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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>ARTIGOS     <br>   DESLOCAMENTOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>Sobre lutos e lutas: viol&ecirc;ncia de estado, humanidade e morte em dois contextos etnogr&aacute;ficos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>Liliana Sanjurjo<sup>I</sup>; Gabriel Feltran<sup>II</sup></b></font> </p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><sup>I</sup>P&oacute;s-doutoranda (Capes) junto ao Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia Social da UFSCar e pesquisadora do Centro de Estudos de Migra&ccedil;&otilde;es Internacionais (Cemi) do IFCH da Unicamp    <br>   <sup>II</sup>Professor do Departamento de Sociologia da UFSCar, pesquisador do Centro de Estudos da Metr&oacute;pole (CEM) e do N&uacute;cleo de Etnografias Urbanas do Cebrap</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><i>Guerra &agrave;s drogas", "guerra ao crime", "guerra contra a subvers&atilde;o", "guerra ao terror". </i>Palavras de ordem na contemporaneidade. A l&oacute;gica guerreira da militariza&ccedil;&atilde;o vem pautando as pol&iacute;ticas de<i> seguran&ccedil;a nacional</i> e, mais recentemente, as pol&iacute;ticas de<i> seguran&ccedil;a p&uacute;blica</i>em diversos pa&iacute;ses do mundo (1). Especialmente no contexto latino-americano, tanto no passado ditatorial recente quanto na presente forma democr&aacute;tica, observa-se como distintos governos, por meio dos sujeitos e institui&ccedil;&otilde;es que os constituem, colocam em a&ccedil;&atilde;o enunciados valorativos a fim de justificar, sobretudo moralmente, as pol&iacute;ticas estatais de seguran&ccedil;a e os atos repressivos perpetrados contra aqueles categorizados como seus "inimigos internos". A pol&iacute;tica &eacute; a cada dia mais guerreira, a fronteira que define o inimigo &eacute; cada vez mais moral e ele est&aacute; cada vez mais pr&oacute;ximo. O conflito precisa ser administrado.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Compreendendo<i> governo</i> como uma esfera que reivindica os sentidos - existenciais, pol&iacute;ticos e morais - que justificam a vida e a morte de sujeitos, individuais ou coletivos (2), buscamos analisar aqui como s&atilde;o atualizados os dispositivos de gest&atilde;o da vida e, a partir deles, da ordem social que se constru&iacute;a em nossos contextos etnogr&aacute;ficos, ambos muito marcados pela morte violenta. Gest&atilde;o, portanto, que tem o assassinato como possibilidade mais ou menos presente e que culmina em processos de categoriza&ccedil;&atilde;o, hierarquiza&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o de fronteiras sociais (3). Nesse sentido, em conson&acirc;ncia com as reflex&otilde;es de Butler (4) sobre a quest&atilde;o da viol&ecirc;ncia, do luto e do reconhecimento da vida, problematizamos as circunst&acirc;ncias, mas sobretudo as perspectivas, em que certas vidas s&atilde;o lamentadas, choradas e dignas de luto em p&uacute;blico, enquanto outras n&atilde;o o s&atilde;o. A estas &uacute;ltimas vidas a comunidade nacional oferece o sil&ecirc;ncio, ora porque s&atilde;o entendidas como animando os corpos que devem tombar numa "guerra justa" (eram terroristas, delinquentes, subversivos, traficantes, do crime organizado); ora porque compreendidas como externas ao sentido de pertencimento a qualquer humanidade comum (eram monstros, veja o que fizeram, nem animais o fariam).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Distintas formas de discurso (do jur&iacute;dico ao cient&iacute;fico, do jornal&iacute;stico ao acad&ecirc;mico) produzem o "exclu&iacute;do", os corpos deslocados da humanidade, considerados ent&atilde;o pelo poder como desimportantes, sup&eacute;rfluos, as vidas que deveriam ser corrigidas ou que n&atilde;o mereceriam ser vividas. O lugar desse "exclu&iacute;do" seria de sil&ecirc;ncio, que, concretamente, se realiza na sensa&ccedil;&atilde;o de injusti&ccedil;a por n&atilde;o poder existir socialmente, n&atilde;o gozar de qualquer interesse por parte do mundo, por habitar uma vida condenada &agrave; morte silenciosa. Este artigo quer analisar contextualmente as consequ&ecirc;ncias pol&iacute;ticas manifestas nas concep&ccedil;&otilde;es normativas do humano que suspendem a validade da vida de sujeitos e grupos, produzindo uma multid&atilde;o de "vidas sem valor" cujo estatuto pol&iacute;tico se encontra substantivamente suspenso, o que por vezes &eacute; acompanhado da perda do estatuto legal.