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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   PSICAN&Aacute;LISE E FILOSOFIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>O pensamento de Isa&iacute;as Melsohn</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Marilsa Taffarel</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Para Isa&iacute;as Melsohn existem dois Freud e &eacute; fundamental distingui-los uma vez que entre eles h&aacute; uma fratura.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Um deles &eacute; o Freud voltado para a capta&ccedil;&atilde;o do sentido. Este, presente nas grandes obras publicadas em torno dos anos 1900, amplia grandemente o espectro das manifesta&ccedil;&otilde;es humanas dotadas de sentido. Faz uma revolu&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica no campo da significa&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos ps&iacute;quicos e da cultura.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">O outro Freud, presente nos textos metapsicol&oacute;gicos, ir&aacute; fundamentar o sentido apreendido no relato do sonho, na psicopatologia da fala, no sintoma neur&oacute;tico, nos gestos e na conduta humana, em uma psicologia que o s&eacute;culo XX ultrapassou, a psicologia cl&aacute;ssica ou empirista.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A psicologia cl&aacute;ssica pela sua heran&ccedil;a empirista, s&oacute; pode conceber a consci&ecirc;ncia com uma superf&iacute;cie receptora de impress&otilde;es e a percep&ccedil;&atilde;o como uma esp&eacute;cie de decalque do mundo. O estrato elementar das sensa&ccedil;&otilde;es simples e suas regras de associa&ccedil;&atilde;o seriam a origem segura de todo conhecimento do mundo. A garantia da objetividade e da verdade, concebida como uma adequa&ccedil;&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o mental ao mundo (<i>adequatio rei et intelectus</i>).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Por que inexiste uma reflex&atilde;o cr&iacute;tica interna &agrave; psican&aacute;lise sobre a no&ccedil;&atilde;o de percep&ccedil;&atilde;o que ela adota? Por que os grandes te&oacute;ricos da psican&aacute;lise n&atilde;o consideram a revis&atilde;o total feita pela fenomenologia nos fundamentos epistemol&oacute;gicos e tamb&eacute;m na concep&ccedil;&atilde;o de homem da psicologia cl&aacute;ssica? Pergunta-se Melsohn.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">H&aacute;, em geral, uma convic&ccedil;&atilde;o da independ&ecirc;ncia da psican&aacute;lise em rela&ccedil;&atilde;o a toda psicologia. Isa&iacute;as mostra que esses conceitos est&atilde;o  presentes e s&atilde;o determinantes daqueles propriamente psicanal&iacute;ticos, os conceitos metapsicol&oacute;gicos, sobretudo o de inconsciente representacional e seus correlatos, tais como repress&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A exist&ecirc;ncia de "dois Freud" foi tamb&eacute;m objeto de reflex&atilde;o para George Politzer em sua obra, tornada cl&aacute;ssica, <i>Cr&iacute;tica dos fundamentos da psicologia </i>de 1928. Ele critica a redu&ccedil;&atilde;o, feita pela teoriza&ccedil;&atilde;o freudiana, da psican&aacute;lise &agrave; psicologia cl&aacute;ssica, cientificista. A metapsicologia &eacute;, para ele, uma abstra&ccedil;&atilde;o, padece de realismo. Com ela, Freud abandona sua descoberta: a descoberta do sentido individual e concreto do sonho.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Politzer &eacute; retomado em 1960, no IV Col&oacute;quio de Bonneval sobre o inconsciente, por Serge Leclaire e Jean Laplanche que fazem uma homenagem ao momento inicial de seu pensamento, o da obra citada acima. O que &eacute; criticado &eacute; a ideia de Politzer da iman&ecirc;ncia do sentido: "nossa experi&ecirc;ncia se op&otilde;e &agrave; redu&ccedil;&atilde;o de um gesto, de um s&iacute;mbolo, de uma palavra, tais como se apresentam na an&aacute;lise, a ser s&oacute; um signo original inventado pelo sujeito para expressar em uma linguagem &uacute;nica, uma inten&ccedil;&atilde;o significante, ela mesma marcada de particularidade."