley Pessoa (1898&#45;1976), catedr&aacute;tico de parasitologia m&eacute;dica entre 1931 e 1955, ano em que se aposentou voluntariamente tornando&#45;se professor em&eacute;rito. Samuel Pessoa teve uma carreira cient&iacute;fica e universit&aacute;ria excepcional combinada a uma igualmente intensa milit&acirc;ncia comunista e internacionalista (6). Por quatro d&eacute;cadas seu comp&ecirc;ndio de parasitologia m&eacute;dica foi leitura obrigat&oacute;ria para alunos de todas as faculdades de medicina no Brasil (7) e  formou, em sala de aula, nos laborat&oacute;rios e nos livros, gera&ccedil;&otilde;es de profissionais no campo da Parasitologia e da Medicina Tropical. Parte consider&aacute;vel dos atingidos pelas persegui&ccedil;&otilde;es na escola de medicina da USP tinham sido seus alunos e/ou seus colaboradores diretos, como por exemplo Luiz Hildebrando Pereira da Silva, Luiz Rey, Ruth e Victor Nussenzweig, Maria e Leonidas Deane e Erney Camargo. Eram tamb&eacute;m disc&iacute;pulos da particular combina&ccedil;&atilde;o constru&iacute;da por Pessoa, em sua trajet&oacute;ria entre as d&eacute;cadas de 1940 e 1970, entre produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento no campo da parasitologia, o combate &agrave;s doen&ccedil;as end&ecirc;micas das popula&ccedil;&otilde;es rurais brasileiras e a luta pelo socialismo. </font></P>     <p><font size="3">Para o cientista e comunista, a medicina p&uacute;blica, em especial o tema das doen&ccedil;as parasit&aacute;rias que afligiam o Brasil rural, seria indissoci&aacute;vel da reforma agr&aacute;ria e da luta contra o latif&uacute;ndio e, num plano ampliado, da transforma&ccedil;&atilde;o social rumo ao socialismo. Neste &uacute;ltimo ponto se diferenciava radicalmente de outros m&eacute;dicos e sanitaristas, seus antecessores e contempor&acirc;neos, com quem compartilhava a inquieta&ccedil;&atilde;o com as mazelas das endemias rurais e a necessidade de uma a&ccedil;&atilde;o estatal ampliada. Suas preocupa&ccedil;&otilde;es com os problemas brasileiros se refletiram tamb&eacute;m nas ideias sobre a forma&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;dicos e o papel da universidade no Brasil (8). Apesar de defender a import&acirc;ncia da organiza&ccedil;&atilde;o sanit&aacute;ria para minorar os problemas de sa&uacute;de, Pessoa teve uma &uacute;nica experi&ecirc;ncia na administra&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de p&uacute;blica como diretor de Sa&uacute;de P&uacute;blica do estado de S&atilde;o Paulo, entre dezembro de 1942 e fevereiro de 1944.</font></P>     <p><font size="3">O prest&iacute;gio cient&iacute;fico e a milit&acirc;ncia comunista levaram Samuel Pessoa a participar de esfor&ccedil;os nacionais e internacionais pela paz, contra o uso de armas at&ocirc;micas, qu&iacute;micas e biol&oacute;gicas, na d&eacute;cada de 1950. Uma milit&acirc;ncia associada a uma ampla rede de intelectuais e organiza&ccedil;&otilde;es comunistas, associadas ao PCB e pr&oacute;&#45;sovi&eacute;ticas, no Brasil e no exterior. Participou da pol&ecirc;mica Comiss&atilde;o Cient&iacute;fica Internacional que denunciou, em 1952, a utiliza&ccedil;&atilde;o de armas biol&oacute;gicas pelos EUA durante a Guerra da Coreia. Em 1958 viajaria, e tamb&eacute;m se encantaria, com a China de Mao Ts&eacute;&#45;Tung. Suas ideias e a&ccedil;&otilde;es produziram desconfian&ccedil;a e persegui&ccedil;&otilde;es por governos &#150; fossem democr&aacute;ticos ou autorit&aacute;rios, e por organiza&ccedil;&otilde;es da sa&uacute;de internacional, tais como a Funda&ccedil;&atilde;o Rockefeller, que com ele mantinha rela&ccedil;&otilde;es desde a escola de medicina nos anos de 1920. Viveu sempre a tens&atilde;o de, ao mesmo tempo, ser reconhecido nacional e internacionalmente como a voz mais autorizada da medicina brasileira no campo da sa&uacute;de rural e ser questionado e perseguido por suas posi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. O conv&iacute;vio p&uacute;blico entre comunismo e ci&ecirc;ncia n&atilde;o foi pac&iacute;fico. Essa indissociabilidade entre parasitologia m&eacute;dica e marxismo em Samuel Pessoa torna sua trajet&oacute;ria exemplar para a compreens&atilde;o da ci&ecirc;ncia na Guerra Fria e alguns dos resultados do p&oacute;s&#45;1964.