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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="CENTER"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/artigos.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>Um personagem e     suas hist&oacute;rias</b></font></P>     <P><font size="3">Helena Bomeny </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p align="right"><font size="3">(...) aqueles que falam da decad&ecirc;ncia do ensino superior ou n&atilde;o t&ecirc;m mem&oacute;ria, porque s&atilde;o velhos, ou n&atilde;o conhecem a hist&oacute;ria, porque s&atilde;o mo&ccedil;os.</font></P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3">Newton Sucupira (1)</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>N</b></font><font size="3">ewton Sucupira (1920&#45;2007) &eacute; nosso personagem neste artigo. Sua trajet&oacute;ria se confunde, em muitos aspectos, com os caminhos da educa&ccedil;&atilde;o superior brasileira, com a democratiza&ccedil;&atilde;o do acesso &agrave; universidade e, tamb&eacute;m, com a institucionaliza&ccedil;&atilde;o da p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o.  O acesso mais amplo &agrave;s universidades e a expans&atilde;o da p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s teriam que ser pensados em conjunto, insistia o professor Sucupira sempre que questionado sobre esses dois empreendimentos. Foi a reforma universit&aacute;ria de 1968 que viabilizou a expans&atilde;o e a consolida&ccedil;&atilde;o da p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o, uma vez que previu, no &acirc;mbito da vida universit&aacute;ria, a associa&ccedil;&atilde;o de ensino e pesquisa. Antes da reforma de 1968, qual era o lugar da pesquisa no Brasil, se perguntava Sucupira? Havia uma demanda desde a d&eacute;cada de 1950, ou seja, j&aacute; se propagava a bandeira da organiza&ccedil;&atilde;o institucional compat&iacute;vel com a exig&ecirc;ncia de pesquisa. Tal organiza&ccedil;&atilde;o e, sobretudo, "esse fazer da pesquisa elemento fundamental veio com a reforma de 68", assegurava o educador. Quando a reforma estabeleceu, pela primeira vez no Brasil, indissociar ensino e pesquisa, instituiu a ideia, que foi se consolidando com o passar dos anos, de que a atividade de pesquisa &eacute; institucional, ou seja, que "uma universidade n&atilde;o pode ser universidade sem que tenha uma programa&ccedil;&atilde;o de pesquisa ou uma pol&iacute;tica de pesquisa" (1). Esse &eacute; o fundamento da cren&ccedil;a de Newton Sucupira:  que foi a reforma de 1968 que deslanchou o Parecer 977&#45;65, do Conselho Federal de Educa&ccedil;&atilde;o, que instituiu a p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o no Brasil tornando realidade o que era ainda uma inten&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">Conheci o professor Sucupira por ocasi&atilde;o de uma entrevista que ele me concedeu e que seria base da escrita de um livro em sua homenagem que a Coordena&ccedil;&atilde;o de Aperfei&ccedil;oamento de Pessoal de N&iacute;vel Superior (Capes) promovia quando o Parecer 977&#45;65 completava quarenta anos (2). Ele nos recebeu, a mim e &agrave; Raquel Emerique, em sua resid&ecirc;ncia no Jardim Bot&acirc;nico, Rio de Janeiro, no dia 16 de fevereiro de 2001. Sab&iacute;amos da fama do educador de n&atilde;o estabelecer, com facilidade, uma conversa descontra&iacute;da, desarmada.  Homem de temperamento firme, cat&oacute;lico, nascido da convencional e bem posta elite nordestina, adepto da filosofia alem&atilde;, confessadamente r&iacute;gido no comportamento pessoal, e na educa&ccedil;&atilde;o de seus nove filhos, Sucupira foi autor de mais de 400 pareceres, muitos dos quais relativos &agrave; defini&ccedil;&atilde;o e regulamenta&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas educacionais no per&iacute;odo do regime militar (1964&#45;1985).  Em seu depoimento surpreendeu&#45;nos a mem&oacute;ria viva n&atilde;o s&oacute; de nomes, epis&oacute;dios, argumentos intelectuais e refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas, mas tamb&eacute;m, de n&uacute;meros de decretos, pareceres, al&eacute;m dos conte&uacute;dos que lhes d&atilde;o consist&ecirc;ncia.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Encontramos o educador em um dos dias t&iacute;picos de calor do Rio de Janeiro. Conduzimos a conversa guiada por um roteiro bem cuidado em seu escrit&oacute;rio repleto de livros por todos os lados, em estantes que circundavam todo o ambiente, pela mesa de trabalho e por bancos adicionais. Sentamo&#45;nos os tr&ecirc;s e iniciamos o di&aacute;logo marcado inicialmente pela tens&atilde;o, com o pequeno gravador em uma das m&atilde;os e o roteiro em outra. Na sequ&ecirc;ncia do roteiro, os pontos que dever&iacute;amos perseguir na trajet&oacute;ria do educador. Sucupira n&atilde;o entendia completamente o motivo daquela visita e, aos poucos, fui percebendo as raz&otilde;es de sua apreens&atilde;o. Expliquei que est&aacute;vamos ali a prop&oacute;sito do Parecer 977&#45;65 que instituiu a p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o no Brasil do qual ele havia sido o relator. Atento, o educador logo percebeu que hav&iacute;amos cuidado da prepara&ccedil;&atilde;o da entrevista, que t&iacute;nhamos um roteiro com informa&ccedil;&otilde;es detalhadas sobre sua biografia intelectual. Foi quando sentimos que se estabelecia uma rela&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a e respeito. Ficou claro que seu depoimento era importante, e sua express&atilde;o de aceita&ccedil;&atilde;o nos indicava que assim havia compreendido aquela iniciativa de conversa.</font></P>     <p><font size="3"> A entrevista transcorreu normalmente. Eu diria que est&aacute;vamos todos apreensivos.  