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</front><body><![CDATA[ <P ALIGN="CENTER"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/artigos.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>O trabalho das comiss&otilde;es da verdade universit&aacute;rias: rastreando vest&iacute;gios da repress&atilde;o nos campi durante a ditadura militar</b></font></P>     <P><font size="3">Ang&eacute;lica M&uuml;ller    <BR>   Pedro Ernesto Fagundes</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <p><font size=5><b>E</b></font><font size="3">m janeiro de 1974, a imprensa brasileira (1) publicou um folheto, produzido pela Divis&atilde;o de Seguran&ccedil;a e Informa&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o e Cultura (DSI/MEC), intitulado de "Como eles agem". O documento indicava as formas de funcionamento das organiza&ccedil;&otilde;es "esquerdistas", ou seja, como agiam para obter o apoio popular, valendo&#45;se das "letras e das artes" com o intuito de conquistar uma identifica&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o com seus "ideais subversivos", ideais estes que procuravam contemplar suas necessidades e aspira&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o por acaso, o primeiro conjunto de "subversivos" apresentados eram os estudantes e professores universit&aacute;rios que constitu&iacute;am, na vis&atilde;o deles, "um dos pontos vulner&aacute;veis &agrave; infiltra&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica comunista".</font></P>     <p><font size="3">Naquele contexto, esse documento produzido pelos &oacute;rg&atilde;os de informa&ccedil;&atilde;o foi um dos poucos que veio a p&uacute;blico: ele revela, com toda clareza, tra&ccedil;os da cultura pol&iacute;tica autorit&aacute;ria na sua vertente anticomunista que caracterizou o regime militar.  Se, por um lado, grande parte da sociedade brasileira desconhecia o <I>modus operandi</I> do regime e usufru&iacute;a das benesses do "milagre econ&ocirc;mico", por outro, a repress&atilde;o atingia v&aacute;rios setores, dentre eles as universidades: nesse espa&ccedil;o, a vigil&acirc;ncia era permanente e provocava forte tens&atilde;o entre os integrantes dessas institui&ccedil;&otilde;es, nas quais o movimento estudantil (ME) era o mais visado (2).</font></P>     <p><font size="3">Para manter o pa&iacute;s em "ordem" e "afastado do perigo comunista", os governos militares organizaram uma ampla estrutura que teve como base a espionagem, dentre outros setores, nas universidades brasileiras. No final da d&eacute;cada de 1960, a estrutura repressiva ganhou musculatura administrativa e burocr&aacute;tica para atuar em todas as esferas da sociedade com a cria&ccedil;&atilde;o de novos &oacute;rg&atilde;os de seguran&ccedil;a. Uma das justificativas utilizadas pelos militares para a cria&ccedil;&atilde;o de tais &oacute;rg&atilde;os foram as maci&ccedil;as manifesta&ccedil;&otilde;es estudantis de 1968 &#150; ano simb&oacute;lico do movimento estudantil. Haja vista que entre as prioridades do aparato repressivo estava a vigil&acirc;ncia do interior dos <I>campi.</I> Em meio a esse cen&aacute;rio, a partir de julho de 1967, foram criadas as Divis&otilde;es de Seguran&ccedil;a e Informa&ccedil;&otilde;es (DSIs), atrav&eacute;s do Decreto 60.940. Especificamente, a DSI/MEC foi criada em 1969 e acabou se tornando uma das mais importantes se&ccedil;&otilde;es do sistema de controle, justamente por sua capilaridade nas universidades.