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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Da caridade ao welfare state: um breve ensaio sobre os aspectos históricos dos sistemas de proteção social ocidentais]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>A&amp;E</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Da caridade ao welfare state: um breve ensaio sobre os aspectos hist&oacute;ricos dos sistemas de prote&ccedil;&atilde;o social ocidentais</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Ismael Gon&ccedil;alves Alves</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Desde a estrutura&ccedil;&atilde;o dos modernos Estados ocidentais, a assist&ecirc;ncia aos necessitados tem sido um dos principais focos de atua&ccedil;&atilde;o governamental destinado &agrave;s parcelas mais pobres da popula&ccedil;&atilde;o. Buscando controlar e dirimir os impactos negativos ocasionados pelas mudan&ccedil;as estruturais da sociedade capitalista, as administra&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas paulatinamente passaram a se dedicar a um espa&ccedil;o que at&eacute; ent&atilde;o era exclusivo da Igreja Cat&oacute;lica, o aux&iacute;lio aos miser&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Desde a Idade M&eacute;dia, dar esmolas e amparar os indigentes fazia parte de um conjunto de pr&aacute;ticas crist&atilde;s associadas &agrave; bem aventuran&ccedil;a e &agrave; reden&ccedil;&atilde;o dos pecados. Difuso e desorganizado, o socorro aos desvalidos era exercido de maneira individual e estava simbolicamente ligado &agrave; purga&ccedil;&atilde;o das iniquidades, ou seja, ajudar aos pobres significava, antes de tudo, a salva&ccedil;&atilde;o da alma por meio da boa obra, e n&atilde;o uma preocupa&ccedil;&atilde;o social com a pobreza. De acordo com Thompson (1), no per&iacute;odo medieval, o pobre - e todas as mazelas inerentes &agrave; sua condi&ccedil;&atilde;o de vida, doen&ccedil;as, fome, priva&ccedil;&atilde;o - se firmou no imagin&aacute;rio social como algu&eacute;m digno de piedade e miseric&oacute;rdia. A pobreza estava envolta por uma m&iacute;stica que despertava sentimentos de caridade e compaix&atilde;o nos mais afortunados.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Segundo a &oacute;tica religiosa, os pobres adquiriram uma funcionalidade espec&iacute;fica no interior da sociedade crist&atilde;, pois o ato de dar ou receber a esmola constitu&iacute;a uma esp&eacute;cie de contrato social que garantiria ao benfeitor um status privilegiado dentro do cristianismo, deixando-o mais pr&oacute;ximo da salva&ccedil;&atilde;o. Dessa forma, n&atilde;o existia a inten&ccedil;&atilde;o de erradicar a pobreza, mas de manobr&aacute;-la. Os indigentes deveriam existir e tinham a obriga&ccedil;&atilde;o de permanecer em tal condi&ccedil;&atilde;o social, para que, cotidianamente, a sociedade pudesse fazer, com sucesso, seu ato de contri&ccedil;&atilde;o. O que na Antiguidade era visto como solidariedade ao pr&oacute;ximo tornou-se, com o cristianismo, ato de caridade, que, em conjunto com a f&eacute; e a esperan&ccedil;a, formaram as tr&ecirc;s virtudes teologais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Solapada por in&uacute;meras mudan&ccedil;as estruturais, como o in&iacute;cio da urbaniza&ccedil;&atilde;o e as altera&ccedil;&otilde;es nos sistemas econ&ocirc;micos e monet&aacute;rios, a sociedade ocidental europeia do s&eacute;culo XVI presenciou um c&acirc;mbio significativo de suas estruturas de assist&ecirc;ncia que, juntamente com a pobreza, receberam um novo status. Nesse contexto, a figura social do pobre perdeu sua aura m&iacute;stica. A pobreza passou a ser associada &agrave;s mazelas urbanas - cabendo ao poder p&uacute;blico, em conjunto com a Igreja, prover os meios de subsist&ecirc;ncia dessas popula&ccedil;&otilde;es. Segundo Helena Mouro (2), a nova realidade imposta pelas mudan&ccedil;as pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas desse per&iacute;odo