As entrevistadoras, naturalmente, inseguras de seus desempenhos diante de tamanha erudi&ccedil;&atilde;o, de verdadeiro reposit&oacute;rio de mem&oacute;ria e de argumentos logicamente estruturados. Mas, o entrevistado n&atilde;o estava menos sensibilizado. Tratava&#45;se de um retorno a viv&ecirc;ncias antigas e, em alguns momentos, pod&iacute;amos acompanhar em sua express&atilde;o relances de emo&ccedil;&atilde;o seguidos de firmeza no relato que nos fazia. Ao final do primeiro encontro, hav&iacute;amos percorrido sua biografia de professor e conselheiro. Eu sabia que um segundo contato teria valor inestim&aacute;vel para compor um quadro mais compreensivo de suas ideias e, basicamente, de suas filia&ccedil;&otilde;es intelectuais. O professor Sucupira concordou em nos receber outra vez. Um m&ecirc;s ia se completar do primeiro encontro quando realizamos a segunda entrevista. Dessa vez, n&atilde;o trataria mais de sua biografia propriamente, mas o indagaria sobre pontos para os quais me preparara ao longo do trabalho que vinha fazendo. </font></P>     <p><font size="3"> O encontro acabou sendo uma oportunidade para repassarmos epis&oacute;dios e situa&ccedil;&otilde;es que t&ecirc;m destaque na hist&oacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o. Inevit&aacute;vel voltar a An&iacute;sio Teixeira (1900/1971) e recuperar a inspira&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica que o distinguia de Sucupira e que balizava sua interven&ccedil;&atilde;o no campo da educa&ccedil;&atilde;o no Brasil. Outro ponto dizia respeito &agrave; atua&ccedil;&atilde;o ininterrupta de Sucupira no Conselho Federal de Educa&ccedil;&atilde;o ao longo do regime militar, o que o deixara como personagem p&uacute;blico em posi&ccedil;&atilde;o de bastante reserva. Mas o educador n&atilde;o se intimidava com o segundo ponto, e se mostrou estimulado para conversar sobre o primeiro. </font></P>     <p><font size="3">De onde vem, com quem dialogou, e como trabalhou Newton Sucupira pela educa&ccedil;&atilde;o brasileira? Quais s&atilde;o os pareceres que o mant&ecirc;m indissociavelmente ligado &agrave; estrutura&ccedil;&atilde;o do ensino superior no Brasil? </font></P> <b>UM PROFESSOR FIL&Oacute;SOFO</b>     <blockquote>       <p><font size="3">Tenho sido e continuo a ser, antes de tudo, o professor. Dezesseis anos de Conselho Federal de Educa&ccedil;&atilde;o, diretor de faculdade e pr&oacute;&#45;reitor para Assuntos Acad&ecirc;micos da Universidade Federal de Pernambuco, seis anos e meio em Bras&iacute;lia como diretor do ensino superior e presidente da Comiss&atilde;o de Assuntos Internacionais do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, representante do Brasil no Conselho do Bureau Internacional de Educa&ccedil;&atilde;o da Unesco, em Genebra, primeiro e &uacute;nico brasileiro presidente desse mesmo Conselho, todas essas fun&ccedil;&otilde;es n&atilde;o me afastaram da sala de aula. A aposentadoria veio colher&#45;me lecionando no doutorado da Faculdade de Educa&ccedil;&atilde;o, sendo seu coordenador (...) (3). </font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Newton Lins Buarque Sucupira nasceu em 9 de maio de 1920, em Porto Calvo, Alagoas. Presenciou o final do decl&iacute;nio da economia a&ccedil;ucareira. "As ra&iacute;zes rurais poucos tra&ccedil;os deixaram no menino que se ambientou no meio urbano", disse dele o amigo Alberto Ven&acirc;ncio Filho (4). Sucupira, no entanto, se definia mais como pernambucano, sua terra de ado&ccedil;&atilde;o, por ter ali se escolarizado, desde as primeiras s&eacute;ries,  no Col&eacute;gio N&oacute;brega dos padres jesu&iacute;tas em Recife, onde, menino ainda, despertou para o gosto da erudi&ccedil;&atilde;o e o interesse pelos estudos. Filho de Jo&atilde;o Buarque Sucupira e de Fani Lins Sucupira, casou&#45;se em 1946 com Odette Silveira Sucupira, constituindo uma fam&iacute;lia de nove filhos, seis mulheres e tr&ecirc;s homens, todos casados, dos quais tiveram netos e bisnetos. Cat&oacute;lico praticante, Sucupira modelou a educa&ccedil;&atilde;o dos filhos dentro dos princ&iacute;pios religiosos do catolicismo. N&atilde;o transigiu nessa tarefa formadora de mentalidades. </font></P>     <p><font size="3">A conclus&atilde;o do ensino secund&aacute;rio em 1938, aos 18 anos, colocou&#45;o diante do inevit&aacute;vel aos que conviviam em ambiente favorecido: escolher entre os tr&ecirc;s cursos dispon&iacute;veis &agrave; ent&atilde;o credenciada forma&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria &#150; direito, medicina e engenharia. Naquela &eacute;poca, ainda n&atilde;o chegara ao Nordeste a Faculdade de Filosofia, Ci&ecirc;ncias e Letras.  Optou pelo direito. Matriculou&#45;se na Faculdade de Direito do Recife, "o escoadouro natural de quem se interessasse pelos estudos especulativos", completa Alberto Ven&acirc;ncio Filho (5).</font></P>     <p><font size="3">Foi na Faculdade de Direito que se viu envolvido pelos problemas filos&oacute;ficos, e esta voca&ccedil;&atilde;o o afastou da pr&aacute;tica forense, mantendo&#45;se fiel aos estudos te&oacute;ricos. Ao terminar o curso de direito em 1942, matriculou&#45;se na Faculdade de Filosofia, Ci&ecirc;ncias e Letras Manuel da N&oacute;brega, portanto, dos jesu&iacute;tas (hoje Universidade Cat&oacute;lica de Pernambuco). No per&iacute;odo de 1948 a 1964 exerceu a fun&ccedil;&atilde;o de professor de filosofia da Faculdade de Filosofia em Recife, e em 1961 foi ungido no cargo de professor catedr&aacute;tico de hist&oacute;ria e filosofia da educa&ccedil;&atilde;o na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). </font></P>     <p><font size="3">O ensino de hist&oacute;ria e filosofia da educa&ccedil;&atilde;o no curso de pedagogia da Faculdade de Filosofia da UFPE selou seu compromisso definitivo com a educa&ccedil;&atilde;o. Sucupira vai, portanto, perfilando sua trajet&oacute;ria de educador, benefici&aacute;ria dos estudos te&oacute;ricos do direito, da convic&ccedil;&atilde;o da import&acirc;ncia da filosofia na compreens&atilde;o das quest&otilde;es fundamentais do direito e da centralidade da educa&ccedil;&atilde;o no desdobramento para a vida ordin&aacute;ria das grandes quest&otilde;es postas pela filosofia. A educa&ccedil;&atilde;o seria, assim, o porto seguro no qual poderia reunir todas as voca&ccedil;&otilde;es e veredas pelas quais se viu envolvido, sendo a hist&oacute;ria de sua vida pessoal e profissional uma confirma&ccedil;&atilde;o dessa aposta mais geral. O mapa do direito tem sua fundamenta&ccedil;&atilde;o no campo da filosofia e sua aplica&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea da educa&ccedil;&atilde;o.