</font></P>     <p><font size="3">Assim, pode&#45;se afirmar que a escalada repressiva nas universidades contou com uma diversificada e ampla estrutura de repress&atilde;o. Em 1969, entrou em vigor o Decreto&#45;Lei 477 que, entre outras medidas, vetou toda e qualquer manifesta&ccedil;&atilde;o considerada de car&aacute;ter subversivo dentro dos estabelecimentos p&uacute;blicos e privados de ensino, prevendo para os estudantes seu desligamento e proibi&ccedil;&atilde;o de ingresso em outros estabelecimentos de ensino durante tr&ecirc;s anos e, para professores e funcion&aacute;rios, a mesma pena pelo per&iacute;odo de cinco anos. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">&Eacute; poss&iacute;vel expor que o ponto culminante da estrutura&ccedil;&atilde;o desse aparato ocorreu em 1971, pois, foi essa a data de cria&ccedil;&atilde;o de um mecanismo espec&iacute;fico para monitorar, vigiar e, sobretudo, levantar informa&ccedil;&otilde;es dentro de cada universidade. Esses &oacute;rg&atilde;os que atuaram no interior de dezenas de universidades brasileiras ficaram conhecidos como Assessorias Especiais de Seguran&ccedil;a e Informa&ccedil;&atilde;o (AESIs). Estima&#45;se que em, aproximadamente, 35 universidades foram criadas AESIs, al&eacute;m de outras 15 ligadas ao MEC, como foi o caso da Coordena&ccedil;&atilde;o de Aperfei&ccedil;oamento Pessoal de Ensino Superior (Capes). </font></P>     <p><font size="3">Em geral, as Assessorias de Seguran&ccedil;a e Informa&ccedil;&atilde;o (ASIs) deveriam atuar nas universidades p&uacute;blicas federais e estaduais no levantamento de informa&ccedil;&otilde;es no interior da comunidade universit&aacute;ria. Em outras palavras, o surgimento dessas assessorias teria como finalidade identificar e monitorar os chamados "elementos subversivos", dentro de um espa&ccedil;o considerado cr&iacute;tico: o <I>campus</I>.</font></P>     <p><font size="3">Em suma, a partir dessa &eacute;poca, passou a valer a l&oacute;gica da suspeita em rela&ccedil;&atilde;o a todos e a tudo. Tais &oacute;rg&atilde;os, no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1970, estavam subordinados diretamente ao Servi&ccedil;o Nacional de Informa&ccedil;&atilde;o (SNI), ou seja, mesmo a vigil&acirc;ncia nos &oacute;rg&atilde;os civis passou a ser controlada diretamente pelas for&ccedil;as armadas (3).</font></P>     <p><font size="3">N&atilde;o apenas o ME estava na mira dessas assessorias. Esse ambiente de suspei&ccedil;&atilde;o impregnou a rotina acad&ecirc;mica de tal forma que as nomea&ccedil;&otilde;es, posses e formaturas estavam sujeitas &agrave; apresenta&ccedil;&atilde;o dos chamados "atestados ideol&oacute;gicos". Tanto que a apresenta&ccedil;&atilde;o de tal documento tornou&#45;se condi&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria para o ingresso na carreira docente das universidades. </font></P>     <p><font size="3">Esse fato pode ser constatado no Pedido de Busca Sici/DSI/MEC nº 2973/11979/76/2, datado de 14 de setembro de 1976, que tratava do Levantamento de Dados Biogr&aacute;ficos (LDB) a respeito de Santa Marli Pires Santos (4) que, segundo o documento, estava pleiteando uma vaga de professora na Universidade Federal de Santa Maria (RS). Em anexo, consta uma ficha de antecedentes com as seguintes informa&ccedil;&otilde;es sobre a candidata: resid&ecirc;ncia, cargo cogitado e registros de antecedentes.