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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>NOT&Iacute;CIAS DO MUNDO    <br> LIVRE DE AGROTOXICOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>Crise impulsionou cria&ccedil;&atilde;o de modelo sustent&aacute;vel na agricultura de Cuba</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>Chris Bueno</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Um modelo de agricultura que maximiza o uso de produtos ecologicamente corretos, minimiza o uso de agrot&oacute;xicos e pesticidas qu&iacute;micos, recicla os compostos org&acirc;nicos, promove o uso adequado de biofertilizantes e enfatiza o uso sustent&aacute;vel dos recursos biol&oacute;gicos. Parece utopia, mas n&atilde;o &eacute;. Este &eacute; o modelo de agricultura adotado em Cuba desde meados da d&eacute;cada de 1980, quando o pa&iacute;s teve que modificar sua produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola ap&oacute;s uma grave crise econ&ocirc;mica, que colocou em risco a seguran&ccedil;a alimentar da popula&ccedil;&atilde;o, cuja ingest&atilde;o de calorias chegou a cair quase 65%. O governo cubano buscou, ent&atilde;o, formas alternativas para aumentar a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos. Assim, incentivou o cultivo em qualquer espa&ccedil;o vazio nas cidades: p&aacute;tios, pra&ccedil;as e casas abandonadas passaram a ser tomados por hortas. O governo ainda permitiu que fam&iacute;lias ou cooperativas utilizassem terrenos p&uacute;blicos de gra&ccedil;a para produzir t&eacute;cnico, sementes e ferramentas a um custo m&iacute;nimo. Al&eacute;m disso, incentivou as institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas a se envolverem na agricultura - escolas, hospitais, asilos e at&eacute; f&aacute;bricas passaram a plantar hortas. Foi assim que surgiram os "organop&ocirc;nicos", hortas em espa&ccedil;os p&uacute;blicos produzidas por cooperativas e fam&iacute;lias. "Em resposta a essa situa&ccedil;&atilde;o de crise, iniciou-se um processo de transforma&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o, o que possibilitou o desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas. Entre as medidas adotadas est&aacute; a cria&ccedil;&atilde;o das Unidades B&aacute;sicas de Produ&ccedil;&atilde;o Cooperativa (UBPC)", explica a bi&oacute;loga Lilliam Otero, pesquisadora da &aacute;rea de produ&ccedil;&atilde;o vegetal da Universidade Estadual Paulista "J&uacute;lio de Mesquita Filho" (Unesp) e ex-pesquisadora do Instituto de Investiga&ccedil;&otilde;es em Fruticultura Tropical, de Cuba. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n2/a07fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Entretanto, por conta do embargo econ&ocirc;mico imposto pelos Estados Unidos a Cuba, essas hortas urbanas n&atilde;o podiam contar com insumos como agrot&oacute;xicos ou fertilizantes para garantir sua produtividade. Assim, as fam&iacute;lias e cooperados tiveram que buscar outras solu&ccedil;&otilde;es. Restos de comida s&atilde;o usados para produzir compostos que alimentam minhocas usadas para produ&ccedil;&atilde;o de h&uacute;mus. J&aacute; o controle de pragas &eacute; feito utilizando recursos biol&oacute;gicos. Algumas cooperativas criam joaninhas e louva-deus e at&eacute; utilizam bact&eacute;rias para combater alguns insetos, al&eacute;m de produzir inseticidas naturais extra&iacute;dos do alho e da cebola para controlar fungos e doen&ccedil;as das plantas. As hortas chegam a produzir mais de 50 tipos de produtos, entre vegetais, frutas, plantas medicinais e ornamentais. Hoje, h&aacute; mais de 10 mil hortas urbanas em Cuba. "Existem v&aacute;rias modalidades de produ&ccedil;&atilde;o de agricultura urbana em Cuba: organop&ocirc;nicos, hortas intensivas, p&aacute;tios, parcelas etc. Os organop&ocirc;nicos e hortas intensivas constituem as modalidades mais destacadas nos &uacute;ltimos anos em todo o pa&iacute;s, contribuindo de maneira significativa para o resgate do acervo hort&iacute;cola, sendo considerado um exemplo de como se deve acionar, de forma conjunta, os cientistas e os produtores", apontam Adriana Maria de Aquino e Renato Linhares de Assis, pesquisadores do Embrapa Agrobiologia, no artigo "Agricultura org&acirc;nica em &aacute;reas urbanas e periurbanas com base na agroecologia".