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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br> PSICAN&Aacute;LISE E FILOSOFIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Sartre e a psican&aacute;lise: subjetividade e hist&oacute;ria</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Franklin Leopoldo e Silva</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Como Sartre chegou &agrave; psican&aacute;lise? Ele a teria descoberto, depois de um certo percurso te&oacute;rico em que ela apareceria como um outro modo de pensar as quest&otilde;es da exist&ecirc;ncia? Ou apareceria, "naturalmente", ao longo de um percurso em que a subjetividade e as dimens&otilde;es objetivas do mundo entrariam em tens&atilde;o? Sem recusar a pertin&ecirc;ncia dessas perguntas, talvez seja mais esclarecedor tentar compreender a necessidade da psican&aacute;lise na economia interna da obra de Sartre. Nesse sentido podemos dizer que duas vertentes de sua obra, paralelas e confluentes, o teriam conduzido &agrave; psican&aacute;lise: a elucida&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica da subjetividade como processo existencial e a compreens&atilde;o do car&aacute;ter hist&oacute;rico da exist&ecirc;ncia. Em outras palavras, a psican&aacute;lise aparece para Sartre como um dos instrumentos necess&aacute;rios para o entendimento de uma quest&atilde;o central: a rela&ccedil;&atilde;o entre subjetividade e hist&oacute;ria.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Se entendermos que a filosofia de Sartre se constituiu em torno dessa quest&atilde;o, n&atilde;o cabe separar os termos que a comp&otilde;em. N&atilde;o podemos dizer, por exemplo, que em <i>O ser e o nada</i>, publicado em 1943, encontramos uma an&aacute;lise fenomenol&oacute;gica da exist&ecirc;ncia na sua dimens&atilde;o subjetiva, e que em <i>Quest&atilde;o de m&eacute;todo</i> e na <i>Cr&iacute;tica da raz&atilde;o dial&eacute;tica</i>, em 1960, ter&iacute;amos uma abordagem do sujeito hist&oacute;rico. Tal separa&ccedil;&atilde;o tem muito de artificial, e a leitura pautada pelo que poderia ser entendido como uma sequ&ecirc;ncia de duas diferentes "fases" do pensamento de Sartre arrisca-se a deixar escapar algo fundamental: a subjetividade, como exerc&iacute;cio de uma liberdade radical, deve ser sempre pensada historicamente, pois a exist&ecirc;ncia &eacute;, por defini&ccedil;&atilde;o, hist&oacute;rica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Acontece que o <b>modo de ser hist&oacute;rico</b> da exist&ecirc;ncia humana manifesta-se na exist&ecirc;ncia individual como <b>uma hist&oacute;ria</b>. Cada um de n&oacute;s &eacute; uma hist&oacute;ria porque a historicidade define a realidade humana; isso quer dizer que a afirma&ccedil;&atilde;o de cada exist&ecirc;ncia individual se d&aacute; como uma determinada hist&oacute;ria de vida, vivida na singularidade de cada escolha pela qual o sujeito afirma a sua liberdade, negando os obst&aacute;culos que se op&otilde;em &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;xis a partir das inten&ccedil;&otilde;es subjetivas. Em suma, cada hist&oacute;ria subjetiva se desenrola no plano geral da hist&oacute;ria objetiva. Em vez de tentar estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o sint&eacute;tica entre essas duas esferas da realidade humana, a tradi&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica se dividiu entre duas op&ccedil;&otilde;es: ou a primazia da consci&ecirc;ncia subjetiva (substancial em Descartes, l&oacute;gica em Kant), ou a primazia da realidade emp&iacute;rica objetiva (empiristas e positivistas). Habitualmente designamos a primeira escolha como idealismo e a segunda como materialismo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Para Sartre, essa dicotomia deve ser superada. Se a realidade