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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>ARTIGOS    <br> DESLOCAMENTOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>Categorias em movimento: a gest&atilde;o de v&iacute;timas do tr&aacute;fico de pessoas na Espanha e no Brasil</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>Adriana Piscitelli<sup>I</sup>; Laura Lowenkron<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><sup>I</sup>Antrop&oacute;loga, pesquisadora A e coordenadora associada do N&uacute;cleo de Estudos de G&ecirc;nero Pagu da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e professora no programa de doutorado em ci&ecirc;ncias sociais da mesma universidade. Email: <a href="mailto:piscitelliadriana@gmail.com">piscitelliadriana@gmail.com</a>    <br>  <sup>II</sup>Doutora em antropologia (Museu Nacional/JUFRJ) e p&oacute;s-doutoranda do N&uacute;cleo de Estudos de G&ecirc;nero Pagu da Unicamp, com bolsa Fapesp (processo no. 2012J11629-4). Email: <a href="mailto:lauralowenkron@gmail.com">lauralowenkron@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Neste artigo analisamos, numa perspectiva comparativa, alguns aspectos dos regimes discursivos e legais sobre tr&aacute;fico de pessoas predominantes na Espanha e no Brasil. An&aacute;lises realizadas a partir da metade da d&eacute;cada de 2000 por pesquisadores/as que estudam tr&aacute;fico de pessoas e prostitui&ccedil;&atilde;o em diferentes partes do mundo mostram como, no marco de processos de policiamento das fronteiras, os regimes discursivos e legais sobre tr&aacute;fico de pessoas envolvem a criminaliza&ccedil;&atilde;o dos deslocamentos internacionais de certos trabalhadores(as) migrantes, marcados por g&ecirc;nero, sexualidade, classe, ra&ccedil;a/etnia e nacionalidade (1). Estamos interessadas em compreender como essa converg&ecirc;ncia se produz em pa&iacute;ses diferentemente posicionados em termos geopol&iacute;ticos, das pol&iacute;ticas migrat&oacute;rias e dos marcos legais relativos ao tr&aacute;fico de pessoas. Prestamos particular aten&ccedil;&atilde;o em como, no &acirc;mbito dessa diversidade, os regimes presentes nos dois pa&iacute;ses produzem a no&ccedil;&atilde;o de v&iacute;tima desse crime, considerando os efeitos das formas de constru&ccedil;&atilde;o (moral, pol&iacute;tica e administrativa) dessa categoria. </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">No plano internacional, as discuss&otilde;es e a&ccedil;&otilde;es antitr&aacute;fico se intensificaram a partir de in&iacute;cios da d&eacute;cada de 2000, coincidindo com a elabora&ccedil;&atilde;o e ratifica&ccedil;&atilde;o do Protocolo de Palermo, o mais relevante instrumento jur&iacute;dico internacional relativo ao tr&aacute;fico de pessoas (2). Apesar desse protocolo ser oficialmente "destinado a combater e prevenir o tr&aacute;fico de pessoas e, ao mesmo tempo, a proteger os direitos fundamentais das v&iacute;timas", ele faz parte de um conjunto de instrumentos voltados para a repress&atilde;o do crime organizado transnacional, integrado tamb&eacute;m pelo protocolo relativo ao combate ao contrabando de migrantes (3). </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">A implementa&ccedil;&atilde;o do Protocolo de Palermo teve significativas distin&ccedil;&otilde;es na Espanha e no Brasil. Apesar disso, nos dois pa&iacute;ses, pessoas consideradas como v&iacute;timas de tr&aacute;fico acabam sendo deportadas em fun&ccedil;&atilde;o do seu estatuto migrat&oacute;rio. Partindo dessa constata&ccedil;&atilde;o, analisamos os pressupostos, as no&ccedil;&otilde;es e as pr&aacute;ticas de gest&atilde;o que tornam poss&iacute;veis os deslocamentos entre as categorias impostas a trabalhadores(as) migrantes e o embaralhamento entre "il&iacute;citos transfonteiri&ccedil;os" (4). Referimo-nos, em especial, aos procedimentos por meio dos quais, ao longo do deslocamento de pessoas e de procedimentos administrativos estatais atrav&eacute;s das fronteiras, as v&iacute;timas a serem resgatadas s&atilde;o transformadas em migrantes irregulares a serem deportadas(os) ou at&eacute; criminalizadas(os). Prestando aten&ccedil;&atilde;o em como, no &acirc;mbito de uma s&eacute;rie de inst&acirc;ncias do Estado e governamentais em sentido amplo (5), nos dois pa&iacute;ses, a no&ccedil;&atilde;o de v&iacute;tima &eacute; acionada e dotada de sentido, argumentamos que ela &eacute; ativada no &acirc;mbito de diferentes disputas sobre quem pode (ou merece) ou n&atilde;o ser enquadrado nessa categoria. E exploramos as condi&ccedil;&otilde;es de reconhecimento (6) que permeiam essas disputas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">A pesquisa etnogr&aacute;fica de Adriana Piscitelli foi realizada durante 15 meses na Espanha (7), entre 2004 e 2013, analisando as experi&ecirc;ncias de migrantes brasileiras, mulheres e travestis inseridas em diferentes setores da ind&uacute;stria do sexo nesse pa&iacute;s. Essas experi&ecirc;ncias foram situadas no &acirc;mbito do acionamento dos marcos legais sobre migra&ccedil;&atilde;o, prostitui&ccedil;&atilde;o e tr&aacute;fico de pessoas, analisados acompanhando o trabalho de ONGs voltadas para o apoio a migrantes e trabalhadoras do sexo, dos consulados brasileiros na Espanha, e tamb&eacute;m da Policia de Extranjer&iacute;a espanhola. J&aacute; o trabalho de campo etnogr&aacute;fico de Laura Lowenkron, conduzido ao longo de 2013, conferiu particular aten&ccedil;&atilde;o &agrave; maneira pela qual a categoria "tr&aacute;fico de pessoas" &eacute; constru&iacute;da e descontru&iacute;da nos discursos e nos inqu&eacute;ritos da Pol&iacute;cia Federal, principal bra&ccedil;o do Estado brasileiro respons&aacute;vel pela atividade de repress&atilde;o a esse crime, al&eacute;m de ser respons&aacute;vel por exercer a atividade de pol&iacute;cia aeroportu&aacute;ria, de controle das fronteiras e dos fluxos migrat&oacute;rios internacionais (8).