</font></P>     <p><font size="3">A vigil&acirc;ncia e a censura n&atilde;o estavam restritas aos corpos discente e docente. Os conte&uacute;dos ministrados em sala de aula eram alvo de constante vigil&acirc;ncia, acarretando, muitas vezes,  problemas para professores. Nesse contexto, o regime tamb&eacute;m passou a vigiar a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento. Essa vigil&acirc;ncia de conte&uacute;do pode ser evidenciada no Encaminhamento nº 010/10355/75/Sici/1/DSI/MEC/76, de 19 de fevereiro de 1976, que trazia uma rela&ccedil;&atilde;o "Livros proibidos pelo sr. Ministro da Justi&ccedil;a". Gostar&iacute;amos de destacar dois pontos em rela&ccedil;&atilde;o ao documento citado. O primeiro diz respeito &agrave; amplitude do aparato repressivo montado no pa&iacute;s. Prova disso &eacute; que no item relativo &agrave; "Difus&atilde;o" &eacute; poss&iacute;vel observar que o documento foi encaminhado para as ASI's de onze universidades federais, com destaque para: ASI/UFMG, ASI/UFRGS, ASI/UFPR, ASI/UFSC, ASI/UFPE e ASI/UFPA. </font></P>     <p><font size="3">Outro ponto est&aacute; no anexo intitulado "Encaminhamento", que apresenta uma lista de 205 livros considerados "subversivos ou pornogr&aacute;ficos". A orienta&ccedil;&atilde;o da DSI/MEC era que as AISs impedissem a circula&ccedil;&atilde;o e venda dos livros em suas respectivas universidades. Entre as obras censuradas constam autores notoriamente reconhecidos da esquerda, entre eles Ernesto Che Guevara,, Mao Ts&eacute;&#45;Tung, Trotsky e L&ecirc;nin. O documento salienta tamb&eacute;m dezenas de obras classificadas como pornogr&aacute;ficas que deveriam ser retiradas de circula&ccedil;&atilde;o. A preocupa&ccedil;&atilde;o com o "saneamento moral" dos jovens brasileiros tamb&eacute;m estava entre as a&ccedil;&otilde;es desenvolvidas pelo aparato de informa&ccedil;&atilde;o. Assim, obras de Nelson Rodrigues e Marqu&ecirc;s de Sade figuravam ao lado dos te&oacute;ricos marxistas como autores que colocavam em risco a "ordem pol&iacute;tica e social". </font></P>     <p><font size="3">A expectativa pela abertura democr&aacute;tica trouxe, em fins dos anos 1970, a reorganiza&ccedil;&atilde;o do ME, dos sindicatos de professores e funcion&aacute;rios. Nesse sentido, lutar pela democracia nas universidades passava, dentre outros pontos, pela den&uacute;ncia das ASIs como bra&ccedil;o da repress&atilde;o dentro dos <I>campi</I> universit&aacute;rios. Diante da press&atilde;o, em maio de 1979, a DSI/MEC enviou aos reitores um of&iacute;cio "extinguindo" as ASIs universit&aacute;rias de acordo com determina&ccedil;&atilde;o superior (5). A manobra realizada, naquele momento, foi a de desativar os escrit&oacute;rios das ASIs dentro das universidades transferindo suas estruturas para os escrit&oacute;rios das delegacias regionais de seguran&ccedil;a e informa&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <p><font size="3">O fato &eacute; que algumas ASIs, j&aacute; esvaziadas das suas pretens&otilde;es e poder iniciais, continuaram existindo dentro das universidades na primeira metade dos anos 1980. Em alguns casos, o &oacute;rg&atilde;o manteve&#45;se em funcionamento, mesmo depois da redemocratiza&ccedil;&atilde;o. Exemplo disso &eacute; o Informe nº 143/86 ASI/CST, da Assessoria de Seguran&ccedil;a e Informa&ccedil;&atilde;o da Companhia Sider&uacute;rgica de Tubar&atilde;o (ASI/CST), de 15 de setembro de 1986, que apresenta um hist&oacute;rico sobre o funcionamento da ASI/Ufes. O documento trata do ambiente de agita&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dentro da Ufes e alerta sobre a possibilidade de invas&atilde;o da sede da ASI/Ufes por militantes estudantis. Ainda, segundo o mesmo informe, Alberto Monteiro, chefe da Aesi/Ufes, havia informado que continuaria suas atividades fora das depend&ecirc;ncias da Ufes.