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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ditadura militar, universidade e ensino de história: da Universidade do Brasil à UFRJ]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="CENTER"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/artigos.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>Ditadura militar, universidade e ensino de hist&oacute;ria:  da Universidade do Brasil  &agrave; UFRJ</b></font></P>     <P><font size="3">Marieta de Moraes Ferreira</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size="3"> <font size=5><b>E</b></font>m 2014, a implanta&ccedil;&atilde;o do regime militar no pa&iacute;s completou 50 anos. Neste ano, in&uacute;meros tem sido os eventos, semin&aacute;rios, publica&ccedil;&otilde;es dedicados a analisar e produzir balan&ccedil;os sobre os 21 anos de vig&ecirc;ncia da ditadura militar. A proposta deste artigo insere&#45;se neste esfor&ccedil;o ao se propor focalizar os embates pol&iacute;ticos e historiogr&aacute;ficos travados no curso de hist&oacute;ria da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (FNFi/UB) (1958&#45;1968), bem como os efeitos provocados pela repress&atilde;o desencadeada pela ditadura militar no Brasil que atingiu seus  professores e alunos. </font></P>     <p><font size="3">Esta tem&aacute;tica oferece possibilidades te&oacute;ricas e metodol&oacute;gicas para encararmos os desafios de entender o percurso desse campo disciplinar num momento de grandes transforma&ccedil;&otilde;es, bem como as problem&aacute;ticas que caracterizam a hist&oacute;ria do tempo presente. Lidar com os eventos e os atores que participaram dessa hist&oacute;ria &eacute; uma oportunidade para exercitarmos nossa capacidade cr&iacute;tica de avaliar interpreta&ccedil;&otilde;es marcadas por mem&oacute;rias traum&aacute;ticas, fontes policiais, fortemente comprometidos com posicionamentos ideol&oacute;gicos polarizados e radicais.</font></P>     <p><font size="3">Para tal, tomamos como refer&ecirc;ncia um conjunto diversificado de fontes que nos permitissem recuperar eventos desse passado recente marcado pela emo&ccedil;&atilde;o e pela subjetividade. Um ponto de partida importante para a pesquisa foi a entrevista realizada em 1994, com Maria Yeda Linhares, catedr&aacute;tica de hist&oacute;ria moderna e contempor&acirc;nea, v&iacute;tima da repress&atilde;o, que serviu de roteiro inicial para, em anos posteriores, orientar a realiza&ccedil;&atilde;o de outras entrevistas feitas com antigos alunos e professores.</font></P>     <p><font size="3">Embora produzidas em contextos e com objetivos distintos, as entrevistas t&ecirc;m um eixo comum que focaliza a trajet&oacute;ria dos depoentes, as suas origens familiares, sua forma&ccedil;&atilde;o profissional, sua op&ccedil;&atilde;o pela &aacute;rea de hist&oacute;ria, a doc&ecirc;ncia na FNFi, e sua experi&ecirc;ncia como alunos daquela faculdade. A escolha dos entrevistados teve um objetivo claro: obter depoimentos de ex&#45;alunos e professores de diferentes gera&ccedil;&otilde;es que pudessem recuperar eventos e momentos diversos do curso de hist&oacute;ria da FNFi e do IFCS (1).</font></P>     <p><font size="3">Ao lado da coleta da mem&oacute;ria oral, o acervo da pr&oacute;pria FNFi tamb&eacute;m forneceu material que nos ajudou a conhecer a estrutura dos cursos e as grades curriculares, os boletins do Centro de Estudos de Hist&oacute;ria foram especialmente de grande valia para mapear os conflitos pol&iacute;ticos e historiogr&aacute;ficos em pauta no curso de hist&oacute;ria, para os anos de 1958&#45;1963. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Por fim, de grande import&acirc;ncia foram tamb&eacute;m os arquivos do Departamento de Ordem Pol&iacute;tica e Social (Dops), nos quais foram localizados dossi&ecirc;s dos professores e alunos e, em especial, um dossi&ecirc; dedicado &agrave; FNFi. Esse acervo, ao mesmo tempo rico e perigoso, que exige extremo cuidado do pesquisador, re&uacute;ne informa&ccedil;&otilde;es que permitem esclarecer, confrontar, questionar os dados relatados pelos depoimentos orais.</font></P>     <p><font size="3">A Faculdade Nacional de Filosofia, e, em particular, o curso de hist&oacute;ria passariam por grandes transforma&ccedil;&otilde;es na virada dos anos 1950. Criado em 1939, vinculado &agrave; Universidade do Brasil, o projeto da Faculdade de Filosofia visava &agrave; consolida&ccedil;&atilde;o de uma universidade&#45;padr&atilde;o que servisse de modelo para as outras que viessem a se constituir, e tinha por objetivo priorit&aacute;rio preparar candidatos ao magist&eacute;rio do ensino secund&aacute;rio e normal. </font></P>     <p><font size="3">A FNFi estava organizada em quatro se&ccedil;&otilde;es fundamentais: de Filosofia, de Ci&ecirc;ncias, de Letras e de Pedagogia. Haveria, ainda, uma se&ccedil;&atilde;o especial de Did&aacute;tica. Hist&oacute;ria e geografia, entre outros cursos, eram unificados e ligavam&#45;se &agrave; se&ccedil;&atilde;o de Ci&ecirc;ncias que s&oacute; seria desmembrada a partir de 1955. A institucionaliza&ccedil;&atilde;o do curso de hist&oacute;ria na FNFi foi fortemente influenciada pela concep&ccedil;&atilde;o de uma hist&oacute;ria pol&iacute;tica, dominante na &eacute;poca, destinada a refor&ccedil;ar os la&ccedil;os da identidade brasileira por meio da &ecirc;nfase na unidade nacional e no papel dos grandes her&oacute;is como construtores da na&ccedil;&atilde;o (2).