</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">(1) Politzer praticaria uma redu&ccedil;&atilde;o, um achatamento da dimens&atilde;o subjetiva ao propor uma estrutura de duas dimens&otilde;es: a letra (o manifesto) e seu sentido, que ocuparia o lugar de inconsciente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Bento Prado, importante fil&oacute;sofo e estudioso da psican&aacute;lise, em seu artigo  "George Politzer: Cr&iacute;tica dos fundamentos da psicologia", denomina a abordagem de Laplanche e Leclaire de neolacaniana ortodoxa.</font></p> <font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">     <blockquote> (...) o, que se critica em Politzer &eacute; uma concep&ccedil;&atilde;o dualista ou expressivista - e n&atilde;o tern&aacute;ria como deveria - do sentido, que pensa apenas a rela&ccedil;&atilde;o vertical entre conte&uacute;do manifesto e um sentido latente. Os tempos agora s&atilde;o os da l&oacute;gica e da lingu&iacute;stica, em que importa menos a iman&ecirc;ncia significativa num signo qualquer que os esquemas de substitui&ccedil;&atilde;o dos signos entre si (2).</blockquote> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Escreve ele criticamente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Este &eacute; o ponto crucial que Isa&iacute;as ir&aacute; retomar, instrumentado pela sua cl&iacute;nica e por recursos inovadores, na concep&ccedil;&atilde;o de linguagem e de simbolismo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Isa&iacute;as, para atingir o seu objetivo de fazer uma reflex&atilde;o cr&iacute;tica sobre o estatuto epistemol&oacute;gico e ontol&oacute;gico do conceito de representa&ccedil;&atilde;o inconsciente, segue um caminho que passa necessariamente pelo exame dos conceitos b&aacute;sicos como imagina&ccedil;&atilde;o, percep&ccedil;&atilde;o, sentimento, iman&ecirc;ncia da consci&ecirc;ncia (a ideia de que as representa&ccedil;&otilde;es perceptivas ou imagin&aacute;rias s&atilde;o internas &agrave; consci&ecirc;ncia). Depois de examin&aacute;-los no &acirc;mbito da psicologia cl&aacute;ssica mostra sua refundi&ccedil;&atilde;o, possibilitada pelas novas investiga&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">As concep&ccedil;&otilde;es cl&aacute;ssicas da psicologia entram em conflito com os dados das experi&ecirc;ncias perceptivas.  Por exemplo: uma mancha colorida nos parece da mesma cor em toda sua superf&iacute;cie, quando os limiares crom&aacute;ticos das diferentes regi&otilde;es da retina deveriam faz&ecirc;-la, vermelha num certo ponto, alaranjada em outro etc (3). Explica Isa&iacute;as que, embora se possa apelar para a lei da const&acirc;ncia e explicar esses fen&ocirc;menos pela aten&ccedil;&atilde;o ou pela fun&ccedil;&atilde;o do julgamento, verificou-se, examinando os fen&ocirc;menos, que a apreens&atilde;o de uma qualidade est&aacute; ligada ao contexto perceptivo mais do que a sensa&ccedil;&otilde;es elementares.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A psicologia da forma com seus trabalhos experimentais, sistem&aacute;ticos, contribuiu muito para a cr&iacute;tica das teorias da psicologia cl&aacute;ssica. K&ouml;ller, na d&eacute;cada 1920, ao analisar as hip&oacute;tese empiristas, segundo as quais todo fato sensorial local &eacute; estritamente determinado por seu est&iacute;mulo, visa a evidenciar que, ao contr&aacute;rio, as caracter&iacute;sticas dos est&iacute;mulos, nas sua rela&ccedil;&otilde;es m&uacute;tuas, t&ecirc;m um papel central na experi&ecirc;ncia sensorial local,</font></p>     <blockquote><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">(...) de sorte que certos aspectos de seu conte&uacute;do vir&atilde;o em primeiro plano, ao passo que outros ser&atilde;o suprimidos em grau maior ou menor. (...) (Isto) Equivale a uma transforma&ccedil;&atilde;o real de certos fatos sensoriais em outros (...). (4)</font></blockquote>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Mesmo quando se trata de pura receptividade, h&aacute; uma sele&ccedil;&atilde;o dos est&iacute;mulos sens&iacute;veis. N&atilde;o temos nem nesse n&iacute;vel a reprodu&ccedil;&atilde;o de um simples dado.