</font></P>     <p><font size="3">Oficialmente, em agosto de 1986, o MEC editou a Portaria nº 576, de 05 de agosto de 1986, extinguindo as ASIs ainda existentes nas universidades brasileiras (6). Ap&oacute;s a extin&ccedil;&atilde;o do SNI, em 1990, e, consequentemente, das estruturas a ele vinculadas, pouco se sabe da destina&ccedil;&atilde;o da documenta&ccedil;&atilde;o dos sistemas setoriais de informa&ccedil;&otilde;es. Boa parte dos acervos das ASIs e do acervo da DSI MEC &eacute; classificada como "desaparecido". Por&eacute;m, algumas universidades tiveram acesso &agrave; documenta&ccedil;&atilde;o produzida pela sua ASI, caso da UnB e da UFMG, e este material, al&eacute;m de estar hoje dispon&iacute;vel no Arquivo Nacional (AN), foi alvo de uma grande pesquisa desenvolvida pelo historiador Rodrigo Patto S&aacute; Motta (7).</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A instala&ccedil;&atilde;o da Comiss&atilde;o Nacional da Verdade (CNV) &#150; Lei nº 12.528, de 18 de novembro de 2011 ­&#150; acelerou, entre outras quest&otilde;es, a busca pelos "arquivos perdidos". A CNV motivou uma s&eacute;rie de iniciativas interministeriais, como a do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a (MJ), que, atrav&eacute;s do Aviso nº 1.069, de 04 jul. 2012, solicitou que todos os minist&eacute;rios procedessem ao levantamento, &agrave; identifica&ccedil;&atilde;o e recolhimento &#150; junto ao projeto "Mem&oacute;rias Reveladas", do Arquivo Nacional (AN) &#150; de documentos do per&iacute;odo do regime militar que se encontrassem sob sua guarda. Por tal motivo, em agosto de 2012, a Subsecretaria de Assuntos Administrativos do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s do Of&iacute;cio&#45;Circular nº 11/2012/SAA/SE/MEC, enviou a todos os reitores das universidades p&uacute;blicas, federais e estaduais, uma solicita&ccedil;&atilde;o para que fosse realizado um "Levantamento e identifica&ccedil;&atilde;o dos documentos do regime militar a serem recolhidos ao Arquivo Nacional" (8). </font></P>     <p><font size="3">A medida, bem como o est&iacute;mulo pela cria&ccedil;&atilde;o da CNV, motivou o surgimento de diversas comiss&otilde;es da verdade espec&iacute;ficas nas universidades. Espalhadas por todas as regi&otilde;es do pa&iacute;s e, em grande parte, articuladas com a CNV, as diversas comiss&otilde;es universit&aacute;rias t&ecirc;m enfrentado situa&ccedil;&otilde;es diferentes em torno da efetiva&ccedil;&atilde;o de seus objetivos. Em comum, uma quest&atilde;o: romper com a cultura do sil&ecirc;ncio e construir a cultura do acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, no sentido de reconstruir os epis&oacute;dios que marcaram os <I>campi</I> brasileiros durante os chamados "anos de chumbo".</font></P>     <p><font size="3">Importante salientar que, desde dezembro de 2013, as comiss&otilde;es da verdade universit&aacute;rias iniciaram uma s&eacute;rie de encontros com seus representantes. O principal objetivo das reuni&otilde;es nacionais foi a troca de informa&ccedil;&otilde;es e a busca por formas de atua&ccedil;&atilde;o em conjunto, sobretudo, na elabora&ccedil;&atilde;o das relat&oacute;rios finais das comiss&otilde;es nas universidades. Nessas reuni&otilde;es, participaram com regularidade as seguintes comiss&otilde;es universit&aacute;rias: Funda&ccedil;&atilde;o Escola de Sociologia e Pol&iacute;tica de SP (FespSP), PUC/SP, UnB, Unesp, Unicamp, Unifesp, Unioeste, UFBA, UFC/UECE, Ufes, UFPA, UFPR, UFRJ, UFRN e USP. Destaca&#45;se que, para al&eacute;m das comiss&otilde;es citadas, existem outras j&aacute; estruturadas e que ainda est&atilde;o se estruturando, caso da CV da UFRRJ. Fato que aponta para o interesse que o tema tem despertado na comunidade universit&aacute;ria.