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a11img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A recente bibliografia sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar tem chamado apropriadamente a aten&ccedil;&atilde;o sobre as caracter&iacute;sticas novas, dram&aacute;ticas e espec&iacute;ficas das rela&ccedil;&otilde;es entre o regime militar, as universidades e a ci&ecirc;ncia brasileira <I>vis&#45;&agrave;&#45;vis </I>ao per&iacute;odo de experi&ecirc;ncia democr&aacute;tica brasileira, de 1945&#45;64 (9). Como sugere Rodrigo Patto Motta, repress&atilde;o&#45;acomoda&ccedil;&atilde;o/negocia&ccedil;&atilde;o/coopta&ccedil;&atilde;o foram combina&ccedil;&otilde;es presentes no projeto autorit&aacute;rio&#45;modernizador para a universidade brasileira durante o regime militar (10). Esse projeto foi constitu&iacute;do por movimentos pendulares entre esses polos &#150; por vezes coet&acirc;neos, por vezes diacr&ocirc;nicos. Por outro lado, a dimens&atilde;o repressiva, particularmente na primeira d&eacute;cada do regime autorit&aacute;rio, esteve associada a um fen&ocirc;meno de mais longa presen&ccedil;a no Brasil p&oacute;s&#45;1930: o anticomunismo, como ideologia, como pol&iacute;tica governamental e como organizador da pr&aacute;tica policial, que ganhou mais sali&ecirc;ncia com a Guerra Fria (11). &Eacute; precisamente o anticomunismo que parece explicar a primeira onda repressiva sobre a universidade brasileira, em particular, a meu ver, a elei&ccedil;&atilde;o da Faculdade de Medicina e de seu Departamento de Parasitologia como alvos privilegiados.</font></P>     <p><font size="3">O ponto central deste ensaio, com resultados de pesquisa mais ampla em andamento (12), &eacute; indicar que a repress&atilde;o sobre esse grupo e sua principal lideran&ccedil;a &eacute; o cap&iacute;tulo final de quase duas d&eacute;cadas de vigil&acirc;ncia, investiga&ccedil;&otilde;es, interrogat&oacute;rios, pris&otilde;es eventuais e persegui&ccedil;&otilde;es veladas. Estas a&ccedil;&otilde;es podem ser atestadas num expressivo "acervo de vigil&acirc;ncia", como eu denominaria o grande n&uacute;mero de documentos, fichas e prontu&aacute;rios da pol&iacute;cia pol&iacute;tica nos quais o grupo da parasitologia m&eacute;dica da USP &eacute; citado direta ou indiretamente (13). Em particular, sobre Samuel Barnsley Pessoa, sua esposa e tamb&eacute;m militante comunista, D. Jovina Rocha Alves Pessoa, e Luiz Hildebrando Pereira da Silva que trabalhou diretamente com Pessoa desde os anos 1950 e ser&aacute; inscrito invariavelmente na documenta&ccedil;&atilde;o como uma das principais lideran&ccedil;as comunistas, primeiro como estudante e, depois, como professor. Estas d&eacute;cadas de observa&ccedil;&atilde;o policial produziram uma "acumula&ccedil;&atilde;o de conhecimento" pela pol&iacute;cia pol&iacute;tica e atores anticomunistas que pode ganhar materialidade e ser convertida em a&ccedil;&otilde;es repressivas e antidemocr&aacute;ticas a partir do golpe militar de 1964. </font></P>     <p><font size="3">O que estou sugerindo &eacute; que a persegui&ccedil;&atilde;o e puni&ccedil;&atilde;o do regime autorit&aacute;rio a esses ditos "subversivos" foi facilitada e fundamentada nesse "acervo de vigil&acirc;ncia". A esse acervo podem ser somados as not&iacute;cias dos jornais que criticavam a atua&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do cientista Samuel Pessoa, e documentos de ag&ecirc;ncias governamentais vinculadas &agrave; educa&ccedil;&atilde;o superior como, por exemplo, a Coordena&ccedil;&atilde;o de Aperfei&ccedil;oamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes) e financiadores da ci&ecirc;ncia e sa&uacute;de internacional como a Funda&ccedil;&atilde;o Rockefeller, ambas preocupadas com a influ&ecirc;ncia comunista de Pessoa na forma&ccedil;&atilde;o de m&eacute;dicos e cientistas. Samuel Pessoa, sua esposa, e todos os demais foram fichados, suas vidas pessoais e atividades pol&iacute;ticas e profissionais foram acompanhadas e registradas nos prontu&aacute;rios e documentos da pol&iacute;cia pol&iacute;tica, estampadas nos jornais e anotadas em correspond&ecirc;ncias de ag&ecirc;ncias governamentais e internacionais ao longo de quase duas d&eacute;cadas. Essa vigil&acirc;ncia acumulada durante a experi&ecirc;ncia democr&aacute;tica p&oacute;s&#45;1945 pode ser acessada, requisitada e tornada um conjunto de provas, em 1964, dos "atos contra a ordem pol&iacute;tica e social": ser ou ter sido comunista ou simpatizante do PCB ou de grupos de esquerda, uma vez que tamb&eacute;m havia acusados de trotskismo na Faculdade de Medicina, como o professor Thomas Maack.