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Partimos da experi&ecirc;ncia etnogr&aacute;fica espec&iacute;fica em situa&ccedil;&otilde;es nas quais o Estado provoca a morte de seus "inimigos internos", para refletir sobre as fronteiras da no&ccedil;&atilde;o de humano, bem como sobre seus significados pol&iacute;ticos contempor&acirc;neos. Por um lado, tomamos como objeto um estudo sobre desaparecimento for&ccedil;ado, viol&ecirc;ncia e pol&iacute;tica no contexto da &uacute;ltima ditadura militar argentina e, por outro, uma etnografia sobre crime, viol&ecirc;ncia e pol&iacute;tica em S&atilde;o Paulo (5). Por meio desse deslocamento etnogr&aacute;fico temporal e espacial - passado ditatorial argentino e presente da forma democr&aacute;tica brasileira -, esbo&ccedil;amos uma cr&iacute;tica que situa a viol&ecirc;ncia de Estado contempor&acirc;nea n&atilde;o como um desvio, mas como um instrumento chave para governar. O recorte moral do conjunto da popula&ccedil;&atilde;o nos termos da guerra do bem contra o mal favorece a implementa&ccedil;&atilde;o de projetos pol&iacute;tico-econ&ocirc;micos espec&iacute;ficos, mas se faz centralmente em nome da<i> seguran&ccedil;a p&uacute;blica</i> ou<i> seguran&ccedil;a nacional.</i></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Por um lado, analisamos a constru&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e conjuntural das grades de inteligibilidade que permitem a justifica&ccedil;&atilde;o de medidas letais, legais ou ilegais de "combate ao crime", "guerra &agrave;s drogas", "luta contra a subvers&atilde;o", "defesa nacional". Por outro lado, verificamos as estrat&eacute;gias empreendidas por atores sociais incriminados para reagir &agrave; viol&ecirc;ncia de Estado, tornar vis&iacute;veis seus mortos e construir a sua posi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica como sujeitos leg&iacute;timos de participa&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o pol&iacute;tico ou, quando n&atilde;o, como sujeitos aptos a disputar o poder. Colocamos assim em di&aacute;logo as nossas etnografias para questionar a adjetiva&ccedil;&atilde;o dicot&ocirc;mica das viol&ecirc;ncias (viol&ecirc;ncia criminal, viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica), colocando-as em rela&ccedil;&atilde;o. Problematizamos a diferen&ccedil;a de lugares de locu&ccedil;&atilde;o ocupados por familiares de desaparecidos pol&iacute;ticos e por residentes das periferias da cidade, perante a viol&ecirc;ncia sofrida. Verificamos que seus modos de reivindicar o direito &agrave; vida de seus semelhantes s&atilde;o submetidos a condi&ccedil;&otilde;es de legitima&ccedil;&atilde;o discursiva completamente diferentes. Que suas estrat&eacute;gias e cren&ccedil;as s&atilde;o, por isso, fundamentalmente distintas. Recortes na distribui&ccedil;&atilde;o efetiva de "direitos" aparecem, ent&atilde;o, condicionando o direito ao estatuto de locu&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, garantia de exist&ecirc;ncia pol&iacute;tica, sin&ocirc;nimo de humanidade. Essas condi&ccedil;&otilde;es de locu&ccedil;&atilde;o nos levam, ent&atilde;o, a uma reflex&atilde;o sobre o Estado e as formas de uso contempor&acirc;neo da viol&ecirc;ncia estatal, realizada na segunda parte do texto. Os contrastes entre os contextos etnogr&aacute;ficos em que estudamos essas quest&otilde;es, apresentadas em linhas gerais a seguir, funcionam aqui mais para elaborar nosso pr&oacute;prio ponto de observa&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es entre pol&iacute;tica e viol&ecirc;ncia, do que para construir nossos objetos de estudo. Ditadura argentina e democracia brasileira ser&atilde;o, assim, representa&ccedil;&otilde;es a partir das quais se pode ensaiar uma reflex&atilde;o cr&iacute;tica sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre pol&iacute;tica e viol&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>VIOL&Ecirc;NCIA DE ESTADO NA DITADURA ARGENTINA: DA LUTA PELO LUTO E PELA MEMORIA</b> Foi pela viol&ecirc;ncia perpetrada contra a popula&ccedil;&atilde;o civil que a &uacute;ltima ditadura militar argentina (1976-1983) se tornaria conhecida. Dentre os m&eacute;todos empregados para a imposi&ccedil;&atilde;o do terror, destaca-se a pol&iacute;tica de desaparecimento for&ccedil;ado daqueles definidos pelas autoridades como "terroristas", "delinquentes subversivos" e "inimigos da na&ccedil;&atilde;o". As autoridades militares justificariam o golpe de Estado alegando que as for&ccedil;as armadas eram a &uacute;nica institui&ccedil;&atilde;o capaz de "restaurar" os "verdadeiros valores da na&ccedil;&atilde;o" e a cultura "ocidental e crist&atilde;". Os militares se apresentavam assim como combatentes de uma "guerra" travada "em nome de Deus", pela "defesa nacional" contra o "beligerante inimigo subversivo" e o "ate&iacute;smo marxista" (6).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Combinando discurso religioso a met&aacute;foras do parentesco, da guerra e da biologia para fundamentar a repress&atilde;o, a "subvers&atilde;o" emergia na ret&oacute;rica da ditadura como "c&acirc;ncer" que deveria ser eliminado para n&atilde;o "contaminar" o "organismo nacional" (7). Al&eacute;m do mais, interpretando a "guerra contra a subvers&atilde;o" no marco da Doutrina de Seguran&ccedil;a Nacional junto ao conceito de "guerra total" da doutrina contrainsurgente francesa, o discurso militar embaralhou as fronteiras que distinguiam o nacional do for&acirc;neo, ao passo que o conflito era definido em termos de uma guerra interna. Da perspectiva militar, tratou-se de uma "guerra justa", por&eacute;m uma "guerra irregular" cujo signo distintivo teria sido a "imprecis&atilde;o". Atos atrozes continuariam sendo assim justificados como sequelas, excessos, imprecis&otilde;es ou equ&iacute;vocos (fatos supostamente inevit&aacute;veis &agrave;s guerras) cometidos no contexto de uma a&ccedil;&atilde;o leg&iacute;tima.