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>O PASSADO NO PRESENTE</b> Mas as mudan&ccedil;as n&atilde;o ocorreram apenas nas cidades. O campo tamb&eacute;m teve que mudar seu modo de produ&ccedil;&atilde;o. Os agricultores tiveram que diminuir a utiliza&ccedil;&atilde;o de insumos qu&iacute;micos e buscar agentes de controle biol&oacute;gico integrados, desenvolver procedimentos para recuperar energia e melhorar a disponibilidade de esp&eacute;cies de planta (especialmente as nativas). Um exemplo dessas mudan&ccedil;as foi a ado&ccedil;&atilde;o de equipamentos com tra&ccedil;&atilde;o animal (como o boi), utilizados para arar, fertilizar o solo e que ainda podem entrar nos campos quando a terra est&aacute; muito molhada, no lugar dos tratores. "A crise econ&ocirc;mica na qual Cuba mergulhou tornou necess&aacute;ria a revitaliza&ccedil;&atilde;o de antigas pr&aacute;ticas. Por exemplo: em Cuba, o conceito de 'conuco' significa tradicionalmente uma pequena parcela agr&iacute;cola ou horta t&iacute;pica da estrat&eacute;gia alimentar familiar. Essas pr&aacute;ticas foram ent&atilde;o acolhidas, resgatadas, apoiadas e estimuladas pelas a&ccedil;&otilde;es de institui&ccedil;&otilde;es estatais, cient&iacute;ficas, n&atilde;o governamentais etc.", explicam Mario Gonz&aacute;lez Novo e Gunther Merzthal, da Rede Latino-Americana de Pesquisas em Agricultura Urbana, do Peru. Todas essas mudan&ccedil;as foram deflagradas pela crise que atingiu o pa&iacute;s em meados de 1980. At&eacute; ent&atilde;o, Cuba copiava o modelo sovi&eacute;tico na agricultura: os sistemas agr&iacute;colas no pa&iacute;s estavam fortemente "industrializados". A ilha caribenha estava entre os pa&iacute;ses que mais utilizavam tratores e fertiliza&ccedil;&atilde;o nitrogenada no mundo. Al&eacute;m disso, o pa&iacute;s pouco diversificou sua produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola durante as d&eacute;cadas anteriores. A maior parte dos insumos agr&iacute;colas e produtos aliment&iacute;cios eram importados. Quando o regime socialista come&ccedil;ou a entrar em crise e com a amplia&ccedil;&atilde;o do embargo comercial, no governo do presidente Bill Clinton, na d&eacute;cada de 1990, a entrada de insumos agr&iacute;colas passou a ser dificultada. Com a queda da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica - principal fornecedora de alimentos, combust&iacute;veis e insumos agr&iacute;colas - a crise se agravou e tanto a produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola como a disponibilidade de alimentos ca&iacute;ram a n&iacute;veis alarmantes. "O fim dessa coopera&ccedil;&atilde;o teve um impacto muito negativo na economia do pa&iacute;s. As importa&ccedil;&otilde;es cubanas diminu&iacute;ram 70% entre 1989 e 1993", diz Otero. "Outro fator que influenciou foi a expans&atilde;o das medidas econ&ocirc;micas, como a Lei Torricelli, que proibia o com&eacute;rcio entre Cuba e filiais de empresas norte-americanas estabelecidas em outros pa&iacute;ses, criava san&ccedil;&otilde;es aos pa&iacute;ses que concedessem assist&ecirc;ncia econ&ocirc;mica a Cuba, impedia que empresas norteamericanas pudessem importar produtos com mat&eacute;rias-primas cubanas e proibia a venda para Cuba de mercadorias produzidas em outros pa&iacute;ses que tivessem mais de 10% de mat&eacute;rias-primas de origem norte-americana", complementa.