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Mas um encontro na d&eacute;cada de 1950 impactaria sua vida profissional: </font></P>     <blockquote>       <p><font size="3">Em 1955, conheci pessoalmente An&iacute;sio Teixeira ao debater sua confer&ecirc;ncia, "Ci&ecirc;ncia e humanismo", pronunciada na reuni&atilde;o da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia, realizada naquele ano em Recife.  Desse debate, resultou constante e proveitoso di&aacute;logo com o mestre An&iacute;sio, apesar de estarmos em posi&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas distantes, ele disc&iacute;pulo fiel, mas independente de Dewey<I>.  "Di&aacute;logo que me abriu novas perspectivas sobre educa&ccedil;&atilde;o, principalmente, educa&ccedil;&atilde;o brasileira". </I>(6)</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">De fato, abria&#45;se ao professor Sucupira uma nova perspectiva de viv&ecirc;ncia pessoal e atua&ccedil;&atilde;o profissional. Em 1959, An&iacute;sio Teixeira dirigia a Capes e havia conseguido do governo norte&#45;americano oito bolsas de estudos para que pessoas da &aacute;rea de educa&ccedil;&atilde;o fizessem observa&ccedil;&otilde;es sobre o ensino secund&aacute;rio daquele pa&iacute;s. Entre os escolhidos estavam Alberto Ven&acirc;ncio, e tamb&eacute;m, Newton Sucupira, Valnir Chagas, Airton Gon&ccedil;alves da Silva, Raimundo Jos&eacute; da Mata, Grimaldi Ribeiro de Paiva, Ov&iacute;dio de Andrade J&uacute;nior e Eduardo de Carvalho. Em uma dire&ccedil;&atilde;o mais especializada, encontramos nos textos de An&iacute;sio Teixeira e Newton Sucupira indica&ccedil;&otilde;es reveladoras do quanto incorporaram em suas propostas e avalia&ccedil;&otilde;es o que aprenderam da hist&oacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o norte&#45;americana. A converg&ecirc;ncia de opini&otilde;es positivas sobre o desenvolvimento da educa&ccedil;&atilde;o naquele pa&iacute;s facilitou, sem d&uacute;vida, o di&aacute;logo entre os dois fil&oacute;sofos da educa&ccedil;&atilde;o brasileira, a despeito das diferen&ccedil;as entre as matrizes filos&oacute;ficas que os orientavam na pr&aacute;tica intelectual. </font></P>     <p><font size="3">Convertidos a credos muito distintos, os dois educadores mantiveram, ao longo de suas trajet&oacute;rias profissionais e intelectuais, respeito intelectual e fervor dial&oacute;gico a comprovar que a diverg&ecirc;ncia cultivada no mundo das ideias nem sempre separa a conviv&ecirc;ncia entre os homens. Ao contr&aacute;rio, suas distintas filia&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas provocaram, em cada um deles, uma admira&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca, comprovada pelas iniciativas de cada um em expor respeitosamente as convic&ccedil;&otilde;es ao outro. Alimentaram&#45;se das diferen&ccedil;as e expuseram&#45;se ao julgamento p&uacute;blico, nem sempre favor&aacute;vel a um ou a outro. A intelectualidade "de esquerda" foi, muitas vezes, implac&aacute;vel com ambos. At&eacute; muito recentemente, at&eacute; meados da d&eacute;cada de 1980, An&iacute;sio foi pejorativamente classificado como "liberal", quando n&atilde;o, "de orienta&ccedil;&atilde;o pequeno&#45;burguesa" por sua confessada e consciente ades&atilde;o ao modelo norte&#45;americano de democratiza&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o. Como sabemos, a bandeira educativa norte&#45;americana se pautou na extens&atilde;o do direito da educa&ccedil;&atilde;o &agrave; maioria da popula&ccedil;&atilde;o, no programa da escola &uacute;nica, na pol&iacute;tica de um ensino obrigat&oacute;rio, laico e p&uacute;blico distribu&iacute;do &agrave;s comunidades da Am&eacute;rica.  An&iacute;sio Teixeira foi absolvido, mais recentemente, no embalo da valoriza&ccedil;&atilde;o, pelos pr&oacute;prios movimentos intelectuais de esquerda, da dimens&atilde;o civil dos direitos humanos, da recupera&ccedil;&atilde;o das minorias como atores pol&iacute;ticos leg&iacute;timos e das organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil &#150; nem sempre vinculadas aos partidos &#150; como foros leg&iacute;timos de express&atilde;o da vontade coletiva.  O tributo &agrave; experi&ecirc;ncia norte&#45;americana teve, ao menos, que ser considerado nesse novo arranjo de reflex&atilde;o sobre a pol&iacute;tica. E a conjuntura desfavor&aacute;vel que se interp&ocirc;s &agrave; reflex&atilde;o mais cr&iacute;tica com a queda do Muro de Berlim e a derrocada do Leste Europeu facilitaram sobremaneira a inclus&atilde;o de argumentos favor&aacute;veis aos ideais de An&iacute;sio Teixeira para a educa&ccedil;&atilde;o brasileira. </font></P>     <p><font size="3">Al&eacute;m dessa indica&ccedil;&atilde;o para a visita especializada &agrave; Am&eacute;rica do Norte, An&iacute;sio Teixeira seria respons&aacute;vel tamb&eacute;m pela indica&ccedil;&atilde;o de Sucupira para compor o Conselho Federal de Educa&ccedil;&atilde;o, instalado pelo Decreto nº 51 404 de 5 de fevereiro de 1962. Sucupira estava entre os conceituados intelectuais que compuseram o conselho onde permaneceu at&eacute; 1978.  