humana &eacute; hist&oacute;rica, ela se d&aacute; por via da rela&ccedil;&atilde;o entre um sujeito, que &eacute; sempre um agente hist&oacute;rico, e o conjunto de condi&ccedil;&otilde;es objetivas que contextualizam e limitam a a&ccedil;&atilde;o. Pois se &eacute; verdade que o homem <b>est&aacute; na</b> hist&oacute;ria, tamb&eacute;m &eacute; verdade que &eacute; ele que <b>faz</b> a hist&oacute;ria. Ora, o marxismo com o qual Sartre se defronta em seu tempo caracteriza-se por uma tend&ecirc;ncia materialista que se quer radical - o que se expressa na subordina&ccedil;&atilde;o da subjetividade, ou da consci&ecirc;ncia, &agrave;s determina&ccedil;&otilde;es materiais, principalmente de ordem socioecon&ocirc;mica. Sartre entende que esse menosprezo da realidade hist&oacute;rica do sujeito, fazendo-o simples reflexo das condi&ccedil;&otilde;es gerais, n&atilde;o corresponde ao pensamento dial&eacute;tico, que deveria pautar o conhecimento pela tens&atilde;o entre elementos opostos, no caso a singularidade subjetiva e a hist&oacute;ria como contexto objetivo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Somente assim as duas inst&acirc;ncias apareceriam como efetivamente reais, exercendo fun&ccedil;&atilde;o constituinte, tanto subjetiva quanto objetivamente. Os indiv&iacute;duos n&atilde;o s&atilde;o meros efeitos das determina&ccedil;&otilde;es gerais: estas somente os produzem na medida em que foram produzidas por eles. A psican&aacute;lise aparece ent&atilde;o como a forma de tornar intelig&iacute;vel a hist&oacute;ria subjetiva, a cont&iacute;nua forma&ccedil;&atilde;o do sujeito, o modo pelo qual ele se constitui e, ao mesmo tempo, &eacute; constitu&iacute;do pelo meio hist&oacute;rico em que tem de viver.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">O conhecimento dessa forma&ccedil;&atilde;o subjetiva entui o processo de existir, a partir da liberdade origin&aacute;ria e radical que define a subjetividade. Como se sabe, o sentido sartreano de liberdade inclui algo de fatalidade: podemos escolher qualquer coisa, me-nos a impossibilidade de escolher, como se estiv&eacute;ssemos destinados a ser livres, n&atilde;o podendo escolher n&atilde;o s&ecirc;-lo. Constitu&iacute;mos a nossa subjetividade atrav&eacute;s de nossas escolhas; ao mesmo tempo somos constitu&iacute;dos em nossa subjetividade pelos limites dessas escolhas, ou, como diz Sartre, pela <b>situa&ccedil;&atilde;o</b> a partir da qual temos de escolher. A realidade humana, enquanto exist&ecirc;ncia, define-se pela liberdade. Mas a realidade do indiv&iacute;duo e o modo de exerc&iacute;cio da liberdade que o define sup&otilde;em sempre uma dada situa&ccedil;&atilde;o: fatores limitantes e determinantes da efetiva&ccedil;&atilde;o da liberdade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">O componente de irrealiza&ccedil;&atilde;o que &eacute; pr&oacute;prio do desejo tamb&eacute;m aparece no &acirc;mbito do exerc&iacute;cio da liberdade: podemos escolher - e talvez de modo absoluto - mas a realiza&ccedil;&atilde;o da escolha por meio de a&ccedil;&otilde;es empreendidas a partir da liberdade &eacute; algo que diz respeito &agrave; conting&ecirc;ncia do mundo, ao entrecruzamento das a&ccedil;&otilde;es, porque, se &eacute; verdade que fa&ccedil;o a hist&oacute;ria, &eacute; verdade que o outro tamb&eacute;m a faz. Assim os limites da liberdade situada devem ser compreendidos principalmente como a quest&atilde;o da alteridade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">N&atilde;o se trata apenas de dizer que a liberdade do outro limita a minha, porque nesse caso j&aacute; estar&iacute;amos no plano de regula&ccedil;&otilde;es normativas da vida em comum na esfera objetiva, como sociabilidade, direitos etc. Trata-se de algo mais fundamental, que est&aacute; na pr&oacute;pria origem da