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Na primeira parte do texto criamos um contexto para considerar como as pol&iacute;ticas antitr&aacute;fico afetam as migrantes brasileiras na Espanha, levando em conta como s&atilde;o transformadas em estrangeiras deport&aacute;veis e quando e como a algumas poucas &eacute; concedido o estatuto de v&iacute;timas desse crime. Depois, analisamos como, no Brasil, essas mesmas migrantes deportadas s&atilde;o definidas por documentos e agentes policiais e como pessoas estrangeiras consideradas v&iacute;timas de tr&aacute;fico s&atilde;o percebidas e tratadas na Pol&iacute;cia Federal brasileira. Finalmente, destacamos alguns dos principais efeitos do atual modelo pol&iacute;tico de enfrentamento ao tr&aacute;fico de pessoas, baseado na linguagem dos direitos humanos, e consideramos algumas hip&oacute;teses para explicar aquilo que tem sido apontado como um dos principais desafios das pol&iacute;ticas antitr&aacute;fico: o fato de que, em geral, as pessoas tecnicamente definidas como traficadas n&atilde;o se identificam como tais.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>V&Iacute;TIMAS NA ESPANHA E NO BRASIL</b> Na Espanha, ao longo da d&eacute;cada de 2000, quando o pa&iacute;s passou a concentrar um dos mais elevados contingentes migrat&oacute;rios extracomunit&aacute;rios na Europa, a converg&ecirc;ncia entre leis migrat&oacute;rias, o plano espanhol de combate ao tr&aacute;fico de pessoas (9), e a&ccedil;&otilde;es policiais, provocavam a impress&atilde;o de responder a uma pol&iacute;tica coerente de repress&atilde;o voltada para certos fluxos de popula&ccedil;&atilde;o (10). Nesses anos, a recorrente deporta&ccedil;&atilde;o de "v&iacute;timas" foi justificada remetendo &agrave; Lei Org&aacute;nica sobre Derechos y Libertades de los Extranjeros em Espa&ntilde;a y su Integraci&oacute;n Social, de 2000.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">De acordo com ela, a possibilidade de um estrangeiro em situa&ccedil;&atilde;o irregular, v&iacute;tima de tr&aacute;fico il&iacute;cito de seres humanos ou de m&atilde;o de obra, de explora&ccedil;&atilde;o da m&atilde;o de obra ou na prostitui&ccedil;&atilde;o, obter visto de perman&ecirc;ncia no pa&iacute;s era vinculada &agrave; colabora&ccedil;&atilde;o com as autoridades, denunciando redes criminosas organizadas, oferecendo "dados essenciais" nas investiga&ccedil;&otilde;es (11). E o plano de combate ao tr&aacute;fico de pessoas, em vigor a partir de 2007 era condizente com essa lei. Paralelamente, ele evidencia o interesse no controle migrat&oacute;rio, mediante a ideia de coopera&ccedil;&atilde;o com pa&iacute;ses de origem (como o Brasil), que envolve o aprimoramento no controle da sa&iacute;da de cidad&atilde;s(&atilde;os) desses pa&iacute;ses. Esse interesse est&aacute; tamb&eacute;m presente na vincula&ccedil;&atilde;o entre a redu&ccedil;&atilde;o de v&iacute;timas de determinadas nacionalidades, como as colombianas, e a restri&ccedil;&otilde;es na circula&ccedil;&atilde;o internacional, como a exig&ecirc;ncia de vistos para ingressar na Espanha.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">No Brasil, nesse mesmo per&iacute;odo, leis, pol&iacute;ticas, planos e a&ccedil;&otilde;es policiais comp&otilde;em um quadro mais heterog&ecirc;neo e, at&eacute;, contradit&oacute;rio, que parece n&atilde;o condizer com a implementa&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica de repress&atilde;o &agrave; imigra&ccedil;&atilde;o de estrangeiros. No pa&iacute;s, o debate sobre tr&aacute;fico de pessoas se intensificou num momento de incremento da migra&ccedil;&atilde;o brasileira para na&ccedil;&otilde;es "ricas". A dimens&atilde;o internacional desse crime preocupava em fun&ccedil;&atilde;o da viola&ccedil;&atilde;o de direitos de migrantes brasileiros( as) no exterior, principalmente de v&iacute;timas para a explora&ccedil;&atilde;o sexual em pa&iacute;ses do Norte e nas fronteiras. E parte das estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas antitr&aacute;fico foi desenvolvida a partir de projetos de coopera&ccedil;&atilde;o internacional, apoiados por ag&ecirc;ncias multilaterais e organiza&ccedil;&otilde;es internacionais dos pa&iacute;ses do Norte, com medidas voltadas para o controle da emigra&ccedil;&atilde;o de brasileiras(os) para o exterior (12).