for&ccedil;ou a reestrutura&ccedil;&atilde;o dos sistemas de caridade, que deixaram de ser progressivamente praticados de maneira meramente informal, epis&oacute;dica e desorganizada, para serem concretizados mediante uma pr&aacute;tica que poderia ser reproduzida e organizada de acordo com as necessidades sociais de controlar determinadas camadas da sociedade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Dessa forma, a esmola deixava de ser oferecida diretamente ao pobre, e passava a ser administrada por grupos religiosos dedicados &agrave; caridade, objetivando criar mecanismos que permitissem que a pobreza fosse regulada enquanto modo de vida e controlada como problema social. Essa nova din&acirc;mica em torno dos necessitados fez com que a sociedade europeia assistisse &agrave; difus&atilde;o dos lepros&aacute;rios e dos hospitais urbanos que procuravam afastar o pobre e suas marcas da indignidade e fracasso do conv&iacute;vio comum, limpando as cidades de seus tra&ccedil;os degradantes (3).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Se num primeiro momento a pobreza era santificada por se reportar ao desapego material e refletir as virtudes de Cristo, sob a nova &eacute;tica do labor, essas concep&ccedil;&otilde;es mudaram. O pobre passou a ser classificado de acordo com sua invalidez ou sua falta de integra&ccedil;&atilde;o ao processo produtivo. Para os indiv&iacute;duos incapazes de trabalhar ou que n&atilde;o possu&iacute;am renda suficiente para sustentar a si mesmos e aos</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">seus, continuou a ser promovida uma assist&ecirc;ncia baseada na compreens&atilde;o e na piedade. No entanto, para aqueles cuja pobreza advinha de sua suposta inadapta&ccedil;&atilde;o ao sistema laboral ou que mendigavam por escolha pr&oacute;pria, mesmo sendo fisicamente saud&aacute;veis e &uacute;teis para o trabalho, foi destinado "um tratamento social que se particularizou por ser descapitalizado na sua natureza religiosa e por ser politicamente discriminat&oacute;rio" (4).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Dentre as diversas mudan&ccedil;as que sacudiram o Ocidente a partir do s&eacute;culo XVI, podemos afirmar que a Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial foi aquela que desencadeou o mais importante processo de precariza&ccedil;&atilde;o da vida, impulsionando o surgimento dos sistemas estatais de ajuda. O descobrimento de novas t&eacute;cnicas laborais aplicadas a diversos segmentos produtivos impulsionou um vertiginoso crescimento econ&ocirc;mico dos pa&iacute;ses europeus e tamb&eacute;m da Am&eacute;rica anglo-sax&ocirc;nica. Esse processo acelerado de desenvolvimento industrial provocou a r&aacute;pida estafa dos grandes centros urbanos, nos quais uma grande massa de trabalhadores diuturnamente se fixava em busca de emprego. De acordo com Eric Hobsbawn (5), esse contexto de vertiginoso progresso material intensificou a exist&ecirc;ncia de uma s&eacute;rie de mazelas urbanas que envolviam principalmente o proletariado. As p&eacute;ssimas condi&ccedil;&otilde;es de trabalho nas f&aacute;bricas, os baixos sal&aacute;rios e as moradias prec&aacute;rias, mostraram-se insuficientes para garantir um modo de vida digno, provocando uma situa&ccedil;&atilde;o de calamidade sanit&aacute;ria. Esse descompasso, entre desenvolvimento econ&ocirc;mico e precariza&ccedil;&atilde;o da vida, provocou in&uacute;meras cr&iacute;ticas e reivindica&ccedil;&otilde;es por parte do operariado, que via as benesses do capitalismo atingirem apenas a burguesia. Foi nesse clima de insatisfa&ccedil;&atilde;o popular que as primeiras medidas de assist&ecirc;ncia social para a popula&ccedil;&atilde;o mais pobre, partindo do Estado, se articularam.