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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/ensaios.jpg"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>O cinema e o campo     perceptivo da ci&ecirc;ncia</b></font></P>     <p><font size="3"><i>M&aacute;rcio Barreto</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O cinema &eacute; resultado da uni&atilde;o entre velocidade e fotografia, ideia formulada por Walter Benjamin (1) segundo a qual o cinema j&aacute; estava contido virtualmente na fotografia. No dia 22 de mar&ccedil;o de 1895, os irm&atilde;os Lumi&egrave;re exibiram o cinemat&oacute;grafo na Sociedade para o Desenvolvimento da Ci&ecirc;ncia de Paris, quando o filme <i>A sa&iacute;da dos oper&aacute;rios da f&aacute;brica Lumi&egrave;re</i> (<i>La sortie de l'usine Lumi&egrave;re &agrave; Lyon</i>) foi mostrado pela primeira vez. <i>A chegada do trem &agrave; Esta&ccedil;&atilde;o Ciotat</i>, filme dos irm&atilde;os Auguste e Louis Lumi&egrave;re de quarenta e cinco segundos de dura&ccedil;&atilde;o, teve sua primeira (2) exibi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica em Paris a 28 de dezembro de 1895 e marcou o encontro da locomotiva, a imagem da velocidade tecnol&oacute;gica, com a cinematografia, a velocidade da imagem fotogr&aacute;fica.</font></P>     <p><font size="3">Relatos da primeira exibi&ccedil;&atilde;o de <i>A chegada do trem &agrave; Esta&ccedil;&atilde;o Ciotat</i> retratam um p&uacute;blico totalmente afetado pela imagem do trem que se aproximava vertiginosamente do fundo para o primeiro plano, rumo ao limite esquerdo do campo. "Estamos aqui em plena inaugura&ccedil;&atilde;o daquilo que Gilles Deleuze chamou de imagem&#45;movimento, as pessoas correndo todas para o fundo da sala num ato reflexo diante da imagem do trem chegando &agrave; esta&ccedil;&atilde;o" (3).</font></P>     <blockquote>       <p><font size="3">"&#91;...&#93; a percep&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deve nada &agrave;quilo que n&oacute;s sabemos de outro modo sobre o mundo, sobre os <b>est&iacute;mulos</b>, tais como a f&iacute;sica os descreve, sobre os &oacute;rg&atilde;os dos sentidos, tais como a biologia os descreve. Em primeiro lugar, ela n&atilde;o se apresenta como um acontecimento no mundo ao qual se possa aplicar, por exemplo, a categoria de causalidade, mas a cada momento como uma recria&ccedil;&atilde;o ou uma reconstitui&ccedil;&atilde;o do mundo." (4)</font></p>       <p><font size="3">A percep&ccedil;&atilde;o &eacute; uma experi&ecirc;ncia incompleta que abre horizontes de novas experi&ecirc;ncias, mas tal incompletude n&atilde;o impede a certeza da presen&ccedil;a do que &eacute; percebido. </font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A rigor, a experi&ecirc;ncia da coisa no esbo&ccedil;o reduz&#45;se &agrave; possibilidade de prosseguir a experi&ecirc;ncia, de multiplicar as percep&ccedil;&otilde;es com a garantia de que n&atilde;o haver&aacute; fim. &#91;...&#93; A percep&ccedil;&atilde;o teria, assim, um car&aacute;ter transcendente, no sentido que excede as potencialidades que aparecem num primeiro plano que n&atilde;o esgotam a realidade daquilo que &eacute; percebido. Em suma, a coisa percebida n&atilde;o se apresenta ela mesma, conforme suas caracter&iacute;sticas pr&oacute;prias, naquilo que a manifesta: o esbo&ccedil;o, ao mesmo tempo, desvenda e dissimula a coisa. Quanto &agrave; coisa, ela aparece como sua aus&ecirc;ncia, se apresenta como inapreens&iacute;vel. (5)</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">O cinema &eacute; capaz de operar a transcend&ecirc;ncia do espectador numa experi&ecirc;ncia que excede o