Data desse per&iacute;odo a discuss&atilde;o e a delibera&ccedil;&atilde;o de duas regulamenta&ccedil;&otilde;es que redefiniriam o campo da educa&ccedil;&atilde;o superior no Brasil: o Parecer 977/65, que prescreveu as linhas de orienta&ccedil;&atilde;o para a montagem da p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o e o relat&oacute;rio do grupo de trabalho criado pelo Decreto 62937/68 para estudo da reforma universit&aacute;ria, que deu origem &agrave; Lei nº 5.540/68.  Dois decretos&#45;lei antecederam o relat&oacute;rio do grupo de trabalho para a reforma de 1968: os de n&uacute;mero 53, de 18 de novembro de 1966, e o de n&uacute;mero 252, de 28 de fevereiro de 1967.  Em ambos teremos que computar a participa&ccedil;&atilde;o ativa do professor Sucupira.</font></P>     <p><font size="3">A atua&ccedil;&atilde;o no Conselho Federal de Educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o impediu que Sucupira assumisse outras responsabilidades no ensino superior. No per&iacute;odo de 1968 a 1978, desempenhou a fun&ccedil;&atilde;o de presidente da C&acirc;mara de Ensino Superior do Conselho Federal de Educa&ccedil;&atilde;o, e no per&iacute;odo de 1970 a 1972 foi diretor da Divis&atilde;o de Assuntos Universit&aacute;rios (DAU) &#150; do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, de onde se empenha na dire&ccedil;&atilde;o do &oacute;rg&atilde;o m&aacute;ximo executivo da educa&ccedil;&atilde;o superior, em promover e patrocinar condi&ccedil;&otilde;es &agrave; consolida&ccedil;&atilde;o do ensino superior, particularmente, da p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o. Sucupira passou &agrave; hist&oacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o brasileira como mentor intelectual da regulamenta&ccedil;&atilde;o da p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o e, tamb&eacute;m, autor do texto que deu base &agrave; Lei da Reforma Universit&aacute;ria de 1968. Sua fun&ccedil;&atilde;o de dire&ccedil;&atilde;o na Divis&atilde;o de Assuntos Universit&aacute;rios permitiu&#45;lhe concretizar seus ideais de p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o e de ensino superior.  No per&iacute;odo em que foi membro do CFE (1962&#45;1978) assinou aproximadamente 400 pareceres, sendo os mais not&oacute;rios o Parecer nº76/62, que trata da autonomia universit&aacute;ria; o Parecer nº 277/62, que estabelece o curr&iacute;culo m&iacute;nimo do curso de filosofia e o Parecer nº 977/65 que tra&ccedil;a as linhas de implanta&ccedil;&atilde;o da p&oacute;s&#45;gradua&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m, obviamente, do relat&oacute;rio do grupo de trabalho que definiu os termos da reforma de 1968.</font></P>     <p><font size="3">Em 1972, Sucupira faz uma viagem de estudos &agrave; Inglaterra.  Dessa viagem ele trouxe como novidade o projeto da universidade aberta, minuciosamente relatado por ele em artigo que ficou conhecido como "Relat&oacute;rio Sucupira". Nesse momento, Sucupira continuou exercendo intensamente suas atividades no Conselho Federal de Educa&ccedil;&atilde;o. J&aacute; havia passado o momento das maiores discuss&otilde;es sobre as diversas reformas que estavam em curso nos tr&ecirc;s graus de ensino. As faculdades de educa&ccedil;&atilde;o j&aacute; estavam em andamento em diversas universidades. O Relat&oacute;rio Sucupira trata de um tema &agrave; &eacute;poca bastante pol&ecirc;mico. O entusiasmo e o desconhecimento a respeito dos m&eacute;todos de ensino n&atilde;o convencionais se generalizavam e Sucupira dava as indica&ccedil;&otilde;es precisas no relat&oacute;rio a respeito dos ganhos e dos cuidados necess&aacute;rios ao bom desempenho dessa nova maneira de ampliar o acesso ao ensino superior no Brasil, considerando os cursos abertos. O fato de ter trazido uma avalia&ccedil;&atilde;o positiva da experi&ecirc;ncia inglesa e de ter sugerido a possibilidade de uma adapta&ccedil;&atilde;o ao contexto brasileiro rendeu&#45;lhe muitas cr&iacute;ticas. O interesse que aquela experi&ecirc;ncia despertou no educador consistia na possibilidade de democratizar o ensino superior sem aviltamento da forma&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria.  O relat&oacute;rio &eacute; minucioso na descri&ccedil;&atilde;o do alto investimento em pessoal qualificado, trabalhando em tempo integral, e, especialmente, do empenho da universidade inglesa em garantir qualidade e excel&ecirc;ncia com esse novo formato de dissemina&ccedil;&atilde;o do ensino superior. O grande objetivo daquele empreendimento parecia responder &agrave; urg&ecirc;ncia que se fazia necess&aacute;ria na extens&atilde;o da forma&ccedil;&atilde;o superior a uma camada mais ampla da popula&ccedil;&atilde;o adulta: dar aos que trabalham a possibilidade de obter uma forma&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria.  Professores de alta qualifica&ccedil;&atilde;o, recrutados na forma usual em que as universidades inglesas selecionam seus professores, distribu&iacute;dos nos diferentes n&iacute;veis da hierarquia acad&ecirc;mica, tudo isso afastava a ideia de ser o programa da universidade aberta uma experi&ecirc;ncia pouco recomend&aacute;vel. Ao contr&aacute;rio, o que o relat&oacute;rio sugere &eacute; uma estreita rela&ccedil;&atilde;o entre alto padr&atilde;o de forma&ccedil;&atilde;o superior, ou seja, uma estrutura desenvolvida de ensino superior e a implanta&ccedil;&atilde;o de uma estrutura baseada em novos instrumentos de transmiss&atilde;o e avalia&ccedil;&atilde;o de conhecimentos.</font></P>     <p><font size="3">Em 1973, Sucupira &eacute; eleito presidente do Conselho do Bureau Internacional de Educa&ccedil;&atilde;o, &oacute;rg&atilde;o da Unesco, para o bi&ecirc;nio 1973&#45;1974. A nomea&ccedil;&atilde;o para o Bureau Internacional resultou de uma indica&ccedil;&atilde;o do governo brasileiro, mas a elei&ccedil;&atilde;o ao cargo de presidente &eacute; uma delega&ccedil;&atilde;o do grupo na Unesco. Sucupira recebeu a indica&ccedil;&atilde;o de um dos membros do grupo, e assumiu a fun&ccedil;&atilde;o em 1973. Em 1978, deixou o Conselho Federal de Educa&ccedil;&atilde;o para se dedicar &agrave; vida acad&ecirc;mica, embora dela nunca tivesse se afastado, mesmo quando atuou no conselho, na Divis&atilde;o de Assuntos Universit&aacute;rios ou mesmo no conselho da Unesco.