</font></p>     <p>Fica evidente como, no contexto ditatorial, "subvers&atilde;o" foi a categoria englobante utilizada para delimitar as fronteiras de pertencimento &agrave; na&ccedil;&atilde;o. Na conjuntura de ent&atilde;o, marcada pelo capitalismo industrial e pela Guerra Fria, momento em que a polariza&ccedil;&atilde;o capitalismo X socialismo se impunha como conflito predominante, a figura do "delinquente subversivo" surgia como identidade dissonante da ordem social. Nessa operat&oacute;ria, o governo ditatorial criminalizava a oposi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, produzindo uma nova categoria de pessoa, os <i>detenidos-desaparecidos</i>, que, deslocados da humanidade porque concebidos como amea&ccedil;ando os valores mais centrais da vida humana, eram condenados &agrave; morte silenciosa; vidas proibidas de existir para a preserva&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios da dignidade humana (a fam&iacute;lia, a tradi&ccedil;&atilde;o, a ordem, a religi&atilde;o), mortes por isso destitu&iacute;das de identidade (8) e privadas do direito ao luto. Encarcerados em pris&otilde;es clandestinas, os desaparecidos eram deslocados da vida social, perdendo o seu estatuto pol&iacute;tico e legal. Exclu&iacute;dos dos sistemas de inscri&ccedil;&atilde;o da morte (cad&aacute;veres sem nome e sem hist&oacute;ria) (9), os desaparecidos eram deixados de fora do relato da na&ccedil;&atilde;o, da comunidade pol&iacute;tica, apostando na impossibilidade da mem&oacute;ria pela aus&ecirc;ncia do corpo (10).</p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Contudo, enquanto a ditadura buscava negar a exist&ecirc;ncia dos desaparecidos, Madres de Plaza de Mayo e outros coletivos de familiares das v&iacute;timas se organizavam para mostrar que os desaparecidos tinham um rosto, um nome e uma hist&oacute;ria. Esses coletivos emergem na cena p&uacute;blica colocando suas demandas por "Mem&oacute;ria, Verdade e Justi&ccedil;a" em linguagem de parentesco e de direitos humanos. Ap&oacute;s d&eacute;cadas de incessante ativismo, os familiares de desaparecidos (e os pr&oacute;prios desaparecidos) marcam o seu lugar na vida pol&iacute;tica do pa&iacute;s e as viola&ccedil;&otilde;es cometidas durante a ditadura dificilmente encontram respaldo social, ao passo que o evento cr&iacute;tico do desaparecimento for&ccedil;ado afirma-se como acontecimento pol&iacute;tico nacional (11). Observa-se ainda um processo de luto permanente pelos "30 mil detenidos-desaparecidos" e de reelabora&ccedil;&atilde;o de sua mem&oacute;ria na esfera p&uacute;blica, quest&atilde;o central que motivou a etnografia realizada por Liliana Sanjurjo; ou seja, compreender os processos que levariam os desaparecidos e as mem&oacute;rias da ditadura a ganhar tamanha repercuss&atilde;o social na Argentina contempor&acirc;nea. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Cabe salientar que foi por meio de uma s&eacute;rie de disputas pol&iacute;ticas, simb&oacute;licas e jur&iacute;dicas, na qual se encontram empenhados h&aacute; mais de 30 anos, que esses coletivos de familiares foram adquirindo legitimidade social, consolidando publicamente um conjunto de representa&ccedil;&otilde;es sobre o passado ditatorial. Puderam assim converter (e pode-se dizer com efic&aacute;cia) o estigma imposto &agrave;s v&iacute;timas e seus familiares durante a ditadura em capital pol&iacute;tico no per&iacute;odo democr&aacute;tico. A an&aacute;lise da trajet&oacute;ria de mobiliza&ccedil;&atilde;o desses familiares e de significa&ccedil;&atilde;o da categoria <i>detenidos-desaparecidos</i> (12) – cujo percurso parte da nega&ccedil;&atilde;o de sua exist&ecirc;ncia e culmina na sua reivindica&ccedil;&atilde;o como grupo portador de um projeto pol&iacute;tico – revela como diferentes conjunturas hist&oacute;ricas possibilitam, por um lado, que determinados agentes possam se construir como sujeitos leg&iacute;timos de participa&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o pol&iacute;tico e, por outro lado, que novos sentidos sejam atribu&iacute;dos ao passado de viol&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Se durante a d&eacute;cada de 1980 os familiares buscaram despolitizar a quest&atilde;o dos desaparecidos (13), atualmente se empenham precisamente em demonstrar o que faziam as v&iacute;timas politicamente para que fossem transformadas em alvo da repress&atilde;o. Ou melhor, se no per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica as hist&oacute;rias de milit&acirc;ncia dos desaparecidos se viram silenciadas, esse sil&ecirc;ncio deve ser lido em face a um contexto de alta ades&atilde;o aos discursos que justificavam a viol&ecirc;ncia letal. Para n&atilde;o integrar a alteridade negativa da ditadura(subvers&atilde;o), a den&uacute;ncia da repress&atilde;o perderia o seu contorno pol&iacute;tico-ideol&oacute;gico, dando lugar &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de uma narrativa humanit&aacute;ria que convertia os desaparecidos em "v&iacute;timas de graves viola&ccedil;&otilde;es aos direitos humanos".