</font></P>     <p><font size="3">Com a separa&ccedil;&atilde;o do curso de hist&oacute;ria e geografia em dois departamentos distintos abriu&#45;se espa&ccedil;o para uma maior oxigena&ccedil;&atilde;o do curso de hist&oacute;ria, com uma mudan&ccedil;a curricular e a introdu&ccedil;&atilde;o de novas disciplinas. Paralelamente, uma gera&ccedil;&atilde;o mais nova de professores come&ccedil;ou a ocupar posi&ccedil;&otilde;es. Ainda nesse mesmo ano, a jovem Maria Yedda Linhares fez concurso para ocupar a c&aacute;tedra de hist&oacute;ria moderna e contempor&acirc;nea. Em 1958, Eul&aacute;lia Lobo assumiu o posto de regente da cadeira de hist&oacute;ria da Am&eacute;rica e novos assistentes tamb&eacute;m passaram a ser incorporados em v&aacute;rias disciplinas.</font></P>     <p><font size="3"><b>LUTAS POL&Iacute;TICAS E EMBATES HISTORIOGR&Aacute;FICOS</b> A conjuntura que se inaugurou no final dos anos 1950, no Brasil, foi marcada por um processo de radicaliza&ccedil;&atilde;o dos movimentos sociais, criando uma polariza&ccedil;&atilde;o entre esquerda e direita. Delineava&#45;se um contexto pol&iacute;tico de grande mobiliza&ccedil;&atilde;o contra o comunismo e contra a revolu&ccedil;&atilde;o cubana. Essas quest&otilde;es, dominantes na conjuntura internacional, promoviam uma grande polariza&ccedil;&atilde;o e confronto entre os pa&iacute;ses ocidentais capitalistas e os pa&iacute;ses comunistas, e exacerbavam internamente as posi&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas em conflito.</font></P>     <p><font size="3">Especialmente na virada para a d&eacute;cada de 1960, esse processo de mudan&ccedil;as se aprofundou com a radicaliza&ccedil;&atilde;o e a polariza&ccedil;&atilde;o das lutas pol&iacute;ticas que se instalaram no Brasil em virtude do embate pol&iacute;tico ideol&oacute;gico frente aos eventos marcantes do governo do presidente Jo&atilde;o Goulart, tais como o programa para a reforma agr&aacute;ria, a revolta dos sargentos, a pol&iacute;tica externa independente, o com&iacute;cio da Esta&ccedil;&atilde;o Central do Brasil, no Rio de Janeiro,, para citar apenas alguns pontos (3).</font></P>     <p><font size="3">Todos os debates que esses temas envolviam repercutiam intensamente na FNFi e, em especial, no curso de hist&oacute;ria. Se, nos anos anteriores, as diferentes concep&ccedil;&otilde;es de hist&oacute;ria e as vis&otilde;es divergentes sobre o formato dos cursos e as rela&ccedil;&otilde;es entre ensino e pesquisa j&aacute; se delineavam, a nova conjuntura de intensos debates sobre o lugar da universidade e o uso do ensino de hist&oacute;ria como instrumento de transforma&ccedil;&atilde;o social provocou, cada vez mais, uma cis&atilde;o entre alunos e professores, e entre os pr&oacute;prios professores (2).</font></P>     <p><font size="3">A cadeira de hist&oacute;ria do Brasil, ocupada por H&eacute;lio Vianna, tinha uma postura conservadora, e sua orienta&ccedil;&atilde;o voltava&#45;se para a hist&oacute;ria pol&iacute;tica e, principalmente, a hist&oacute;ria diplom&aacute;tica. </font></P>     <p><font size="3">A hist&oacute;ria do Brasil colonial recebia aten&ccedil;&atilde;o especial, e as tem&aacute;ticas republicanas ficavam completamente secundarizadas; a abordagem historiogr&aacute;fica era marcada por uma supervaloriza&ccedil;&atilde;o dos eventos e dos grandes personagens, sem que a dimens&atilde;o econ&ocirc;mica fosse trabalhada segundo depoimentos de ex&#45;alunos de v&aacute;rias gera&ccedil;&otilde;es, e eram profundamente enfadonhas, exclusivamente expositivas, com relatos factuais minuciosos. N&atilde;o havia nenhum est&iacute;mulo &agrave; pesquisa, nem com fontes, nem com bibliografia (4).</font></P>     <p><font size="3">Enquanto o catedr&aacute;tico de hist&oacute;ria do Brasil veiculava uma hist&oacute;ria voltada para o passado distante, com &ecirc;nfase na hist&oacute;ria pol&iacute;tica, em especial na valoriza&ccedil;&atilde;o do processo de constru&ccedil;&atilde;o da unidade nacional e no destaque do papel dos grandes personagens do pante&atilde;o nacional, a cadeira de hist&oacute;ria moderna e contempor&acirc;nea passou a privilegiar o estudo de per&iacute;odos mais recentes, com temas sobre hist&oacute;ria da &Aacute;frica, descoloniza&ccedil;&atilde;o, as revolu&ccedil;&otilde;es comunistas, e a funcionar como um espa&ccedil;o de debate e cr&iacute;tica, o que n&atilde;o era comum nas outras cadeiras do curso (4).</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Os alunos se identificavam, cada vez mais, com as for&ccedil;as de esquerda, e desejavam um curso que incorporasse a produ&ccedil;&atilde;o do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), entidade de orienta&ccedil;&atilde;o de esquerda, e novas tem&aacute;ticas como as lutas sociais no Brasil (5).</font></P>     <p><font size="3">Ao mesmo tempo em que se delineava uma reestrutura&ccedil;&atilde;o das organiza&ccedil;&otilde;es de esquerda, novas orienta&ccedil;&otilde;es e novos grupos surgiam no pa&iacute;s com tend&ecirc;ncias pol&iacute;ticas mais radicais. A penetra&ccedil;&atilde;o do Partido Comunista no meio estudantil, ainda que dominante, come&ccedil;ava a suscitar cr&iacute;ticas e estimular a aproxima&ccedil;&atilde;o com outras orienta&ccedil;&otilde;es de esquerda. A crescente mobiliza&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores, tanto nas cidades quanto no campo, reivindicando n&atilde;o s&oacute; melhorias salariais, como tamb&eacute;m mudan&ccedil;as na estrutura desigual da sociedade, provocavam est&iacute;mulos para que os estudantes universit&aacute;rios se engajassem de forma mais efetiva nas lutas sociais.