</font></P>     <p><font size="3"><b>DOIS EDUCADORES: DUAS RECEP&Ccedil;&Otilde;ES</b> Newton Sucupira n&atilde;o se beneficiou da absolvi&ccedil;&atilde;o que foi dirigida ao educador An&iacute;sio Teixeira. Uma r&aacute;pida men&ccedil;&atilde;o a epis&oacute;dios das trajet&oacute;rias pessoais dos dois educadores ajuda a entender as raz&otilde;es de tal assimetria. An&iacute;sio teve sua vida p&uacute;blica ferida pelos dois momentos de autoritarismo nos quais se insurgia como intelectual de a&ccedil;&atilde;o. O per&iacute;odo do Estado Novo (1937&#45;1945) testemunhou sua inteira disposi&ccedil;&atilde;o e energia na montagem da Universidade do Distrito Federal (UDF), no governo Pedro Ernesto da cidade do Rio de Janeiro, ent&atilde;o capital do pa&iacute;s. A experi&ecirc;ncia da UDF faz parte da mem&oacute;ria de constru&ccedil;&atilde;o da universidade brasileira e at&eacute; hoje &eacute; lembrada pela ousadia, descentraliza&ccedil;&atilde;o, vigor intelectual e liberdade de pensamento que An&iacute;sio Teixeira pretendia imprimir ao ensino superior brasileiro. As for&ccedil;as da ditadura foram inexor&aacute;veis, e encontraram respaldo nos setores mais conservadores da Igreja Cat&oacute;lica na persegui&ccedil;&atilde;o que se imp&ocirc;s ao educador e na decis&atilde;o que se seguiu de fechar a Universidade do Distrito Federal. Alceu Amoroso Lima, como a hist&oacute;ria e ele pr&oacute;prio registraram, personificou a rea&ccedil;&atilde;o de interdi&ccedil;&atilde;o ao projeto de An&iacute;sio Teixeira. O educador baiano se recolheu a seu estado natal e &agrave; sua vida privada at&eacute; o final da ditadura de Vargas. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O segundo momento de regime militar, o p&oacute;s&#45;1964, fez com que An&iacute;sio Teixeira fosse, uma vez mais, convocado pelas urg&ecirc;ncias de reforma educacional. O envolvimento se deu n&atilde;o s&oacute; com a iniciativa governamental de aprimoramento de pessoal de n&iacute;vel superior, a Capes, mas tamb&eacute;m com o Inep &#150; instituto criado para fomentar as pesquisas que deveriam orientar a implementa&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas de educa&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s. Mobilizou&#45;se pelas discuss&otilde;es acaloradas do final da d&eacute;cada de 1950 que deram vida aos debates em torno da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educa&ccedil;&atilde;o Nacional, finalmente aprovada em 1961. E, uma vez mais, na capital da Rep&uacute;blica brasileira, dessa feita em Bras&iacute;lia, veria o projeto de cria&ccedil;&atilde;o da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB) ser alvo da ira de ditadores. An&iacute;sio Teixeira, ao lado de Darcy Ribeiro, foi um dos protagonistas do projeto universit&aacute;rio inovador que ali se implantava. Em 30 de agosto de 1968 a universidade teve seu <I>campus</I> invadido pela Pol&iacute;cia Militar, mesmo dia, ali&aacute;s, em que sofreria igual a&ccedil;&atilde;o repressiva a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).</font></P>     <p><font size="3">A trajet&oacute;ria de Newton Sucupira revela uma atua&ccedil;&atilde;o incessante pela reestrutura&ccedil;&atilde;o e regulamenta&ccedil;&atilde;o do ensino superior no Brasil, de 1962 a 1978, sem solu&ccedil;&atilde;o de continuidade durante o regime militar. O Parecer 977/65 j&aacute; &eacute; redigido sob o regime militar, mas foram os decretos 53/66, 252/67 e o Relat&oacute;rio do Grupo de Trabalho sobre a Reforma Universit&aacute;ria de 1968 que justificaram a associa&ccedil;&atilde;o comprometedora entre sua formula&ccedil;&atilde;o e a vig&ecirc;ncia do per&iacute;odo de maior recrudescimento do autoritarismo imposto ao Brasil entre 1964 a 1985.  Diante de tal gravidade, n&atilde;o havia como considerar os argumentos, pondera&ccedil;&otilde;es para maiores esclarecimentos, e sequer se arriscaria a matizar acusa&ccedil;&otilde;es sem que outras mais graves se impusessem ao interlocutor.  Por isso, pensar em conjunto An&iacute;sio Teixeira e Newton Sucupira como personagens promotores de reformas e regulamenta&ccedil;&otilde;es para a &aacute;rea da educa&ccedil;&atilde;o no Brasil pareceu sempre mais do que improp&eacute;rio, heresia.  Mas, a despeito das diferen&ccedil;as foram dois educadores que tiveram na filosofia a &acirc;ncora de inspira&ccedil;&atilde;o e de orienta&ccedil;&atilde;o permanentes. E, n&atilde;o menos importante, o empenho ininterrupto pela reflex&atilde;o no campo educacional e pela atua&ccedil;&atilde;o constante nos processos de regula&ccedil;&atilde;o e institucionaliza&ccedil;&atilde;o do sistema educacional brasileiro.