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Foi somente na segunda metade da d&eacute;cada de 1990 que a mem&oacute;ria dos desaparecidos come&ccedil;aria a ser definida em termos pol&iacute;ticos, sendo agora reconhecidos como seres produtores de pol&iacute;tica (militantes populares, socialistas, revolucion&aacute;rios), assassinados pelos projetos pol&iacute;ticos que encarnavam. Contemporaneamente, haveria ainda uma vontade de categoriza&ccedil;&atilde;o (genoc&iacute;dio por raz&otilde;es pol&iacute;ticas, terrorismo de Estado), que se articula no campo jur&iacute;dico com a produ&ccedil;&atilde;o de um discurso de <i>verdade</i> (14). A argumenta&ccedil;&atilde;o se dirige ent&atilde;o a comprovar que o Estado teria executado um plano sistem&aacute;tico de tortura e exterm&iacute;nio contra um grupo espec&iacute;fico da popula&ccedil;&atilde;o nacional, definido previamente segundo crit&eacute;rios pol&iacute;ticos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> Por &uacute;ltimo, vale salientar que esse processo de crescente politiza&ccedil;&atilde;o do relato da ditadura se d&aacute; numa conjuntura de crise da pol&iacute;tica neoliberal menemista – caracterizada pelo desemprego, precariza&ccedil;&atilde;o do trabalho e dos servi&ccedil;os de prote&ccedil;&atilde;o social e, o mais importante, quando a viol&ecirc;ncia de Estado j&aacute; tem como foco priorit&aacute;rio outros grupos criminalizados (os pobres). Essa nova conjuntura, bem como o lugar social ocupado pelos coletivos de familiares de desaparecidos – constitu&iacute;dos, de uma maneira geral, por setores m&eacute;dios que, desde o princ&iacute;pio, j&aacute; contavam com o capital social necess&aacute;rio para articular a&ccedil;&otilde;es no plano nacional e internacional –, parecem assim marcar uma diferen&ccedil;a fundamental para a constru&ccedil;&atilde;o de sua posi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica como sujeitos leg&iacute;timos de participa&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o pol&iacute;tico, garantindo o direito ao estatuto de locu&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Ao gozarem de exist&ecirc;ncia pol&iacute;tica, puderam reagir &agrave; viol&ecirc;ncia de Estado, tornar vis&iacute;veis seus mortos, bem como responsabilizar penalmente os agentes do Estado implicados na repress&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>VIOL&Ecirc;NCIA DE ESTADO NA "DEMOCRACIA BRASILEIRA": MORTOS SEM LUTO, LUTA SEM VIRTUDE</b> S&atilde;o tamb&eacute;m muitas as mortes e desapari&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas no contexto das periferias das cidades brasileiras, em per&iacute;odo "democr&aacute;tico". Em S&atilde;o Paulo, a quest&atilde;o central que mobilizou a etnografia conduzida por Gabriel Feltran, no distrito de Sapopemba, remetia ao sil&ecirc;ncio p&uacute;blico em torno dos homic&iacute;dios de adolescentes e jovens nas favelas, nos anos 1990 e in&iacute;cio dos anos 2000. Embora pesquisando regi&otilde;es muito marcadas pela mobiliza&ccedil;&atilde;o de movimentos populares - por sa&uacute;de, moradia, transporte, educa&ccedil;&atilde;o - a tem&aacute;tica da morte violenta de milhares de jovens, muitos deles trabalhadores de mercados ilegais como o da droga ou do roubo de carros, parecia n&atilde;o causar como&ccedil;&atilde;o aos movimentos sociais de trabalhadores do per&iacute;odo. Restavam apenas as p&aacute;ginas policiais para publiciz&aacute;-las. Os anos de etnografia foram tempos em que se solicitou nas r&aacute;dios e televis&otilde;es, nos coment&aacute;rios de not&iacute;cias pela internet, progressivamente, e cada vez mais, que a repress&atilde;o contra os pobres e seus territ&oacute;rios se radicalizasse: era preciso combater o<i>crime</i> que brotava de favelas e periferias. A justifica&ccedil;&atilde;o dessa premissa &eacute; moral, n&atilde;o precisa de argumentos. As den&uacute;ncias de homic&iacute;dios estudadas nessa etnografia n&atilde;o tiveram seguimento jur&iacute;dico e foram recebidas, publicamente, com indiferen&ccedil;a ou sil&ecirc;ncio. Os poucos que tentavam traduzir essas mortes em luta, militantes de direitos humanos, eram logo acusados de "defender bandido". Direitos humanos para humanos direitos! Direitos humanos para bandidos? Ambas as viol&ecirc;ncias – tanto a remetida aos corpos de jovens favelados que tombavam pela pol&iacute;cia ou seus pares, quanto a que se dirige &agrave; fala de militantes que os representariam (15) – foram predominantemente leg&iacute;timas, nos meios p&uacute;blicos e em muitas fam&iacute;lias de periferia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> A surpresa dessa etnografia, no entanto, foi constatar que, conforme corria a pesquisa de campo nos anos 2000, eram cada vez mais raros os homic&iacute;dios de jovens nas favelas de S&atilde;o Paulo. Nos anos 2000, o Primeiro Comando da Capital (PCC) implementava um sistema de justi&ccedil;a em todos os pres&iacute;dios e favelas, interconectado, que, em 2011, havia reduzido os homic&iacute;dios nesses lugares em dez vezes. No conjunto da cidade, a queda foi de mais de 70% das mortes por armas de fogo, embora os latroc&iacute;nios subissem no per&iacute;odo. A queda dos assassinatos nas periferias de S&atilde;o Paulo, durante os anos 2000, n&atilde;o tinha como causa decisiva a redu&ccedil;&atilde;o das atividades criminais, mas seu oposto, a muito maior capilaridade da fac&ccedil;&atilde;o criminal, que instrumentalizava as pol&iacute;ticas repressivas em curso, sobretudo o encarceramento massivo(16). O PCC passava a intermediar in&uacute;meras situa&ccedil;&otilde;es de conflito local, em favelas e periferias, tendo por mote central evitar o homic&iacute;dio de jovens e a interdi&ccedil;&atilde;o de vendetas entre eles, de modo a pacificar os mercados que regulava (drogas, carros roubados, assaltos, entre outros). O sistema foi bem sucedido, j&aacute; est&aacute; bem descrito na bibliografia (17). De um lado, morrem menos de um d&eacute;cimo dos jovens que morriam dez anos antes, nas periferias de S&atilde;o Paulo; de outro, o "crime" – e n&atilde;o um movimento com virtudes democr&aacute;ticas – parece ser o ator central de regula&ccedil;&atilde;o da vida e da morte nas periferias. Situar-se politicamente frente a essa constata&ccedil;&atilde;o leva a um paradoxo. Prop&otilde;e-se a chave interpretativa de coexist&ecirc;ncia de regimes normativos nesses territ&oacute;rios, seguindo a hip&oacute;tese de Machado da Silva (18). Crime e Estado comp&otilde;em ali ordens leg&iacute;timas que, em suas tens&otilde;es e acomoda&ccedil;&otilde;es, produzem um dispositivo de ordem urbana composto entre pol&iacute;ticas estatais e criminais, respons&aacute;vel hoje pela especificidade paulista na quest&atilde;o da "seguran&ccedil;a p&uacute;blica". Todos os dados quantitativos elencados na bibliografia, bem como o cen&aacute;rio c&iacute;clico de tens&otilde;es entre esses regimes normativos, em 2001, 2006 e 2012, corroboram esta hip&oacute;tese anal&iacute;tica, hoje leg&iacute;tima na bibliografia.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Se um favelado &eacute; assassinado, essa morte n&atilde;o ser&aacute; investigada pelo Estado, n&atilde;o se montar&aacute; um inqu&eacute;rito judicial. O PCC vai, entretanto, intermediar debates locais sobre o caso, com min&uacute;cia, para conhecer os fatos e as vers&otilde;es, para julgar os culpados, e no limite para implementar a justi&ccedil;a. Se um branco &eacute; morto em um assalto, n&atilde;o se aplica a ele a justi&ccedil;a do PCC, ela o ignora. O Estado cuidar&aacute; do caso. H&aacute; uma fronteira entre esses dois regimes que define, entre outras coisas, o que &eacute; um homic&iacute;dio em cada perspectiva e, portanto, os limites do humano em cada um dos regimes. O desenvolvimento hist&oacute;rico dessa fronteira n&atilde;o &eacute; infenso a tens&otilde;es, evidentemente. Em S&atilde;o Paulo, e em outras periferias urbanas brasileiras, o emprego rotineiro da viol&ecirc;ncia ilegal como modo de arb&iacute;trio dos conflitos sociais que condicionam essas tens&otilde;es, tanto pelo "mundo do crime", quanto pelo Estado, indica a dimens&atilde;o mais constitutivamente arraigada da viol&ecirc;ncia no funcionamento democr&aacute;tico brasileiro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>SOBRE LUTOS E LUTAS: DA DISTRIBUI&Ccedil;&Atilde;O DESIGUAL DO RECONHECIMENTO DA VIDA</b> J&aacute; n&atilde;o &eacute; surpreendente que o recurso &agrave; viol&ecirc;ncia institucional, que se julgava pr&oacute;prio das ditaduras militares - tanto a viol&ecirc;ncia massivamente aplicada a popula&ccedil;&otilde;es consideradas amea&ccedil;adoras, quanto seletivamente voltada &agrave;s vozes dissonantes - seja tamb&eacute;m instrumento fundamental da forma de governo contemporaneamente conhecida como democracia (19). Diferentes trabalhos v&ecirc;m demonstrando a presen&ccedil;a da chamada "viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica" nas democracias, seja na constru&ccedil;&atilde;o ativa de inimigos internos, seja na a&ccedil;&atilde;o direta que os transforma em popula&ccedil;&atilde;o e os criminaliza, para em seguida desloc&aacute;-los, expuls&aacute;-los, encarcer&aacute;-los ou mesmo extermin&aacute;-los como parte de procedimentos administrativos (20). Pela representa&ccedil;&atilde;o sinon&iacute;mica entre a no&ccedil;&atilde;o de democracia e os atuais