vivido mental, a representa&ccedil;&atilde;o e o campo perceptivo, aquilo que a intelig&ecirc;ncia n&atilde;o esgota, mas que a intui&ccedil;&atilde;o, no sentido bergsoniano do termo, consegue assegurar sua realidade. Os filmes de Harun Farocki desenvolvem essa potencialidade da imagem&#45;tempo: uma vez que o espectador assiste ao filme <i>Die sch&ouml;pfer der einkaufswelten</i> (<i>Os criadores dos mundos dos shoppings</i>: 2011), jamais ir&aacute; a um shopping center com o mesmo olhar de antes dessa experi&ecirc;ncia cinematogr&aacute;fica. O que fez Werner Herzog no recente <i>The cave offorgottendreams</i> (<i>A caverna dos sonhos esquecidos</i>: 2010) &eacute; prova de que o cinema &eacute; est&iacute;mulo para inesgot&aacute;veis n&iacute;veis de percep&ccedil;&atilde;o: O posf&aacute;cio &eacute; uma esp&eacute;cie de sinestesia temporal, pois nos faz perceber, ainda em estado de encantamento dos olhos pela viagem que as imagens em tr&ecirc;s dimens&otilde;es nos levam a trinta mil anos no passado, a tecnoci&ecirc;ncia no presente.</font></P>     <p><font size="3">Desde o in&iacute;cio da era moderna, tecnoci&ecirc;ncia e pol&iacute;tica se tornaram cada vez mais indissoci&aacute;veis, na mesma medida em que aumentou a nossa capacidade de manipular a mat&eacute;ria em um n&iacute;vel inacess&iacute;vel ao senso comum e, no limite, &agrave; pr&oacute;pria imagina&ccedil;&atilde;o humana. A experi&ecirc;ncia do tempo foi particularmente sens&iacute;vel a esse processo. Por um lado, foi dividida entre um tempo quantitativamente mensur&aacute;vel (o tempo&#45;medida) e um tempo qualitativo vivido (o tempo&#45;dura&ccedil;&atilde;o). Por outro lado, este &uacute;ltimo foi crescentemente reduzido a um tempo psicol&oacute;gico e, portanto,  insignificante para a f&iacute;sica, tal como ficou evidenciado na indiferen&ccedil;a de Einstein diante do esfor&ccedil;o de Bergson no debate de 1922 para encontrar a metaf&iacute;sica que envolve a teoria da relatividade. Privada de sua metaf&iacute;sica, a teoria se restringiu a uma sofisticada espacializa&ccedil;&atilde;o do tempo que &eacute; inacess&iacute;vel &agrave; nossa percep&ccedil;&atilde;o. Estaria na arte, especificamente no cinema, a via que reconduziria a metaf&iacute;sica na percep&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia?</font></P>     <p><font size="3">Filmes que contribuem com a divulga&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia s&atilde;o comuns em artigos publicados em revistas indexadas, em jornais impressos e eletr&ocirc;nicos, em <i>blogs</i> e mesmo em conversas informais. Nova (6) distinguiu esses filmes como: document&aacute;rios, reconstru&ccedil;&otilde;es de momentos marcantes da hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia, filmes de biografias de cientistas, filmes nos quais cientistas s&atilde;o imersos numa trama ficcional, fic&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas, entre outros. Seja qual for a categoria em que o filme se enquadre, "a ci&ecirc;ncia &eacute; geralmente retratada no cinema como civilizadora, progressiva, racional, e neutra. O conhecimento cient&iacute;fico &eacute; visto como algo apol&iacute;tico, n&atilde;o dogm&aacute;tico, inteiramente fundamentado e comprovado, mas perigoso." (7)</font></P>     <p><font size="3">No entanto, as m&uacute;ltiplas rela&ccedil;&otilde;es entre ci&ecirc;ncia, pol&iacute;tica, economia e sociedade devem ultrapassar a ing&ecirc;nua correspond&ecirc;ncia biun&iacute;voca entre os conceitos cient&iacute;ficos abordados num filme e sua fun&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica na percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da