</font></P>     <p><font size="3">A troca de informa&ccedil;&otilde;es nos encontros tem indicado a exist&ecirc;ncia de pr&aacute;ticas repressivas comuns nas diversas institui&ccedil;&otilde;es de ensino. Foi poss&iacute;vel identificar que as viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos fizeram parte do cotidiano das universidades brasileiras. S&atilde;o comuns relatos sobre invas&otilde;es de universidades, expuls&atilde;o de estudantes, demiss&otilde;es de professores, censura, pris&otilde;es ilegais de militantes estudantis, de funcion&aacute;rios e de professores das universidades, al&eacute;m de tortura, mortes e desaparecimentos for&ccedil;ados.</font></P>     <p><font size="3">Para al&eacute;m de encontros nacionais, a equipe t&eacute;cnica da CNV realizou uma s&eacute;rie de visitas &agrave;s comiss&otilde;es, em suas universidades, com o intuito de estabelecer uma parceria mais s&oacute;lida objetivando a realiza&ccedil;&atilde;o de atividades em conjunto, fornecimento de insumos e ajuda m&uacute;tua na parte da pesquisa documental. Da parte da CNV, houve o franqueamento do acesso de membros das comiss&otilde;es aos escrit&oacute;rios da CNV em Bras&iacute;lia e Rio de Janeiro, para pesquisa no acervo do Arquivo Nacional. As visitas objetivavam tamb&eacute;m a discuss&atilde;o do cap&iacute;tulo do relat&oacute;rio final da CNV e poss&iacute;veis anexos sobre acontecimentos importantes como, por exemplo, a crise que se abateu na UnB no ano de 1965, que redundou no pedido de demiss&atilde;o de mais de 200 professores. Ou, ainda, o epis&oacute;dio bastante conhecido da invas&atilde;o da PUC/SP, em 1977, por ocasi&atilde;o do III Encontro Nacional de Estudantes.</font></P>     <p><font size="3">A CNV realizou a&ccedil;&otilde;es em conjunto com comiss&otilde;es universit&aacute;rias, visando &agrave; troca de informa&ccedil;&otilde;es. Caso da CV USP, que pouco disp&otilde;e de informa&ccedil;&otilde;es sobre a atua&ccedil;&atilde;o de sua Aesi. Assim, a CNV convocou representantes que atuaram tanto na AESI/USP como na Assessoria Regional de Seguran&ccedil;a e Informa&ccedil;&atilde;o (Arsi) do MEC em S&atilde;o Paulo para oitivas. Em setembro &uacute;ltimo o representante da Arsi, no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1970, foi interrogado e ouvido por conselheiros da CNV e membro da CV USP.</font></P>     <p><font size="3">Em seu relat&oacute;rio final, a ser entregue em dezembro de 2014 &agrave; presidente Dilma Rousseff, a CNV dedicar&aacute; um cap&iacute;tulo para retratar as viola&ccedil;&otilde;es aos direitos humanos nas universidades. Fruto de pesquisa, resultado das oitivas e audi&ecirc;ncias que v&ecirc;m sendo realizadas pela equipe da CNV, juntamente com as comiss&otilde;es parceiras, o cap&iacute;tulo apresentar&aacute; um panorama com os principais eventos que caracterizaram as viola&ccedil;&otilde;es nesse meio, apontar&aacute; a estrutura de vigil&acirc;ncia e informa&ccedil;&atilde;o que foi montada nas universidades e, ainda, indicar&aacute; casos emblem&aacute;ticos que exemplificam as graves viola&ccedil;&otilde;es cometidas pelo aparato repressivo dos sucessivos governos militares.</font></P>     <p><font size="3">Entre os avan&ccedil;os provocados pela instala&ccedil;&atilde;o das comiss&otilde;es da verdade nas universidades podemos citar a descoberta e a recupera&ccedil;&atilde;o de conjuntos documentais de algumas das antigas ASIs, com destaque para os trabalhos realizados nas comiss&otilde;es da UFBA e da Ufes. Tais descobertas, al&eacute;m de fornecer novas fontes de investiga&ccedil;&atilde;o, colaboram para a recupera&ccedil;&atilde;o de parte da mem&oacute;ria das universidades brasileiras durante a ditadura militar.