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">No final da d&eacute;cada de 2000, no &acirc;mbito da crise econ&ocirc;mica que afetou diversos pa&iacute;ses do Norte e do crescimento econ&ocirc;mico do Brasil, o pa&iacute;s passou a ser percebido como foco de atra&ccedil;&atilde;o para migrantes de diversas partes do mundo. E, na converg&ecirc;ncia entre essa ideia e um revigoramento das pol&iacute;ticas brasileiras sobre fronteiras (13), os fluxos de popula&ccedil;&atilde;o que passaram a preocupar, e a ser vinculados a crimes, como o tr&aacute;fico de migrantes t&ecirc;m sido, sobretudo, aqueles de partes "pobres" do mundo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> No Brasil, at&eacute; o momento, n&atilde;o houve uma harmoniza&ccedil;&atilde;o entre as leis nacionais relativas ao tr&aacute;fico de pessoas e o Protocolo de Palermo e h&aacute; uma multiplicidade no entendimento e na atua&ccedil;&atilde;o estatal frente ao problema que decorre, em parte, da discrep&acirc;ncia de dois instrumentos legais que definem esse crime. A no&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica de "tr&aacute;fico de pessoas" que orienta o sistema de justi&ccedil;a criminal brasileiro &eacute; associada exclusivamente &agrave; intermedia&ccedil;&atilde;o ou facilita&ccedil;&atilde;o de deslocamentos internacionais e internos para fins de prostitui&ccedil;&atilde;o ou outras formas de explora&ccedil;&atilde;o sexual (14).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> A Pol&iacute;tica Nacional de Enfrentamento ao Tr&aacute;fico de Pessoas, aprovada em 2006, os dois Planos Nacionais de Enfrentamento ao Tr&aacute;fico de Pessoas e os debates p&uacute;blicos sobre o tema s&atilde;o orientados pela defini&ccedil;&atilde;o do Protocolo de Palermo, no qual o "crime &eacute; definido concedendo &ecirc;nfase &agrave; coer&ccedil;&atilde;o ou abuso de situa&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidade em alguma fase do processo do deslocamento realizado para ser explorado em qualquer setor de atividade" (15).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Essa pol&iacute;tica prev&ecirc; a prote&ccedil;&atilde;o e assist&ecirc;ncia &agrave;s v&iacute;timas do tr&aacute;fico de pessoas, acolhimento e abrigo provis&oacute;rio e reinser&ccedil;&atilde;o social, independentemente da situa&ccedil;&atilde;o migrat&oacute;ria (16). Diferentemente do plano espanhol, ela explicita que a prote&ccedil;&atilde;o e assist&ecirc;ncia integral &agrave;s v&iacute;timas n&atilde;o est&aacute; vinculada &agrave; colabora&ccedil;&atilde;o em processos judiciais (17). E o II Plano de Enfrentamento ao Tr&aacute;fico de Pessoas, produzido a partir de 2011 e publicado em 2013, garante aten&ccedil;&atilde;o assistencial e jur&iacute;dica a v&iacute;timas estrangeiras e tamb&eacute;m a eventual escolha de perman&ecirc;ncia no pa&iacute;s (18).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Em 2010, uma resolu&ccedil;&atilde;o normativa do Conselho Nacional de Imigra&ccedil;&atilde;o (19) afirmava que poderia ser concedido visto de perman&ecirc;ncia aos estrangeiros que estivessem no Brasil em situa&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidade, v&iacute;timas do tr&aacute;fico de pessoas para explora&ccedil;&atilde;o sexual, trabalho an&aacute;logo ao de escravo ou remo&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;os. Mas, at&eacute; o momento, a aplica&ccedil;&atilde;o dessa modalidade de visto tem sido inexistente, assim como ainda &eacute; rara a identifica&ccedil;&atilde;o formal de estrangeiros como v&iacute;timas de tr&aacute;fico.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Neste quadro, h&aacute; menor coer&ecirc;ncia que na Espanha entre as leis do C&oacute;digo Penal, as pol&iacute;ticas voltadas para o tr&aacute;fico de pessoas e as orienta&ccedil;&otilde;es para sua implementa&ccedil;&atilde;o e as a&ccedil;&otilde;es policiais. No Brasil, essas pol&iacute;ticas, com um car&aacute;ter tutelar e de afirma&ccedil;&atilde;o de prote&ccedil;&atilde;o aos direitos humanos das v&iacute;timas independentemente de colabora&ccedil;&atilde;o com as autoridades, parecem n&atilde;o condizer com a implementa&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica de repress&atilde;o &agrave; imigra&ccedil;&atilde;o de estrangeiros. Se no Brasil, como na Espanha, a repress&atilde;o &agrave; prostitui&ccedil;&atilde;o vinculada ao enfrentamento de tr&aacute;fico de pessoas tem tido efeitos no controle das atividades nos mercados do sexo locais, diferentemente da Espanha, esse controle tem tido efeitos na restri&ccedil;&atilde;o da mobilidade de brasileiras que pretendiam viajar ao exterior (20).