constitui&ccedil;&atilde;o da identidade do sujeito. Todo indiv&iacute;duo &eacute; <b>sujeito</b> na medida em que pode <b>objetivar</b> o outro; e &eacute; <b>objeto</b> na medida em que tem de se <b>sujeitar</b> &agrave; <b>objetiva&ccedil;&atilde;o</b> do outro. O fato de que todo sujeito &eacute; objeto para outro sujeito revela ao mesmo tempo o limite e a condi&ccedil;&atilde;o de constitui&ccedil;&atilde;o da subjetividade. Constitu&iacute;mos e somos constitu&iacute;dos. Subjetividade, identidade, liberdade s&oacute; podem ser compreendidas por via dessa rela&ccedil;&atilde;o dial&eacute;tica entre a atividade e a passividade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Somente a psican&aacute;lise pode nos levar &agrave; compreens&atilde;o dessa tens&atilde;o fundamental que articula problematicamente o processo de identifica&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, a trajet&oacute;ria pela qual o indiv&iacute;duo se torna sujeito, construindo as s&iacute;nteses prec&aacute;rias que o revelar&atilde;o a si e aos outros. E Sartre concorda com Freud acerca do peso decisivo da inf&acirc;ncia exatamente porque se trata da forma&ccedil;&atilde;o da subjetividade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">S&oacute; a psican&aacute;lise permite, hoje, estudar a fundo o processo pelo qual uma crian&ccedil;a, no escuro, tateante, vai tentar desempenhar, sem compreend&ecirc;-lo, a personagem social que os adultos lhe imp&otilde;em, s&oacute; ela nos mostrar&aacute; se a crian&ccedil;a sufoca em seu pa-pel, se procura fugir dele ou se o assimila inteiramente. Apenas ela permite encontrar o homem inteiro no adulto, isto &eacute;, n&atilde;o somente suas determina&ccedil;&otilde;es presentes como tamb&eacute;m o peso da sua hist&oacute;ria (1).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Esse trecho de "Quest&atilde;o de m&eacute;todo" &eacute; muito revelador quanto ao que designamos como a rela&ccedil;&atilde;o de tens&atilde;o entre hist&oacute;ria subjetiva e hist&oacute;ria objetiva. Trata-se de compreender a <b>g&ecirc;nese</b> do indiv&iacute;duo ou a <b>forma&ccedil;&atilde;o</b> do sujeito, processo que tem origem no contato inicial da crian&ccedil;a com as expectativas que a aguardam em termos de projeto familiar, aquilo com que ela ter&aacute; de se defrontar nesses primeiros momentos de viv&ecirc;ncia da situa&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica. A crian&ccedil;a o faz no escuro, sem conhecimento, tateante: a intensidade do drama vivido na inf&acirc;ncia &eacute; proporcional ao peso que o adulto levar&aacute; consigo durante a vida. A crian&ccedil;a entra na vida e na hist&oacute;ria por um quarto escuro, povoado de fantasmas vivos que s&atilde;o as exig&ecirc;ncias &agrave;s quais ela deve corresponder - e nesse jogo ela aposta, sem saber, a sua vida, empenha possibilidades ainda insuspeitadas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">As met&aacute;foras da escurid&atilde;o, do tateio, indicadoras de uma certa representa&ccedil;&atilde;o de si que vai nascendo no sujeito sem que ele saiba como nem por qu&ecirc;, levam a compreender tamb&eacute;m o ponto principal em que Sartre discorda de Freud. N&atilde;o h&aacute; inconsciente como reservat&oacute;rio pulsional dotado de certos poderes determinantes em rela&ccedil;&atilde;o ao sujeito consciente. A consci&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; um lugar, &eacute; puro ato, movimento, exterioriza&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o devemos supor que haja <b>dados</b> acumulados na inst&acirc;ncia do inconsciente, que seriam de alguma forma introduzidos na vida consciente, como se o processo de subjetiva&ccedil;&atilde;o fosse determinado a priori. O que nos interessa nessa interpreta&ccedil;&atilde;o, porventura