regimes ocidentais ter atingido hoje validade quase absoluta, seja no senso comum, seja em boa parte da bibliografia, utilizamos a categoria "viol&ecirc;ncia de Estado" para nos referirmos aos atos violentos, seja legalizados ou francamente ilegais, que se produzem como modo de sustentar uma fronteira no acesso ao "direito a ter direitos", ou seja, uma fronteira que reivindica uma clivagem, quase sempre figurada no plano da natureza, entre os que pertencem &agrave; comunidade pol&iacute;tica e por isso devem ser protegidos, daqueles que a amea&ccedil;am e devem ser combatidos. &Eacute; exatamente nessa medida - a da viol&ecirc;ncia de Estado - que os desaparecimentos for&ccedil;ados na Argentina e o assassinato de jovens favelados nas periferias de S&atilde;o Paulo, que estudamos nas nossas etnografias recentes, podem ser colocados em perspectiva. In&uacute;meras outras situa&ccedil;&otilde;es nacionais contempor&acirc;neas - a come&ccedil;ar por Estados Unidos e Europa em sua guerra ao terror, passando pela "reconstru&ccedil;&atilde;o estatal" na Am&eacute;rica Latina e &Aacute;frica - revelam a fabrica&ccedil;&atilde;o ativa de inimigos internos como baliza cognitiva para se pensar normativamente a ordem social.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Nessa medida, um contraste fundamental entre nossos casos se explicita. A tem&aacute;tica do desaparecimento for&ccedil;ado se tornou, na Argentina, assunto pol&iacute;tico de primeira ordem e os movimentos que o denunciavam foram progressivamente se tornando vozes mais leg&iacute;timas publicamente. Seus argumentos se fizeram ouvir nacional e internacionalmente, sua presen&ccedil;a funcionou para demarcar as balizas do discurso pol&iacute;tico oficial na transi&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica e resta ainda hoje muito viva. A mem&oacute;ria da ditadura se reconstruiu, entre familiares de v&iacute;timas, mas tamb&eacute;m entre as gera&ccedil;&otilde;es mais recentes e os atores p&uacute;blicos contempor&acirc;neos, como mem&oacute;ria de injusti&ccedil;a e de dor que n&atilde;o se pode esquecer. A criminaliza&ccedil;&atilde;o, exterm&iacute;nio e desaparecimento de milhares de pessoas ofereceu a oportunidade para um luto coletivo, vivido como luta intensa, que foi se legitimando publicamente pouco a pouco, ainda que os movimentos jamais tenham obtido satisfa&ccedil;&atilde;o de todas as suas demandas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">No caso brasileiro contempor&acirc;neo, a viol&ecirc;ncia de Estado voltada contra grupos de favelas e periferias, centrada na criminaliza&ccedil;&atilde;o seletiva, tem produzido um tipo de clivagem social que se encaminha muito mais para a alteridade radical do que para a possibilidade de legitima&ccedil;&atilde;o do discurso divergente. A tend&ecirc;ncia contempor&acirc;nea n&atilde;o &eacute;, por exemplo, de que o discurso e as demandas de grupos no foco das estat&iacute;sticas de homic&iacute;dio sejam enunciados publicamente e cres&ccedil;am em capacidade de legitima&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Por isso, toda a grade de inteligibilidade, ou seja, os crit&eacute;rios pelos quais se reivindica sentido para o discurso enunciado pelos sujeitos, teve de ser alterada. Em S&atilde;o Paulo, esses discursos foram, por exemplo, muito mais elaborados nas favelas pelos debates internos ao Primeiro Comando da Capital, uma fac&ccedil;&atilde;o criminal, do que nos debates p&uacute;blicos vinculados aos setores estatais respons&aacute;veis por direitos humanos ou seguran&ccedil;a p&uacute;blica. As grandes medidas de controle da viol&ecirc;ncia policial, ao longo dos anos 2000, foram produzidas pelo pr&oacute;prio "mundo do crime" (21). Assim, as principais caixas de resson&acirc;ncia para a reflex&atilde;o e a cr&iacute;tica da viol&ecirc;ncia de Estado mantiveram-se num mundo progressivamente mais afeito aos pr&oacute;prios sujeitos criminalizados das favelas, codificado internamente entre eles, do que foram ouvidas publicamente. Mundo que, assim, foi progressivamente se autonomizando frente &agrave; grade de inteligibilidade pol&iacute;tica estatal, centrada normativamente no direito universal. Com isso, de um lado, se constitu&iacute;ram regimes normativos - o do "crime" &eacute; bastante evidente, conforme j&aacute; demonstrou h&aacute; quase duas d&eacute;cadas Luiz Antonio Machado da Silva (1999), que coexistem com os estatais; de outro lado, e como rea&ccedil;&atilde;o a esse processo, esses regimes passaram a alimentar o ciclo de criminaliza&ccedil;&atilde;o que, justamente, os havia produzido. Essa tend&ecirc;ncia, ao contr&aacute;rio do que se passou na Argentina, j&aacute; impede definitivamente qualquer possibilidade de legitima&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do discurso democr&aacute;tico contra a viol&ecirc;ncia de Estado, tanto quanto a legitima&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dos atores inscritos nas tentativas de control&aacute;-la fora dos marcos legais. Enquanto na Argentina o movimento de familiares de desaparecidos p&otilde;e em relevo a identidade pol&iacute;tica das v&iacute;timas (a defini&ccedil;&atilde;o do "inimigo" teria sido diretamente "pol&iacute;tica"), no Brasil as M&atilde;es de Maio e outros coletivos de familiares de v&iacute;timas da viol&ecirc;ncia policial buscam enfatizar o crit&eacute;rio racial (negros), de classe (pobres) e territorial (periferias) da repress&atilde;o perpetrada. Talvez esteja a&iacute; a chave para perceber porque os ganhos entre esses movimentos sejam t&atilde;o d&iacute;spares.