</font></P>     <p><font size="3">Por defini&ccedil;&atilde;o, governos autorit&aacute;rios n&atilde;o precisam de provas nem julgamentos para punir. Contudo, no caso do regime autorit&aacute;rio brasileiro, e de outros na Am&eacute;rica Latina, a luta contra o comunismo foi um dos elementos de sua proclamada legitimidade em tempos de Guerra Fria. Desse modo, depositado nos Deops e em outras institui&ccedil;&otilde;es, esse "acervo de vigil&acirc;ncia" que caracterizava como comunistas esse grupo de professores, em grande parte observado desde que eram alunos de medicina, p&ocirc;de ser apropriada como a narrativa anticomunista &#150; e totalit&aacute;ria no sentido mais amplo de Arendt (14) &#150; que seria conclu&iacute;da "naturalmente" em 1964 com a exclus&atilde;o destes da universidade. </font></P>     <p><font size="3">O cinquenten&aacute;rio do golpe de 1964 ensejou um grande debate sobre os arquivos da repress&atilde;o, sua natureza e estatuto enquanto documentos hist&oacute;ricos e, inclusive, de testemunho dos crimes do regime autorit&aacute;rio (15). H&aacute; uma bibliografia expressiva sobre repress&atilde;o e pol&iacute;cia pol&iacute;tica em torno das experi&ecirc;ncias autorit&aacute;rias brasileiras (Estado Novo e o regime militar) mas &eacute; crescente aquela que aborda o per&iacute;odo 1945&#45;64 (16). Neste caso se trata de informa&ccedil;&otilde;es coletadas, organizadas e armazenadas durante um in&eacute;dito per&iacute;odo de franquias democr&aacute;ticas que tinha como um dos seus limites justamente a ilegalidade do PCB. Isso tornava a vigil&acirc;ncia sobre esse partido e seus membros e simpatizantes grande parte da raz&atilde;o de exist&ecirc;ncia da pol&iacute;cia pol&iacute;tica naquele per&iacute;odo. A l&oacute;gica cumulativa seguiu, na democracia brasileira, basicamente os procedimentos e as rotinas da pol&iacute;cia civil por&eacute;m voltada para os crimes ditos pol&iacute;ticos (17). A trajet&oacute;ria de Samuel Pessoa, de seus alunos e disc&iacute;pulos foi observada sob as lentes do anticomunismo como ideologia de atores individuais e de institui&ccedil;&otilde;es e fez parte da rotina da pol&iacute;cia pol&iacute;tica. Ainda que nas narrativas da pol&iacute;cia pol&iacute;tica e dos inqu&eacute;ritos militares apare&ccedil;am registros de dela&ccedil;&otilde;es feitas em 1964 sobre quem seriam os comunistas na USP &#150; n&atilde;o necessariamente ocorridas ou mesmo verdadeiras &#150;, o que importa &eacute; que essas informa&ccedil;&otilde;es j&aacute; estavam dispon&iacute;veis e acumuladas desde a d&eacute;cada de 1940.</font></P>     <p><font size="3">&Eacute; importante ressaltar que &eacute; imposs&iacute;vel abranger todas as facetas desse processo neste artigo, inclusive aquelas metodol&oacute;gicas sobre a documenta&ccedil;&atilde;o em quest&atilde;o. Todavia, talvez o aspecto mais significativo e exemplar para esta discuss&atilde;o seja o da milit&acirc;ncia comunista dentro e fora da Faculdade de Medicina. </font></P>     <p><font size="3">Samuel Pessoa foi candidato pelo PCB a deputado federal por S&atilde;o Paulo nas elei&ccedil;&otilde;es para a Assembleia Constituinte de 1946. N&atilde;o se elegeu mas, definitivamente, marcou sua presen&ccedil;a no cen&aacute;rio pol&iacute;tico paulista. Essa foi, talvez, sua primeira atividade como filiado do PCB que aparece nos registros dos Deops, parte inicial de um longo prontu&aacute;rio. De certa forma, &eacute; uma informa&ccedil;&atilde;o sempre vinculada ao seu famoso e cr&iacute;tico discurso de paraninfo da turma de formandos de medicina de 1940 que teria marcado sua aproxima&ccedil;&atilde;o com o PCB (18). O inc&ocirc;modo com sua condi&ccedil;&atilde;o de professor e militante comunista j&aacute; aparece nesse per&iacute;odo. Em 11 de janeiro de 1947, portanto antes da proscri&ccedil;&atilde;o do PCB, um documento de agentes do "servi&ccedil;o secreto" do Deops registrou uma ida &agrave; Faculdade de Medicina para "(...) averiguar se de fato o professor Samuel B. Pessoa, (...), instigava seus alunos para seu partido que &eacute; o PCB (...)". Foram informados na portaria da Faculdade, talvez de forma ir&ocirc;nica, que era proibido "instigar pol&iacute;tica" naquela escola "mas que de fato o Sr. Samuel B. Pessoa &eacute; comunista, e tamb&eacute;m os alunos se dividem em dois Partidos (...) o PCB e o PSP" (19).  Em 1950, Samuel Pessoa j&aacute; estava listado como dirigente da c&eacute;lula comunista do Hospital das Cl&iacute;nicas (20). Depois de Pessoa, foi Luiz Hildebrando Pereira da Silva aquele que teve suas a&ccedil;&otilde;es mais vigiadas e registradas, conforme documenta&ccedil;&atilde;o requisitada v&aacute;rias vezes por respons&aacute;veis pelos IPMs de 1964 (21).