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Da assist&ecirc;ncia &agrave; estrutura&ccedil;&atilde;o do Welfare State </b>No contexto de paulatinas mudan&ccedil;as provocadas pela estrutura&ccedil;&atilde;o da sociedade moderna, a provis&atilde;o de servi&ccedil;os sociais tornou-se gradativamente um direito social prestado pelo Estado com a finalidade de garantir condi&ccedil;&otilde;es m&iacute;nimas de qualidade de vida para todos os cidad&atilde;os. Visando atender &agrave;s parcelas mais precarizadas de sua popula&ccedil;&atilde;o - como idosos e crian&ccedil;as - uma das primeiras leis de prote&ccedil;&atilde;o social institu&iacute;das em pa&iacute;ses capitalistas avan&ccedil;ados foi a Poor Laws brit&acirc;nica. A Poor Laws ou Lei dos Pobres era um conjunto de regras assistenciais que visava fornecer aux&iacute;lio aos mais necessitados. Tanto a Old Poor Law (1601) como a New Poor Law (1834), tinham por objetivo principal prestar assist&ecirc;ncia social para aqueles indiv&iacute;duos que comprovadamente n&atilde;o possu&iacute;am condi&ccedil;&otilde;es de sustentar a si pr&oacute;prios e nem parentes e amigos a quem pudessem recorrer. O principal crit&eacute;rio eletivo para o recebimento de tais aux&iacute;lios era a pobreza extrema e, para receb&ecirc;-los, seus benefici&aacute;rios deveriam prestar servi&ccedil;os obrigat&oacute;rios em institui&ccedil;&otilde;es de caridade. Com forte car&aacute;ter estigmatizante, ambas as leis ficaram sobre a administra&ccedil;&atilde;o das igrejas e das institui&ccedil;&otilde;es de caridade que vasculhavam e vigiavam a vida de seus benefici&aacute;rios como uma forma de garantir que os mesmos se adequassem &agrave;s normas e aos padr&otilde;es do mundo burgu&ecirc;s. Alco&oacute;latras, prostitutas e mendigos estavam fora dessa assist&ecirc;ncia, pois seu estilo de vida era considerado imoral e pouco dado ao trabalho, o que os qualificava como indiv&iacute;duos pregui&ccedil;osos e indignos da provid&ecirc;ncia p&uacute;blica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Esse tipo de aux&iacute;lio contribuiu para a constru&ccedil;&atilde;o de uma esp&eacute;cie de grada&ccedil;&atilde;o da pobreza, um sistema social no qual a ajuda era destinada exclusivamente a indiv&iacute;duos inv&aacute;lidos, velhos e doentes, com impedimentos e restri&ccedil;&otilde;es a parentes. Os desempregados ou aqueles que, por algum motivo, n&atilde;o quisessem trabalhar deveriam ser socialmente integrados atrav&eacute;s de sua inser&ccedil;&atilde;o compuls&oacute;ria no mercado laboral, haja vista que naquele momento o trabalho representava uma t&ecirc;nue linha que separava os socialmente aceitos dos outros.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">&Eacute; importante salientar que nem a preocupa&ccedil;&atilde;o das elites com a "quest&atilde;o social" nem o in&iacute;cio dos programas de bem-estar na Europa deram respostas &agrave;s novas demandas populares ou a problemas sociais rec&eacute;m-criados pela industrializa&ccedil;&atilde;o, urbaniza&ccedil;&atilde;o e mudan&ccedil;as concomitantes &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o familiar. Segundo Marta Arretche (6), ainda que alguns pa&iacute;ses tenham dado origem a programas de seguro social no final do s&eacute;culo XIX - Alemanha, Fran&ccedil;a e Inglaterra - e que pol&iacute;ticas de prote&ccedil;&atilde;o &agrave;s mulheres, aos incapacitados e aos idosos tenham se desenvolvido em muitos pa&iacute;ses ocidentais no in&iacute;cio do s&eacute;culo passado, &eacute; incontest&aacute;vel que o fen&ocirc;meno do welfare state sofreu uma incr&iacute;vel expans&atilde;o, e at&eacute; mesmo institucionaliza&ccedil;&atilde;o, no per&iacute;odo p&oacute;s-Segunda Guerra. As novas conting&ecirc;ncias sociais, surgidas ap&oacute;s o conflito, pressionaram os governos centrais a generalizarem e universalizarem os sistemas de prote&ccedil;&atilde;o social que, por sua vez, articularam um conjunto de pol&iacute;ticas estatais, assegurando o acesso da popula&ccedil;&atilde;o aos sistemas de sa&uacute;de e educa&ccedil;&atilde;o de ampla cobertura e a programas habitacionais, entre outros.