</font></P>     <p><font size="3">O posicionamento defendido pelos estudantes engajados nas lutas sociais do presente e comprometidos com a necessidade de compreens&atilde;o do mundo contempor&acirc;neo a partir de uma perspectiva brasileira conduzia a uma postura segundo a qual o curso de hist&oacute;ria deveria se envolver com os problemas da atualidade, e o conhecimento hist&oacute;rico deveria apresentar explica&ccedil;&otilde;es e poss&iacute;veis solu&ccedil;&otilde;es (6; 7). Para que o ensino de hist&oacute;ria pudesse ser revisto, a forma&ccedil;&atilde;o do profissional deveria tamb&eacute;m ser modificada. Os livros did&aacute;ticos teriam que dar maior aten&ccedil;&atilde;o ao estudo da hist&oacute;ria recente do Brasil.</font></P>     <p><font size="3">O depoimento de Pedro Celso Uchoa Cavalcanti (8), diretor do Centro de Estudos de Hist&oacute;ria em 1962, expressa com clareza os anseios daqueles jovens universit&aacute;rios: "Para a minha gera&ccedil;&atilde;o, para n&oacute;s de esquerda, tinham tr&ecirc;s autores de hist&oacute;ria: o Caio Prado Jr., o Nelson Werneck Sodr&eacute; e o Celso Furtado. O resto n&atilde;o tinha import&acirc;ncia".</font></P>     <p><font size="3">Com essa perspectiva, os alunos do curso de hist&oacute;ria ligados ao Centro de Estudos de Hist&oacute;ria rejeitavam os ensinamentos ministrados na maioria das disciplinas oferecidas no curso (com a exce&ccedil;&atilde;o da cadeira hist&oacute;ria moderna e contempor&acirc;nea), e passavam a ser envolver com o Iseb e a planejar, sob a orienta&ccedil;&atilde;o do marxista Nelson Werneck, a produ&ccedil;&atilde;o de uma cole&ccedil;&atilde;o de livros did&aacute;ticos que veio a se chamar "Hist&oacute;ria Nova" (9).</font></P>     <p><font size="3">Com essa orienta&ccedil;&atilde;o, teve in&iacute;cio a produ&ccedil;&atilde;o dessa cole&ccedil;&atilde;o de livros did&aacute;ticos, que tinha o prop&oacute;sito de levar para a educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica outra vis&atilde;o da hist&oacute;ria, na qual a dimens&atilde;o econ&ocirc;mica e as lutas sociais desempenhavam um papel&#45;chave. Assim, ainda que professores como Maria Yeda, com um posicionamento de esquerda, discordassem da concep&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;ria de Nelson Werneck Sodr&eacute;, a penetra&ccedil;&atilde;o de suas ideias e das teses marxistas ganhava espa&ccedil;o no FNFi em aberto confronto com as vis&otilde;es h&aacute; anos transmitidas pelos catedr&aacute;ticos de hist&oacute;ria do Brasil e hist&oacute;ria da Am&eacute;rica.</font></P>     <p><font size="3">A intensifica&ccedil;&atilde;o do engajamento cada vez maior de alunos e tamb&eacute;m de professores nos embates pol&iacute;ticos travados nos &uacute;ltimos meses do governo Goulart, acerca do papel da universidade de maneira geral, do curso de hist&oacute;ria e dos usos do ensino de hist&oacute;ria como instrumento de transforma&ccedil;&atilde;o social provocou, cada vez mais, uma cis&atilde;o entre alunos e professores, e entre os pr&oacute;prios professores. Os acontecimentos do ano de 1963 foram especialmente importantes nesse processo, ao provocar uma maior radicaliza&ccedil;&atilde;o e um aprofundamento das dissens&otilde;es pol&iacute;ticas na FNFi. Nas palavras de Arthur Poerner (10) a FNFi, de 1960 a 1964, foi uma esp&eacute;cie de "escal&atilde;o avan&ccedil;ado do movimento estudantil", sendo vista como a mais politizada das universidades brasileiras.</font></P>     <p><font size="3"><b>A FNFI NO FOCO DA REPRESS&Atilde;O</b> Nos primeiros meses de 1964, a despeito da resist&ecirc;ncia do Congresso em avan&ccedil;ar na aprova&ccedil;&atilde;o das reformas de base, Goulart decidiu implementar a reforma agr&aacute;ria, adotando como estrat&eacute;gia mobilizar a popula&ccedil;&atilde;o para pressionar o Parlamento. Em 13 de mar&ccedil;o de 1964, o com&iacute;cio da Central foi um divisor de &aacute;guas nesse processo. Evidentemente, alunos e muitos professores da FNFi participaram ativamente desses momentos finais do governo Goulart, acreditando que a revolu&ccedil;&atilde;o socialista estava por vir. O desfecho dessa hist&oacute;ria &eacute; conhecido.</font></P>     <p><font size="3">Em 31 de mar&ccedil;o de 1964, o golpe militar decretou o fim do governo Goulart, desencadeando forte repress&atilde;o contra as for&ccedil;as de esquerda.</font></P>     <p><font size="3">Na FNFi e no curso de hist&oacute;ria, os epis&oacute;dios que se seguiram foram traum&aacute;ticos e condicionaram, de forma intensa, a mem&oacute;ria das d&eacute;cadas posteriores. Logo nos primeiros momentos, Eremildo Viana, ajudado por tropas militares, ocupou a R&aacute;dio MEC, ent&atilde;o dirigida por Maria Yedda Linhares, a pretexto de que l&aacute; existia um foco de agita&ccedil;&atilde;o e estavam armazenadas armas para desencadear atos subversivos. Nas semanas que se seguiram, Maria Yedda foi afastada, e Eremildo Viana passou a ocupar seu lugar. Esse epis&oacute;dio marcou profundamente o curso de hist&oacute;ria, seus alunos e professores, que passaram a encarar Eremildo como o respons&aacute;vel por todo o processo de repress&atilde;o que se seguiu. Maria Yeda Linhares referindo&#45;se a esse epis&oacute;dio relatou: "A hist&oacute;ria da tomada da R&aacute;dio MEC, ficou c&eacute;lebre. A partir da&iacute; fui alvo de in&uacute;meras investiga&ccedil;&otilde;es, se n&atilde;o me engano foram sete IPMs. Fui muito perseguida, foram os momentos mais dif&iacute;ceis da minha vida" (11).</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Nos meses seguintes, v&aacute;rios Inqu&eacute;ritos Policiais Militares (IPMs) foram abertos para apurar a infiltra&ccedil;&atilde;o comunista na FNFi, e professores foram acusados e presos, enquanto alunos eram expulsos.