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Vale notar ainda que esse governo tutelar tem sido frequentemente exercido a partir do desenvolvimento de<i> tecnologias de si</i> (21) que buscam engendrar, at&eacute; agora de maneira ineficaz, um processo de subjetiva&ccedil;&atilde;o/sujei&ccedil;&atilde;o moral capaz de despertar nas pessoas tecnicamente definidas como traficadas a consci&ecirc;ncia de que s&atilde;o v&iacute;timas. Neste quadro heterog&ecirc;neo, as tens&otilde;es entre disposi&ccedil;&otilde;es legais, pol&iacute;ticas e a&ccedil;&otilde;es policiais redundam, tamb&eacute;m no Brasil, em deporta&ccedil;&otilde;es de estrangeiros tidos como poss&iacute;veis v&iacute;timas de tr&aacute;fico de pessoas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>V&Iacute;TIMAS DE TR&Aacute;FICO, "DENUNCIANTES" E MIGRANTES IRREGULARES NA ESPANHA</b> Como operam as no&ccedil;&otilde;es de v&iacute;tima do tr&aacute;fico de pessoas em cada um desses pa&iacute;ses? Na Espanha, a expans&atilde;o do debate sobre tr&aacute;fico de pessoas como problema social tem utilizado a ret&oacute;rica da defesa dos direitos humanos, embasada numa particular figura de v&iacute;tima difundida, principalmente, em campanhas para "sensibilizar" a popula&ccedil;&atilde;o. As imagens sobre essa v&iacute;tima evocam a ideia de viola&ccedil;&atilde;o de consentimento sexual: fortemente feminilizadas, remetem &agrave; ideia de pris&atilde;o, escraviza&ccedil;&atilde;o, mercantiliza&ccedil;&atilde;o, incapacidade de reagir, medo (22).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Essa imagem de v&iacute;tima tem justificado a intensifica&ccedil;&atilde;o das inspe&ccedil;&otilde;es policiais em locais voltados para a prostitui&ccedil;&atilde;o. S&oacute; que as pessoas detidas nessas inspe&ccedil;&otilde;es, dificilmente acedem ao estatuto jur&iacute;dico de v&iacute;tima desse crime. Agentes da pol&iacute;cia migrat&oacute;ria explicaram a discrep&acirc;ncia entre os n&uacute;meros das v&iacute;timas de tr&aacute;fico estrangeiras "resgatadas" e os das que acediam ao estatuto jur&iacute;dico de v&iacute;tima, com direito a prote&ccedil;&atilde;o e resid&ecirc;ncia, afirmando o cumprimento da Lei de Extranjeria. Essas &uacute;ltimas eram apenas as "denunciantes" que apresentassem informa&ccedil;&otilde;es consideradas relevantes pela pol&iacute;cia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">A expuls&atilde;o afetou, ao longo das d&eacute;cadas de 2000 e 2010, a maioria das mulheres "resgatadas", origin&aacute;rias de diversas regi&otilde;es "pobres" do mundo, sexualizadas, racializadas e "vulnerabilizadas" de formas diferenciadas. Entre as brasileiras "sem pap&eacute;is" que exerciam atividades na ind&uacute;stria do sexo, contatadas ao longo da pesquisa, o que provocava medo era, precisamente, a percep&ccedil;&atilde;o de serem migrantes irregulares a serem deportadas. Nos registros de ONGs h&aacute; relatos de maus tratos e at&eacute; torturas em delegacias de pol&iacute;cia espanholas, narrados por supostas v&iacute;timas de tr&aacute;fico brasileiras deportadas (23). Muito al&eacute;m dos castigos f&iacute;sicos, a deporta&ccedil;&atilde;o era experienciada pelas entrevistadas como praticamente a maior viol&ecirc;ncia &agrave; qual estavam expostas - uma "viol&ecirc;ncia de Estado" (24). Algumas, que trabalhavam na rua, viviam num permanente estado de emerg&ecirc;ncia, no qual o terror era cotidiano, mas o medo da deporta&ccedil;&atilde;o fazia tamb&eacute;m parte da vida cotidiana das que moravam e ofereceriam servi&ccedil;os sexuais em apartamentos. Esses relatos indicam que, mesmo que os agentes e aparatos administrativos n&atilde;o fa&ccedil;am uso da for&ccedil;a f&iacute;sica estatal, a efic&aacute;cia de seus procedimentos legais (como a deporta&ccedil;&atilde;o) &eacute; profundamente ancorada nessa amea&ccedil;a, como sugere Graeber (25).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">O tr&acirc;nsito entre as diversas categorias adjudicadas a essas prostitutas brasileiras, pode ser pensado em di&aacute;logo com formula&ccedil;&otilde;es de Fassin (26). De acordo com o autor, na atual articula&ccedil;&atilde;o entre os discursos e as pol&iacute;ticas humanit&aacute;rias, nas quais a legitimidade de diversas interven&ccedil;&otilde;es se desloca da esfera legal &agrave; moral, se produz uma essencializa&ccedil;&atilde;o da v&iacute;tima. Cria-se um modelo que justifica a assist&ecirc;ncia humanit&aacute;ria, mas n&atilde;o tem rela&ccedil;&atilde;o com a situa&ccedil;&atilde;o desses indiv&iacute;duos. No caso dessas trabalhadoras migrantes, por&eacute;m, a proximidade ou n&atilde;o dessas pessoas com a "v&iacute;tima modelo" era irrelevante.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">As autoridades podiam sensibilizar-se com mulheres que evocavam a ideia da v&iacute;tima ideal e exercer viol&ecirc;ncia e at&eacute; crueldade com as mulheres que se distanciavam radicalmente desse ideal. Por&eacute;m, o acesso ao estatuto jur&iacute;dico de v&iacute;tima de tr&aacute;fico de pessoas seguia outros caminhos, orientados por leis e pol&iacute;ticas de repress&atilde;o &agrave; migra&ccedil;&atilde;o irregular. Assim, independentemente da ret&oacute;rica ancorada na prote&ccedil;&atilde;o aos direitos humanos, na Espanha, o "reconhecimento" dessas migrantes como seres com acesso a direitos aparece como altamente restritivo e subordinado a categorias vinculadas ao combate ao crime: "denunciante" ou testemunha.