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A percep&ccedil;&atilde;o de express&otilde;es, a capta&ccedil;&atilde;o afetiva do mundo &eacute; prim&aacute;ria e geneticamente anterior &agrave; percep&ccedil;&atilde;o de coisas. O "fato expressivo" tem um significado que reside nele mesmo. A express&atilde;o n&atilde;o &eacute; um signo referencial, que se remete a um significado diferente dele pr&oacute;prio. Percebemos diretamente sem recorrer a experi&ecirc;ncias anteriores - infer&ecirc;ncias ou media&ccedil;&otilde;es de algum tipo - as propriedades expressivas inerentes aos objetos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A primeira maior influ&ecirc;ncia sobre o pensamento de Melsohn foi o fil&oacute;sofo Edmund Husserl (fundador da fenomenologia) e sua cr&iacute;tica &agrave; iman&ecirc;ncia psicol&oacute;gica. A sua concep&ccedil;&atilde;o de consci&ecirc;ncia aberta para o mundo (consci&ecirc;ncia &eacute; "consci&ecirc;ncia de"), os seus conceitos de ato no&eacute;tico ou ato intencional e noema, um sentido ou uma significa&ccedil;&atilde;o relativos a um objeto intencional apreendido como externo. Ou seja, o objeto da percep&ccedil;&atilde;o ou da imagina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o est&aacute; dentro da consci&ecirc;ncia. A partir de sensa&ccedil;&otilde;es internas apreendemos qualidades sens&iacute;veis de objetos externos. As qualidades sens&iacute;veis dos objetos externos, como a cor e a luminosidade, s&atilde;o apreendidas pelas sensa&ccedil;&otilde;es internas. As sensa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o imagens, <i>bilder</i> (em alem&atilde;o). Elas s&atilde;o a base sensorial para representar objetos transcendentes &agrave; consci&ecirc;ncia que podem ser perceptivos ou imagin&aacute;rios.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Melsohn pode pensar, a partir da cr&iacute;tica &agrave; iman&ecirc;ncia, um mundo interno consistente com uma ordem, uma organiza&ccedil;&atilde;o complexa de impulsos, uma delicada organiza&ccedil;&atilde;o de estruturas de movimentos intencionais (no&eacute;sis) que, projetados e espacializados, possibilitam a determina&ccedil;&atilde;o dos objetos. O interno encontra sua forma nos objetos e cenas que o mundo oferece (noema).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Isa&iacute;as Melsohn chega &agrave; psicologia da forma atrav&eacute;s de Ernst Cassirer, sua segunda influ&ecirc;ncia maior. Esse fil&oacute;sofo alem&atilde;o, de origem neo-kantiana, &eacute; influenciado por Hegel, Dilthey, Husserl, Goethe, entre outros. Para construir sua obra filos&oacute;fica principal <i>Filosofia das formas simb&oacute;licas</i>, ele re&uacute;ne e aprofunda os conhecimentos acumulados pelos psic&oacute;logos da forma, pelos fenomen&oacute;logos que, a partir do m&eacute;todo criado por Husserl, tamb&eacute;m trabalharam sobre a nova concep&ccedil;&atilde;o de percep&ccedil;&atilde;o do mundo e do outro, do "tu".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Ernst Cassirer ir&aacute; se voltar para a fundamenta&ccedil;&atilde;o (as condi&ccedil;&otilde;es de possibilidade) de v&aacute;rios universos culturais: a ci&ecirc;ncia, a arte, a religi&atilde;o, a linguagem, o mundo m&iacute;tico, e para a forma de consci&ecirc;ncia que corresponde a eles. Para Cassirer &eacute; o conceito de s&iacute;mbolo e de forma simb&oacute;lica que une e diferencia essas v&aacute;rias esferas da produ&ccedil;&atilde;o humana. O projeto do fil&oacute;sofo de abranger todas as formas de objetividade (de produ&ccedil;&atilde;o humana nas diferentes formas de cultura) e da subjetividade (que sujeito produz essas culturas) o leva ao estudo do mito e da linguagem atrav&eacute;s do qual chega ao mais origin&aacute;rio estrato a consci&ecirc;ncia, &agrave;s formas mais b&aacute;sicas da subjetividade. Ele ir&aacute; diferenciar dois tipos de percep&ccedil;&atilde;o: a percep&ccedil;&atilde;o objetiva e a percep&ccedil;&atilde;o expressiva. Essa forma de percep&ccedil;&atilde;o &eacute; plenamente vigente no mundo do mito. Por&eacute;m, persiste nas esferas da cultura do dito mundo "civilizado", nas supersti&ccedil;&otilde;es dos adultos, e nas crian&ccedil;as. Para Isa&iacute;as, ela est&aacute; presente na neurose.