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Dessa perspectiva, o que se poderia chamar de a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica - a constru&ccedil;&atilde;o ativa de terrenos de locu&ccedil;&atilde;o leg&iacute;tima em um espa&ccedil;o p&uacute;blico, operada cotidianamente pelos sujeitos sociais - definitivamente n&atilde;o fica restrita, no caso brasileiro, &agrave;s disputas entre sujeitos j&aacute; constitu&iacute;dos (movimentos, partidos, sindicatos etc) que se encontram em terrenos de negocia&ccedil;&atilde;o de poder definidos em consenso (conselhos, assembleias, f&oacute;runs de participa&ccedil;&atilde;o ou representa&ccedil;&atilde;o social estatais). Essa a&ccedil;&atilde;o potencialmente pol&iacute;tica vai se assentar, justamente, na disputa acerca da constitui&ccedil;&atilde;o desses mesmos terrenos e sujeitos: os militantes das periferias precisam primeiramente se forjar enquanto sujeitos, transpondo fronteiras impostas pela gest&atilde;o e pela viol&ecirc;ncia, para serem ouvidos. Os bandidos das favelas paulistas, que se re&uacute;nem para tentar impedir o aumento de homic&iacute;dios de jovens nas "quebradas", jamais ter&atilde;o voz p&uacute;blica nos debates sobre esses temas. Nem seu l&eacute;xico permitiria que sua voz fosse a&iacute; compreendida como fala articulada. Por n&atilde;o existir como tal, a media&ccedil;&atilde;o entre o "mundo da favela", cada vez mais criminalizado, e o mundo pol&iacute;tico institu&iacute;do, j&aacute; n&atilde;o pode se consolidar. A fronteiras que s&atilde;o demarcadas nas margens da pol&iacute;tica sustentam, assim, a restri&ccedil;&atilde;o da legitimidade de grupos inteiros situados &agrave;s margens da cidade. Moraliza-se de tal forma os espa&ccedil;os que se poderia politizar que os moradores desses territ&oacute;rios, ao inv&eacute;s de serem considerados cidad&atilde;os pela universalidade da no&ccedil;&atilde;o de direitos, se esfor&ccedil;am de maneira permanente para provar que s&atilde;o pessoas de bem, honestas, trabalhadoras, confi&aacute;veis, pac&iacute;ficas, que n&atilde;o possuem rela&ccedil;&atilde;o com "o tr&aacute;fico".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Nesse sentido, torna-se interessante atentar para a import&acirc;ncia de entender as particularidades da viol&ecirc;ncia de Estado definida em termos "pol&iacute;ticos", ou da viol&ecirc;ncia perpetrada contra grupos definidos em termos "pol&iacute;ticos", na medida em que as distintas formas a partir das quais as v&iacute;timas e as viol&ecirc;ncias s&atilde;o adjetivadas podem ser reveladoras das distintas funcionalidades das pr&aacute;ticas de gest&atilde;o da vida, da morte e da ordem social, em conjunturas espec&iacute;ficas. Se &eacute; pelo adjetivo "pol&iacute;tica" que se define a viol&ecirc;ncia de Estado perpetrada durante a ditadura, &eacute; porque se entende que essa viol&ecirc;ncia se dirige &agrave;queles que, de alguma forma, ainda s&atilde;o reconhecidos como atores pol&iacute;ticos em refer&ecirc;ncia a uma comunidade nacional. Quando um problema pol&iacute;tico como a viol&ecirc;ncia de Estado no Brasil, ao contr&aacute;rio, &eacute; tratado nas p&aacute;ginas policiais, produz-se uma "massa de in&uacute;teis do mundo" nas dimens&otilde;es internas &agrave;s fronteiras nacionais que, em todas as &eacute;pocas, impediu qualquer democracia substantiva. A reflex&atilde;o sobre as mortes &agrave;s quais fazem refer&ecirc;ncia nossas etnografias, bem como sobre o luto p&uacute;blico (ou a aus&ecirc;ncia de luto) em torno desses mortos, nos leva ent&atilde;o a questionar, seguindo Butler (22), em que medida essa distribui&ccedil;&atilde;o desigual da dor - que determina quais vidas contam como vidas e quais mortes s&atilde;o dignas de lamento p&uacute;blico - produz e reitera certas concep&ccedil;&otilde;es normativas do humano, delimitando as fronteiras de pertencimento &agrave; comunidade pol&iacute;tica e, por conseguinte, "do direito a ter direitos".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">1.	 