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>DO OUTRO LADO DO OCEANO: BRASIL</b> Como essas mesmas migrantes, que foram para o exterior se prostituir, e tamb&eacute;m os estrangeiros considerados v&iacute;timas de tr&aacute;fico no Brasil s&atilde;o percebidos e classificados, no outro lado do oceano, pela Pol&iacute;cia Federal brasileira? Os inqu&eacute;ritos policiais consultados mostram como a&ccedil;&otilde;es antimigrat&oacute;rias de pa&iacute;ses europeus - que, como vimos, se articulam e se confundem com a&ccedil;&otilde;es antitr&aacute;fico - repercutem e s&atilde;o decodificadas no pa&iacute;s de origem dessas migrantes. Um mesmo caso classificado em Portugal como crime de "aux&iacute;lio &agrave; imigra&ccedil;&atilde;o ilegal" associado ao "lenoc&iacute;cio", que levou &agrave; deporta&ccedil;&atilde;o de migrantes brasileiras indocumentadas que trabalhavam em um clube de alterne (27) e prostitui&ccedil;&atilde;o, no Brasil deu origem a um inqu&eacute;rito de "tr&aacute;fico internacional de pessoas". E, em outros casos, diverg&ecirc;ncias classificat&oacute;rias como essa se repetem.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Diante da pergunta de qual era o seu entendimento em rela&ccedil;&atilde;o ao "tr&aacute;fico de pessoas", uma delegada respondeu: "n&atilde;o &eacute; um entendimento. A pol&iacute;cia trabalha com a defini&ccedil;&atilde;o legal. E hoje &eacute; basicamente o artigo 231 e o 231-A do C&oacute;digo Penal, que &eacute; tr&aacute;fico de pessoas para explora&ccedil;&atilde;o sexual". Um agente esclarece com mais detalhes:</font></p> <font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">     <blockquote>O crime se caracteriza pelo envio de pessoas com fins de explora&ccedil;&atilde;o. Levar vantagem financeira. Muitas das pessoas querem ir, s&oacute; que n&atilde;o t&ecirc;m condi&ccedil;&otilde;es de bancar toda a estrutura, pagar passagem, conseguir passaporte. Ent&atilde;o, essas pessoas fazem esse aliciamento, oferecem esse servi&ccedil;o, entre aspas. E cobram um "ped&aacute;gio" por isso (28). </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Esta defini&ccedil;&atilde;o de tr&aacute;fico de pessoas que orienta a atua&ccedil;&atilde;o policial ajuda a perceber como determinada conduta pode ser entendida e tratada por eles como ilegal, portanto, reprov&aacute;vel criminalmente, mas n&atilde;o como uma viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos(15). Delimitando fronteiras entre a "v&iacute;tima humanit&aacute;ria" e a "v&iacute;tima criminal" (29), a maior parte do tempo, os policiais caracterizavam o fen&ocirc;meno menos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; defini&ccedil;&atilde;o legal do C&oacute;digo Penal do que a partir de um contraste com narrativas midi&aacute;ticas e constru&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas estereotipadas sobre esse crime. Nesse sentido, ao constituir o tr&aacute;fico de pessoas como categoria criminal, de certa maneira, os policiais acabam por desconstrui-lo enquanto problema social.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Distanciando-se da l&oacute;gica tutelar que orienta a Pol&iacute;tica Nacional de Enfrentamento ao Tr&aacute;fico de Pessoas, os policias federais que atuam na linha de frente operacional n&atilde;o consideram as pessoas tecnicamente traficadas (ainda que sexualizadas, racializadas e vulnerabilizadas) como irracionais ou incapazes de gerenciar suas pr&oacute;prias vidas e corpos. Assim, adotam uma postura cr&iacute;tica que vai ao encontro de algumas perspectivas acad&ecirc;micas sobre a tem&aacute;tica (30). Mas, uma vez descaracterizada a passividade das v&iacute;timas de carne e osso do tr&aacute;fico de pessoas para fim de explora&ccedil;&atilde;o sexual, essas pessoas s&atilde;o destitu&iacute;das dos atributos morais associados &agrave; v&iacute;tima ideal e idealizada desse crime (31). Como eles dizem, as v&iacute;timas n&atilde;o s&atilde;o "santas".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Se, por um lado, os policiais federais estabelecem frequentemente fronteiras entre o crime de tr&aacute;fico de pessoas e a no&ccedil;&atilde;o de viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos, enfatizando que pode haver o primeiro sem haver a segunda, por outro, h&aacute; casos envolvendo trabalhadores estrangeiros em que eles reconhecem viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos, mas n&atilde;o podem enquadrar a conduta no crime de tr&aacute;fico de pessoas, em fun&ccedil;&atilde;o do marco legal. Como disse um delegado que trabalhou na imigra&ccedil;&atilde;o do Aeroporto Internacional do Gale&atilde;o, os verdadeiros casos de tr&aacute;fico de pessoas n&atilde;o s&atilde;o os das prostitutas e travestis brasileiros que v&atilde;o para a Europa, mas os dos chineses que v&ecirc;m para o Brasil para serem explorados como m&atilde;o de obra escrava. A articula&ccedil;&atilde;o etnia/classe/nacionalidade &eacute; considerada aqui mais decisiva para determinar a vulnerabilidade do que g&ecirc;nero/sexualidade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Diante da pergunta sobre como ele havia classificado formalmente os casos que acompanhou, j&aacute; que n&atilde;o existe na legisla&ccedil;&atilde;o penal brasileira o crime de tr&aacute;fico de pessoas para fim de explora&ccedil;&atilde;o laboral, a autoridade policial respondeu que geralmente indiciava os chineses pelo uso de documentos falsos, que eles utilizam para entrar ilegalmente no pa&iacute;s. Por que, ao inv&eacute;s de indici&aacute;-los e deport&aacute;-los, n&atilde;o os considerava sob a &oacute;tica do crime de "trabalho escravo"? Ele disse que essa parte &eacute; compet&ecirc;ncia da justi&ccedil;a estatal. Mas que, no que depender dele, "estrangeiro em situa&ccedil;&atilde;o irregular &eacute; rua!", pois &eacute; assim que fazem com brasileiros no exterior.