</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Ainda estudantes de medicina e, depois, assistentes na Faculdade de Medicina, Luiz Hildebrando Pereira da Silva e Victor Nussenzweig foram escrutinados pela pol&iacute;cia pol&iacute;tica. Por exemplo, em 2 janeiro de 1950 um informe tamb&eacute;m do "servi&ccedil;o secreto" indica que Luiz Hildebrando e Victor eram "elementos" que vinham se sobressaindo na c&eacute;lula estudantil do PCB. Naquele momento cursavam o 3º ano de medicina e eram professores da Escola Oswaldo Cruz que preparava alunos para exames de ingresso em diversas faculdades. Nussenzweig, segundo o relato, acabara de ser preso por distribuir retratos de Josef Stalin em comemora&ccedil;&atilde;o ao anivers&aacute;rio do l&iacute;der sovi&eacute;tico (21 de dezembro). N&atilde;o coincidentemente, estudava nessa escola Gil Vital Alves Pessoa, um dos tr&ecirc;s filhos de Samuel e Jovina Pessoa, "conhecidos elementos comunistas", segundo o relato policial. Um informante ouvira que Gil Vital falara a Victor, dias antes do anivers&aacute;rio de Stalin, que "mam&atilde;e mandou dizer que os boletins n&atilde;o ficaram prontos mas amanh&atilde; ela mandar&aacute;" (22). Ambos, Pereira e Nussenzweig, eram recorrentemente anotados por promoverem "desenfreada campanha comunista em meios escolares" nos cursos preparat&oacute;rios (23) e na Faculdade de Medicina. Os v&iacute;nculos com Samuel Pessoa eram assinalados, pois afinal seguiam "a orienta&ccedil;&atilde;o do m&eacute;dico comunista Samuel Barnsley Pessoa" (24). Sobre Nussenzweig comentavam que era "pessoa abastada, rico, o que causa certa estranheza o fato de se entregar de corpo e alma ao credo comunista" (25). J&aacute; Luiz Hildebrando "era filho do engenheiro comunista Melciades Pereira da Silva e irm&atilde;o da comunista Ruth (...)" (26). Esse tipo de observa&ccedil;&atilde;o mais &iacute;ntima, coalhada de preconceitos, &eacute; um padr&atilde;o encontrado nos registros da pol&iacute;cia sobre a atua&ccedil;&atilde;o do casal Samuel e Jovina Pessoa e de Nussenzweig e Luiz Hildebrando e, provavelmente, n&atilde;o diferia de muitos outros relatos. </font></P>     <p><font size="3">Um fato modificou as rela&ccedil;&otilde;es e observa&ccedil;&otilde;es da pol&iacute;cia pol&iacute;tica, da imprensa e de ag&ecirc;ncias governamentais e internacionais sobre Pessoa com consequ&ecirc;ncias de longo prazo. Em 1952, Samuel Pessoa se envolveu diretamente em um epis&oacute;dio crucial e central da Guerra Fria: a den&uacute;ncia feita pelos governos da Coreia do Norte e da Rep&uacute;blica Popular da China de que os Estados Unidos teriam utilizado armas biol&oacute;gicas durante a Guerra da Coreia. Essa acusa&ccedil;&atilde;o chegaria ao topo da agenda internacional e se tornaria um epis&oacute;dio, ainda pouco estudado e muito pol&ecirc;mico, da ci&ecirc;ncia na Guerra Fria. Dada a negativa dos denunciantes, apoiados pela URSS, em aceitar uma comiss&atilde;o de verifica&ccedil;&atilde;o, seja da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de (OMS) ou da Cruz Vermelha, mais aceit&aacute;veis para os EUA e pa&iacute;ses aliados, o Conselho Mundial da Paz, presidido pelo f&iacute;sico e qu&iacute;mico franc&ecirc;s, Fr&eacute;d&eacute;ric Joliot&#45;Curie, Pr&ecirc;mio Nobel de Qu&iacute;mica em 1935 e membro do PC Franc&ecirc;s, nomeou o que seria conhecida por International Scientific Commission for the Investigation of the Facts Concerning Bacterial Warfare in Korea and China (ISC) (27). </font></P>     <p><font size="3">Dado seu prest&iacute;gio como parasitologista e a sua milit&acirc;ncia comunista, inclusive pela lideran&ccedil;a nos movimentos brasileiros pela paz, Samuel Pessoa foi convidado diretamente por Joliot&#45;Curie e pela Academia de Ci&ecirc;ncias da China, que custeou a viagem, para participar dessa comiss&atilde;o em maio de 1952 (28). A ISC foi coordenada pelo j&aacute; ent&atilde;o consagrado sin&oacute;logo e bioqu&iacute;mico brit&acirc;nico Joseph Needham, o &uacute;nico que falava mandarim. Al&eacute;m de Pessoa e Needham, a ISC foi constitu&iacute;da por cientistas como a sueca Andrea Andreen, o franc&ecirc;s Jean Malterre, o italiano Oliviere Olivo e o russo Zhukov&#45;Verezhnikov. D. Jovina Pessoa viajou com a comiss&atilde;o na qualidade de int&eacute;rprete de seu esposo, uma vez que a l&iacute;ngua oficial da ISC seria o franc&ecirc;s. Entre 31 de junho e 23 agosto de 1952, a comiss&atilde;o visitou a Coreia do Norte e a China, teve contato com autoridades coreanas e chinesas, inclusive com seus dirigentes m&aacute;ximos, entrevistou pessoas, inclusive dois pilotos norte&#45;americanos, prisioneiros de guerra, que teriam confessado o lan&ccedil;amento de material biol&oacute;gico sobre territ&oacute;rio coreano e chin&ecirc;s. A comiss&atilde;o produziu um extenso relat&oacute;rio de 660 p&aacute;ginas, divulgado em Beijing em agosto de 1952, no qual confirmaria a "utiliza&ccedil;&atilde;o criminosa de armas biol&oacute;gicas pelas for&ccedil;as norte&#45;americanas", palavras de Pessoa (29).