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Na percep&ccedil;&atilde;o expressiva n&atilde;o pensamos o objeto, estamos nele. Trata-se de uma imagem (ou palavra) que toma toda a consci&ecirc;ncia. Trata-se de uma pura presen&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Eu passo numa rua, por uma constru&ccedil;&atilde;o. Cai um objeto, eu me apercebo, eu de repente fico transido, eu me desvio, ativa-se um esquema interno, pr&oacute;prio de uma estrutura funcional assim chamada esquizo-paran&oacute;ide, para me p&ocirc;r a salvo, ou eu fico paralisado, ao sabor do perigo. Eu sequer me dou conta se &eacute; um tijolo colorido, um peda&ccedil;o de concreto, um</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">caibro. Talvez eu me d&ecirc; conta vagamente de uma forma, mas trata-se de uma <i>forma perigosa</i>, despojada das demais qualidades sens&iacute;veis dos objetos da percep&ccedil;&atilde;o trivial. O que me acontece neste estado? H&aacute; uma total contra&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia, tudo o mais que pertence ao acervo subjetivo se eclipsa e desaparece, s&oacute; aquele objeto &eacute; centro da minha aten&ccedil;&atilde;o e absorve a totalidade da minha consci&ecirc;ncia (5).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Isa&iacute;as, em v&aacute;rias passagens de seu livro, examina a fobia do pequeno Hans. Retoma Freud para quem as representa&ccedil;&otilde;es que dizem respeito ao complexo ed&iacute;pico - tais como o desejo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; m&atilde;e, impulso de castrar o pai, o terror de ser castrado - est&atilde;o no inconsciente. Representa&ccedil;&otilde;es derivadas destas e modificadas pelo processo prim&aacute;rio como as representa&ccedil;&otilde;es da fobia t&ecirc;m acesso &agrave; consci&ecirc;ncia. Essas revelam e escondem as verdadeiras representa&ccedil;&otilde;es ed&iacute;picas de Hans que, atrav&eacute;s do processo anal&iacute;tico, viriam &agrave; consci&ecirc;ncia articuladas e com clara significa&ccedil;&atilde;o. As verdadeiras representa&ccedil;&otilde;es ed&iacute;picas estavam no inconsciente. O aterrorizante cavalo caindo e esperneando, esconde (e mostra) a verdade da fobia: o pai como objeto das motiva&ccedil;&otilde;es afetivo-pulsionais de Hans. O cavalo, na cena que motiva a fobia, exprime, para Freud, outro contexto perceptivo, as percep&ccedil;&otilde;es que envolvem o pai.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A postula&ccedil;&atilde;o de uma representa&ccedil;&atilde;o do pai no inconsciente seria, para Isa&iacute;as, produto de uma an&aacute;lise intelectualista resultante da ado&ccedil;&atilde;o da teoria psicol&oacute;gica vigente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Melsohn entende a fobia de Hans como uma produ&ccedil;&atilde;o origin&aacute;ria na qual uma emo&ccedil;&atilde;o intensa - os impulsos mobilizados no menino pela vida sexual dos pais, o pavor da castra&ccedil;&atilde;o, o desejo de eliminar o pai, de possuir a m&atilde;e - ganham forma atrav&eacute;s de uma imagem prop&iacute;cia, da cena do cavalo que escorrega e cai.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A constru&ccedil;&atilde;o f&oacute;bica de Hans &eacute; perceptiva - percep&ccedil;&atilde;o expressiva - e imagin&aacute;ria. Ela objetiva os impulsos contradit&oacute;rios e as viv&ecirc;ncias do menino. &Eacute; uma objetiva&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica do mundo interno de impulsos em suas rela&ccedil;&otilde;es com o mundo externo. As estruturas internas de impulsos (no&eacute;ticas) se fixam atrav&eacute;s do conte&uacute;do f&oacute;bico (noema). A forma da experi&ecirc;ncia emocional, para Isa&iacute;as, se organiza de um modo peculiar, como um s&iacute;mbolo presentificador da experi&ecirc;ncia, com sentidos amb&iacute;guos, numa linguagem n&atilde;o discursiva, n&atilde;o literal, condizente com o universo m&iacute;tico em que se passa.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Enfim,</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">(...) a fobia do pequeno Hans tem por fun&ccedil;&atilde;o construir um determinado n&iacute;vel de conflito e n&atilde;o mascar&aacute;-lo. Impulsos e sentimentos, aqui, adquirem consist&ecirc;ncia e forma definida mediante a cria&ccedil;&atilde;o de uma concep&ccedil;&atilde;o, de um conte&uacute;do de pensamento. A realidade  - para n&oacute;s - do significado da fobia, se faz realidade para Hans, por meio desta concep&ccedil;&atilde;o f&oacute;bica (6).