</font></P>     <p><font size="3">A primeira das comiss&otilde;es a terminar seu trabalho, a Comiss&atilde;o Milton Santos de Mem&oacute;ria e Verdade, da UFBA, teve acesso a uma documenta&ccedil;&atilde;o sigilosa de correspond&ecirc;ncias do Gabinete do Reitor (1964 a 1981). A correspond&ecirc;ncia sigilosa do Gabinete do Reitor, em que grande parte do relat&oacute;rio produzido pela comiss&atilde;o est&aacute; baseada, foi h&aacute; alguns anos identificada como sendo o arquivo da Aesi local. A comiss&atilde;o, ao tomar contato com o acervo, solicitou an&aacute;lise de uma especialista (Aurora Freixo, do Instituto de Ci&ecirc;ncia da Informa&ccedil;&atilde;o e membro da Comiss&atilde;o de Arquivos da UFBA). Verificou&#45;se, ent&atilde;o, que na verdade se tratava da correspond&ecirc;ncia sigilosa recebida e expedida pelos reitores Roberto Santos, Lafayette Pond&eacute;, Augusto Mascarenhas e Macedo Costa (9). Essa troca de correspond&ecirc;ncia se deu basicamente com &oacute;rg&atilde;os do regime militar como a DSI/MEC, as diversas Aesis universit&aacute;rias, com a Delegacia de Ordem Pol&iacute;tica e Social (Dops) e tamb&eacute;m com a Pol&iacute;cia Federal. O acervo do Gabinete do Reitor revelou uma rica documenta&ccedil;&atilde;o sobre as persegui&ccedil;&otilde;es a professores e estudantes da universidade citada.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a14img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Como foi dito, a CV/Ufes foi outra comiss&atilde;o que recuperou parte do acervo da sua assessoria de seguran&ccedil;a. Essa comiss&atilde;o da verdade iniciou seus trabalhos em mar&ccedil;o de 2013, a partir da publica&ccedil;&atilde;o da Portaria nº 478/13. At&eacute; o momento, seu trabalho mais relevante foi a recupera&ccedil;&atilde;o de parte da documenta&ccedil;&atilde;o da antiga ASI/Ufes que permitiu conhecer um pouco da rotina de vigil&acirc;ncia no interior do <I>campus</I>. Esse conjunto documental &eacute; composto de, aproximadamente, 1.200 p&aacute;ginas de documentos, tais como: memorandos, of&iacute;cios, pedidos de informa&ccedil;&atilde;o, rela&ccedil;&atilde;o de livros censurados, solicita&ccedil;&otilde;es de informa&ccedil;&atilde;o sobre o ME, entre outros.</font></P>     <p><font size="3">H&aacute; que se destacar no trabalho de grande parte das comiss&otilde;es a import&acirc;ncia dos testemunhos. A produ&ccedil;&atilde;o de entrevistas, sobretudo com as v&iacute;timas de a&ccedil;&otilde;es repressivas, foi fundamental para composi&ccedil;&atilde;o do panorama das viola&ccedil;&otilde;es no campo universit&aacute;rio. &Eacute; um valioso material que estar&aacute; &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o de futuros pesquisadores que se interessarem pelo tema. &Eacute; importante citar, exemplificativamente, o trabalho realizado pela Comiss&atilde;o das Universidades P&uacute;blicas do Cear&aacute; (UFC&#45;Uece). A comiss&atilde;o realizou cerca de 30 depoimentos com atingidos pela repress&atilde;o. Os entrevistados foram selecionados a partir de uma pesquisa explorat&oacute;ria com pessoas que vivenciaram os momentos mais intensos de repress&atilde;o nas universidades citadas e que conheciam professores, estudantes e funcion&aacute;rios que haviam sido expulsos da vida acad&ecirc;mica, presos ou submetidos &agrave; vida clandestina. O rol dos depoentes convidados foi elaborado da maneira mais ampla poss&iacute;vel, buscando cobrir um conjunto plenamente representativo em termos de momentos hist&oacute;ricos vividos, inser&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e gravidades das viola&ccedil;&otilde;es sofridas tanto na UFC quanto na Uece.