demasiado esquem&aacute;tica, da teoria freudiana, e certamente calcada na primeira t&oacute;pica, &eacute; a recusa, por parte de Sartre, de qualquer determina&ccedil;&atilde;o irredut&iacute;vel &agrave; tens&atilde;o entre hist&oacute;ria subjetiva e hist&oacute;ria objetiva. Sartre v&ecirc; na no&ccedil;&atilde;o de inconsciente uma esp&eacute;cie de condi&ccedil;&atilde;o incondicionada que viria a determinar as condutas do sujeito, uma inst&acirc;ncia interior que seria ao mesmo tempo anterior a qualquer processo subjetivo. "A psican&aacute;lise emp&iacute;rica determinou seu pr&oacute;prio irredut&iacute;vel, em vez de deix&aacute;-lo revelar-se por si mesmo em uma intui&ccedil;&atilde;o evidente", diz Sartre em <i>O ser e o nada</i> (2), ao contrastar essa op&ccedil;&atilde;o da psican&aacute;lise freudiana com o simples encontro do irredut&iacute;vel na conting&ecirc;ncia, como ser&aacute; o caso da psican&aacute;lise existencial.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Tal encontro &eacute; um exerc&iacute;cio de decifra&ccedil;&atilde;o. A condi&ccedil;&atilde;o dessa decifra&ccedil;&atilde;o &eacute; saber interrogar as condutas. Essas duas palavras, <b>decifra&ccedil;&atilde;o</b> e <b>interroga&ccedil;&atilde;o</b>, significam que n&atilde;o precisamos supor, para conhecer as condutas humanas, determina&ccedil;&otilde;es no n&iacute;vel de puls&otilde;es inconscientes, que seriam por defini&ccedil;&atilde;o inacess&iacute;veis ao sujeito. A consci&ecirc;ncia, por n&atilde;o ser coisa, n&atilde;o pode ser dividida em partes; tampouco as representa&ccedil;&otilde;es devem ser interpretadas como elementos contidos em algum recept&aacute;culo, parte do qual seria algo como um <b>reservat&oacute;rio de puls&otilde;es</b>. A consci&ecirc;ncia &eacute; movimento intencional de constitui&ccedil;&atilde;o de si mesma. Muitas vezes, esse movimento &eacute; obscuro, no sentido de n&atilde;o ser inteiramente conhecido pelo pr&oacute;prio sujeito. Para Sartre, essa relativa falta de clareza quanto &agrave; presen&ccedil;a da consci&ecirc;ncia a si teria sido interpretada como inconsciente. Tal hip&oacute;tese estaria ent&atilde;o fundamentada na confus&atilde;o entre uma consci&ecirc;ncia, em parte pouco clara para si mesma, e um inconsciente, que seria a parte oculta do aparelho ps&iacute;quico e a sede das motiva&ccedil;&otilde;es pulsionais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">S&atilde;o v&aacute;rias as obje&ccedil;&otilde;es feitas por Sartre no sentido de assinalar as dificuldades da teoria freudiana quanto a esse ponto, mas a base filos&oacute;fica de seu desacordo refere-se &agrave; concep&ccedil;&atilde;o substancialista de consci&ecirc;ncia, heran&ccedil;a do dualismo cartesiano que, refor&ccedil;ado pelo cientificismo do s&eacute;culo XIX, levava a supor a necessidade de que a objetividade do conhecimento implicasse sempre a presen&ccedil;a de uma coisa. Essa coisa nos seria em parte acess&iacute;vel, em parte conhecida apenas indiretamente por via de suas manifesta&ccedil;&otilde;es. Enfim, subjetividade significa consci&ecirc;ncia, mas o fato de ser o sujeito sempre consciente n&atilde;o lhe faculta o conhecimento absoluto de si mesmo. Da&iacute; a necessidade de um procedimento interrogante que venha a realizar, na escala do poss&iacute;vel, a decifra&ccedil;&atilde;o do sujeito atrav&eacute;s de suas condutas. &Eacute; esse o significado de psican&aacute;lise existencial. Podemos defini-la examinando quatro pontos essenciais que a constituem.