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">A aus&ecirc;ncia de tipifica&ccedil;&atilde;o legal do crime de tr&aacute;fico de pessoas para fim de trabalho escravo fez com que o inqu&eacute;rito de um chin&ecirc;s escravizado e gravemente agredido e torturado em uma pastelaria no sub&uacute;rbio do Rio de Janeiro, mesmo sendo reconhecido por todos como v&iacute;tima de viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos, tenha se tornado objeto de intensas controv&eacute;rsias classificat&oacute;rias intra e interinstitucionais. Enquanto v&iacute;tima de tr&aacute;fico de pessoas o chin&ecirc;s poderia obter um visto de perman&ecirc;ncia, como chegou a considerar uma delegada. Enquanto imigrante irregular que foi submetido a trabalho escravo, ele s&oacute; n&atilde;o foi imediatamente deportado por estar provisoriamente tutelado sob a condi&ccedil;&atilde;o de testemunha protegida no curso de um processo criminal. Houve um delegado que sugeriu ainda haver ind&iacute;cios do crime de falsidade ideol&oacute;gica, porque o chin&ecirc;s declarou no controle imigrat&oacute;rio estar viajando como turista, j&aacute; sabendo que o motivo era diverso. Assim, de maneira paradoxal, aqueles que s&atilde;o reconhecidos como as "verdadeiras v&iacute;timas" do tr&aacute;fico de pessoas acabam sendo tratados como "imigrantes irregulares" a serem deportados ou at&eacute; criminalizados.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b> Nos dois pa&iacute;ses, inst&acirc;ncias do Estado e governamentais, em sentido amplo, acionam e dotam de sentido a no&ccedil;&atilde;o de v&iacute;tima num jogo que aciona ora a no&ccedil;&atilde;o de "v&iacute;tima humanit&aacute;ria", ora a de "v&iacute;tima criminal", segundo interesses pol&iacute;ticos diferenciados e contextuais, produzindo um "caso" particular no &acirc;mbito da raz&atilde;o humanit&aacute;ria. As pol&iacute;ticas contempor&acirc;neas antitr&aacute;fico, frequentemente associadas ao crescente policiamento das fronteiras internacionais, n&atilde;o podem ser plenamente compreendidas se n&atilde;o forem pensadas tamb&eacute;m em rela&ccedil;&atilde;o a um processo de expans&atilde;o e fortalecimento dessa raz&atilde;o como forma de governo transnacional. Neste contexto, a vitimiza&ccedil;&atilde;o se tornou um instrumento de interven&ccedil;&atilde;o que frequentemente viola direitos humanos e, simultaneamente, tornou-se a alternativa que resta para que alguns migrantes possam reivindicar direitos aos Estados-na&ccedil;&otilde;es (32).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Se a ret&oacute;rica humanit&aacute;ria tem garantido a expans&atilde;o e efic&aacute;cia do tr&aacute;fico de pessoas enquanto artefato pol&iacute;tico, moral e midi&aacute;tico, por outro lado, ela evidencia sua inefic&aacute;cia enquanto categoria administrativa e criminal. Isso ocorre porque a no&ccedil;&atilde;o de v&iacute;tima presente nessa categoria, voltada, nos dois pa&iacute;ses, para a repress&atilde;o do crime, tem escassa rela&ccedil;&atilde;o com a delineada pelo discurso humanit&aacute;rio e dificilmente garante acesso a direitos. Consequentemente, as pessoas tidas como v&iacute;timas de tr&aacute;fico raramente identificam-se como tais, contrastando com outros contextos nos quais essa identidade &eacute; pleiteada e disputada (33). Diferentes explica&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m sido atribu&iacute;das a esse fen&ocirc;meno, que &eacute; considerado um dos maiores obst&aacute;culos &agrave;s pol&iacute;ticas antitr&aacute;fico, como o medo de repres&aacute;lias, a identifica&ccedil;&atilde;o com o explorador, a vergonha ou a incapacidade por parte das v&iacute;timas. Propomos, alternativamente, interpretar esse fen&ocirc;meno como um processo de resist&ecirc;ncia ativa por parte dessas pessoas ao poder tutelar do Estado, isto &eacute;, a modos de interven&ccedil;&atilde;o que, de maneiras distintas e com efeitos diferentes, segundo os pa&iacute;ses, lhes retratam como v&iacute;timas passivas do crime organizado transnacional e tem frequentemente sujeitado os migrantes ao medo e a medidas como a deporta&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Nesse sentido, outra hip&oacute;tese interessante levantada por um policial federal para explicar porque as supostas v&iacute;timas n&atilde;o contribuem com as investiga&ccedil;&otilde;es &eacute; que, talvez, elas n&atilde;o confiem na pol&iacute;cia. Esse discurso aciona uma esp&eacute;cie de sociologia estrutural da desconfian&ccedil;a, largamente difundida no corpo social, segunda a qual os aparatos estatais (especialmente, as pol&iacute;cias) parecem n&atilde;o corresponder &agrave;s expectativas, aos interesses e &agrave;s necessidades das<i> margens</i> ou dos "administrados", revelando a fal&ecirc;ncia representacional do Estado em constituir a si pr&oacute;prio como inst&acirc;ncia protetiva ou como "central ideal da administra&ccedil;&atilde;o e da governan&ccedil;a" (34). Nesse sentido, acreditamos que "a possibilidade de que as pessoas tidas como v&iacute;timas desse crime se reconhe&ccedil;am como tais se ampliar&aacute; apenas quando as pol&iacute;ticas voltadas para isso - de fato - privilegiem a defesa dos direitos dessas pessoas" (35).