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">No trabalho sobre a afasia de 1891 est&aacute; o que Melsohn considera a concep&ccedil;&atilde;o "epistemol&oacute;gico-psicol&oacute;gica" central de Freud: a representa&ccedil;&atilde;o de coisa. Fundamento da teoria psicanal&iacute;tica, a representa&ccedil;&atilde;o de coisa &eacute;, para Freud, o registro sensorial inconsciente do objeto.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Como todos sabemos, para Freud, a condi&ccedil;&atilde;o para que a representa&ccedil;&atilde;o de coisa seja pass&iacute;vel de consci&ecirc;ncia &eacute; associar-se &agrave; representa&ccedil;&atilde;o de palavra, ela precisa entrar no circuito da linguagem. A concep&ccedil;&atilde;o de linguagem de Freud &eacute; a mesma da psicologia emp&iacute;rica do s&eacute;culo XIX: recep&ccedil;&atilde;o e registro de sensa&ccedil;&otilde;es auditivas de som, de sequ&ecirc;ncia de letras, palavras, frases e a emiss&atilde;o articulada de sons ouvidos. O nome liga-se firmemente &agrave; representa&ccedil;&atilde;o do objeto que &eacute;, por sua vez, resultado de associa&ccedil;&otilde;es de sensa&ccedil;&otilde;es visuais, olfativas, auditivas, t&aacute;cteis, cenest&eacute;sicas etc que prov&ecirc;m do objeto. Decorre disso que o registro de um objeto &eacute; independente da significa&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica. Haveria uma realidade inominada no inconsciente. A linguagem apenas denotaria o que a percep&ccedil;&atilde;o fornece.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Cassirer retoma essa quest&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o da linguagem com o mundo da percep&ccedil;&atilde;o apoiado em Wilheim von Humboldt, quem, a partir de investiga&ccedil;&otilde;es sobre as formas da percep&ccedil;&atilde;o, mostra que n&atilde;o podemos conceber a linguagem como nomeando o que a percep&ccedil;&atilde;o nos d&aacute;. Ao contr&aacute;rio, a linguagem tem um papel diretor na percep&ccedil;&atilde;o e na compreens&atilde;o do mundo. Para Cassirer (7), &agrave; medida que a linguagem avan&ccedil;a em dire&ccedil;&atilde;o a uma unifica&ccedil;&atilde;o das diferentes palavras que designam um objeto visto em diferentes posi&ccedil;&otilde;es - uma casa vista de lado que tem um nome distinto de uma casa vista de frente ou de cima, por exemplo - &eacute; que o objeto pode ser percebido em sua totalidade. A unidade do nome &eacute; que permite a unifica&ccedil;&atilde;o da multiplicidade das representa&ccedil;&otilde;es, ensina e mostra Cassirer. A linguagem &eacute;, para ele, o instrumento de constitui&ccedil;&atilde;o da realidade. A linguagem nasce e est&aacute; fundida com o mito. Mas o estudo minucioso que o autor faz do processo de desenvolvimento da linguagem, no segundo volume da <i>Filosofia das formas simb&oacute;licas,</i> mostra como a linguagem ultrapassa o <i>mito</i>, sua fase expressiva, e com seu desenvolvimento, conduz &agrave; racionalidade, &agrave; percep&ccedil;&atilde;o objetiva e possibilita a constru&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Isa&iacute;as examina tamb&eacute;m a mudan&ccedil;a na concep&ccedil;&atilde;o do sentimento. Com James-Lange, cuja teoria data de 1885, teoria que Freud incorpora na metapsicologia, o sentimento era entendido como modifica&ccedil;&otilde;es org&acirc;nicas vegetativo-motoras, processos de descarga percebidos pela consci&ecirc;ncia como um "estremecimento" interior. Melsohn lembra-nos que mesmo quando Freud critica essa teoria, mant&eacute;m-se a ideia do sentimento como processo interno que se liga a representa&ccedil;&otilde;es. Essa teoria sofre uma reviravolta com Husserl que a concebe como uma forma de apreens&atilde;o do objeto, uma apreens&atilde;o afetiva do mundo. Cassirer, por sua vez, seguindo essa dire&ccedil;&atilde;o aberta por Husserl, compreende a emo&ccedil;&atilde;o e o sentimento como percep&ccedil;&atilde;o de qualidades expressivas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Para Isa&iacute;as a escuta a-te&oacute;rica na sess&atilde;o psicanal&iacute;tica &eacute; fundamental uma vez que s&oacute; ela permite a apreens&atilde;o da esfera fenom&ecirc;nica da experi&ecirc;ncia. O analista deve fazer uma "suspen&ccedil;&atilde;o", uma <i>epoch</i>&eacute; das teorias psicanal&iacute;ticas que dariam um sentido antecipado para sua escuta.