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">O <b>princ&iacute;pio</b> da psican&aacute;lise existencial est&aacute; na concep&ccedil;&atilde;o de que o homem n&atilde;o &eacute; somat&oacute;ria ou cole&ccedil;&atilde;o, mas sim <b>totalidade</b>. Em termos de condutas e de elementos que as comp&otilde;em, isso significa que o ser humano n&atilde;o pode ser visto como uma aglutina&ccedil;&atilde;o de qualidades ou atributos extrinsecamente relacionados, e sim como um conjunto sint&eacute;tico cuja totalidade &eacute; expressa por cada conduta e, assim, por todas as condutas, desde as mais corriqueiras at&eacute; as mais complexas. Isso n&atilde;o significa que a totalidade do homem possa vir a ser conhecida de modo definitivo e acabado; mas devemos ver em todo e qualquer gesto a manifesta&ccedil;&atilde;o significativa dessa totalidade em si inapreens&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Em cada conduta ou em cada gesto o homem se revela; a psican&aacute;lise existencial tem como <b>objetivo</b> decifrar essas revela&ccedil;&otilde;es para constituir um <b>conhecimento</b> ao mesmo tempo fundado em bases antropol&oacute;gico-hist&oacute;ricas traduz&iacute;veis conceitualmente, e vinculado &agrave; experi&ecirc;ncia concreta dos sujeitos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Por isso o <b>ponto de partida</b> da psican&aacute;lise existencial &eacute; a <b>experi&ecirc;ncia</b> como fundamento da compreens&atilde;o original que cada homem tem da <b>condi&ccedil;&atilde;o humana</b>, compreens&atilde;o esta, evidentemente, n&atilde;o objetiva nem suscept&iacute;vel de ser enunciada formalmente, mas presente na subjetividade e na intersubjetividade como a pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia, e das revela&ccedil;&otilde;es que, por meio dela, alcan&ccedil;amos acerca de n&oacute;s mesmos e dos outros. Com efeito, as manifesta&ccedil;&otilde;es da conduta humana n&atilde;o s&atilde;o eventos quaisquer, mas s&atilde;o assimiladas e compreendidas a partir de um <b>valor revelador</b> de que s&atilde;o especialmente dotadas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A partir da vis&atilde;o sint&eacute;tica da condi&ccedil;&atilde;o humana, podemos falar de algo como um <b>m&eacute;todo</b>, que consistiria na compara&ccedil;&atilde;o das condutas particulares, na apreens&atilde;o de seu valor revelador e na interpreta&ccedil;&atilde;o dessas condutas como express&otilde;es simb&oacute;licas de escolhas feitas a partir da liberdade situada do sujeito. Conv&eacute;m salientar que o sujeito n&atilde;o existe antes de sua livre manifesta&ccedil;&atilde;o nas escolhas que deve realizar diante da conting&ecirc;ncia do mundo. O sujeito n&atilde;o existe antes que comece a elaborar a sua hist&oacute;ria, fruto da tens&atilde;o entre a liberdade e os limites da situa&ccedil;&atilde;o em que cada um a exerce. A compreens&atilde;o dessa hist&oacute;ria nos fornece a g&ecirc;nese e a estrutura da <b>pessoa</b>, na singularidade em que cada indiv&iacute;duo vive a experi&ecirc;ncia da sua <b>personaliza&ccedil;&atilde;o</b>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Sartre chegou &agrave; psican&aacute;lise exatamente para atender &agrave; necessidade de que o conhecimento atinja tanto as condi&ccedil;&otilde;es objetivas de forma&ccedil;&atilde;o do sujeito hist&oacute;rico quanto &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es subjetivas de singulariza&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica numa hist&oacute;ria pessoal. Da&iacute; a pol&ecirc;mica com o marxismo, na medida em que este p&otilde;e toda &ecirc;nfase na objetividade hist&oacute;rica, ou nas condi&ccedil;&otilde;es gerais da vida hist&oacute;rica, menosprezando a dimens&atilde;o subjetiva da experi&ecirc;ncia enquanto produ&ccedil;&atilde;o do sujeito singular. Ao aceitar que todo indiv&iacute;duo &eacute; um produto hist&oacute;rico, devemos aceitar tamb&eacute;m que a hist&oacute;ria &eacute; produzida pelos indiv&iacute;duos - o que significa fidelidade plena &agrave; dial&eacute;tica enquanto tens&atilde;o entre as