</font></P>     <p><font size="3">De acordo com os dossi&ecirc;s produzidos pelos &oacute;rg&atilde;os de seguran&ccedil;a, na FNFi funcionava uma c&eacute;lula comunista que reunia v&aacute;rios professores. As informa&ccedil;&otilde;es reunidas nesses dossi&ecirc;s recuperam eventos e personagens que atuaram na FNFi a partir de 1958, e uma figura destacada nas den&uacute;ncias feitas por Eremildo, mas tamb&eacute;m mencionada em outros relatos, &eacute; a de Maria Yeda Linhares. </font></P>     <p><font size="3">Segundo essa documenta&ccedil;&atilde;o, que pretendia fazer um hist&oacute;rico das a&ccedil;&otilde;es da esquerda na FNFi, reunindo documentos relativos a diferentes momentos, Maria Yedda Linhares era tida "como comunista fan&aacute;tica", "perigosa" como "propagandista de ideias extremistas" e acusada de "ter convidado para seus instrutores dois comunistas conhecidos que (...) induzem os alunos &agrave; indisciplina para com os professores democratas" (12) </font></P>     <p><font size="3">Ainda segundo essa documenta&ccedil;&atilde;o, Maria Yeda, mantinha &iacute;ntimas liga&ccedil;&otilde;es com Jo&atilde;o Christov&atilde;o Cardoso (catedr&aacute;tico de f&iacute;sico&#45;qu&iacute;mica), Darcy Ribeiro, Osvaldo Hurbster de Gusm&atilde;o e &Aacute;lvaro Vieira Pinto. Sua atua&ccedil;&atilde;o "por ordem da c&eacute;lula comunista, era aliciar os alunos do curso de filosofia &#150; quatro deles (Wanderlei Guilherme dos Santos, Carlos Estevam Martins, Alberto Coelho de Souza e Fausto Guimar&atilde;es Cupertino)" e "disseminar ideias de subvers&atilde;o contra o ent&atilde;o chefe do Departamento de Filosofia, o Sr. Prof. Nilton Campos" (12). "E assim come&ccedil;ou o grande motim na FNFi, que culminou em imoralidade por aquela professora que foi acusada, em inqu&eacute;rito, de acobertar atividades indecorosas  dos alunos. (...) Nomeada pelo ministro Paulo de Tarso diretora da R&aacute;dio MEC, por indica&ccedil;&atilde;o de Darcy Ribeiro, tinha como objetivo de utilizar&#45;se da radiodifus&atilde;o para disseminar as ideias que prega na Faculdade" (12).</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a12img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Constituindo&#45;se a FNFi e alguns de seus professores, na vis&atilde;o dos &oacute;rg&atilde;os de seguran&ccedil;a, em um antro de comunistas e de perigosos extremistas, seria um alvo preferencial da repress&atilde;o. A "ca&ccedil;a &agrave;s bruxas" estava em vigor e, mais uma vez, epis&oacute;dios pontuais do passado, que envolveram alunos e resultaram em inqu&eacute;ritos administrativos para apurar atos tidos como indecorosos, foram acionados para incriminar e desmoralizar professores, acusados de coniventes e participantes de atividades imorais no &acirc;mbito da faculdade (12).</font></P>     <p><font size="3"><b>A COMISS&Atilde;O DE INVESTIGA&Ccedil;&Atilde;O DA UNIVERSIDADE DO BRASIL</b> Exatamente para atingir esse espa&ccedil;o de oposi&ccedil;&atilde;o e de debates foi instaurada, em maio de 1964, uma Comiss&atilde;o de Investiga&ccedil;&atilde;o da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, para apurar a infiltra&ccedil;&atilde;o comunista na FNFi. </font></P>     <p><font size="3">De acordo com a documenta&ccedil;&atilde;o arquivada no Dops, constitu&iacute;da tamb&eacute;m pelo notici&aacute;rio publicado na imprensa, apesar das suspeitas de exist&ecirc;ncia de uma c&eacute;lula comunista funcionando na FNFi, a comiss&atilde;o n&atilde;o encontrou elementos importantes para a comprova&ccedil;&atilde;o das acusa&ccedil;&otilde;es feitas aos chamados comunistas da FNFi, tais como Viera Pinto e Maria Yedda Linhares.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Eremildo Viana, em seu depoimento arquivado na documenta&ccedil;&atilde;o do Dops, declara "que a comiss&atilde;o foi feita para desmoraliz&aacute;&#45;lo, para acus&aacute;&#45;lo de delator de alunos e professores da faculdade e de improbidade administrativa" (13). Ainda de acordo com as suas palavras, "afirma que a Comiss&atilde;o, al&eacute;m de nada apurar contra o reitor e demais membros da administra&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria, teria passado a fazer a defesa dos professores e alunos comunistas da universidade.</font></P>     <p><font size="3">Os embates entre Eremildo Viana e o general N&oacute;brega, relativos aos resultados apurados pela comiss&atilde;o da UB, transmitidos diariamente pela grande imprensa carioca, indicam o lugar de import&acirc;ncia que a FNFi ocupava na cena pol&iacute;tica do pa&iacute;s naquele momento, e como ainda havia espa&ccedil;os de luta e de alguma garantia de defesa das oposi&ccedil;&otilde;es frente ao arb&iacute;trio do regime militar rec&eacute;m&#45;instalado. </font></P>     <p><font size="3"> O relato de Eul&aacute;lia Lobo relembra esses epis&oacute;dios (14): </font></P>     <blockquote>       <p><font size="3">"Mas ainda antes da divis&atilde;o da Filosofia, logo depois de 64, a universidade ficou muito visada, e Eremildo fez uma s&eacute;rie de den&uacute;ncias. Quando afinal abriram um inqu&eacute;rito, o general encarregado acabou ficando contra o Eremildo, achando que ele era um intrigante, uma pessoa de car&aacute;ter no m&iacute;nimo leviano. Ele denunciou a exist&ecirc;ncia de c&eacute;lulas comunistas, haveria &#151; imaginem que coisa rid&iacute;cula! &#151; uma C&eacute;lula Anchieta na FNFi. Eremildo denunciou como conspiradores comunistas Manoel Maur&iacute;cio de Albuquerque, Jos&eacute; Am&eacute;rico Pessanha, Maria Yedda Linhares, Evaristo de Morais Filho, Marina S&atilde;o Paulo de Vasconcellos e a mim, entre outros".