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 1. Kempadoo, K., 2005. "From moral panic to global justice: changing perspectives on trafficking". In: Kempadoo, K.; Sanghera, J. and Pattanaik, B.<i> Trafficking and prostitution reconsidered, new perspectives on migration, sex work, and human rights.</i> Boulder, Paradigm, pp. vii-xxiv;    <!-- ref --> Zheng, Tiantian 2010. Sex<i> trafficking, Human rights and social justice,</i> New York, Routledge.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 2. Protocolo adicional &agrave; Conven&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas contra o crime organizado transnacional relativo &agrave; preven&ccedil;&atilde;o, repress&atilde;o e puni&ccedil;&atilde;o do tr&aacute;fico de pessoas, em especial mulheres e crian&ccedil;as.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">3.	 Piscitelli, A. &amp; Vasconcelos, M.. 2008. "Dossi&ecirc;: g&ecirc;nero no tr&aacute;fico de pessoas (Apresenta&ccedil;&atilde;o)".<i> Cadernos Pagu,</i> n. 31, p. 9-28;    <!-- ref --> Mansur Dias, G. "Migra&ccedil;&atilde;o e crime: desconstru&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas de seguran&ccedil;a e tr&aacute;fico de pessoas", 2014.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 4. Ver artigo de Daniel Hirata, neste N&uacute;cleo Tem&aacute;tico da revista<i> Ci&ecirc;ncia e Cultura.</i></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 5. Fassin, D.<i> Humanitarian reason. A moralhistory of thepresent.</i> Berkeley: University of California Press, 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">6.	 Butler, J.<i> Frames of war. When is life grievable,</i> Londres, Verso, 2009.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 7. Em Barcelona, Madrid, Bilbao, Granada e Antequera.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 8. O trabalho de campo envolveu entrevistas na Unidade de Repress&atilde;o ao Tr&aacute;fico de Pessoas, no &oacute;rg&atilde;o central da Pol&iacute;cia Federal, e com as coordenadoras do Enfrentamento ao Tr&aacute;fico de Pessoas do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, em Bras&iacute;lia, entrevistas e conversas informais com agentes, delegados e escriv&atilde;es de Pol&iacute;cia Federal e observa&ccedil;&atilde;o participante em uma delegacia (Delinst) da superintend&ecirc;ncia regional desse &oacute;rg&atilde;o no Rio de Janeiro, al&eacute;m de consulta a 12 inqu&eacute;ritos de tr&aacute;fico de pessoas para fim de explora&ccedil;&atilde;o sexual (art. 231 do C&oacute;digo Penal), envolvendo mulheres e travestis brasileiras, e 1 inqu&eacute;rito relacionado ao crime de redu&ccedil;&atilde;o &agrave; condi&ccedil;&atilde;o an&aacute;loga &agrave; de escravo, envolvendo um chin&ecirc;s supostamente "traficado".</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 9. Gobierno de Espa&ntilde;a, Ministerio del Interior. "Plan integral de lucha contra la trata de seres humanos con fines de explotaci&oacute;n sexual, An&aacute;lisis de situaci&oacute;n y plan de acci&oacute;n". Espa&ntilde;a, octubre de 2007, dis pon&iacute;vel em: <a href="http://bit.ly/1MwWjZQ" target="_blank">http://bit.ly/1MwWjZQ</a> (Acesso em 01/08/ 2011).    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 10. Piscitelli, A.<i> Tr&acirc;nsitos: brasileiras nos mercados transnacionais do sexo.</i> Rio de Janeiro: CLAM/Eduerj, 2013.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 11. 3/2000 de 11 de janeiro, da modifica&ccedil;&atilde;o da Lei Org&acirc;nica 10/1995.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">12. Como	 o Escrit&oacute;rio das Na&ccedil;&otilde;es Unidas contra Drogas e Crimes (UNODC) e a organiza&ccedil;&atilde;o europeia ICMPD (International Centre for Migration Policy Development). Um dos principais financiadores desses projetos &eacute; a Comiss&atilde;o Europeia.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 13. Olivar, J. M. N.<i> Voc&ecirc; conhece algu&eacute;m que trafique pessoas? Capilaridades e produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento sobre "explora&ccedil;&atilde;o sexual"e "tr&aacute;fico de pessoas" em fronteiras amaz&ocirc;nicas brasileiras.</i> Campinas, Mimeo, 2014.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">14. Arts. 231 e 231-A do C&oacute;digo Penal.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 15. Piscitelli, A. "Entre as 'm&aacute;fias' e a 'ajuda': a constru&ccedil;&atilde;o de conhecimento sobre tr&aacute;fico de pessoas".<i> Cadernos Pagu,</i> n. 31, 2008, pp. 29-63.