</font></P>     <p><font size="3">Durante a ditadura, algumas universidades mostraram&#45;se colaboradoras do projeto militar. Haja vista a documenta&ccedil;&atilde;o levantada pela CV FespSP. Nesse per&iacute;odo, a escola citada assinou uma s&eacute;rie de conv&ecirc;nios com os governos brasileiro e dos Estados Unidos. As atas do Conselho Superior da FespSP indicam que a funda&ccedil;&atilde;o manteve conv&ecirc;nios com a Alian&ccedil;a para o Progresso, programa de aux&iacute;lio financeiro promovido pelos Estados Unidos na Am&eacute;rica Latina para impedir o avan&ccedil;o comunista no continente.</font></P>     <p><font size="3">Para al&eacute;m do trabalho de pesquisa, levantamento e produ&ccedil;&atilde;o de documenta&ccedil;&atilde;o, as comiss&otilde;es universit&aacute;rias v&ecirc;m realizando uma s&eacute;rie de a&ccedil;&otilde;es para, n&atilde;o somente, divulgar o trabalho em quest&atilde;o como tamb&eacute;m estimular a sociedade a refletir sobre esse per&iacute;odo da hist&oacute;ria recente do pa&iacute;s. Nesse sentido, gostar&iacute;amos de citar duas iniciativas que apontam para a efetiva&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas de mem&oacute;ria. A primeira foi a recomenda&ccedil;&atilde;o da CV Ufes, que culminou na retirada de uma placa &#150; numa cerim&ocirc;nia realizada em 1ª de abril de 2014 &#150; em homenagem ao presidente Humberto Castelo Branco (1964&#45;1967), localizada na sala dos conselhos superiores da institui&ccedil;&atilde;o de ensino. </font></P>     <p><font size="3">Outra iniciativa partiu de diversos segmentos da universidade e foi incorporado pelos integrantes da CV Unicamp. O objetivo era "retirar" o t&iacute;tulo de doutor <I>honoris causa</I> concedido, em 1973, ao Gel. Jarbas Passarinho &#150; na &eacute;poca titular do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o (MEC).  Entretanto, no caso da Unicamp, o Conselho Universit&aacute;rio rejeitou, por apenas um voto, tal proposta. Apesar desse resultado negativo, ambas as iniciativas no campo das pol&iacute;ticas de mem&oacute;ria apontam para a import&acirc;ncia das atividades das comiss&otilde;es da verdade das universidades. Em seu conjunto, os trabalhos realizados pelas comiss&otilde;es espec&iacute;ficas permitem elucidar fatos ligados &agrave;s atividades das for&ccedil;as oficiais de repress&atilde;o que atuaram no interior das universidades e divulg&aacute;&#45;los, chegando a uma gera&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o viveu sob os ausp&iacute;cios da ditadura e que pouco conhece sobre esse passado.</font></P>     <p><font size="3">Salientamos que os trabalhos desenvolvidos pela CNV e comiss&otilde;es parceiras t&ecirc;m levantado uma importante documenta&ccedil;&atilde;o que &eacute; pass&iacute;vel de futuras an&aacute;lises em diferentes &aacute;reas do conhecimento: hist&oacute;ria, direito, arquivologia, ci&ecirc;ncia da informa&ccedil;&atilde;o e sociologia, somente para citar algumas. Os arquivos, por meio dos seus conjuntos documentais, possibilitam conhecer o passado e s&atilde;o fundamentais para determinar, no presente, as responsabilidades pelos crimes e injusti&ccedil;as cometidos por agentes do Estado, ou a seu mando. Dessa forma, esses documentos devem ser reconhecidos como um bem p&uacute;blico que, diretamente, contribuem para a escrita da hist&oacute;ria, para a salvaguarda do patrim&ocirc;nio documental da na&ccedil;&atilde;o e para a promo&ccedil;&atilde;o do direito &agrave; mem&oacute;ria e &agrave; verdade (10).