</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Nesse contexto, o funcionamento da FNFi ficou em grande parte paralisado, e as atividades docentes ficaram fortemente comprometidas. Somente partir de 1965 o ritmo da FNFi come&ccedil;aria a se regularizar, mas em novas bases, agora sob um regime ditatorial.</font></P>     <p><font size="3"><b>TEMPOS SOMBRIOS PARA A HIST&Oacute;RIA NO IFCS</b> Ap&oacute;s o golpe militar de 1964, o Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o assumiu a bandeira da reforma universit&aacute;ria, e come&ccedil;ou a promover mudan&ccedil;as nas universidades federais que foram sendo difundidas para as demais (15).</font></P>     <p><font size="3">Em 1965, uma lei federal definiu que a Universidade do Brasil passaria a se chamar Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que, a seguir, suas escolas passariam a integrar ou a constituir institutos. O curso de hist&oacute;ria passaria, assim, a partir de mar&ccedil;o de 1967, a fazer parte do rec&eacute;m&#45;criado Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Sociais (IFCS), e teria sua sede na rua Marqu&ecirc;s de Olinda, onde j&aacute; funcionava o Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais. </font></P>     <p><font size="3">O depoimento de Eul&aacute;lia Lobo nos fornece elementos para a reconstru&ccedil;&atilde;o das mem&oacute;rias sobre as discuss&otilde;es acerca da reforma universit&aacute;ria e do desmonte da FNFi. </font></P>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Algum tempo depois da chamada Revolu&ccedil;&atilde;o, em 1967, houve uma divis&atilde;o da antiga Faculdade Nacional de Filosofia em v&aacute;rias escolas e institutos. Passei ent&atilde;o a dar aulas no Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Sociais, o IFCS, que absorveu o curso de hist&oacute;ria da antiga FNFi. O IFCS se incorporou a uma institui&ccedil;&atilde;o j&aacute; existente, o Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais, que era dirigido pelo Evaristo de Morais Filho e s&oacute; fazia pesquisas. Estava instalado numa casa muito bonita, antiga, na rua Marqu&ecirc;s de Olinda, em Botafogo. Com a incorpora&ccedil;&atilde;o, aquele tornou&#45;se um lugar de debates, que ficou muito focalizado pois al&eacute;m do pessoal da casa, pessoas de outros n&uacute;cleos da universidade iam para l&aacute; discutir. Era um lugar de grande agita&ccedil;&atilde;o intelectual (14).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Nos meses seguintes, o processo de radicaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica atingiu seu auge, com a realiza&ccedil;&atilde;o, por &oacute;rg&atilde;os de repress&atilde;o, de um atentado a bomba ao pr&eacute;dio da Rua Marqu&ecirc;s de Olinda, e com a expans&atilde;o do movimento estudantil, que deflagrou uma onda de greves que paralisaram em grande parte as atividades universit&aacute;rias.</font></P>     <p><font size="3">O depoimento de Miridan Falci recupera elementos desses eventos: "Os meus primeiros dias como professora universit&aacute;ria, foram no pr&eacute;dio da rua Marqu&ecirc;s de Olinda. Eul&aacute;lia acabara de ser presa, e os alunos se revoltaram, quebrando todas as janelas. Veio a pol&iacute;cia, estebeleceu&#45;se um cerco, na tentativa de prender sei l&aacute; quem. Foi uma experi&ecirc;ncia terr&iacute;vel. O clima da faculdade estava completamente mudado" (16).</font></P>     <p><font size="3">Neyde Theml complementa esse relato. Referindo&#45;se a sua perman&ecirc;ncia na Marqu&ecirc;s de Olinda at&eacute; o final de 1969, declarou: "Foram tempos dif&iacute;ceis, a pol&iacute;cia onipresente, frequentemente tentando invadir as classes. Era complicado. H&eacute;lio Vianna morreu e as cassa&ccedil;&otilde;es exigiram que v&aacute;rios docentes fossem substitu&iacute;dos, mas alguns substitutos n&atilde;o apareciam para dar aula" (17).</font></P>     <p><font size="3">A despeito de todas essas mudan&ccedil;as, de acordo com os depoimentos de Maria Yedda Linhares e de Francisco Falcon, entre 1965 e 1968 foi poss&iacute;vel uma recupera&ccedil;&atilde;o da din&acirc;mica do curso de hist&oacute;ria, especialmente nas cadeiras de hist&oacute;ria moderna e contempor&acirc;nea e de hist&oacute;ria da Am&eacute;rica, j&aacute; com Eul&aacute;lia Lobo &agrave; frente. O pr&oacute;prio crescimento do movimento estudantil a partir de 1966, e os questionamentos crescentes do regime militar funcionavam como est&iacute;mulo ao debate, com a cria&ccedil;&atilde;o de grupos de estudos, semin&aacute;rios e palestras, e o envolvimento com leituras que levavam a uma interpreta&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria na perspectiva do materialismo hist&oacute;rico. Ainda nesse per&iacute;odo, Maria Yedda tentou criar uma p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o em hist&oacute;ria social. Chegou a ser elaborado um projeto para o funcionamento do novo curso, mas a iniciativa n&atilde;o vingou. A grade curricular da gradua&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m n&atilde;o sofreu altera&ccedil;&otilde;es de monta.</font></P>     <p><font size="3">Se, no imediato p&oacute;s&#45;1964, houve condi&ccedil;&otilde;es de resist&ecirc;ncia nos escombros da FNFi, ent&atilde;o j&aacute; desmembrada em diferentes institutos, ap&oacute;s 1968, os anos de chumbo come&ccedil;ariam para valer. Com a decreta&ccedil;&atilde;o do Ato Institucional no5 (AI&#45;5), em dezembro de 1968, houve a cassa&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios professores, e a aplica&ccedil;&atilde;o do Decreto no 477 para v&aacute;rios alunos.