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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br> 350 ANOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Peri&oacute;dicos cient&iacute;ficos marcam autoria, difundem conhecimento e buscam reinven&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Hoje, os peri&oacute;dicos cient&iacute;ficos interferem fortemente na produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica das na&ccedil;&otilde;es, s&atilde;o o carro-chefe da produtividade de acad&ecirc;micos e o meio pelo qual a &eacute;tica na pesquisa se delineia. Mas n&atilde;o foi sempre assim. Em 1665 surgiam duas das primeiras revistas especializadas, o franc&ecirc;s <i>Journal de Savants</i> e o ingl&ecirc;s <i>Philosophical Transactions</i>, ainda na ativa. Nestes 350 anos, os esfor&ccedil;os de divulgar os principais avan&ccedil;os da ci&ecirc;ncia e do conhecimento se mant&ecirc;m e o enfoque est&aacute; na credibilidade dos artigos, nas quest&otilde;es que envolvem o processo de avalia&ccedil;&atilde;o por pares e no peso que as &aacute;reas do conhecimento atribuem aos artigos cient&iacute;ficos. Em mar&ccedil;o a Royal Society, em Londres, Inglaterra, organiza uma s&eacute;rie de celebra&ccedil;&otilde;es para entender os trajetos que os peri&oacute;dicos tra&ccedil;aram, os desafios e o futuro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Com apenas 12 p&aacute;ginas, em 5 de janeiro foi lan&ccedil;ada a primeira edi&ccedil;&atilde;o semanal do <i>Journal des S&ccedil;avans</i> (ortografia atualizada em 1797), inspirado no formato de distribui&ccedil;&atilde;o de jornais e almanaques, combinado com o conte&uacute;do de correspond&ecirc;ncia entre acad&ecirc;micos e cat&aacute;logos de livros. Com tra&ccedil;os mais liter&aacute;rios, a publica&ccedil;&atilde;o atendeu &agrave; necessidade do p&uacute;blico de receber informa&ccedil;&otilde;es mais rapidamente e com menor custo de produ&ccedil;&atilde;o que os livros. O conte&uacute;do era recheado com resumos de livros recentes, obitu&aacute;rios de ilustres das ci&ecirc;ncias e letras (os s&aacute;bios - <i>savants</i>), com reflex&otilde;es cr&iacute;ticas, al&eacute;m de decis&otilde;es jur&iacute;dicas civis e eclesi&aacute;sticas, e voltado n&atilde;o apenas para os intelectuais, mas para um grupo mais amplo de leitores.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Seu primeiro editor, Jean-Denis de Sallo, al&eacute;m de membro do parlamento franc&ecirc;s foi um intelectual que participou da cria&ccedil;&atilde;o da Academia de Ci&ecirc;ncias da Fran&ccedil;a. "A revista foi criada para o al&iacute;vio daqueles indolentes ou muito ocupados para ler livros inteiros. &Eacute; um meio de satisfazer a curiosidade e de compreender sem grandes dificuldades", justificou Sallo na primeira edi&ccedil;&atilde;o. A partir de 1816 a revista passou a ser publicada pela Academia de Letras francesa, consolidando-se como peri&oacute;dico liter&aacute;rio. Hoje, as edi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o semestrais e existem 288 volumes digitalizados no site da Biblioteca da Fran&ccedil;a (<a href="http://gallica.bnf.fr/" target="_blank">http://gallica.bnf.fr/</a>).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Modelo para peri&oacute;dicos cient&iacute;ficos</b> Num movimento similar, a Royal Society, fundada em 1662, organizou uma publica&ccedil;&atilde;o que desse vaz&atilde;o aos debates cient&iacute;ficos que ocorriam dentro de suas paredes, al&eacute;m de incentivar a pr&aacute;tica e o desenvolvimento cient&iacute;ficos. As p&aacute;ginas do <i>Philosophical Transactions</i> receberam contribui&ccedil;&otilde;es de autores ilustres como Robert Boyle, Isaac Newton, Gottfried Leibniz, Benjamin Franklin, Charles Darwin, Michael Faraday e Stephen Hawking. O fil&oacute;sofo natural e te&oacute;logo alem&atilde;o Henry Oldenburg, seu idealizador e primeiro editor era respons&aacute;vel justamente pela correspond&ecirc;ncia internacional da Royal Society e sua experi&ecirc;ncia em garimpar e compartilhar informa&ccedil;&otilde;es valiosas com os membros da institui&ccedil;&atilde;o foram fundamentais para a defini&ccedil;&atilde;o do perfil da publica&ccedil;&atilde;o. As primeiras edi&ccedil;&otilde;es reuniam resumos de livros rec&eacute;m-lan&ccedil;ados, revis&otilde;es, descri&ccedil;&atilde;o de observa&ccedil;&otilde;es e experimentos de fil&oacute;sofos naturais europeus.