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a13img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">A distin&ccedil;&atilde;o talvez possa ser anotada em outros dois pontos: embora An&iacute;sio tenha se manifestado, in&uacute;meras vezes, a respeito das faculdades de educa&ccedil;&atilde;o e do ensino superior, e embora tenha seu nome definitivamente associado &agrave; Capes, seu programa de reforma priorizou sempre a educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica &#150; a extens&atilde;o do direito &agrave; educa&ccedil;&atilde;o ao conjunto dos cidad&atilde;os brasileiros. A escola p&uacute;blica foi sempre sua bandeira desde a d&eacute;cada de 1920. Newton Sucupira est&aacute; mais pr&oacute;ximo de Fernando de Azevedo, em sua determina&ccedil;&atilde;o de fortalecer o ensino superior como canal necess&aacute;rio e estrat&eacute;gico de garantir o desenvolvimento da cultura nacional. Certamente estar&aacute; de acordo com a frase de Francisco Ven&acirc;ncio Filho de que "ou aperfei&ccedil;oamos as elites para melhorar o povo ou aperfei&ccedil;oamos o povo para melhorar as elites" (7). An&iacute;sio Teixeira apostaria na segunda op&ccedil;&atilde;o, e Fernando de Azevedo consolida a trilha na qual percorreram Francisco Ven&acirc;ncio, Newton Sucupira e muitos mais. O catolicismo, abra&ccedil;ado pelos intelectuais que deram consist&ecirc;ncia ao modelo ancorado na forma&ccedil;&atilde;o da elite que educar&aacute; o povo, &eacute; uma pista fecunda ao entendimento dessa op&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">O segundo ponto da distin&ccedil;&atilde;o entre An&iacute;sio e Sucupira nos &eacute; sugerido pelo depoimento de Sucupira. Diz respeito &agrave; inflex&iacute;vel convic&ccedil;&atilde;o de An&iacute;sio Teixeira de que o Estado n&atilde;o deve e n&atilde;o pode despender recursos na manuten&ccedil;&atilde;o da rede privada de ensino. An&iacute;sio n&atilde;o discutia a import&acirc;ncia, a necessidade ou a oportunidade do florescimento e amplia&ccedil;&atilde;o da rede privada de ensino no Brasil. O que n&atilde;o admitia era a decis&atilde;o de investimento do Estado em iniciativas privadas no campo da educa&ccedil;&atilde;o. Que se mantivesse privada a iniciativa privada. Ao Estado deveria ser cobrada a oferta p&uacute;blica de um direito democr&aacute;tico ao conjunto da popula&ccedil;&atilde;o, particularmente da popula&ccedil;&atilde;o carente, que jamais teria como se beneficiar de uma educa&ccedil;&atilde;o de elite. Os Estados Unidos, uma vez mais, foram uma fonte indiscut&iacute;vel de refor&ccedil;o a tal convic&ccedil;&atilde;o. At&eacute; hoje, os estudos que tratam do investimento em educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica fazem men&ccedil;&atilde;o aos Estados Unidos como o pa&iacute;s onde, historicamente, o Estado n&atilde;o compareceu investindo nas iniciativas privadas em educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica (8). Esta discuss&atilde;o no Brasil, como j&aacute; sabemos atrav&eacute;s de muitos estudos, teve que passar pelo crivo da Igreja Cat&oacute;lica, esta sim, historicamente interessada, n&atilde;o s&oacute; na defini&ccedil;&atilde;o dos rumos da educa&ccedil;&atilde;o como norteadora de condutas, mas, igualmente, na prote&ccedil;&atilde;o &agrave; rede privada de ensino, que incorporava as escolas confessionais, sendo a pr&oacute;pria Igreja forte concorrente na distribui&ccedil;&atilde;o das escolas no pa&iacute;s. O fervor religioso de Sucupira e seu compromisso com a Igreja Cat&oacute;lica, e a indeclin&aacute;vel defesa da educa&ccedil;&atilde;o laica de An&iacute;sio, o que atraiu para ele a ira da pr&oacute;pria Igreja Cat&oacute;lica em momentos cruciais da montagem do sistema educacional na d&eacute;cada de 1930, ajudam a compor o quadro de distin&ccedil;&atilde;o entre ambos.  O olhar de Sucupira a processos de hierarquiza&ccedil;&atilde;o de valores e compet&ecirc;ncias, em grande medida, pode ser explicado por sua ades&atilde;o incondicional ao desempenho da Igreja Cat&oacute;lica na forma&ccedil;&atilde;o das almas, sendo a educa&ccedil;&atilde;o um dos pilares b&aacute;sicos nessa fun&ccedil;&atilde;o evangelizadora. An&iacute;sio n&atilde;o compartilhava tal concep&ccedil;&atilde;o. Desconfiou dos benef&iacute;cios que a interfer&ecirc;ncia da Igreja pudesse produzir nos processos de democratiza&ccedil;&atilde;o e extens&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o &agrave; massa. A educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica foi sempre o centro a partir do qual An&iacute;sio construiu seu modelo de interven&ccedil;&atilde;o em pol&iacute;ticas educativas; a educa&ccedil;&atilde;o superior seria tomada nessa perspectiva como a condi&ccedil;&atilde;o de aprimoramento necess&aacute;rio &agrave; constru&ccedil;&atilde;o s&oacute;lida, n&atilde;o s&oacute; da cultura e do desenvolvimento nacionais, mas, em igual medida, do aprimoramento da educa&ccedil;&atilde;o fundamental.</font></P>     <p><font size="3">Os dez anos de atua&ccedil;&atilde;o de Sucupira no Conselho Federal de Educa&ccedil;&atilde;o, de um total de 16, foram dedicados a assuntos relacionados com a universidade, presidindo a C&acirc;mara Especial do Ensino Superior. Sua atua&ccedil;&atilde;o na Divis&atilde;o de Assuntos Universit&aacute;rios no MEC no per&iacute;odo de 1970/1972 confirma essa especializa&ccedil;&atilde;o. Sucupira torna&#45;se assim, um estudioso do que &eacute; a universidade brasileira, de suas normas, princ&iacute;pios, car&ecirc;ncias, progressos etc. Acabou sendo conhecido como um especialista da hist&oacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o superior no Brasil. O interesse pela universidade o fez caminhar na dire&ccedil;&atilde;o de estudos comparados no tempo, como se pode acompanhar pelas claras refer&ecirc;ncias &agrave; universidade medieval, renascentista e do s&eacute;culo XIX, e tamb&eacute;m no espa&ccedil;o, como &eacute; o caso das an&aacute;lises comparativas das experi&ecirc;ncias de diversos pa&iacute;ses. De que maneira cada cultura construiu seu projeto de ensino superior e de que forma o Brasil, sem uma tradi&ccedil;&atilde;o forte e positiva, poderia constru&iacute;&#45;lo foram inquieta&ccedil;&otilde;es que perseguiu no percurso de sua vida acad&ecirc;mica. Acompanhou, com entusiasmo e aposta positiva, a cria&ccedil;&atilde;o da Universidade de Bras&iacute;lia. Parecia&#45;lhe um contraponto &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o de nossas universidades tradicionais. Contrastava tamb&eacute;m com qualquer outro modelo de universidade existente. Afinal, como claramente defendeu Darcy Ribeiro, a UnB deveria oferecer "a todos os estudantes, durante os seus dois primeiros anos de curso, tanto programas cient&iacute;ficos, como human&iacute;sticos a fim de proporcionar ao futuro cientista ou profissional oportunidade de fazer&#45;se tamb&eacute;m herdeiro do patrim&ocirc;nio cultural e art&iacute;stico da humanidade e, ao futuro graduado de carreiras human&iacute;sticas, uma informa&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica b&aacute;sica". Este era um aspecto entre os muitos mais que Darcy Ribeiro elegeu como exemplo do que era a "inova&ccedil;&atilde;o" da UnB (9).