ci&ecirc;ncia. Confundindo a tela de proje&ccedil;&atilde;o com a retina do espectador, o cinema permite que a ci&ecirc;ncia seja discutida dentro e fora dos limites de suas fronteiras habituais, e que a percep&ccedil;&atilde;o de quem &eacute; arrebatado pela imagem em movimento v&aacute; al&eacute;m daquela que o senso comum adota a partir dos meios tradicionais de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e dos espa&ccedil;os de educa&ccedil;&atilde;o formal, tal como acontece em <i>Como se pode ver</i> (<i>Wiemansieht</i>: 1985) de Harun Farocki.</font></P>     <p><font size="3">Para Deleuze (8), a tela de proje&ccedil;&atilde;o do filme &eacute; a membrana cerebral onde se afrontam imediatamente, diretamente, o passado e o futuro, o interior e o exterior, sem dist&acirc;ncia design&aacute;vel, independentemente de qualquer ponto fixo. As imagens cinematogr&aacute;ficas nos afetam instaurando em n&oacute;s a topologia do tempo do filme, um tempo t&atilde;o real quanto artificial, criado na percep&ccedil;&atilde;o do espectador atrav&eacute;s da mistura de fotogramas que se sucedem em sua retina. O diretor de um filme tem em m&atilde;os o poder de nos afetar com a sucess&atilde;o de imagens que constr&oacute;i. O trabalho de um diretor de cinema refinado, como afirma o cineasta russo Andrei Tarkovski (9), &eacute; o de "esculpir o tempo", assim como o escultor toma um bloco de m&aacute;rmore e elimina tudo o que n&atilde;o faz parte de sua futura obra. Quando esse refinamento do olhar se derrama sobre a ci&ecirc;ncia, o espectador passa a enxerg&aacute;&#45;la sem seus estere&oacute;tipos habituais. </font></P>     <p><font size="3"><i>V&ecirc;nus negra</i> (<i>V&eacute;nus noire</i>: Fran&ccedil;a, 2011), dirigido pelo tunisiano Abdellatif Kechiche, possui v&aacute;rias entradas, mas se tomarmos a que tem o fio condutor da ci&ecirc;ncia, somos surpreendidos por uma esp&eacute;cie de relativiza&ccedil;&atilde;o da verdade cient&iacute;fica, pelas vacila&ccedil;&otilde;es do m&eacute;todo cient&iacute;fico e pelas subordina&ccedil;&otilde;es da ci&ecirc;ncia &agrave;s quest&otilde;es supostamente alheias aos seus dom&iacute;nios de maneira visceral.</font></P>     <p><font size="3">A primeira cena &eacute; arrebatadora, especialmente porque o filme &eacute; bastante fiel aos fatos hist&oacute;ricos no quais se baseou: numa palestra sobre anatomia proferida em 1817 na Real Academia de Medicina (Fran&ccedil;a), um modelo do corpo da sul&#45;africana Saartjie Baartman (brilhantemente interpretada por Yahima Torres), feito em gesso antes que ela fosse desintegrada pelas l&acirc;minas dos cientistas, &eacute; exibido &agrave; comunidade cient&iacute;fica como prova dos atributos f&iacute;sicos de uma mulher negra serem semelhantes aos de macacos dos quais se originaram, uma pr&aacute;tica usada para defender a superioridade dos brancos, os quais teriam origem diferente, mais distante dos s&iacute;mios do que a dos negros. Diante do corpo de Saartjie, o anatomista Georges Cuvier diz que jamais tinha visto uma cabe&ccedil;a humana t&atilde;o parecida com a dos macacos. Uma plateia composta por cientistas aplaude a constata&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <p><font size="3">Alardeada como pr&aacute;tica puramente objetiva e quantitativa, a ci&ecirc;ncia &eacute; percebida pelo senso comum como isenta de valores mercadol&oacute;gicos, preconceitos ou ideologias.  No entanto, seu car&aacute;ter absoluto e verdadeiro &eacute; colocado em xeque no filme de Kechiche. Uma vez reconhecido o giro falso do discurso banalizado sobre a ci&ecirc;ncia, o espectador perde sua ingenuidade em rela&ccedil;&atilde;o ao tema de maneira irrevers&iacute;vel, experi&ecirc;ncia viva de um espectador que vai al&eacute;m da pura an&aacute;lise do conte&uacute;do cient&iacute;fico de um filme.