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">O diferencial em rela&ccedil;&atilde;o ao peri&oacute;dico franc&ecirc;s era o perfil de relatos detalhados de experimentos que serviam n&atilde;o apenas para incentivar pesquisas in&eacute;ditas, mas tamb&eacute;m assegurar direitos autorais sobre inven&ccedil;&otilde;es inacabadas ou descobertas cient&iacute;ficas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">"O que come&ccedil;ou como um instrumento para poupar trabalho, criada por Henry Oldenburg como um meio de simplificar a correspond&ecirc;ncia da sociedade e, talvez, gerar um pouco de lucro, deu in&iacute;cio a um g&ecirc;nero totalmente novo -a revista cient&iacute;fica, uma forma de impress&atilde;o cuja flexibilidade, diversidade de conte&uacute;do e velocidade de transmiss&atilde;o imediatamente cativou a imagina&ccedil;&atilde;o de fil&oacute;sofos naturais do s&eacute;culo XVII e provocou uma revolu&ccedil;&atilde;o na comunica&ccedil;&atilde;o de seu trabalho", afirmou Paul Nurse, presidente da Royal Society. Ambas as publica&ccedil;&otilde;es pretendiam contribuir para que o conhecimento cient&iacute;fico circulasse entre especialistas e interessados. Aos poucos os artigos cient&iacute;ficos foram ganhando espa&ccedil;o, tornando-se mais populares a partir do s&eacute;culo XVIII. Um dos exemplos de sua velocidade e for&ccedil;a est&aacute; na divulga&ccedil;&atilde;o da teoria da evolu&ccedil;&atilde;o de Charles Darwin, que apesar de duas d&eacute;cadas de pesquisas e investimentos na divulga&ccedil;&atilde;o por meio de livros, foi convencido a public&aacute;-la em forma de artigo em 1858. O hist&oacute;rico "On the tendency of species to form varieties; and on the perpetuation of varieties and species by natural means of selection", com breves cinco p&aacute;ginas foi publicado na revista <i>Proceedings of the Linean Society of London</i> em coautoria com Alfred Wallace, de modo a garantir a autoria sobre a teoria que revolucionaria a biologia e in&uacute;meras outras &aacute;reas do conhecimento.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">H&aacute; sinais de in&iacute;cio de um sistema de revis&atilde;o por pares no peri&oacute;dico escoc&ecirc;s <i>Medical Essays and Observations</i> da <i>Royal Society Edinburg</i>. O pr&oacute;prio <i>Philosophical Transactions</i> inaugurou seu comit&ecirc; para revis&atilde;o de artigos em 1752. Mas o sistema de revis&atilde;o por pares s&oacute; se consolidaria a partir da segunda metade do s&eacute;culo XIX, acompanhando a tend&ecirc;ncia &agrave; especializa&ccedil;&atilde;o nas ci&ecirc;ncias e como uma forma de distinguir publica&ccedil;&otilde;es de profissionais e amadores. Sinal dessa especializa&ccedil;&atilde;o &eacute; a cria&ccedil;&atilde;o da revista <i>Philosophical Transactions</i> A (f&iacute;sica, engenharia e matem&aacute;tica) e B (ci&ecirc;ncias da vida) em 1887. Hoje a institui&ccedil;&atilde;o inglesa soma 10 peri&oacute;dicos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Press&atilde;o por Mais rigor</b> Dentre as importantes transforma&ccedil;&otilde;es que os peri&oacute;dicos sofreram no &uacute;ltimo s&eacute;culo est&aacute; a cria&ccedil;&atilde;o de indexadores que permitiram a organiza&ccedil;&atilde;o e recupera&ccedil;&atilde;o de artigos, com a posterior cria&ccedil;&atilde;o de &iacute;ndices de produtividade, sobretudo a partir dos anos 1960, e a migra&ccedil;&atilde;o sucessiva para o meio digital a partir da populariza&ccedil;&atilde;o da internet. No entanto, at&eacute; hoje &eacute; comum encontrarmos