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">16. Artigo 7, I,II,III,IV,V,VI,VII Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, Secretaria Nacional de Justi&ccedil;a: Pol&iacute;tica Nacional de Enfrentamento ao Tr&aacute;fico de Pessoas, Bras&iacute;lia, SNJ, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 17. Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, Secretaria Nacional de Justi&ccedil;a: Plano Nacional de Enfrentamento ao Tr&aacute;fico de Pessoas, Bras&iacute;lia, SNJ, 2008(b).    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">18. Secretaria Nacional de Justi&ccedil;a do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a: II<i> Plano Nacional de Enfrentamento ao Tr&aacute;fico de Pessoas. Bras&iacute;lia, Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a,</i> 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 19. Resolu&ccedil;&atilde;o CMIG 93, do 21/12/2010.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">20. Silva, A. P.; Blanchette, T. G.; Bento, A. R. "Cinderella deceived: analyzing a Brazilian myth regarding trafficking in persons". In:<i> Vibrant -Virtual Brazilian Anthropology, v. 10, n. 2.</i> 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 21. Foucault, M.<i> Tecnolog&iacute;as del yo.</i> Colecci&oacute;n Pensamiento Contempor&aacute;neo, 7. Buenos Aires: Paid&oacute;s, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">22. Andrijasevic, R. "Beautiful dead bodies: gender, migration and representation in anti-trafficking campaigns".<i> Feminist Review,</i> vol.86, 24-44. 2007.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">23. Relat&oacute;rio baseado em depoimento de deportada brasileira atendida pela organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o governamental Asbrad em Guarulhos, 13/06/2005.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">24. Sobre a deporta&ccedil;&atilde;o como "viol&ecirc;ncia de Estado", ver artigo de Eduarco Domenech, neste N&uacute;cleo Tem&aacute;tico da revista<i> Ci&ecirc;ncia e Cultura.</i></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">25. Graeber, D. "Dead zones of the imagination. On violence, bureaucracy, and interpretive labor".<i> HAU: Journal of Ethnographic Theory,</i>vol.2 (2): 105-28. 2012.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">26. Fassin, D. "Humanitarianism as a politics of life".<i> Public Culture</i> 19:3: 499-518, 2007.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">27. Estabelecimento comercial cujas funcion&aacute;rias s&atilde;o contratadas para acompanharem e motivarem sedutoramente os clientes a consumirem e a pagarem bebidas alc&oacute;olicas, em troca de comiss&atilde;o sobre os valores gastos por seu acompanhante no bar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">28. Agente	 de Pol&iacute;cia Federal, em entrevista. Caderno de campo 28/01/2013.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">29. Sobre esta distin&ccedil;&atilde;o, ver: Mansur Dias, G. "Migra&ccedil;&atilde;o e crime: desconstru&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas de seguran&ccedil;a e tr&aacute;fico de pessoas". Tese de doutorado em antropologia social, IFCH/Unicamp, 2014, p. 128.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">30. Blanchette, T. G. e Silva, A. P. "Mulheres vulner&aacute;veis e meninas m&aacute;s: uma an&aacute;lise antropol&oacute;gica de narrativas hegem&ocirc;nicas sobre o tr&aacute;fico de pessoas no Brasil". In: Ferreira, A. P.<i> et al. A experi&ecirc;ncia migrante: entre deslocamentos e reconstru&ccedil;&otilde;es.</i> Rio de Janeiro: Garamond, 2010, pp. 325-359;    <!-- ref --> Piscitelli, A.<i> Tr&acirc;nsitos: brasileiras nos mercados transnacionais do sexo.</i> Rio de Janeiro: Clam/Eduerj, 2013;    <!-- ref --> Teixeira, F. "L'Italia dei Diveti: entre o sonho de ser europeia e o babado da prostitui&ccedil;&atilde;o".<i> Cadernos Pagu,</i> n. 31, 2008, pp. 275-308.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 31. Doezema, J. "Foced to choose: beyond the voluntary v. forced prostitution dichotomy". In: Kamala, K. and Jo, D.<i> Global sex workers: rights, resistance and redefinition.</i> Routledge: New York and London, 1998, pp. 34-50.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">32. Fassin,	 D.<i> Humanitarian reason: a moral history of the present.</i> Berkeley, University of California Press, 2011.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">33. Ver Vianna e Facundo, neste N&uacute;cleo Tem&aacute;tico da revista<i> Ci&ecirc;ncia e Cultura.</i></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">34. Teixeira, C. C.; Souza Lima, A. C. "A antropologia da administra&ccedil;&atilde;o e da governan&ccedil;a no Brasil: &aacute;rea tem&aacute;tica ou ponto de dispers&atilde;o?" In: Martins, C. B.; Duarte, L. F. D. (Ed.).<i> Horizontes das ci&ecirc;ncias sociais no Brasil: Antropologia.</i> S&atilde;o Paulo: Anpocs, 2010. pp. 51-95.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">35. Piscitelli, A. "Procurando v&iacute;timas do tr&aacute;fico de pessoas: brasileiras na ind&uacute;stria do sexo na Espanha".<i> REHMU Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana,</i> Ano XIX, nº. 37, jul./dez, 2011, p. 24.    </font></p>      ]]></body><back>
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