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">O termo welfare state (estado de bem-estar), como conhecemos hoje, &eacute; uma express&atilde;o de tradi&ccedil;&atilde;o anglo-sax&ocirc;nica utilizada para designar as pol&iacute;ticas sociais institu&iacute;das para garantir o "m&iacute;nimo" de prote&ccedil;&atilde;o contra velhice, invalidez, problemas de sa&uacute;de, desemprego e outros problemas relacionados &agrave; insufici&ecirc;ncia de renda. Conforme ressalta Ann Orloff (7), welfare state foi cunhado pelos brit&acirc;nicos em 1939 para se contrapor ao "warfare state" nazista, agrupando, sob um mesmo mecanismo institucional, seguros, assist&ecirc;ncia social e programas de cidadania universal. Ap&oacute;s a derrota do nazi-fascismo, a Gr&atilde;-Bretanha e a maioria dos pa&iacute;ses europeus reformaram e ampliaram seus sistemas de prote&ccedil;&atilde;o social, com a finalidade de prover uma cobertura assistencial universal para seus trabalhadores.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">No entanto, essa forma de se referir aos programas de gastos sociais &eacute; bem mais recente que do que sua an&aacute;loga francesa l'etat de providence. De acordo com o cientista pol&iacute;tico Pierre Rosanvallon, esta &uacute;ltima foi usada no ano de 1860, pelo deputado republicano franc&ecirc;s &Eacute;mile Ollivier, para criticar a constante intromiss&atilde;o estatal na esfera da vida pessoal. Logo depois, o termo &eacute; retomado pelo economista &Egrave;mile Laurent, que defendia a atua&ccedil;&atilde;o de um Estado erigido sobre uma esp&eacute;cie de provid&ecirc;ncia, entendido por ele como uma alternativa &agrave;s associa&ccedil;&otilde;es previdenci&aacute;rias existentes, colocando o Estado como principal mediador dos interesses individuais e coletivos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">J&aacute; o termo alem&atilde;o wohfahrstaat, juntamente com sozialstaat, &eacute; utilizado desde a d&eacute;cada de 1870 para se referir &agrave;s reformas dos sistemas de prote&ccedil;&atilde;o social implementadas a partir do per&iacute;odo bismarckiano (8). Essas mudan&ccedil;as, em sua grande maioria, foram uma das respostas governamentais ao crescente poder de grupos organizados de trabalhadores que pressionavam o Estado por melhorias sociais, levantando tais quest&otilde;es como bandeiras pol&iacute;ticas. Frente ao aumento e popularidade dos grupos de esquerda, o governo imperial alem&atilde;o resolveu se adiantar aos socialistas e comunistas, concedendo alguns benef&iacute;cios e os estendendo ao maior n&uacute;mero poss&iacute;vel de cidad&atilde;os. Assim, em 1883 foi aprovada no parlamento alem&atilde;o a Lei de Seguro Sa&uacute;de, que tinha por objetivo reunir sobre um &uacute;nico mecanismo securit&aacute;rio de assist&ecirc;ncia as diferentes categorias de trabalho: oper&aacute;rios, artes&atilde;os, agricultores, aprendizes, m&atilde;o de obra tempor&aacute;ria, entre outros. Nos anos seguintes a prote&ccedil;&atilde;o social foi ampliada ainda mais, garantindo tamb&eacute;m o seguro acidente e pens&otilde;es por velhice e invalidez. Em 1911, esses benef&iacute;cios foram reunidos sob a &eacute;gide da Lei de Consolida&ccedil;&atilde;o de Seguro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">De acordo com configura&ccedil;&atilde;o articulada no final do s&eacute;culo XIX e in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, tanto nos programas de prote&ccedil;&atilde;o social institu&iacute;dos na Alemanha e na Gr&atilde;-Bretanha, quanto em outros pa&iacute;ses, observa-se um claro v&iacute;nculo entre trabalho e direitos sociais. Assim, s&oacute; eram considerados cidad&atilde;os de plenos direitos aqueles que, de alguma forma, estivessem alinhados ao mercado laboral e que contribu&iacute;ssem economicamente para o desenvolvimento da na&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">No caso brit&acirc;nico e norte-americano, os valores liberais do laissez-faire foram hegem&ocirc;nicos durante todo o s&eacute;culo XIX e XX, mitigando a atua&ccedil;&atilde;o