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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a18img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3"><b>CRISE</b></font></P>     <p><font size=5><b>IMPOSTO SOBRE GRANDES FORTUNAS PARA REDUZIR A DESIGUALDADE</b></font></p> </font>     <p><font size="3">"Trata&#45;se de uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, dotado de uma consider&aacute;vel fortuna, deve estar precisando de esposa", diz a sra. Bennet logo no come&ccedil;o de <I>Orgulho e preconceito</I>, romance da escritora inglesa Jane Austen. A sra. Bennet resume o papel da mulher na sociedade inglesa do s&eacute;culo XIX, relegada ao plano da fam&iacute;lia e &agrave; possibilidade de um casamento vantajoso para ter alguma seguran&ccedil;a e estabilidade financeira. Os nobres descritos pela escritora vivem de renda, geralmente advinda de uma heran&ccedil;a, em um mundo que valoriza mais o bom nome e a reputa&ccedil;&atilde;o das fam&iacute;lias do que o trabalho. Em <I>O capital no s&eacute;culo XXI</I>, o economista franc&ecirc;s Thomas Piketty alerta que, continuando com as pr&aacute;ticas atuais, o capitalismo conduzir&aacute; o mundo de volta para o s&eacute;culo XIX onde, como nos romances de Jane Austen, alguns indiv&iacute;duos podem viver de renda, o trabalho para os ricos n&atilde;o &eacute; mais necess&aacute;rio e para os demais ele n&atilde;o gera crescimento ou mudan&ccedil;a de classe social.</font></P>     <p><font size="3"><i>O capital no s&eacute;culo XXI</I>, que ter&aacute; sua edi&ccedil;&atilde;o brasileira lan&ccedil;ada em novembro pr&oacute;ximo, pela editora Intr&iacute;nseca, tornou&#45;se um <I>best seller </I>da economia, desde seu lan&ccedil;amento em 2013, com dezenas de resenhas e an&aacute;lises ao redor do mundo. Em resenha para o <I>The New York Review</I>, Paul Krugman, Pr&ecirc;mio Nobel de Economia em 2008, afirmou que o livro vai mudar a maneira como pensamos a sociedade e a economia. <I>O capital no s&eacute;culo XXI </I>analisa a din&acirc;mica global de distribui&ccedil;&atilde;o de renda e de riqueza desde o s&eacute;culo XVIII em 20 pa&iacute;ses. Todos os dados est&atilde;o dispon&iacute;veis na p&aacute;gina de Piketty (<A HREF="http://piketty.pse.ens.fr/" target="_blank">http://piketty.pse.ens.fr</A>). "Eu usei dados hist&oacute;ricos coletados nos &uacute;ltimos 15 anos por mim e minha equipe da Paris School of Economics", explica o autor, em apresenta&ccedil;&atilde;o sobre o livro. A principal conclus&atilde;o da longa pesquisa &eacute; identificar uma tend&ecirc;ncia de crescimento do capital que supera o crescimento da economia. Para Piketty, isso significa um retorno a um tipo de sociedade fortemente baseada no patrim&ocirc;nio, com alta concentra&ccedil;&atilde;o de riqueza nas m&atilde;os de um pequeno n&uacute;mero de pessoas, um cen&aacute;rio gerado pela pr&oacute;pria din&acirc;mica do capitalismo, que resulta em altos n&iacute;veis de desigualdade em todo mundo. </font></P>     <p><font size="3">"O grande m&eacute;rito do livro, provavelmente um dos motivos de sua enorme repercuss&atilde;o, &eacute; que Piketty n&atilde;o defende a supera&ccedil;&atilde;o do sistema capitalista, como defendia a cr&iacute;tica marxista, por exemplo. Ele &eacute; a favor do sistema, mas afirma a necessidade de reparos capazes de interromper esse processo de concentra&ccedil;&atilde;o de riqueza e gera&ccedil;&atilde;o de desigualdade", explica Marcelo Manzano, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor da Faculdades de Campinas (Facamp). "N&atilde;o se colocar abertamente contra o capitalismo &eacute; a grande for&ccedil;a e tamb&eacute;m a grande sutileza do livro de Piketty", afirma Manzano.