</font></P>     <p><font size="3">O NOVO SENHOR DO IFCS Agora transferido para o largo de S&atilde;o Francisco, o IFCS e o curso de hist&oacute;ria enfrentariam, por v&aacute;rios anos, um clima de den&uacute;ncia e de persegui&ccedil;&atilde;o, comprometendo de forma dram&aacute;tica suas atividades. De acordo com os relat&oacute;rios dos &oacute;rg&atilde;os de seguran&ccedil;a, fica evidenciada a import&acirc;ncia ganha por Eremildo Viana e o reconhecimento do regime aos seus servi&ccedil;os prestados no combate das atividades ditas comunistas. </font></P>     <blockquote>       <p><font size="3">Procedidas sindic&acirc;ncias sobre o professor Eremildo Luiz Vianna, foi apurado que os antecedentes aqui registrados est&atilde;o corretos quanto &agrave;s atividades anticomunistas. O epigrafado desenvolveu intensa atividade contra a infiltra&ccedil;&atilde;o comunista que se fazia sentir na FNFi e na UFRJ, no per&iacute;odo de 1963 e parte do ano de 1964. No ano de 1963, o marginado prestou depoimento no inqu&eacute;rito aberto no Parlamento para apurar as atividades comunistas na ex&#45;UNE, tendo atuado como testemunha de acusa&ccedil;&atilde;o contra professores e estudantes comunistas. Em vista de sua atua&ccedil;&atilde;o contra a divulga&ccedil;&atilde;o e as atividades comunistas na FNFI, foi exonerado do cargo este que exercia desde 1957. Com o advento da Revolu&ccedil;&atilde;o, foi empossado no cargo de diretor da R&aacute;dio Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, cargo que ocupava at&eacute; 07/69 (18).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Esse retrato da trajet&oacute;ria de Eremildo, produzido pelos &oacute;rg&atilde;os de seguran&ccedil;a, nos indica os recursos de poder e o cacife que adquiriu para retornar &agrave; universidade como o "novo senhor" do curso de hist&oacute;ria e do IFCS da UFRJ. Tratava&#45;se de atrair novos professores, visto que muitos tinham sido cassados ou atingiam a aposentadoria, como H&eacute;lio Vianna e Silvio Julio. O regime de c&aacute;tedra tamb&eacute;m tinha terminado, mas a forma de ingresso n&atilde;o mudava muito. O recrutamento continuava na base das rela&ccedil;&otilde;es pessoais e de indiv&iacute;duos que n&atilde;o tinham o chamado "passado politico". </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Miridan Falci, professora rec&eacute;m contratada por indica&ccedil;&atilde;o de Arthur Cesar Ferreira Reis,  em seu depoimento, relata o clima de opress&atilde;o vivido no IFCS a ponto de reduzir drasticamente a produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica.</font></P>     <blockquote>       <p><font size="3">Um dia, mencionei <I>O processo civilizat&oacute;rio</I>, do Darcy Ribeiro, e <I>Forma&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica da Am&eacute;rica Latina</I>, de Celso Furtado. S&atilde;o dois livros extraordin&aacute;rios, e que eu adoro. Escrevi os t&iacute;tulos e o nome dos autores no quadro&#45;negro, e disse aos alunos que estudassem o primeiro cap&iacute;tulo de um e de outro, porque eu ia fazer o confronto entre o antrop&oacute;logo, pensando como &eacute; a Am&eacute;rica (...) e o historiador econ&ocirc;mico, (....) resumindo, um debate: Darcy Ribeiro <I>versus</I> Celso Furtado. Mal conclu&iacute;ra a proposta, uma aluna levantou&#45;se e veio a mim avisar que dois agentes do Dops estavam sentados no fundo da sala. Eu j&aacute; ouvira coment&aacute;rios sobre policiais infiltrados, mas estes, vestindo ternos pretos, um deles carregando uma pasta, faziam quest&atilde;o de ostentar a sua presen&ccedil;a. Sua tarefa era assistir &agrave; minha aula. (....) Uma semana depois, fui chamada ao gabinete do Eremildo (...) me advertiu de que o AI&#45;5 proibia portar, difundir e at&eacute; mesmo falar a respeito da obra de autores cassados (16).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">O depoimento de Nara Saleto (19), que ingressou no curso de hist&oacute;ria em 1973, d&aacute; uma ideia do clima reinante no rec&eacute;m criado Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Sociais:</font></P>     <blockquote>       <p><font size="3"> Como estou dizendo, os primeiros tempos do IFCS foram terr&iacute;veis. Havia funcion&aacute;rios espi&otilde;es, que entravam nas salas de aula a pretexto de ninharias, e seguiam os passos dos professores por toda a parte, at&eacute; nos elevadores! Eu n&atilde;o podia conversar com os alunos, muito menos convid&aacute;&#45;los para ir &agrave; minha casa. Eles iam claro, mas ningu&eacute;m devia saber: era malvisto, pecaminoso &#91;risos&#93;. A vigil&acirc;ncia se estendia dos corredores &agrave; cantina, e, se, aos poucos, o clima foi se atenuando, isso se deveu principalmente aos estudantes (19). </font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Esses dois relatos nos d&atilde;o a ideia do clima de obscurantismo e de repress&atilde;o que vigorou no IFCS e no curso de hist&oacute;ria. Se em algumas universidades e departamentos o impacto do golpe militar n&atilde;o provocou um impacto t&atilde;o intenso na desagrega&ccedil;&atilde;o dos cursos e na anula&ccedil;&atilde;o da possibilidade de desenvolvimento de atividades de pesquisa, no curso de hist&oacute;ria o per&iacute;odo do regime militar foi devastador. O pr&oacute;prio processo de cria&ccedil;&atilde;o dos programas de p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o, desenvolvidos durante o regime militar e que alcan&ccedil;ou sucesso em muitas universidades, no caso do Departamento de Hist&oacute;ria n&atilde;o se concretizou. A tentativa de cria&ccedil;&atilde;o