</font></P>     <p><font size="3">O relat&oacute;rio foi considerado uma farsa e instrumento de propaganda, e duramente contestado pelos EUA e aliados. As cr&iacute;ticas eram a parcialidade da ISC, formada por comunistas ou simpatizantes, e pelos limites ao trabalho da comiss&atilde;o impostos e monitorados pelas autoridades coreanas e chinesas. Os membros da ISC, como Joseph Needham, sofreram duras cr&iacute;ticas pessoais e profissionais e experimentaram constrangimentos e o ostracismo, devido a uma campanha que teria sido orquestrada pelos Estados Unidos e pela Inglaterra para descreditar a comiss&atilde;o e suas conclus&otilde;es. Inclusive norte&#45;americanos simpatizantes da comiss&atilde;o e divulgadores do relat&oacute;rio foram processados por trai&ccedil;&atilde;o nos Estados Unidos (30). Farsa comunista ou verdade indigesta? Foi enorme a pol&ecirc;mica que as atividades da comiss&atilde;o e seu relat&oacute;rio geraram.  Debate que continua at&eacute; hoje, em particular depois da abertura dos arquivos sovi&eacute;ticos e do acesso a documentos chineses. Independente da veracidade ou n&atilde;o das alega&ccedil;&otilde;es chinesas e norte&#45;coreanas, confirmadas pela ISC e negadas pelos EUA, importa ressaltar que Samuel Pessoa obteve enorme visibilidade p&uacute;blica por sua participa&ccedil;&atilde;o nesse epis&oacute;dio, al&ccedil;ando&#45;o a uma posi&ccedil;&atilde;o de destaque no movimento antiimperialista e pela paz no Brasil e no exterior. N&atilde;o era mais somente um professor filiado ao clandestino PCB. Como os demais colegas da ISC, Samuel Pessoa tamb&eacute;m se tornou alvo de cr&iacute;ticas e retalia&ccedil;&otilde;es. </font></P>     <p><font size="3">Celebrado em seu retorno ao Brasil pela imprensa popular e comunista, na chamada grande imprensa, da capital federal e de S&atilde;o Paulo, o tom das not&iacute;cias era diferente: pr&oacute;&#45;americano e anticomunista, afinado com o vocabul&aacute;rio da Guerra Fria. <I>O Correio da Manh&atilde; </I>ia direto ao ponto questionando os escolhidos pela "China Sovi&eacute;tica" para fazer parte da comiss&atilde;o: "S&atilde;o simpatizantes do comunismo ou j&aacute; identificados com a causa de Moscou (...) Quanto ao professor Samuel Pessoa n&atilde;o precisa dizer quem &eacute;. Professor de parasitologia da Universidade de S&atilde;o Paulo, acredita nos milagres do comunismo desde 1940" (31). Outro jornal da capital federal, <I>O Globo</I>, buscava desqualificar Samuel Pessoa afirmando que, se ele era comunista, n&atilde;o poderia ser cientista e, somado a isso, sua esposa e dois filhos tamb&eacute;m eram comunistas! (32). A participa&ccedil;&atilde;o de Samuel Pessoa na ISC lhe rendeu aplausos da esquerda e cr&iacute;ticas da grande imprensa e, tamb&eacute;m, uma intima&ccedil;&atilde;o para comparecer ao Dops para dar explica&ccedil;&otilde;es sobre sua viagem. </font></P>     <p><font size="3">Em dezembro de 1952, na esteira de seu envolvimento com os movimentos antiarmamentistas, nacionalistas e comunistas, Samuel Pessoa participaria como delegado brasileiro no Congresso dos Povos pela Paz &#150; Congresso Mundial da Paz, realizado em Viena. Esse evento ganhava import&acirc;ncia internacional devido justamente ao aumento das tens&otilde;es internacionais, a Guerra da Coreia, testes nucleares e as acusa&ccedil;&otilde;es de uso de armas qu&iacute;micas e biol&oacute;gicas. Era tamb&eacute;m uma grande oportunidade para Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica e China e para os PC's de v&aacute;rios pa&iacute;ses mobilizarem popula&ccedil;&otilde;es e trabalhadores em torno de uma agenda pacifista, nacionalista e anti&#45;imperialista e de agendas nacionais espec&iacute;ficas. No caso do PCB, a campanha era para impedir o envio de militares brasileiros para a Coreia, restabelecer rela&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas com a URSS e a China e denunciar os acordos militares com os Estados Unidos, assim como a defesa da cultura brasileira contra a invas&atilde;o de produtos norte&#45;americanos como o cinema, as hist&oacute;rias em quadrinhos e a literatura. A grande imprensa ignoraria por completo o Congresso de Viena enquanto a pol&iacute;cia pol&iacute;tica e os jornais comunistas dariam destaque &agrave; mobiliza&ccedil;&atilde;o brasileira pela paz, ao Congresso e &agrave; participa&ccedil;&atilde;o de brasileiros, em particular, de Samuel Pessoa, al&ccedil;ado &agrave; protagonista devido &agrave; ISC. Nesse processo de envolvimento com a agenda internacionalista, Pessoa passou a dirigir o Movimento Brasileiro dos Partid&aacute;rios da Paz. </font></P>     <p><font size="3">Os constrangimentos impostos pela pol&iacute;cia pol&iacute;tica e pela imprensa tinham, ent&atilde;o, alguns limites dado o prest&iacute;gio cient&iacute;fico e profissional de Samuel Pessoa e pela conjuntura mais democr&aacute;tica que o pa&iacute;s vivia nos anos 1950.  