</font></P>     <p><font size="3"><b>MERITOCRACIA</b> Para Piketty o crescimento da desigualdade faz com que caminhemos para uma situa&ccedil;&atilde;o insuport&aacute;vel, especialmente pelas instabilidades sociais e pol&iacute;ticas que decorrem dessa conjuntura, onde se dar&aacute; mais valor &agrave; heran&ccedil;a do que ao trabalho, como nos romances de Jane Austen. "Em um mundo onde a riqueza cresce mais do que a economia, como incentivar um indiv&iacute;duo a concorrer ou produzir se o resultado n&atilde;o &eacute; medido pela sua contribui&ccedil;&atilde;o?", questiona Manzano. Os super&#45;sal&aacute;rios dos executivos est&atilde;o entre os exemplos citados pelo economista franc&ecirc;s. S&atilde;o valores que n&atilde;o t&ecirc;m rela&ccedil;&atilde;o direta com os rendimentos das empresas em que eles trabalham. H&aacute; um grande desequil&iacute;brio. "S&atilde;o valores do capital, da &eacute;tica do capitalismo que est&atilde;o em crise, pela pr&oacute;pria din&acirc;mica da concentra&ccedil;&atilde;o do capital", afirma o pesquisador da Unicamp.  E trata&#45;se de uma concentra&ccedil;&atilde;o em n&iacute;veis alarmantes, com a riqueza dos mais ricos crescendo em um ritmo tr&ecirc;s vezes maior do que a do restante das pessoas. </font></P>     <p><font size="3">Piketty defende a interven&ccedil;&atilde;o do Estado e de outras institui&ccedil;&otilde;es, no sentido de repartir melhor os ganhos gerados pelo capitalismo, de uma forma mais equilibrada. Para ele, institui&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas e fiscais devem ajudar a retomar esse equil&iacute;brio na distribui&ccedil;&atilde;o da riqueza no mundo. "Ele prop&otilde;e solu&ccedil;&otilde;es ousadas como a taxa&ccedil;&atilde;o das grandes fortunas e um imposto internacional que regule a migra&ccedil;&atilde;o de capitais, defende o fim dos para&iacute;sos fiscais, medidas bastante ut&oacute;picas, em nada triviais", explica Manzano . Para ele as propostas de Piketty exigem um grande esfor&ccedil;o de coordena&ccedil;&atilde;o internacional. </font></P>     <p><font size="3"><b>MUNDO DESIGUAL</b> O imposto progressivo para grandes fortunas seria a forma de nivelar as condi&ccedil;&otilde;es de concorr&ecirc;ncia entre os indiv&iacute;duos. N&atilde;o &eacute; uma ideia nova e j&aacute; &eacute; praticada em pa&iacute;ses como a Noruega, Su&iacute;&ccedil;a, Espanha e Fran&ccedil;a. A medida tamb&eacute;m j&aacute; foi adotada em momentos de crise, como no final da II Guerra Mundial, n&atilde;o para regular a concorr&ecirc;ncia, mas como o argumento de justi&ccedil;a social, para reconstruir uma sociedade destru&iacute;da pela guerra. V&aacute;rios pa&iacute;ses rec&eacute;m&#45;sa&iacute;dos da guerra criaram impostos sobre o patrim&ocirc;nio para arrecadar dinheiro para investir em educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de e infraestrutura. Ser&aacute; que precisamos de outra guerra para convencer a sociedade (ou os ricos) da necessidade de um imposto sobre as grandes fortunas? "O problema s&atilde;o as diferentes motiva&ccedil;&otilde;es em cada pa&iacute;s, motiva&ccedil;&otilde;es que se op&otilde;em a um acordo mundial. No p&oacute;s&#45;guerra isso foi poss&iacute;vel porque era necess&aacute;rio um pacto m&iacute;nimo para reconstruir o mundo. Thomas Piketty tem toda clareza de que a solu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; simples. Mas ele aponta sa&iacute;das", conclui Manzano.