</font></P>     <p><font size="3"> J&aacute; estavam ali previstas as atividades de extens&atilde;o, a intera&ccedil;&atilde;o entre ensino e pesquisa e a din&acirc;mica da rela&ccedil;&atilde;o universidade/poderes p&uacute;blicos, quando se previa como prop&oacute;sito da universidade "proporcionar aos poderes p&uacute;blicos o assessoramento livre e competente de que careceriam em todos os ramos do saber e que, numa cidade nova e artificial, somente uma universidade madura e aut&ocirc;noma poderia proporcionar (...)" (9). </font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a13img02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Portanto, quando Sucupira atribuiu ao projeto da Universidade de Bras&iacute;lia a inspira&ccedil;&atilde;o mais fecunda do projeto da reforma de 1968, e quando mencionou Darcy  Ribeiro como autor daquele projeto estava ao menos sintonizado com a descri&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio Darcy. Sucupira &eacute; empossado no Conselho Federal de Educa&ccedil;&atilde;o no ano seguinte &agrave; inaugura&ccedil;&atilde;o da Universidade de Bras&iacute;lia (1961). Sucupira defendeu&#45;a como o modelo de universidade mais contextualizado e eficiente daquele momento. Entendeu que a Universidade de Bras&iacute;lia era capaz de exercer eficientemente sua miss&atilde;o de ensinar, pesquisar, atender e retornar os conhecimentos para a sociedade. Estava preparada para exercer plenamente as fun&ccedil;&otilde;es que se espera de uma universidade. Certamente, Sucupira subscreveria a afirma&ccedil;&atilde;o de que, n&atilde;o fosse pela UnB, nem o Decreto 977&#45;65 nem a reforma de 1968 seriam desenhados como foram. Essa avalia&ccedil;&atilde;o atravessou as d&eacute;cadas seguintes, como confirma em seu depoimento: </font></P>     <blockquote>       <p><font size="3">(...) eu fiz quest&atilde;o de dizer no Conselho que eu seguia a orienta&ccedil;&atilde;o do projeto da UnB. Agora, ela entrou em execu&ccedil;&atilde;o justamente no momento mais tumultuado ou dos mais tumultuados que foi a cria&ccedil;&atilde;o do governo militar. A&iacute;, se deu o choque, e ent&atilde;o, a universidade foi muito atingida (...) se voc&ecirc; vai fazer an&aacute;lise agora, voc&ecirc; v&ecirc; que foi uma experi&ecirc;ncia que deu certo. O projeto deu certo. E eu, no que diz respeito &agrave; estrutura da universidade, n&oacute;s nos inspiramos exatamente no que foi a Universidade de Bras&iacute;lia (1).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">O fato de ter condicionado a autonomia &agrave; responsabilidade social da universidade rendeu a Newton Sucupira muitas cr&iacute;ticas. As cr&iacute;ticas n&atilde;o o demoveram de suas convic&ccedil;&otilde;es. Sucupira n&atilde;o perdeu de vista em qualquer de seus escritos, a rela&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria que se deve estabelecer entre a universidade e seu entorno:</font></P>     <blockquote>       <p><font size="3">A universidade deve ser livre para que possa realizar seus pap&eacute;is e miss&otilde;es e, ao mesmo tempo, deve satisfa&ccedil;&otilde;es &agrave; sociedade que a mant&eacute;m, que lhe propicia o desenvolvimento, devendo fornecer respostas necess&aacute;rias aos problemas e/ou solu&ccedil;&otilde;es relativos ao bem&#45;estar coletivo. Essa ambiguidade induz, ontologicamente, a se perceber que a universidade deve ser livre do mesmo modo que &eacute; dependente, aut&ocirc;noma para pensar e fazer, pensando e fazendo sob a permanente vigil&acirc;ncia das satisfa&ccedil;&otilde;es que deve a sociedade que a mant&eacute;m" (10).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Advogou em favor da intera&ccedil;&atilde;o que &eacute; preciso ser mantida entre a universidade e a sociedade que a sustenta. </font></P>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">"(...) n&atilde;o existe universidade que n&atilde;o atenda aos interesses profissionais. Porque ela &eacute; uma institui&ccedil;&atilde;o da sociedade.(...) a universidade alem&atilde; de Humboldt foi criada com as costas voltadas para a sociedade. Quer dizer, liberdade e solid&atilde;o. (...)Voc&ecirc; n&atilde;o pode agora querer fazer de uma universidade uma esp&eacute;cie de templo do saber puro (...)" (1).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Os depoimentos de Sucupira, de Darcy Ribeiro e de An&iacute;sio Teixeira &#150; a despeito dos temperamentos e das distintas filia&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e ideol&oacute;gicas &#150; refor&ccedil;am o consenso forjado nos anos 1950 e 1960 sobre a inexist&ecirc;ncia de uma universidade no Brasil que atendesse a esse quesito fundamental, em uma &eacute;poca em que, vigorava em todos os quadrantes ideol&oacute;gicos a express&atilde;o <I>educa&ccedil;&atilde;o para o desenvolvimento</I>.  &Eacute; nesse sentido que se pode afirmar que havia um reclamo mais geral por uma reforma universit&aacute;ria. Os exemplos de outros pa&iacute;ses fortaleciam a tese de Sucupira a respeito da adequa&ccedil;&atilde;o, do compromisso da universidade com seu entorno.</font></P>     <p><font size="3"><b>LEI 5540/68 :  A REFORMA QUE O CONDENOU</b></font></P> <table width="570" border="0">   <tr>     <td>    <blockquote>             <p><font size="3">A reforma de 1968 tem tido mais detratores do que propriamente cr&iacute;ticos (...)