estatal com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; assist&ecirc;ncia &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. O Estado s&oacute; interviria em &uacute;ltimo caso, quando todas as possibilidades de a&ccedil;&atilde;o individual estivessem esgotadas. Conforme aponta Pat Thane (9), tanto a Old Poor Law quanto a New Poor Law tinham a capacidade de fornecer uma ampla gama de servi&ccedil;os, mas que eram estritamente destinados &agrave;queles considerados muito carentes e que podiam comprovar a inexist&ecirc;ncia de outras possibilidades assistenciais, como o trabalho remunerado, ajuda da fam&iacute;lia, amigos ou caridade. A esmagadora maioria dos assistidos eram pessoas idosas, vi&uacute;vas e crian&ccedil;as - reconhecidos como pobres "merecedores".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Buscando aperfei&ccedil;oar seu sistema securit&aacute;rio e para garantir maior estabilidade das rela&ccedil;&otilde;es entre mercado e trabalho, nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, a Gr&atilde;-Bretanha organizou novas medidas sociais de prote&ccedil;&atilde;o (welfare policy) que inclu&iacute;am indeniza&ccedil;&otilde;es aos trabalhadores (1906), pens&otilde;es de velhice (1908), seguro sa&uacute;de e desemprego (1911). Essas inova&ccedil;&otilde;es surgiram sob comando do Partido Liberal brit&acirc;nico, intelectual e politicamente guiado pelos valores do neoliberalismo, estendendo-se posteriormente para outros pa&iacute;ses de origem anglo-sax&ocirc;nica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Embora existam men&ccedil;&otilde;es ao welfare policy (pol&iacute;ticas de bem-estar), desde meados do s&eacute;culo XIX, o termo welfare state popularizou-se no meio pol&iacute;tico-social entre as d&eacute;cadas de 1940 e 1950 atrav&eacute;s do Plano Beveridge (10). Fruto de um trabalho minucioso sobre a prote&ccedil;&atilde;o social e seguridade na Gr&atilde;-Bretanha, esse plano apresentava, em 1942, os resultados e propostas de a&ccedil;&atilde;o de um comit&ecirc; interministerial criado para analisar a situa&ccedil;&atilde;o e a abrang&ecirc;ncia das pol&iacute;ticas assistenciais em territ&oacute;rio brit&acirc;nico. O plano levou o nome do economista William Beveridge que coordenou os trabalhos do comit&ecirc;. O relat&oacute;rio apresentado para o gabinete de Churchill identificava cinco grandes entraves para a reconstru&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento da sociedade: mis&eacute;ria, doen&ccedil;a, desamparo, ignor&acirc;ncia e ociosidade; aconselhando adequa&ccedil;&atilde;o e classifica&ccedil;&atilde;o dos benef&iacute;cios conforme os diferentes meios de vida e segmentos sociais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Cabe salientar que, mesmo que os programas de assist&ecirc;ncia social tenham se transfigurado, buscando abarcar o maior n&uacute;mero poss&iacute;vel de pessoas e profissionalizar sua gest&atilde;o, boa parte das pol&iacute;ticas sociais arquitetadas nos s&eacute;culos XIX e XX privilegiaram a a&ccedil;&atilde;o do mercado e o sucesso individual, em detrimento do Estado. Como descreve Michel Foucault (11), em sua forma fundamental as pol&iacute;ticas sociais n&atilde;o deveriam contrabalan&ccedil;ar as pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas ou compens&aacute;-las; n&atilde;o poderiam ser mais generosas quanto maior fosse o desenvolvimento econ&ocirc;mico. Este sim &eacute; que deveria assegurar que todos os indiv&iacute;duos alcan&ccedil;assem um n&iacute;vel de renda que garantisse o acesso a seguros individuais, a propriedade privada, a capitaliza&ccedil;&atilde;o individual ou familiar, com as quais se poderia absorver por conta pr&oacute;pria os riscos gerados na sociedade capitalista. Segundo essa l&oacute;gica, cada indiv&iacute;duo, ao perseguir seus impulsos pessoais, asseguraria o interesse coletivo, contribuindo para o aumento da riqueza nacional.