do curso de p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o em hist&oacute;ria, em 1970, pelo professor Eremildo Viana, n&atilde;o logrou sucesso. A avalia&ccedil;&atilde;o por aqueles que foram seus primeiros alunos e que pode ser confrontada com a documenta&ccedil;&atilde;o escrita, demostra que o curso n&atilde;o conseguiu se estruturar de acordo com as normas da Capes e nenhuma disserta&ccedil;&atilde;o foi defendida at&eacute; 1982, quando Eul&aacute;lia  Lobo p&ocirc;de assumir a coordena&ccedil;&atilde;o do curso. </font></P>     <p><font size="3">Neyde Theml relembra seu ingresso como aluna nesse curso em 1970. "De in&iacute;cio, um curso de aperfei&ccedil;oamento, que depois virou mestrado. Fiz concurso e passei. Durou <I>anos</I>, parecia um curso ginasial, intermin&aacute;vel. Conclu&iacute; em 1979 e s&oacute; tirei o diploma em 1982. Fomos obrigados a esperar o reconhecimento" (17).</font></P>     <p><font size="3">O balan&ccedil;o de Eul&aacute;lia Lobo sobre o que aconteceu com o Departamento de Hist&oacute;ria da UFRJ depois  do AI&#45;5 &eacute; bastante  significativo e confirma as palavras de Neyde.  </font></P>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O IFCS "ficou bastante enfraquecido, n&atilde;o s&oacute; o Departamento de Hist&oacute;ria, mas os departamentos de Antropologia e de Filosofia. O que aconteceu foi que n&atilde;o havia pessoas dispon&iacute;veis para substituir os que sa&iacute;ram. Houve um decl&iacute;nio de qualidade, que se reflete inclusive num cat&aacute;logo publicado pela universidade. L&aacute; voc&ecirc; v&ecirc; que durante todo o per&iacute;odo da ditadura foram feitas tr&ecirc;s pesquisas no Departamento de Hist&oacute;ria. Tr&ecirc;s pesquisas m&iacute;nimas, monogr&aacute;ficas. Se voc&ecirc; compara essa produ&ccedil;&atilde;o com o per&iacute;odo anterior, com Luciano Martins trabalhando, Stella Amorim, Maur&iacute;cio Vinhas de Queiroz, Yedda, eu e muitos outros, fica claro que a atividade era muito maior. O obscurantismo foi tal que a biblioteca foi fechada! Quando voltei para o IFCS, com a anistia, a primeira coisa que fiz foi lutar pela biblioteca. Abrimos uma c&acirc;mara escura no quarto andar, onde estavam os livros empacotados, e trouxemos tudo para fora em carrinhos de m&atilde;o emprestados da se&ccedil;&atilde;o de obras do pr&eacute;dio &#91;...&#93; Podia ter havido pesquisa, do tipo conservador, que fosse, mas n&atilde;o houve. A biblioteca foi enclausurada! O que se pode dizer disso? Foi um decl&iacute;nio horr&iacute;vel (14).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Foi com o processo de abertura pol&iacute;tica, iniciado com o governo Geisel (1974&#45;1979), e com o avan&ccedil;o das lutas pela anistia que novos tempos vieram para o IFCS e para o curso de hist&oacute;ria, com a plena reintegra&ccedil;&atilde;o dos docentes cassados, em1979. </font></P>     <p><font size="3">Cabe destacar, por fim, que os debates e os desdobramentos dos eventos ocorridos na d&eacute;cada aqui enfocada revelam&#45;se fundamentais para se compreender os movimentos sucessivos que tiveram lugar no territ&oacute;rio pouco pac&iacute;fico de desenvolvimento dos cursos universit&aacute;rios de hist&oacute;ria. Merece destaque igualmente a import&acirc;ncia e as possibilidades do estudo acerca das mem&oacute;rias de eventos traum&aacute;ticos e a repress&atilde;o desencadeada na FNFi/IFCS. Uma an&aacute;lise dos depoimentos de professores, coletados para esta pesquisa, nos permite destacar alguns pontos importantes. </font></P>     <p><font size="3">Como sabemos, os depoimentos orais s&atilde;o mem&oacute;rias que representam diferentes vers&otilde;es do passado e expressam lembran&ccedil;as contradit&oacute;rias, esquecimentos, distor&ccedil;&otilde;es, conflitos, e n&atilde;o podem ser tomados como relatos "verdadeiros" e "objetivos" sobre os fatos narrados; mas, ainda assim e por isso mesmo, nos permitem o acesso a um rico material e a informa&ccedil;&otilde;es pouco encontradas em outras fontes. Os relatos obtidos se revestiram de grande relev&acirc;ncia como chave e ponto de partida para mapear quest&otilde;es a serem pesquisadas num emaranhado de documentos, dispersos e fragmentados. Al&eacute;m de preencher muitas lacunas que a documenta&ccedil;&atilde;o escrita n&atilde;o conseguia suprir, os relatos orais foram caminhos seguros e ricos para esclarecer as disputas e conflitos de mem&oacute;rias, e para nos fornecer pistas para compreender as vers&otilde;es constru&iacute;das sobre a trajet&oacute;ria dos cursos. O foco central dos depoimentos concentrou&#45;se nas lutas pol&iacute;ticas, em especial do final dos anos 1950 at&eacute; 1968, mais do que no conte&uacute;do dos cursos em si mesmo, considerando que a maioria dos depoentes ingressou na universidade a partir de 1957/1958 e, por conseguinte, muito de suas viv&ecirc;ncias privilegiaram os anos de radicaliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica no Brasil, a partir do governo JK at&eacute; a queda de Jango, com o golpe militar de 1964. O que se pode perceber &eacute; que o engajamento dos alunos e professores nos projetos de transforma&ccedil;&atilde;o do Brasil, ainda que de diferentes maneiras e com orienta&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas distintas, condicionaram fortemente as mem&oacute;rias sobre o curso de hist&oacute;ria, colocando no esquecimento fatos positivos para destacar a repress&atilde;o e os traumas que o golpe militar provocou.