inst&acirc;ncias objetiva e subjetiva, mesmo que essa tens&atilde;o tenha de ser vivida - e compreendida - como a contradi&ccedil;&atilde;o entre liberdade e determina&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Como a realidade humana &eacute; processo existencial e hist&oacute;rico, n&atilde;o podemos entender a rela&ccedil;&atilde;o entre o objetivo e o subjetivo nos termos tradicionais da oposi&ccedil;&atilde;o entre exterioridade e interioridade. Pois a interioridade subjetiva, n&atilde;o sendo uma entidade (alma ou coisa pensante) s&oacute; pode ser um processo de forma&ccedil;&atilde;o da subjetividade. Por isso, diz Sartre que a interioridade nada mais &eacute; do que a <b>interioriza&ccedil;&atilde;o</b> da exterioridade. Com efeito, desde a inf&acirc;ncia e durante toda a vida, tornamo-nos sujeitos porque estamos <b>sujeitos</b> ao mundo que nos rodeia, aos fatos de toda esp&eacute;cie que configuram a nossa situa&ccedil;&atilde;o, a qual n&atilde;o escolhemos. Mas se por esse processo nos tornamos <b>sujeitos</b> &eacute; porque, da mesma forma que interiorizamos o meio exterior, exteriorizamo-nos a n&oacute;s mesmos: a exterioridade nada mais &eacute; do que a <b>exterioriza&ccedil;&atilde;o</b> da interioridade. Se a exterioridade <b>nos</b> forma, na medida em que a interiorizamos, a exterioridade <i>se</i> forma, de alguma maneira, por n&oacute;s, pelos sentidos que atribu&iacute;mos &agrave;s coisas e aos outros - at&eacute; pelo simples fato de os representarmos para n&oacute;s mesmos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Essa reciprocidade, que deve ser compreendida como rela&ccedil;&atilde;o dial&eacute;tica, permite entender que tanto o sujeito quanto a hist&oacute;ria s&atilde;o realidades efetivas, e que nenhuma das duas inst&acirc;ncias pode ser inteiramente subordinada &agrave; outra. Nesse sentido materialismo hist&oacute;rico e psican&aacute;lise se complementam, pois &eacute; uma exig&ecirc;ncia do conhecimento da realidade humana que ela seja conhecida como <b>individualidade</b> produtora da realidade hist&oacute;rica comum e como <b>comunidade</b> produtora de indiv&iacute;duos historicamente definidos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Essa reciprocidade &eacute;, tamb&eacute;m, a &uacute;nica maneira de compreender a carga de universalidade que cada indiv&iacute;duo traz em si, e que o faz humano e hist&oacute;rico, bem como o teor de singularidade da experi&ecirc;ncia individual enquanto portadora de universalidade. A universalidade que simplesmente paira sobre indiv&iacute;duos que n&atilde;o a encarnam &eacute; apenas uma ideia abstrata; e o indiv&iacute;duo que apenas reflete as determina&ccedil;&otilde;es universais sem singulariz&aacute;-las existencialmente n&atilde;o &eacute; mais do que um n&uacute;mero abstrato. Cada ser humano, "na sua hora", exprime a humanidade, recriando-a na trama das escolhas que configuram o drama da exist&ecirc;ncia. Na conflu&ecirc;ncia da hist&oacute;ria e da psican&aacute;lise, podemos decifrar condutas e chegar a compreender algo da complexidade e dos rumos dessa aventura - talvez para tentar mud&aacute;-la.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Franklin Leopoldo e Silva</b> &eacute; professor aposentado da Faculdade de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo (FFLCH/USP) e professor do curso de filosofia da Faculdade de S&atilde;o Bento.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">1. Sartre, J-P. Quest&atilde;o de m&eacute;todo. Editora Nova Cultural, S&atilde;o Paulo, 1987. (Cole&ccedil;&atilde;o Pensadores), pg. 138.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">2. Sartre, J-P. O ser e o nada. Editora Vozes, Petr&oacute;polis, 2001, pg. 699.    </font></p>      ]]></body><back>
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