revistas cient&iacute;ficas cuja vers&atilde;o online &eacute; simplesmente o espelho da vers&atilde;o impressa. As revistas especializadas passaram a estabelecer normas e par&acirc;metros de publica&ccedil;&atilde;o que acabaram afetando a pr&oacute;pria forma de fazer ci&ecirc;ncia, pressionando por mais transpar&ecirc;ncia e qualidade nas informa&ccedil;&otilde;es divulgadas. Esse &eacute; o exemplo de experimentos com animais ou exames cl&iacute;nicos em humanos, na descri&ccedil;&atilde;o do papel de cada autor ao final dos artigos, na divulga&ccedil;&atilde;o de anexos com detalhamento de experimentos que n&atilde;o cabem no espa&ccedil;o reservado aos artigos, entre outros.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Multiplicam-se vers&otilde;es multim&iacute;dia de artigos cient&iacute;ficos, a exemplo do projeto "O artigo do futuro" anunciado em 2009 pela editora holandesa Elsevier e colocado em pr&aacute;tica pela revista <i>Cell</i> e j&aacute; disseminados em outras publica&ccedil;&otilde;es. O objetivo &eacute; que seja permitido n&atilde;o apenas a leitura horizontal, aos modos de um artigo impresso, mas que os gr&aacute;ficos, imagens, resultados, refer&ecirc;ncias possam ser cruzados com outros artigos de modo a potencializar para uma leitura mais profunda do estudo, fazendo conex&otilde;es com outras pesquisas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Um dos pontos centrais de debate &eacute; a busca por um processo de <i>peer review</i> mais transparente e eficaz. Isto porque ele n&atilde;o tem sido suficiente para diminuir os casos de m&aacute; conduta acad&ecirc;mica, dentre eles o n&uacute;mero de retrata&ccedil;&otilde;es cresce em ritmo superior &agrave; publica&ccedil;&atilde;o de artigos, como mostraram R. Grant Steen, Arturo Casadevall e Ferric Fang, em artigo da <i>Plos One</i> de 2013 (DOI 10.1371).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">H&aacute; ainda as quest&otilde;es que envolvem o acesso ao conte&uacute;do dos peri&oacute;dicos. As grandes editores internacionais costumam cobrar duas vezes: pela submiss&atilde;o dos artigos e pela leitura integral dos artigos. No Brasil, l&iacute;der mundial em acesso aberto, os peri&oacute;dicos j&aacute; come&ccedil;am a cobrar pelas submiss&otilde;es e tentam fortalecer sua internacionaliza&ccedil;&atilde;o e se manter gratuitos para o p&uacute;blico leitor.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Comemora&ccedil;&otilde;es</b> A partir de 6 de mar&ccedil;o, data de funda&ccedil;&atilde;o do <i>Philosophical Transactions</i>, a Royal Society inicia uma s&eacute;rie de eventos comemorativos, come&ccedil;ando com uma exibi&ccedil;&atilde;o de v&iacute;deos sobre artigos seminais que inspiraram cientistas e transformaram o mundo. De 19 a 21 de mar&ccedil;o uma grande confer&ecirc;ncia em hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia ("Publish or perish? The past, present and future of the scientific journal") re&uacute;ne especialistas de universidades brit&acirc;nicas, americanas e francesas para debater os desafios presentes e futuros das publica&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas. De 20 a 21 de abril e de 5 a 6 de maio a institui&ccedil;&atilde;o prepara mais debates acerca do "futuro da comunica&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica especializada com enfoque em temas pol&ecirc;micos da comunica&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, como o impacto da tecnologia, o surgimento da cultura cient&iacute;fica e como cientistas devem se comunicar no futuro", como informa o site da Royal Society. Ap&oacute;s mais de tr&ecirc;s s&eacute;culos, estamos assistindo transforma&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o ecoar nos modos de produ&ccedil;&atilde;o de ci&ecirc;ncia dos pr&oacute;ximos anos. Mais motivos para comemorarmos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><i>Germana Barata</i></font></p>     ]]></body>
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