Por&eacute;m, para a Funda&ccedil;&atilde;o Rockefeller, importante financiadora internacional de atividades cient&iacute;ficas e que apoiou o cientista Samuel Pessoa no campo da pesquisa no in&iacute;cio de sua carreira, o comunista Samuel Pessoa tinha ultrapassado os limites ao participar do ISC, um epis&oacute;dio traum&aacute;tico e  marcante na Guerra da Fria. Cabe ressaltar que, exatamente nesse momento, na primeira metade dos anos 1950, as funda&ccedil;&otilde;es filantr&oacute;picas estadunidenses, que tinham isen&ccedil;&atilde;o fiscal, estavam sendo pressionadas e investigadas pelo Congresso dos EUA sobre o poss&iacute;vel financiamento de comunistas e de "antiamericanos", pela chamada Comiss&atilde;o Cox&#45;Reece (33).</font></P>     <p><font size="3">Um coment&aacute;rio em linguagem crua da Guerra Fria, de Robert Briggs Watson, parasitologista e malariologista e respons&aacute;vel pelos programas da Funda&ccedil;&atilde;o Rockefeller  no Brasil entre 1954&#45;1962, atesta que a funda&ccedil;&atilde;o acompanhava e se preocupava com as atividades pol&iacute;ticas de Pessoa: "P. foi para a China na comiss&atilde;o da 'guerra bacteriol&oacute;gica', prostituindo assim sua inquestion&aacute;vel capacidade cient&iacute;fica como parasitologista e invalidando&#45;a com a sua cren&ccedil;a pol&iacute;tica" (34). O discurso anticomunista de Watson, escrito na intimidade de uma correspond&ecirc;ncia para seus superiores em Nova Iorque e anotado em fichas individuais de cada um dos ex&#45;bolsistas da Funda&ccedil;&atilde;o Rockefeller, era extensivo aos alunos formados por Pessoa: "P. tem sido influente durante anos na forma&ccedil;&atilde;o de jovens, n&atilde;o s&oacute; em parasitologia, mas em atividades pol&iacute;ticas subversivas. Embora (...) agora aposentado, sua influ&ecirc;ncia ainda &eacute; muito sentida no pa&iacute;s". O coment&aacute;rio revela inc&ocirc;modo com os jovens professores membros de uma "escola de parasitologia e comunismo" liderada por Samuel Pessoa, que poderiam estar recebendo, direta ou indiretamente, recursos da Rockefeller (35).</font></P>     <p><font size="3">Em 1956, a Funda&ccedil;&atilde;o Rockefeller teria sido consultada sobre a possibilidade de Samuel Pessoa, j&aacute; aposentado da USP, ocupar uma posi&ccedil;&atilde;o na Escola de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que tinha muitas atividades de ensino e pesquisa por ela apoiadas. Watson informava, em junho de 1956, que a "RF (Funda&ccedil;&atilde;o Rockefeller) n&atilde;o aprova P. nem dar&aacute; apoio a ele (...)", e que essa nomea&ccedil;&atilde;o poderia amea&ccedil;ar, inclusive, o financiamento &agrave; Escola de Medicina. Em correspond&ecirc;ncia trocada sobre o caso, entre Watson, seus superiores e o pr&oacute;prio presidente da funda&ccedil;&atilde;o, Dean Rusk (mais tarde secret&aacute;rio de Estado nas administra&ccedil;&otilde;es John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson), fica evidente que fizeram chegar, indiretamente, ao governo brasileiro a informa&ccedil;&atilde;o de que a nomea&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seria bem recebida. O anticomunismo exponenciado pela Guerra Fria pesou sobre Samuel Pessoa e sobre alguns de seus alunos. O veto a qualquer apoio a Victor Nussenzweig &eacute; expl&iacute;cito, por exemplo, em notas de janeiro de 1958 no di&aacute;rio do pr&oacute;prio Watson (36). Para a Funda&ccedil;&atilde;o Rockefeller, os reconhecidos atributos cient&iacute;ficos de Pessoa e de seus alunos n&atilde;o mais os absolviam de seu profundo envolvimento com organiza&ccedil;&otilde;es comunistas internacionais. O veto a Pessoa foi bem&#45;sucedido: "P. n&atilde;o conseguiu a posi&ccedil;&atilde;o", comentou Watson (37). E a Funda&ccedil;&atilde;o Rockefeller n&atilde;o estava sozinha nesse cerco pol&iacute;tico e acad&ecirc;mico a Samuel Pessoa e seu grupo na segunda metade dos anos 1950. A Capes &eacute; mencionada em correspond&ecirc;ncia interna da funda&ccedil;&atilde;o como desejosa de "estabelecer um centro de treinamento em parasitologia em Bel&eacute;m para contrabalan&ccedil;ar a influ&ecirc;ncia de Samuel Pessoa" e teria solicitado apoio &agrave; Funda&ccedil;&atilde;o Rockefeller (38). Esta decide dar apoio a viagens de estudo e pesquisa em centros internacionais de parasitologia a professores da Faculdade de Medicina do Par&aacute;, escolhida porque estaria mais afastada do circuito de influ&ecirc;ncia de Pessoa e seus alunos (39).</font></P>     <p><font size="3">Retorno ao ato final pelo qual iniciei este ensaio. O ponto central &eacute; sugerir que se o expurgo no Departamento de Parasitologia da Faculdade de Medicina foi poss&iacute;vel pelas condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico&#45;institucionais implantadas pelo regime militar, tamb&eacute;m o foi porque havia diversas a&ccedil;&otilde;es e narrativas sendo constitu&iacute;das e acumuladas sobre Samuel Barnsley Pessoa, seus alunos e colaboradores desde os anos 1940. Todas elas apontavam para a associa&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia, medicina e milit&acirc;ncia comunista como um problema e para a necessidade de conter ou contrabalan&ccedil;ar a influ&ecirc;ncia de Pessoa. Em mar&ccedil;o de 1964 acreditou&#45;se que seria poss&iacute;vel elimin&aacute;&#45;la definitivamente. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i>Este artigo &eacute; dedicado a Luiz Hildebrando Pereira da Silva (1928&#45;2014), cientista e militante.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Gilberto Hochman</b> &eacute; pesquisador da Fiocruz e professor do Programa de P&oacute;s&#45;Gradua&ccedil;&atilde;o em Hist&oacute;ria das Ci&ecirc;ncias e da Sa&uacute;de/COC/Fiocruz. &Eacute; pesquisador do CNPq e autor, entre outros, de</i> A era do saneamento: as bases da pol&iacute;tica de sa&uacute;de p&uacute;blica no Brasil<I>, S&atilde;o Paulo, Hucitec, 2012, 3ª. edi&ccedil;&atilde;o.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1.  Apesp/Deops/Pasta OS 1937/documento com nº 4287.    </font></P>     <p><font size="3">2.  H&aacute; muita imprecis&atilde;o na carta como grafias erradas de nomes, alguns dos denunciados n&atilde;o tinham v&iacute;nculos formais com a Faculdade Medicina, entre eles o caso das mulheres, que trabalhavam muitas vezes com os esposos. </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">3.  Apesp/Deops/Pasta_30_Z_135/documento com nº 48.     Os &uacute;nicos nomes adicionados nessa lista foram os de Walter Coli e Isaias Raw al&eacute;m de alguns c&ocirc;njuges. Os demais s&atilde;o Antonio Dacio Franco do Amaral e sua esposa Carmem do Amaral; Dacio Franco do Amaral Filho; Luiz Rey e sua esposa Dora Rey; Leonidas Mello Deane; Erney Fel&iacute;cio Plessman de Camargo; Luiz Hildebrando Pereira da Silva e Eva Pereira da Silva; Victor Nussenzweig; Ruth Nussenzweig; Rado Guimar&atilde;es e sua esposa Eny Guimar&atilde;es; Thomas Maack; Maur&iacute;cio Rocha e Silva, Filho; Kurt Kloetzel; Michel Pinkus Rabinovitch; Pedro Henrique Saldanha; Jos&eacute; Carlos Maia; Maria Paumgarten Deane; Minna Haussman; Judith Kloetzel; Nelson Rodrigues dos Santos; Elza Berqu&oacute;; Joelson Amado. O nome de Jos&eacute; O. Coutinho foi retirado dessa segunda lista. Nem todos os listados foram indiciados.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">4.  Apesp/Deops/OS&#45;1938. A lista com os funcion&aacute;rios do HC fichados foi remetida &agrave; SSP pelo delegado titular do Dops, Ald&aacute;rio Tinoco, em 27 de abril de 1964.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">5.  Adusp. <i>O controle ideol&oacute;gico na USP (1964&#45;1978)</i>. S&atilde;o Paulo, Adusp, 2004.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">6.  Hochman, G; Paiva, C H. A. "Parasitology and communism: public health and politics in Samuel Barnsley Pessoa". In: Necochea, R.; Birn, A&#45;E (eds). <i>Public health and cold war in Latin America.</i> Rochester, University of Rochester Press (in press).    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">7.  Pessoa, S. B. <i>Parasitologia m&eacute;dica</i>. S&atilde;o Paulo, Editora Renascen&ccedil;a, 1946.     As edi&ccedil;&otilde;es a partir de meados dos anos 1970 passaram a ser em coautoria com Amilcar Vianna Martins, importante parasitologista de Minas Gerais, l&iacute;der do que seria uma "escola mineira de parasitologia", tamb&eacute;m filiado ao PCB e aposentado compulsoriamente em 1969. </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">8.  Pessoa, S. B. <i>Ensaios m&eacute;dico&#45;sociais</i>. Rio de Janeiro: Editora Guanabara&#45;Koogan, 1960.     </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">9.  Motta, R. P. S. <i>As universidades e o regime militar. Cultura pol&iacute;tica brasileira e moderniza&ccedil;&atilde;o autorit&aacute;ria</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2014.    </font></P>     <p><font size="3">10.  Op. cit. pp.17&#45;18.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">11.  Motta, R.P.S. <i>Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil</i>. S&atilde;o Paulo: Editora Perspectiva/Fapesp, 2002.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">12.  Projeto Pol&iacute;ticas de Sa&uacute;de, Democracia e Desenvolvimento no Brasil, 1945&#45;1964 (PQ/CNPq n. 311700/2013&#45;6)</font><!-- ref --><p><font size="3">13.  Acervo dos Deops no Arquivo P&uacute;blico do Estado de S&atilde;o Paulo e no Arquivo P&uacute;blico do Estado do Rio de Janeiro.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">14.  Arendt, H. <i>As origens do totalitarismo</i>. S&atilde;o Paulo, Companhia das Letras, 1989.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">15.  