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Al&eacute;m disso, a aten&ccedil;&atilde;o flutuante &eacute; um convite &agrave; suspens&atilde;o pr&oacute;pria aos valores sem&acirc;ntico-referenciais do discurso, com sua organiza&ccedil;&atilde;o sint&aacute;xica-horizontal. &Eacute; um convite para abrir a sensibilidade para rela&ccedil;&otilde;es outras: contradi&ccedil;&otilde;es, repeti&ccedil;&atilde;o tem&aacute;tica, asson&acirc;ncias, polaridades, invers&otilde;es. Como as que existem no mito e as que Freud via no processo prim&aacute;rio e no sonho: ambival&ecirc;ncias diretamente expressas coexistindo, elementos opostos presentes concomitantemente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">O encontro anal&iacute;tico &eacute; o momento privilegiado da sess&atilde;o. Um turbilh&atilde;o emocional &eacute; desencadeado nele. Isa&iacute;as, na sua descri&ccedil;&atilde;o dos primeiros momentos do encontro lembra-nos a passagem em que Merleau-Ponty descreve o encontro com o outro: "tudo &agrave; volta &eacute; imediatamente visto de uma forma diferente, os dois corpos formam um &uacute;nico todo. N&atilde;o existe mais um eu e um outro (8).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Para Isa&iacute;as &eacute; a&iacute; que s&atilde;o mobilizados impulsos insuspeitados que n&atilde;o teriam outra maneira de se constitu&iacute;rem.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">O analista, tamb&eacute;m invadido pela experi&ecirc;ncia emocional do encontro, enfrenta uma dupla exig&ecirc;ncia: aceitar a invas&atilde;o acolhendo-a, a fim de poder, a seguir, apreender o seu sentido e formul&aacute;-lo numa interpreta&ccedil;&atilde;o. Por&eacute;m, &eacute; essencial que a fun&ccedil;&atilde;o expressiva esteja presente na comunica&ccedil;&atilde;o do analista. Assim, o paciente poder&aacute; ouvir a si pr&oacute;prio falado por outrem; poder&aacute; se reconhecer dentro e atrav&eacute;s do outro numa nova fus&atilde;o, desta vez simb&oacute;lica. O efeito mutativo da interpreta&ccedil;&atilde;o resulta da uni&atilde;o do sentido expressivo e da significa&ccedil;&atilde;o, do som e da letra, do poder musical e designativo da palavra.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A apreens&atilde;o do sentido de uma fala vai desvelar a articula&ccedil;&atilde;o de impulsos e do valor emocional da rela&ccedil;&atilde;o humana que se configura naquele instante.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Para Isa&iacute;as a an&aacute;lise &eacute; an&aacute;lise do presente e n&atilde;o an&aacute;lise do passado.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Marilsa Taffarel</b> &eacute; psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo (SBPSP) e doutora em psican&aacute;lise.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Notas e Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">1. Leclaire, S. &amp; Laplanche, J. "El inconsciente: un estudio psicoanal&iacute;tico". In: El inconsciente freudianoy el psicoan&aacute;lisis franc&ecirc;s contempor&acirc;neo. Buenos Aires: Ed. Nueva Visi&oacute;n,1969.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">2. Prado Jr., B. "George Politzer: cr&iacute;tica dos fundamentos da psicologia", In: Filosofia da psican&aacute;lise. S&atilde;o Paulo: Ed. Brasiliense, 1991, pp.16-17.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">3. Melsohn, I. Psican&aacute;lise em nova chave, S&atilde;o Paulo, Ed. Perspectiva, 2001, p. 14.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">4. Melsohn, 2001. Op. Cit. p.175.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">5. Melsohn, 2001. Op. Cit. p. 92.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">6. Melsohn, 2001. Op. Cit. p. 24.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">7. Cassirer, E. "El lenguaje y la construcion del mundo de los objetos dos objetos", In: Psicologia dael lenguaje, Buenos Aires, Editorial Paidos, 1972.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">8. Merleau-Ponty, M. Fenomenog&iacute;a de la percepci&oacute;n. Barcelona, Ed. Pen&iacute;nsula, 1975.    </font></p>      ]]></body><back>
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