</font></p>       </blockquote>           <p align="right"><font size="3"><I>Newton Sucupira</I> (1)</font></p></td>   </tr> </table>     <p><font size="3">Apesar de ter sido resultado do trabalho de um grupo de especialistas e pessoas envolvidas com o ensino superior, a reforma universit&aacute;ria ficou definitivamente associada a Newton Sucupira, e n&atilde;o sem qualquer fundamento. O prazo curto que o grupo teve para redigir o anteprojeto, depois da solicita&ccedil;&atilde;o feita ao conselheiro pelo presidente da Rep&uacute;blica, Costa e Silva, s&oacute; p&ocirc;de ser vencido com &ecirc;xito pelas incurs&otilde;es anteriores (Parecer 53/66 e Decreto 252/67) que contaram com o protagonismo de Newton Sucupira. N&atilde;o foi gratuita, assim, a elei&ccedil;&atilde;o de Sucupira como interlocutor da presid&ecirc;ncia nessa mat&eacute;ria. "Eu estava no conselho quando o presidente Costa e Silva telefonou e pediu para falar comigo. Perguntou se eu estava disposto a fazer essa coisa toda. Respondi que sim. Mas a&iacute;, ele me deu o prazo de 30 dias (...)" (1). </font></p>     <p><font size="3">Os efeitos provocados e os desvios sofridos na implanta&ccedil;&atilde;o do projeto original n&atilde;o escaparam &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica de seu engenheiro. O governo n&atilde;o cumprira sua parte, conclu&iacute;a Sucupira, sem, e talvez n&atilde;o por inoc&ecirc;ncia, tocar no autoritarismo vigente como inimigo bastante eficaz para inibir qualquer iniciativa mais flex&iacute;vel e criativa.</font></P>     <blockquote>       <p><font size="3">Faltou, entre outras coisas, uma pol&iacute;tica universit&aacute;ria que correspondesse aos princ&iacute;pios inovadores da reforma. E o governo, que nos solicitou a reforma, logo ap&oacute;s desinteressou&#45;se pelo cumprimento de suas propostas, negando&#45;lhe os recursos que tornariam poss&iacute;vel a renova&ccedil;&atilde;o das universidades, principalmente no que diz respeito &agrave;s universidades federais.  Essa frustra&ccedil;&atilde;o experimentei ao vivo quando ocupei a dire&ccedil;&atilde;o do Ensino Superior de junho de 1970 ao in&iacute;cio de 1972, e dispunha de or&ccedil;amento que apenas permitia a realiza&ccedil;&atilde;o do funcionamento rotineiro do sistema universit&aacute;rio (1).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Os intelectuais se mobilizaram pela formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas em situa&ccedil;&otilde;es muitas vezes semelhantes, mas com posi&ccedil;&otilde;es distintas. H&aacute; os que resistem &agrave; cr&iacute;tica democr&aacute;tica, como foi o caso de An&iacute;sio Teixeira. H&aacute; os que s&atilde;o alvo de reserva e de resist&ecirc;ncia para serem inclu&iacute;dos na mem&oacute;ria reconstru&iacute;da dos processos nos quais se integraram. Newton Sucupira est&aacute; mais associado ao segundo caso. Uma coisa &eacute; certa, por&eacute;m. Uma recupera&ccedil;&atilde;o distanciada da pol&iacute;tica educacional para o ensino superior no Brasil dificilmente seria poss&iacute;vel sem se considerar o protagonismo de Sucupira. Esta men&ccedil;&atilde;o por si s&oacute; justifica plenamente a disposi&ccedil;&atilde;o desta revista em inserir sua trajet&oacute;ria em um dossi&ecirc; dedicado ao impacto da ditadura sobre o sistema universit&aacute;rio.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i><b>Helena Bomeny</b> &eacute; professora titular de sociologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Newton Sucupira, depoimento concedido a Helena Bomeny, em 16 de fevereiro de 2001.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">2. Cf. Helena Bomeny. <i>Newton Sucupira e os rumos da educa&ccedil;&atilde;o superior</i>. Bras&iacute;lia, Paralelo 15, Coordena&ccedil;&atilde;o de Aperfei&ccedil;oamento de Pessoal de N&iacute;vel Superior (Capes), 2001, 128 p.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Newton Sucupira, "Faculdade de Educa&ccedil;&atilde;o: origem e miss&atilde;o". <i>Revista Perspectiva Filos&oacute;fica</i>. pp.181&#45;197</font><!-- ref --><p><font size="3">4. Alberto Ven&acirc;ncio Filho, "Pref&aacute;cio para o livro do professor Newton Sucupira", escrito a prop&oacute;sito da edi&ccedil;&atilde;o de um livro sobre o educador organizado e editado pelo CESGRNRIO.  O livro ainda n&atilde;o foi publicado at&eacute; esta data.    </font></P>     <p><font size="3">5. Alberto Ven&acirc;ncio Filho,  Op.cit.  A cita&ccedil;&atilde;o &eacute; do texto mimeografado, p.3.</font></P>     <p><font size="3">6. Newton Sucupira, "Discurso de professor em&eacute;rito da UFRJ", Op. cit., p.48.</font></P>     <p><font size="3">7. Alberto Ven&acirc;ncio Filho, Op.cit., p.6.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">8. Ver a prop&oacute;sito o texto de Stephen Barro, "Como os pa&iacute;ses financiam suas escolas?"  In: <i>Financiamento da educa&ccedil;&atilde;o na Am&eacute;rica Latina/Preal</i>; tradu&ccedil;&atilde;o de Paulo Martins Garchet.  Rio de Janeiro, Editora Funda&ccedil;&atilde;o Getulio Vargas, 1999, 264 p., p. 19&#45;92.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">9. Cf.  Darcy Ribeiro. <i>Confiss&otilde;es</i>.  S&atilde;o Paulo, Companhia das Letras, Ilustra&ccedil;&atilde;o de Oscar Niemeyer, 1997, 1ª impress&atilde;o, 585 p., p.252&#45;253.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">10. Apud. Fatima B. de Oliveria et al., "Concep&ccedil;&atilde;o, amplitude e limites da autonomia universit&aacute;ria", p. 43&#45;44. In: Oliveira, F&aacute;tima B. de. <i>&Eacute;tica e educa&ccedil;&atilde;o: o pensamento de Newton Sucupira</i>. Rio de Janeiro: CESGRANRIO/FGV, 1996, pp. 41&#45;49.    </font></P>      ]]></body><back>
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