Projeto Mem&oacute;rias Reveladas, <a href="http://www.memoriasreveladas.gov.br/" target="_blank">www.memoriasreveladas.gov.br/</a> acesso em 5/09/2014.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">16.  Aperj. Dops: <i>A l&oacute;gica da desconfian&ccedil;a</i>. Rio de Janeiro: Secretaria de Estado de Justi&ccedil;a; Arquivo P&uacute;blico do Estado, 1996, 2ª. edi&ccedil;&atilde;o;    <!-- ref --> Reznik, L. <i>Democracia e seguran&ccedil;a nacional: a pol&iacute;cia pol&iacute;tica no p&oacute;s&#45;guerra</i>. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2004.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">17.  Aperj. <i>A contradita: pol&iacute;cia pol&iacute;tica e comunismo no Brasil: 1945&#45;1964: entrevistas com Cecil Borer, H&eacute;rcules Corr&ecirc;a dos Reis, Jos&eacute; de Moraes e Nilson Ven&acirc;ncio</i>. Rio de Janeiro: Arquivo P&uacute;blico do Estado do Rio de Janeiro, 2000.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">18.  Apesp/Dops/Pasta_30_Z_135/doc 10.    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">19.  Apesp/Dops/Pasta30_C_1/doc 1467.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">20.  Apesp/Dops/OS&#45;1920/doc 2377.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">21.  Apesp/Dops/Pasta_30_Z_135.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">22.  Apesp/Dops/Pasta_30_C_1/documentos com n.3795&#45;3794 de 2/1/1950</font><!-- ref --><p><font size="3">23.  Apesp/Dops/Pasta_30_Z_135/documento datado de 3/11/1953</font><!-- ref --><p><font size="3">24.  Apesp/Dops/Pasta_30_Z_135/documento com n.54, p.2</font><!-- ref --><p><font size="3">25.  Apesp/Dops/Pasta_30_Z_135/documento 7, datado de 3/11/1953</font><!-- ref --><p><font size="3">26.  Apesp/Dops/Pasta_30_Z_135/documento 10, datado de 2/6/1964</font><!-- ref --><p><font size="3">27.  Comiss&atilde;o Cient&iacute;fica Internacional para a Investiga&ccedil;&atilde;o sobre os fatos relacionados &agrave; Guerra Bacteriana na Coreia e China.     </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">28.  Cartas convites datadas de 8 e 10 de maio de 1952 est&atilde;o no Arquivo Samuel Barnsley Pessoa, Centro de Apoio &agrave; Pesquisa em Hist&oacute;ria (CAPH), Departamento de Hist&oacute;ria, USP.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">29.  Pessoa, S. B.. "A guerra bacteriol&oacute;gica e o Congresso dos Povos pela Paz". In: <i>Estudos m&eacute;dico&#45;sociais</i>, op. cit. 322&#45;26, p.325.    <!-- ref --> Sobre a ISC e a pol&ecirc;mica por ela gerada ver  Endicott, S.; Hagerman, E.. <i>The United States and biological warfare: secrets from the early cold war and Korea</i>. Bloomington: Indiana University Press, 1998;    <!-- ref --> Leitenberg, M. "False allegations of U.S. Biological weapons use during the Korean War," in Clunan, A. L., Lavoy, P. R.; Martin, S. B. (eds), <i>Terrorism, war, or disease? Unraveling the use of biological weapons</i>. Palo Alto: Stanford University Press, 2008.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">30.  Buchanan, T. "The courage of Galileo: Joseph Needham and the 'germ warfare' allegations in the Korean War". <i>History 86</i>, 284 (2001): 503&#45;22;    <!-- ref --> O'Brien, N. L. <i>An American editor in early revolutionary China: John William Powell and the China Weekly/Monthly Review</i>. New York: Routledge, 2003.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">31. <i>O Correio da Manh&atilde;</i>, 17/09/1952, p.4.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">32. <i>O Globo</i>, 24/9/1052, p.1 e 9.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">33.  Mueller, T. B. "The Rockefeller Foundation, the social sciences, and the humanities in the Cold War", <i>Journal of Cold War Studies</i>, 15, n.3 (2013): 108&#45;135</font><!-- ref --><p><font size="3">34.  Rockefeller Archive Center/RF/RG 10.2 Fellowship Cards/Box MNS/Folder Brazil/Pessoa, Samuel B.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">35.  Rockefeller Archive Center/RF/RG 10.2 Fellowship Cards/Box MNS/Folder Brazil/Pessoa, Samuel B.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">36.  Rockefeller Archive Center/RG 12. Officer's Diaries. Watson, Robert Briggs (1956&#45;1960), box 496, p. 196.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">37.  Rockefeller Archive Center/RG 10.2 Fellowship Cards/Box MNS/Folder Brazil/Pessoa, Samuel B.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">38.   Rockefeller Archive Center/RF 2&#45;1956, series 300, box 51, folder 334.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">39.  Rockefeller Archive Center/RF 1.2, series 305&#45;A, box 5, folder 36.    </font></P>      ]]></body><back>
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