</font></P>     <p><font size="3"> Artigos publicados em revistas de prest&iacute;gio acad&ecirc;mico, como o de Cormick (10), abordam de maneira interessante as rela&ccedil;&otilde;es entre ci&ecirc;ncia, cinema e sociedade, mas n&atilde;o v&atilde;o al&eacute;m da pura an&aacute;lise, diferentemente do que faz Dutra (11) ao nos chamar a aten&ccedil;&atilde;o para um <i>travelling</i> de <i>2001 &#45; Uma odisseia no espa&ccedil;o</i> (<i>2001 &#45; a space odyssey</i>: Stanley Kubrick, 1968). "Seguindo a c&acirc;mera somos introduzidos no novo ambiente penetrando uma janela envidra&ccedil;ada e transparente cujo formato lembra uma tela de cinema". A travessia sugere a passagem do sonho tecnol&oacute;gico para o pesadelo que se inicia com o defeito do computador HAL, como se um novo filme ali come&ccedil;asse com a tecnoci&ecirc;ncia fugindo do controle dos que nela depositaram toda sua confian&ccedil;a.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Esta sutileza na narrativa do filme de Kubrick tem tanta for&ccedil;a quanto a escada espiral de <i>Gattaca:a experi&ecirc;ncia gen&eacute;tica</i> (<i>Gattaca</i>, Andrew Niccol, 1997): muito semelhante ao modelo da dupla h&eacute;lice do DNA, a escada simboliza a passagem da diferen&ccedil;a de classes para o plano molecular, mas em nenhum momento &eacute; mencionada como tal: &eacute; a percep&ccedil;&atilde;o do espectador que, de forma consciente ou subliminar, realiza a analogia. </font></P>     <p><font size="3">Resultado da combina&ccedil;&atilde;o entre teoria e pr&aacute;tica laboratorial, a ci&ecirc;ncia moderna surge com o m&eacute;todo de interrogar a natureza at&eacute; que ela "confesse" suas leis. Neste sentido, a descoberta de Newton da lei da atra&ccedil;&atilde;o gravitacional na segunda metade do s&eacute;culo XVII significou o coroamento da ci&ecirc;ncia moderna.</font></P>     <p><font size="3">As origens metaf&iacute;sicas da ci&ecirc;ncia moderna, como o hermetismo propagado por Giordano Bruno, a busca de Newton para ouvir o discurso de Deus cifrado na linguagem matem&aacute;tica das leis da natureza e os princ&iacute;pios sagrados da alquimia foram gradualmente esquecidos em favor da domestica&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos da natureza, criando condi&ccedil;&otilde;es favor&aacute;veis ao desenvolvimento do capitalismo, transferindo o que havia de sagrado nos prim&oacute;rdios da ci&ecirc;ncia para o fetiche da mercadoria. </font></P>     <p><font size="3">O alcance da s&iacute;ntese newtoniana, no sentido da instaura&ccedil;&atilde;o de uma vis&atilde;o utilitarista da ci&ecirc;ncia, foi impressionante: por um lado, permitiu &agrave; humanidade avan&ccedil;os vertiginosos no que diz respeito ao seu sucesso para habitar o planeta, mas representou tamb&eacute;m, por outro lado, o descolamento da pr&aacute;tica cient&iacute;fica de outras dimens&otilde;es da vida. Vejamos o que diz Alexandre Koyr&eacute; a esse respeito:</font></P>     <blockquote>       <p><font size="3">A ci&ecirc;ncia moderna tinha derrubado as barreiras que separavam os C&eacute;us e a Terra, que une e unificou o Universo. Isto &eacute; verdade. Mas ela f&ecirc;&#45;lo substituindo o nosso mundo de qualidades e percep&ccedil;&otilde;es sens&iacute;veis, mundo no qual vivemos, amamos e morremos, por outro: o da quantidade, da geometria deificada, no qual h&aacute; lugar para tudo menos para o homem. Assim, o mundo da ci&ecirc;ncia &#150; o mundo real &#150; se separou do mundo