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Por fim, apesar de suas inten&ccedil;&otilde;es homogeneizadoras e a progressiva diminui&ccedil;&atilde;o de seu aspecto caritativo, os sistemas de prote&ccedil;&atilde;o social constitu&iacute;ram-se em um emaranhado operacional que abarca desde as ajudas tradicionais onde o Estado n&atilde;o &eacute; o agente interventor - cabendo &agrave; sociedade civil a administra&ccedil;&atilde;o da assist&ecirc;ncia - at&eacute; os complexos sistemas de redistribui&ccedil;&atilde;o comandados pelo Estado e sua burocracia especializada. Assim, podemos afirmar que o estado de bem-estar que conhecemos hoje &eacute; fruto de uma longa constru&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica e que nem sempre possui a mesma for&ccedil;a ou as mesmas estruturas nas variadas nas sociedades onde existe, variando de acordo com determinados contextos hist&oacute;ricos e com determinadas estruturas socioecon&ocirc;micas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Ismael Gon&ccedil;alves Alves</b> &eacute; historiador e professor do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Desenvolvimento Socioecon&ocirc;mico (PPGDS) da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">1. Thompson, E. P. "Folklore, antropolog&iacute;a e historia social". In: Revista Historia Social. Nº.3. Valencia: Fundaci&oacute;n Instituto Historia Social, 1989. p. 63-86.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092215&pid=S0009-6725201500010001700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">2. Mouro, H. "Sistemas e modelos de prote&ccedil;&atilde;o social: da caridade &agrave; assist&ecirc;ncia". In: Revista Interac&ccedil;&otilde;es. Nº.5. Coimbra: ISMT, 2003. p. 131-159.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092217&pid=S0009-6725201500010001700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">3. Foucault, M. Microf&iacute;sica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092219&pid=S0009-6725201500010001700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">4. Mouro, H., op. cit. p. 138.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">5. Hobsbawm E. J. A era do capital - 1848-1875. 5 ed. S&atilde;o Paulo: Ed. Paz e Terra, 2000.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092222&pid=S0009-6725201500010001700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">6. Arretche, M. T. "Emerg&ecirc;ncia e desenvolvimento do welfare state: teorias explicativas". Boletim Informativo e Bibliogr&aacute;fico das Ci&ecirc;ncias Sociais. Nº 39. Rio de Janeiro: Anpocs, 1995. p. 01-65.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092224&pid=S0009-6725201500010001700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">7. Orloff, A. S. Social provision and regulation: theories of states, social policies and modernity. (Working Papers Series). Illinois: Institute for Policy Research Northwestern University, 2003. p. 01-44.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092226&pid=S0009-6725201500010001700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">8. Nogueira, V. M. R. "Estado de bem-estar social - origens e desenvolvimento". In: Revista Kat&aacute;lysis. N 5. Jul/Dez. Florian&oacute;polis: UFSC, 2001. p. 89-103.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092228&pid=S0009-6725201500010001700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">9. Thane, P. "Histories of welfare state". In: Today's Welfares. University of London. s/d, s/l. 10. Cf. Gladstone, D. (Org). Before Beveridge: welfare before welfare state. Wiltshire: The Comwell Press/Civitas, 1999)</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092230&pid=S0009-6725201500010001700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">11. Foucault, M. Nascimento da biopol&iacute;tica: Cursos do Coll&egrave;ge de France, 1978-1979. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=092231&pid=S0009-6725201500010001700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
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