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>SUPERA&Ccedil;&Atilde;O</b> A crise, no entanto, somente agravou um cen&aacute;rio extremamente vulner&aacute;vel, cujo modelo de produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola j&aacute; vinha dando sinais de impacto negativo na economia, na sociedade e na natureza, atestados pelo alto n&iacute;vel de desflorestamento, saliniza&ccedil;&atilde;o, eros&atilde;o e perda da fertilidade dos solos. Estava cada vez mais evidente que aquele modelo de agricultura n&atilde;o gerava autonomia ao pa&iacute;s e que a depend&ecirc;ncia de insumos importados devia ser reduzida. Al&eacute;m disso, a complexa estrutura de pesquisa agr&iacute;cola n&atilde;o era muito eficiente. "Para acelerar os processos de inova&ccedil;&atilde;o e transmiss&atilde;o de experi&ecirc;ncias, adotou-se a metodologia 'de agricultor para agricultor'. Devido &agrave; grande receptividade que esse m&eacute;todo teve, foi proposta a integra&ccedil;&atilde;o e o desenvolvimento de um 'Movimento Nacional de Produtores Agroecol&oacute;gicos'", conta Otero. Paralelamente, a pesquisa agr&iacute;cola tamb&eacute;m foi incentivada. Centros de pesquisa, capacita&ccedil;&atilde;o e fomento foram criados e o governo criou o Grupo Nacional de Agricultura Urbana (Gnau), composto por pesquisadores e produtores, com o papel de elaborar estrat&eacute;gias produtivas calcadas nos princ&iacute;pios da agroecologia. Uma d&eacute;cada depois do in&iacute;cio da crise, a agricultura cubana duplicou sua produ&ccedil;&atilde;o e a disponibilidade de alimento retornou a n&iacute;veis aceit&aacute;veis. Com isso, Cuba deu um passo importante rumo &agrave; soberania de seu sistema de produ&ccedil;&atilde;o e fornecimento de alimentos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>DESAFIOS</b> A recupera&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica de Cuba e a abertura comercial, no entanto, podem amea&ccedil;ar esse sistema. Muitas empresas j&aacute; demonstraram interesse em se estabelecer na ilha ou reatar as rela&ccedil;&otilde;es comerciais, o que pode acabar influenciando o retorno &agrave;s pr&aacute;ticas intensivistas e industrializadas. Hoje, o pa&iacute;s importa cerca de 50% dos alimentos de que necessita. "A diversifica&ccedil;&atilde;o, a descentraliza&ccedil;&atilde;o e a busca pela autosufici&ecirc;ncia alimentar s&atilde;o tend&ecirc;ncias fundamentais da agricultura cubana. Por&eacute;m, essas tend&ecirc;ncias devem ser sistematicamente promovidas pelas institui&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas e pelas organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas para garantir que o setor agr&iacute;cola contribua significativamente para uma economia vi&aacute;vel. Se a recupera&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica se converte num pretexto para regressar &agrave;s velhas pr&aacute;ticas, ent&atilde;o tudo o que se alcan&ccedil;ou nos &uacute;ltimos anos sofrer&aacute; um impacto negativo", alerta Otero. Na opini&atilde;o de Otero, o exemplo cubano demonstra que um modelo sustent&aacute;vel de agricultura &eacute; poss&iacute;vel e tamb&eacute;m necess&aacute;rio, especialmente para os pa&iacute;ses de menor renda. Mas essas mudan&ccedil;as exigem uma decis&atilde;o consciente e um esfor&ccedil;o coletivo para se consolidarem. "A verdade &eacute; que n&atilde;o existem receitas prontas. Se o modelo cubano n&atilde;o pode simplesmente ser exportado para outro pa&iacute;s, ele pode servir de exemplo. Sempre que houver vontade pol&iacute;tica em correspond&ecirc;ncia com os princ&iacute;pios de conserva&ccedil;&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel desenvolver um modelo menos dependente de insumos qu&iacute;micos externos e isto &eacute; o melhor ensinamento que Cuba pode dar", finaliza.</font></p>      ]]></body>
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