da vida. Na realidade esses dois mundos est&atilde;o unidos pela pr&aacute;xis, mas separados por um abismo. &Eacute; nisto que consiste a trag&eacute;dia do esp&iacute;rito moderno que desvendou o enigma do Universo, mas para substitu&iacute;&#45;lo por outro enigma: o de si pr&oacute;prio. (12)</font></p> </blockquote>     <p><font size="3"><i>Hamlet</i> foi escrito entre 1599 e 1601, aproximadamente 50 anos ap&oacute;s a publica&ccedil;&atilde;o de <i>De revolutionibus orbium coelestium</i>, de Nicolau Cop&eacute;rnico, e por volta de 30 anos antes da publica&ccedil;&atilde;o de <i>Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo</i>, de Galileu Galilei.  Shakespeare coloca nos l&aacute;bios do pr&iacute;ncipe da Dinamarca a d&uacute;vida paralisante das armadilhas do pensamento. </font></P>     <blockquote>       <p><font size="3">Ser ou n&atilde;o ser &#150; eis a quest&atilde;o. Ser&aacute; mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz ou pegar em armas contra o mar de ang&uacute;stias &#45; e, combatendo&#45;o, dar&#45;lhe fim? (...) Morrer &#150; dormir  &#45; dormir! Talvez sonhar. A&iacute; est&aacute; o obst&aacute;culo! Os sonhos que h&atilde;o de vir no sono da morte quando tivermos escapado ao tumulto vital nos obrigam a hesitar: e &eacute; essa reflex&atilde;o que d&aacute; &agrave; desventura uma vida t&atilde;o longa. (...) E assim o matiz natural da decis&atilde;o se transforma no doentio p&aacute;lido do pensamento. E empreitadas de vigor e coragem, refletidas demais, saem de seu caminho, perdem o nome de a&ccedil;&atilde;o. (13)</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">A d&uacute;vida do pr&iacute;ncipe Hamlet irrompe na obra de Shakespeare como chaga do homem moderno, pois sua d&uacute;vida n&atilde;o &eacute; a mesma que assolava os homens nas trag&eacute;dias cl&aacute;ssicas. "Aqui, a d&uacute;vida atroz surge como uma trinca no pr&oacute;prio ser do homem. Entregue &agrave;s suas for&ccedil;as, o homem acaba perdendo a f&eacute; em si mesmo. Ficam a carne, o pensamento... e o sofrimento que o pensamento inflige &agrave; carne" (14).</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Shakespeare captura a separa&ccedil;&atilde;o entre natureza e cultura na fase embrion&aacute;ria da ci&ecirc;ncia moderna, cujos desdobramentos s&atilde;o centrais em nossos dias na rela&ccedil;&atilde;o entre cultura e objeto t&eacute;cnico. N&atilde;o h&aacute; em <i>Hamlet</i> refer&ecirc;ncia &agrave; ci&ecirc;ncia, mas a for&ccedil;a da obra est&aacute; justamente naquilo que excede a percep&ccedil;&atilde;o imediata diante da obra liter&aacute;ria. </font></P>     <p><font size="3">O mesmo ocorre em <i>O s&eacute;timo selo</i> (<i>Det sjunde inseglet</i>), filme de 1956, dirigido por Ingmar Bergman: sem mencionar a ci&ecirc;ncia moderna, j&aacute; que o filme &eacute; ambientado no cen&aacute;rio da Europa medieval, numa &eacute;poca anterior a de Galileu e a de Newton, Bergman tem como pano de fundo desse filme a dessacraliza&ccedil;&atilde;o do conhecimento e o an&uacute;ncio da ci&ecirc;ncia como deposit&aacute;ria de toda esperan&ccedil;a para a dissolu&ccedil;&atilde;o dos mist&eacute;rios da vida e da morte. </font></P>     <p><font size="3">Tal como o personagem de Shakespeare, Antonius Block, cavaleiro recentemente chegado das Cruzadas, encarna todas as d&uacute;vidas que as armadilhas que o pensamento nos arma quando rompida a experi&ecirc;ncia religiosa com o mundo. </font></P>     <p><font size="3">No in&iacute;cio do filme, vemos a cena em que a trupe de artistas dorme numa carro&ccedil;a. O primeiro a despertar &eacute; o malabarista Jof: um pernilongo que zunia em seus ouvidos termina picando&#45;o; na transi&ccedil;&atilde;o do mundo dos sonhos para o estado de vig&iacute;lia, Jof esmaga o inseto com uma tapa contra sua pr&oacute;pria testa. Antes de jogar o bichinho, contempla&#45;o com um misto de al&iacute;vio e pesar.