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Marieta de Moraes Ferreira</b> &eacute; professora do Instituto de Hist&oacute;ria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <p><font size="3">1. Entre os entrevistados est&atilde;o Vicente Tapaj&oacute;s, Borges Hermida e Eremildo Viana, Maria Yeda Linhares, Eul&aacute;lia Lobo, Cibele Ipanema Moreira; Francisco Falcon, Miridan Falci, Cl&oacute;vis Dotore, Pedro Celso Uchoa Cavalcanti, Ilmar Matos, NeydeThelm, Arno Wehling.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">2. Ferreira, M. de M. <i>A Hist&oacute;ria como of&iacute;cio</i>. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2013.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Ferreira, M. de M. &amp; Franco, R. "Desafios do ensino de hist&oacute;ria". <i>Estudos Hist&oacute;ricos</i>, vol. 21, pp.79&#45;93, 2008.     </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">4. Entrevista com Francisco Falcon (2013). In: Ferreira, M. de M., <i>A hist&oacute;ria como of&iacute;cio</i>. Rio de Janeiro: FGV editora, 2013.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">5. Pereira, D. M. "<i>Boletim de Hist&oacute;ria</i>: uma experi&ecirc;ncia de vanguarda na Faculdade Nacional de Filosofia &#151; 1958/1963". Rio de Janeiro, 1998. Disserta&ccedil;&atilde;o (mestrado em hist&oacute;ria) &#151; Departamento de Hist&oacute;ria, Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1998.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">6. <i>Boletim de Hist&oacute;ria</i>, 1962.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">7. <i>Boletim de Hist&oacute;ria</i>, 1963.    </font></P>     <p><font size="3">8. Cita&ccedil;&atilde;o do Pedro Celso refere&#45;se &agrave; entrevista publicada em Op. Cit. Ferreira, 2013.</font></P>     <p><font size="3">9. Cole&ccedil;&atilde;o de livros did&aacute;ticos que veio a se chamar "Hist&oacute;ria Nova" e que foram destru&iacute;dos pelo regime militar.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">10. Poerner, A. <i>O poder jovem: hist&oacute;ria da participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dos estudantes desde o Brasil col&ocirc;nia at&eacute; o governo Lula. 5.ed. Rio de Janeiro: Booklink, 2004. p.188.    </i></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">11. Entrevista com Maria Yedda Linhares. <i>Estudos Hist&oacute;ricos</i>, Rio de Janeiro, Cpdoc/FGV, v. 5, n. 10, p. 216&#45;250, 1992. Dispon&iacute;vel em: <A HREF="http://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/105.pdf" target="_blank">www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/105.pdf</A></font><!-- ref --><p><font size="3">12. Ver documenta&ccedil;&atilde;o do Dops, arquivo do Aperj, ficha de Maria Yedda Linhares.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">13. Depoimento ao Dops. Arquivo do Dops &#151; Arquivo P&uacute;blico do Estado do Rio de Janeiro (Aperj). Dossi&ecirc; de Eremildo Viana, Faculdade Nacional de Filosofia.    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="3">14. Depoimento ao Dops. Arquivo do Dops &#151; Arquivo P&uacute;blico do Estado do Rio de Janeiro (Aperj). Dossi&ecirc; de Eul&aacute;lia Lobo, Faculdade Nacional de Filosofia.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">15. Abreu, A. A. de et al. (org.). <i>Reforma universit&aacute;ria. Dicion&aacute;rio hist&oacute;rico&#45;biogr&aacute;fico brasileiro p&oacute;s&#45;1930</i>. Rio de Janeiro: FGV, vol.4. 2001.    </font></P>     <p><font size="3">16. Entrevistas com Miridan Falci Britto Falci (2013) In: <i>Op. Cit.</i> Ferreira, 2013</font></P>     <p><font size="3">17. Entrevista com Neyde Theml Tel (2012). In: <i>Op. Cit.</i> Ferreira, 2013.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">18. Ver Arquivo do Dops. Dossi&ecirc; Emerildo Viana. Informa&ccedil;&atilde;o nº 184/69 da SOB datada de 28 jul. 1969.    </font></P>     <p><font size="3">19. Entrevista com Nara Saleto (2010). In: <i>Op. Cit.</i> Ferreira, 2013</font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>BIBLIOGRAFIA CONSULTADA</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">Amado, J.; Ferreira, M. de M. (org.). <i>Usos e abusos da hist&oacute;ria oral</i>. Rio de Janeiro: FGV, 1998.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">"Boletim de Hist&oacute;ria. Um pouco de luz sobre a educa&ccedil;&atilde;o no Brasil e suas causas". <i>Boletim de Hist&oacute;ria</i>, Centro de Estudos de Hist&oacute;ria, Faculdade Nacional de Filosofia, Universidade do Brasil, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2/3, p. 133&#45;145, jan.&#45;mar./abr.&#45;jun. 1959b.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">F&aacute;vero, M. de L. de A. <i>Universidade e poder</i>. Rio de Janeiro: Achiam&eacute;, 1980.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">Miceli, S. <i>Hist&oacute;ria das ci&ecirc;ncias sociais</i>. S&atilde;o Paulo: Sumar&eacute;, 1995. V. 2</font><!-- ref --><p><font size="3">Motta, R. P. S. <i>As universidades e o regime militar</i>. Rio de Janeiro: Zahr, 2014</font><!-- ref --><p><font size="3">Pinto, &Aacute;. V. <i>Ideologia e desenvolvimento nacional</i>. Rio de Janeiro: Iseb, 1959.    </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>ENTREVISTAS CONSULTADAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">Arquivo Faculdade Nacional de Filosofia (Programa e Estudos e Documenta&ccedil;&atilde;o Educa&ccedil;&atilde;o e Sociedade &#151; Proedes/UFRJ).    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">Arquivo do IFCS/UFRJ &#151; Documenta&ccedil;&atilde;o dos professores Eremildo Viana, H&eacute;lio Viana e Marina Delamare S&atilde;o Paulo de Vasconcellos.    </font></P>      ]]></body><back>
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