</font></P>     <p><font size="3">Enfim, entendemos que os esfor&ccedil;os das comiss&otilde;es da verdade universit&aacute;rias representam uma oportunidade &uacute;nica para a comunidade universit&aacute;ria reencontrar, contar, enfim, conhecer epis&oacute;dios que ocorreram na universidade durante os "anos de chumbo". O contato da comunidade universit&aacute;ria com esses conjuntos documentais e com os testemunhos coletados poder&aacute; contribuir para a supera&ccedil;&atilde;o da cultura do sil&ecirc;ncio e do sigilo que ainda assombra nossa sociedade. Assim, al&eacute;m da recupera&ccedil;&atilde;o e da produ&ccedil;&atilde;o de novas fontes de pesquisa, tais iniciativas devem apontar para a supera&ccedil;&atilde;o de todas as manifesta&ccedil;&otilde;es da cultura pol&iacute;tica autorit&aacute;ria: na sociedade e nas universidades. Possibilitando, atrav&eacute;s do direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e do direito &agrave; mem&oacute;ria, a efetiva consolida&ccedil;&atilde;o da democracia brasileira. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i><b>Ang&eacute;lica M&uuml;ller</b> &eacute; doutora em hist&oacute;ria pela Universit&eacute; de Paris 1, doutora em hist&oacute;ria social pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), professora do Programa de P&oacute;s&#45;Gradua&ccedil;&atilde;o em Hist&oacute;ria do Brasil da Universidade Salgado de Oliveira e pesquisadora&#45;associada ao Centre d'Histoire Sociale du XX&egrave;meS i&egrave;cle &#150; Paris 1. Atua cmo pesquisadora s&ecirc;nior da Comiss&atilde;o Nacional da Verdade.    <br>   <b>Pedro Ernesto Fagundes</b> &eacute; doutor em hist&oacute;ria social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor da Universidade Federal do Esp&iacute;rito Santo (Ufes), coordenador da Comiss&atilde;o da Verdade da Ufes e membro da Comiss&atilde;o de Altos Estudos do Projeto Mem&oacute;ria Reveladas do Centro de Refer&ecirc;ncia das Lutas Pol&iacute;ticas do Brasil (1964&#45;1985).</i></font></p>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1. <i>O Estado de S. Paulo</i>, em 31/01/1974.    <!-- ref --> <i>Veja</i>, em 06/02/1974, p 32.    </font></P>     <p><font size="3">2.  M&uuml;ller, A. <i>A resist&ecirc;ncia do movimento estudantil no regime militar</i> (1969&#45;1979). Rio de Janeiro, FAPERJ/Garamond (no prelo).</font></P>     <p><font size="3">3.  Fico, C. op. cit., pp. 79&#45;80.</font></P>     <p><font size="3">4.  A professora Santa Marli Pires Santos obteve, em 1973, a licenciatura em desenho e pl&aacute;stica na pr&oacute;pria Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">5.  Of&iacute;cio de 08 de maio de 1979. cx 38, ma&ccedil;o 23, Arquivo Aesi UFMG &#150; In: Motta, R. P. S. Op. Cit., 2010, p. 407.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">6.  Motta, R. P. S. "Inc&ocirc;moda mem&oacute;ria: os arquivos das ASI universit&aacute;rias". <i>Acervo</i> (Rio de Janeiro), v. 16, p. 58.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">7.  Motta, R. P. S. <i>As universidades e o regime militar</i>. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">8.  Fagundes, P. E. "Universidade e repress&atilde;o pol&iacute;tica: o acesso aos documentos da assessoria especial de seguran&ccedil;a e informa&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal do Esp&iacute;rito Santo (Aesi/Ufes)". Revista <i>Tempo e Argumento</i>, Florian&oacute;polis, v. 5, n.10, jul./dez. 2013, pp. 295&#45;316.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">9.  O relat&oacute;rio da comiss&atilde;o foi entregue &agrave; CNV e est&aacute; dispon&iacute;vel no site da comiss&atilde;o: <a href="http://www.comissaoverdade.ufba.br/" target="_blank">http://www.comissaoverdade.ufba.br/</a></font><!-- ref --><p><font size="3">10.  M&uuml;ller, A.; Santana, M. A.; Stampa, I. <i>Documentar a ditadura: arquivos da repress&atilde;o e da resist&ecirc;ncia</i>. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2014 (prelo).    </font></P>     ]]></body>
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