</font></P>     <p><font size="3">Pensamentos s&atilde;o como insetos impertinentes que giram em nossas mentes. Refiro&#45;me aos pensamentos do tipo que assolavam Hamlet e o perturbado Antonius Block, aos pensamentos que giram em c&iacute;rculos viciosos ao redor da d&uacute;vida paralisante que a raz&atilde;o dessacralizada por vezes nos imp&otilde;e. A atitude de Jof refletir&aacute; sua postura diante deste tipo de d&uacute;vida que assola seus contempor&acirc;neos: ele os jogar&aacute; fora e sua afli&ccedil;&atilde;o n&atilde;o durar&aacute; mais do que o instante de uma picada de pernilongo.</font></P>     <p><font size="3">Inspirado no quadro de Albertus Pictor, <i>A morte disputando uma partida de xadrez</i>, o filme de Bergman aposta na racionalidade do jogo de xadrez entre a morte e o cavaleiro como alegoria para as armadilhas que a raz&atilde;o embriagada pela d&uacute;vida nos conduz.</font></P>     <p><font size="3"><i>O s&eacute;timo selo</i> &eacute; de 1956 e seu t&iacute;tulo faz clara refer&ecirc;ncia ao Apocalipse: em meio &agrave;s feridas abertas pela bomba at&ocirc;mica na Segunda Guerra, na vertigem de sua pot&ecirc;ncia para destruir a vida humana no planeta em minutos, Bergman, num s&oacute; golpe, sutilmente exp&otilde;e a degenera&ccedil;&atilde;o do sagrado com o advento da ci&ecirc;ncia moderna e traduz a sensa&ccedil;&atilde;o da falibilidade moral do homem para lidar com a domina&ccedil;&atilde;o da natureza no n&iacute;vel subat&ocirc;mico. A incerteza hamletiana emergida no bojo do florescimento da ci&ecirc;ncia moderna &eacute; atualizada por Bergman na inseguran&ccedil;a que as armas nucleares desenvolvidas gra&ccedil;as ao avan&ccedil;o da ci&ecirc;ncia trouxeram especialmente durante a Guerra Fria, tema mais explicitamente retomado por Kubrick nove anos depois pela via da s&aacute;tira em <i>Dr. Fant&aacute;stico</i> (<i>Dr. Strangeloveor: how I learnedto stop worryingand love the bomb</i>: 1964).</font></P>     <p><font size="3">Talvez ecoem aqui e ali no filme de Bergman trechos do ensaio de D.H. Lawrence, intitulado <i>Apocalipse</i> (15), publicado em 1931, ou quem sabe lampejos do incr&iacute;vel <i>As profecias de Daniel e o Apocalipse de S&atilde;o Jo&atilde;o</i> (16), texto de Isaac Newton de 1733, erup&ccedil;&otilde;es no filme que podemos sintetizar na frase de uma can&ccedil;&atilde;o (17) da m&uacute;sica popular brasileira: "lembre&#45;se: quem n&atilde;o vive, tem medo da morte"; ou ainda, j&aacute; fora do campo perceptivo da ci&ecirc;ncia, no coment&aacute;rio de uma estudante ao sair da sala onde acabara de ser exibido <i>O s&eacute;timo selo</i>: "&eacute; a exist&ecirc;ncia inexor&aacute;vel da morte que torna a vida sagrada".</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><i>M&aacute;rcio Barreto &eacute; f&iacute;sico e professor da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), membro do grupo de pesquisa Conhecimento Tecnologia e Mercado (CTeMe/IFCH/Unicamp) e do Centro de Ci&ecirc;ncias Humanas e Sociais Aplicadas (CHS/FCA/Unicamp).Email: <a href="mailto:marcio.barreto@fca.unicamp.br">marcio.barreto@fca.unicamp.br</a></i></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Benjamin, W. <I>Walter Benjamin: Obras escolhidas (Magia e t&eacute;cnica, arte e pol&iacute;tica)</I>. S&atilde;o Paulo: Editora Brasiliense, 1985. pp. 165&#45;196.    </font></P>     <p><font size="3">2. Os irm&atilde;os Max e Emil Skladanowsky criaram um projetor que chamaram de biosc&oacute;pio, com um sistema mais simples do que cinemat&oacute;grafo dos irm&atilde;os Lumi&egrave;re. Apresentaram os primeiros filmes em Berlim em novembro de 1895, um m&ecirc;s antes da apresenta&ccedil;&atilde;o dos franceses em Paris. &Eacute; senso comum, no entanto, que o cinemat&oacute;grafo foi o primeiro aparelho a exibir filmes.</font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">3. Ferreira, P.; Barreto, M. "Fotografia, cinema e velocidade". In: Revista <I>ComCi&ecirc;ncia</I>, Campinas, v. 93, nov. 2007. Dispon&iacute;vel em: &lt;<A HREF="http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&amp;edicao=30&amp;id=352" target="_blank">www.comciencia.br/comciencia/?section=8&amp;edicao=30&amp;id=352</A>&gt; Acesso em: 20 mar. 2013.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">4. Merleau&#45;Ponty, M. <I>Fenomenologia da percep&ccedil;&atilde;o</I>. Martins Fontes, 1999. p. 279.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">5. Barbaras, R. <I>Investiga&ccedil;&otilde;es fenomenol&oacute;gicas: em dire&ccedil;&atilde;o a uma fenomenologia da vida</I>. Curitiba: Editora da UFPR, 2011. pp. 150&#45;151.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">6. Nova, C. "O cinema e o conhecimento da hist&oacute;ria". In: <I>Olho da Hist&oacute;ria</I>, vol. 3, pp. 217&#45;233, 1997.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">7. Oliveira, B. J. "Cinema e imagin&aacute;rio cient&iacute;fico". In: <I>Hist&oacute;ria, Ci&ecirc;ncias, Sa&uacute;de &#150; Manguinhos</I>. v. 13 (suplemento), p. 144, out. 2006.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">8. Deleuze G.<I>Cinema &#150; II: A imagem tempo</I>. Editora Brasiliense, 2005.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">9. Tarkovski, A. <I>Esculpir o tempo</I>.  Martins Fontes, 1990.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">10. Cormick, C.: "A clonagem vai ao cinema". In: <I>Hist&oacute;ria, Ci&ecirc;ncias, Sa&uacute;de &#150; Manguinhos</I>, vol. 13, (suplemento), pp. 181&#45;212, out. 2006.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">11. Dutra, R. A. "O desencantamento das ci&ecirc;ncias: estere&oacute;tipos e ambiguidades das ci&ecirc;ncias e das tecnoci&ecirc;ncias no cinema e na literatura cient&iacute;fica". 2005. pp.13. 237 f. Tese (doutorado em hist&oacute;ria social) &#45; PUC/SP, S&atilde;o Paulo. 2001.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">12. Koyr&eacute;, A. <I>&Eacute;tudes newtoniennes</I>. Gallimard, 1968.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">13. Shakespeare, W. <I>Hamlet</I>. Tradu&ccedil;&atilde;o de Mill&ocirc;r Fernandes. L &amp; PM, 2011. pp. 66&#45;67.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">14. Santos, L. G. "Lautr&eacute;amont e o desejo de n&atilde;o desejar". In: Novaes, A. (Funda&ccedil;&atilde;o Nacional de Arte) <I>O desejo</I>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 210.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">15. Lawrence, D.H. <I>Apocalipse, seguido de O homem que morreu</I>. Cia das Letras, 1990.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">16. Newton, I. <I>As profecias de Daniel e o Apocalipse de S&atilde;o Jo&atilde;o</I>. S&atilde;o Paulo: Editora Paensamento, 2011.    </font></P>     <!-- ref --><p><font size="3">17. Da can&ccedil;&atilde;o <I>Chav&atilde;o abre porta grande</I>, de Itamar Assump&ccedil;&atilde;o e Ricardo Guar&aacute;. <I>Long play Sampa midnight</I> (grava&ccedil;&atilde;o independente), 1983.    </font></P>      ]]></body><back>
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