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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>LITERATURA</b></font></P>     <p><font size=5><b>C<small>IENTIFICISMO NA OBRA DE</small> M<small>ACHADO DE</small> A<small>SSIS</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A obsess&atilde;o pela ci&ecirc;ncia permeia v&aacute;rias personagens da obra machadiana, segundo constatou Mariella Augusta, doutora em literatura portuguesa pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) e pesquisadora dos contos de Machado de Assis (1839&#45;1908) em seu mestrado. "H&aacute; muitos trechos nos quais Machado faz uma s&aacute;tira do positivismo. Muitas personagens s&atilde;o obcecadas pela ci&ecirc;ncia &#150; e elas s&atilde;o doentes", explica. </font></P>     <p><font size="3">Essa caracter&iacute;stica,  encontrada no conto&#45;novela <I>O alienista</I>, permeia tamb&eacute;m seus romances e contos menos conhecidos, a exemplo do <I>Ideias do can&aacute;rio, </I>no qual o  escritor p&otilde;e em cheque a "verdade", no sentido filos&oacute;fico, difundida pela ci&ecirc;ncia: "o protagonista &#91;um ornitologista&#93;, ao encontrar um can&aacute;rio que fala, come&ccedil;a a estudar todos os p&aacute;ssaros. Ele quer do can&aacute;rio uma resposta sobre o que &eacute; a vida &#150; e o can&aacute;rio debocha do estudioso. Machado de Assis &eacute; c&eacute;tico no sentido de n&atilde;o admitir uma &uacute;nica verdade, como quer a ci&ecirc;ncia positivista", compara. </font></P>     <p><font size="3">Em 2010, dois anos ap&oacute;s o centen&aacute;rio da morte do escritor, a historiadora Daniela Magalh&atilde;es da Silveira publicou sua tese de doutorado "F&aacute;brica de contos: ci&ecirc;ncia e literatura" em Machado de Assis, defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde investigou o processo de escrita de seus contos e como eles dialogavam com os principais debates cient&iacute;ficos e filos&oacute;ficos da segunda metade do s&eacute;culo XIX. </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a19img01.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Ao analisar duas colet&acirc;neas de contos, publicados originalmente na imprensa entre 1875 e 1884, a autora observa que, por meio de sua narrativa, o escritor criticava as "verdades" cient&iacute;ficas da &eacute;poca: "Machado explorou o arcabou&ccedil;o que estruturava a fala dos principais homens envolvidos em pensar o futuro do pa&iacute;s naquele momento. A linguagem cient&iacute;fica servia para justificar medidas pol&iacute;ticas e invalidar qualquer outra opini&atilde;o que n&atilde;o coubesse naquele padr&atilde;o de pensamento", defende Daniela em sua tese. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Foi no Iluminismo (s&eacute;culo XVIII) que pensadores europeus passaram a utilizar o modelo de estudar as ci&ecirc;ncias naturais &#150; e suas leis &#150; para analisar a sociedade, com o intuito, num primeiro momento, de enterrar o obscurantismo da igreja. Mas foi apenas no s&eacute;culo seguinte que o positivismo fincou suas ra&iacute;zes na forma de ver e compreender a realidade por meio de pensadores como o franc&ecirc;s Auguste Comte (1798&#45;1857) e o ingl&ecirc;s Herbert Spencer (1820&#45;1903), para quem a ci&ecirc;ncia seria a respons&aacute;vel pelo progresso que, com o advento do capitalismo e da incipiente tecnologia, aflorava para a humanidade.</font></P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v66n4/a19img02.jpg"></P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size="3">Essas novas ideias desembarcaram no Brasil por volta de 1870 e, de acordo com Daniela, ganharam espa&ccedil;o em peri&oacute;dicos da &eacute;poca. Na <I>Revista Brasileira</I>, por exemplo &#150; publica&ccedil;&atilde;o carioca onde foi publicado, em folhetim, o romance machadiano <I>Mem&oacute;rias p&oacute;stumas de Br&aacute;s Cubas, </I>em 1880 &#150;, al&eacute;m de artigos sobre literatura, outra tem&aacute;tica comum dizia respeito a quest&otilde;es relacionadas ao conhecimento cient&iacute;fico e a autores como Spencer, Comte e Darwin. </font></P>     <p><font size="3"><i>O alienista</I> foi publicado no jornal carioca <I>A Esta&ccedil;&atilde;o</I> em 1881 e, no ano seguinte, foi inserido por Machado de Assis na colet&acirc;nea de contos <I>Pap&eacute;is avulsos, </I>junto com mais 11 contos &#150; e todos eles faziam cr&iacute;tica ao cientificismo da &eacute;poca. Para Mariella Augusta, Machado de Assis tinha uma vis&atilde;o tr&aacute;gica do mundo, o que inclui a ci&ecirc;ncia. "Em <I>O alienista</I>, todo o conto &eacute; escrito em fun&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o de um homem com a ci&ecirc;ncia e da rela&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia com ela mesma. Achar que a ci&ecirc;ncia responde a todas as perguntas, ou que ela &eacute; a grande demolidora dos valores n&atilde;o cient&iacute;ficos, &eacute; mentira para Machado &#150; e &eacute; isso que ele satiriza", analisa. </font></P>     <p><font size="3">Al&eacute;m da cr&iacute;tica ao cientificismo feita por meio de ironia e da caracteriza&ccedil;&atilde;o de personagens, a historiadora Daniela Silveira ressalta que o escritor explorava a pr&oacute;pria forma narrativa para mostrar personagens que detinham conhecimento em contraposi&ccedil;&atilde;o a interlocutores cuja fun&ccedil;&atilde;o era ouvir calados. "Em <I>O espelho</I> &#91;conto publicado na mesma colet&acirc;nea na qual entrou <I>O alienista</I>&#93;, Jacobina chegou a afirmar sua avers&atilde;o por discuss&otilde;es. Para contar seu 'caso', exigia sil&ecirc;ncio da parte de seus companheiros. &#91;...&#93; Com a anula&ccedil;&atilde;o do outro, tais di&aacute;logos se aproximavam em grande medida de outra f&oacute;rmula narrativa explorada por Machado de Assis, em <I>Pap&eacute;is avulsos</I>, e cara aos doutos da ci&ecirc;ncia: a confer&ecirc;ncia". </font></P>     <p>&nbsp;</P>     <P ALIGN="RIGHT"><font size="3"><I>Jana&iacute;na Quit&eacute;rio</i></font></p>      ]]></body>
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