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a18img02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">No Brasil, historicamente, as elites financeiras e agr&aacute;rias s&atilde;o pouco tributadas. De acordo com Marcelo Manzano, entre as 20 maiores economias do mundo, o Brasil &eacute; que tem a menor al&iacute;quota de imposto de renda. Repetidos estudos do Instituto de Pesquisas Econ&ocirc;micas Aplicadas (Ipea) mostram que, no Brasil, os mais pobres gastam mais do que os ricos com o pagamento de tributos. Enquanto os 10% mais ricos repassam 22% de seus recursos para pagar impostos, os mais pobres repassam 32,8% para o governo. E, se pensarmos que os ricos t&ecirc;m acesso a servi&ccedil;os de melhor qualidade como educa&ccedil;&atilde;o e sa&uacute;de, esse dado se torna ainda mais grave. Al&eacute;m disso, como no Brasil a maior parte da arrecada&ccedil;&atilde;o vem da tributa&ccedil;&atilde;o sobre consumo, quem paga mais impostos proporcionalmente s&atilde;o os mais pobres. </font></P>     <p><font size="3"><b>INVISIBILIDADE</b> O Imposto Sobre Grandes Fortunas (IGF) foi previsto na Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, mas n&atilde;o foi regulamentado e existem outros projetos com o mesmo tema parados no Congresso Nacional. Em um pa&iacute;s em que a classe pol&iacute;tica se confunde com a elite, &eacute; dif&iacute;cil imaginar que um imposto como esse se torne realidade. No <I>#Protestos: an&aacute;lises das ci&ecirc;ncias sociais </I>(2014) o soci&oacute;logo David Cattani faz uma an&aacute;lise sobre as manifesta&ccedil;&otilde;es de junho de 2013 no Brasil e afirma que os segmentos empresariais comp&otilde;em a classe social mais poderosa e organizada do pa&iacute;s. "Eles det&ecirc;m os principais meios de produ&ccedil;&atilde;o, t&ecirc;m capacidade de incidir fortemente na condu&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica econ&ocirc;mica e nos projetos governamentais, al&eacute;m de estarem estreitamente articulados com a grande m&iacute;dia, alimentando&#45;a com recursos financeiros e conte&uacute;dos espec&iacute;ficos". </font></P>     <p><font size="3">Para Cattani, "superada a perplexidade inicial, representantes do grande capital interpretaram a gram&aacute;tica dos protestos como justificativa para refor&ccedil;ar a litania neoliberal", que defende ardentemente a redu&ccedil;&atilde;o da carga tribut&aacute;ria. E essa interpreta&ccedil;&atilde;o acabou minimizando ou suprimindo esse conte&uacute;do que estava presente nos protestos. "As grandes faixas do Bloco de Lutas nas quais estava escrito 'Que os ricos paguem a conta', 'Passe Livre: os ricos v&atilde;o pagar' passaram pelo Photoshop e n&atilde;o ilustraram nenhuma reportagem da grande m&iacute;dia e t&atilde;o pouco foram consideradas por empres&aacute;rios e comentaristas econ&ocirc;micos", afirmou o pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Cattani lembra ainda que, no auge dos protestos de junho de 2013, o l&iacute;der do PT no Congresso, o deputado Jos&eacute; Guimar&atilde;es (CE), relan&ccedil;ou a proposta do imposto sobre as grandes fortunas. No entanto, a rea&ccedil;&atilde;o do meio empresarial, expressa em diversos ve&iacute;culos da m&iacute;dia, foi desacreditar o projeto, vinculando&#45;o &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o no governo.</font></P>     <p><font size="3">Para Cattani, o destaque dado pelo grande m&iacute;dia ao "impost&ocirc;metro", criado pela Associa&ccedil;&atilde;o Comercial de S&atilde;o Paulo, &eacute; outro sintoma do poder das elites brasileiras de disseminar conte&uacute;dos e defender seu ponto de vista. Entretanto, poucos conhecem o "soneg&ocirc;metro", criado pelo Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz). Em entrevista para o jornal <I>Folha de S. Paulo</I>, em agosto deste ano, o presidente da Sinprofaz, Her&aacute;clio Camargo, afirmou que a sonega&ccedil;&atilde;o de impostos deve alcan&ccedil;ar os R$ 500 bilh&otilde;es esse ano. "Se os grandes contribuintes (pessoa f&iacute;sica e jur&iacute;dica) pagassem corretamente seus impostos, a carga tribut&aacute;ria poderia cair significativamente, o que representaria um passo importante na dire&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a social", finaliza David Cattani.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><I>Patr&iacute;cia Mariuzzo</i></font></p>      ]]></body>
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