Optamos pelas grafias em it&aacute;lico das express&otilde;es<i> seguran&ccedil;a nacional</i>e<i> seguran&ccedil;a p&uacute;blica</i> (poder&iacute;amos acrescentar aqui<i> viol&ecirc;ncia urbana)</i>para enfatizar que partimos da premissa, seguindo Machado da Silva e Misse, de que n&atilde;o tomamos tais no&ccedil;&otilde;es como categorias anal&iacute;ticas, mas sim como representa&ccedil;&otilde;es. Ou melhor, essas no&ccedil;&otilde;es se constituem como categorias de entendimentos que conferem sentido &agrave; experi&ecirc;ncia de vida nas cidades, consolidando representa&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o chave para a compreens&atilde;o de pr&aacute;ticas e rela&ccedil;&otilde;es &agrave;s quais elas se referem. O intuito &eacute; preservar o v&iacute;nculo entre<i> seguran&ccedil;a nacional</i> e<i> seguran&ccedil;a p&uacute;blica</i> como temas de agenda p&uacute;blica (como problema social em debate), por um lado, e como representa&ccedil;&atilde;o coletiva, por outro.Ver: Machado da Silva, L. A.<i> Vida sob cerco: viol&ecirc;ncia e rotina nas favelas do Rio de Janeiro.</i> Rio de Janeiro: Faperj/Nova Fronteira. 2008;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093019&pid=S0009-6725201500020001300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Misse, M.<i> Crime e viol&ecirc;ncia no Brasil contempor&acirc;neo: estudos de sociologia do crime e da viol&ecirc;ncia urbana.</i> Rio de Janeiro: Lumen Juris. 2006;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093020&pid=S0009-6725201500020001300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Wacquant, L. As<i> pris&otilde;es da mis&eacute;ria.</i> Rio de Janeiro: Zahar. 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093021&pid=S0009-6725201500020001300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 2. Feltran, G. S. "A gest&atilde;o da morte nas periferias de S&atilde;o Paulo: um dispositivo entre governo e crime (1992-2011)". In: Souza Lima, A. &amp; Garc&iacute;a-Acosta, V. (Orgs.).<i> Margens da viol&ecirc;ncia: subs&iacute;dios ao estudo do problema da viol&ecirc;ncia nos contextos mexicano e brasileiro.</i> Bras&iacute;lia: ABA. 2014.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093023&pid=S0009-6725201500020001300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 3. Para uma reflex&atilde;o acerca de como categorias sociais, pol&iacute;ticas e administrativas (tais como "favelados" e "refugiados") geram processos de distin&ccedil;&atilde;o e hierarquiza&ccedil;&atilde;o, materializando processos de produ&ccedil;&atilde;o de desigualdades diversas por meio de expedientes administrativos do Estado, ver neste N&uacute;cleo Tem&aacute;tico da revista <i>Ci&ecirc;ncia e Cultura</i> o trabalho de Vianna e Facundo.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">4.	 Ver: Butler, J.<i> Vida precaria: el poder del duelo y la violencia.</i>Buenos Aires: Paid&oacute;s. 2006;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093026&pid=S0009-6725201500020001300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Butler, J.<i> Marcos de guerra. Las vidas lloradas.</i>Buenos Aires: Paid&oacute;s. 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093027&pid=S0009-6725201500020001300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 5. O artigo &eacute; resultado de trabalhos de campo realizados pelos autores na Argentina e no Brasil, entre 2004 e 2014, que resultaram nas seguintes teses: Feltran, G. S.<i> Fronteiras de tens&atilde;o: pol&iacute;tica e viol&ecirc;ncia nas periferias de S&atilde;o Paulo.S&atilde;o</i> Paulo: Editora Unesp/CEM-Cebrap. 2011;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093029&pid=S0009-6725201500020001300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Sanjurjo, L. "Sangue, identidade e verdade: mem&oacute;rias sobre o passado ditatorial na Argentina". Tese (doutorado em antropologia social) - PPGAS, Universidade Estadual de Campinas. 2013.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093030&pid=S0009-6725201500020001300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> As pesquisas foram financiadas pelo CNPq e Fapesp, respectivamente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 6. Declara&ccedil;&atilde;o do capit&atilde;o da marinha Jorge Acosta durante audi&ecirc;ncia judicial da<i> Causa ESMA,</i> em 20 de outubro de 2011, no Tribunal Federal de Buenos Aires. Acosta (condinome "Tigre") integrou o Grupo de Tarea 33.2 da Escuela Mec&acirc;nica de la Armada (ESMA), um dos principais centros clandestinos de deten&ccedil;&atilde;o, tortura e exterm&iacute;nio em funcionamento durante a ditadura militar argentina.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 7. Filc, J.<i> Entre el parentesco y la pol&iacute;tica: familia y dictadura 1976-1983.</i>Buenos Aires: Biblos. 1997.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093033&pid=S0009-6725201500020001300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 8. Crenzel, E.<i> La historia pol&iacute;tica del nunca m&aacute;s. La memoria de los desaparecidos en la Argentina.</i> Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores. 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093035&pid=S0009-6725201500020001300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 9. Calveiro, P.<i> Poder y desaparici&oacute;n. Los campos de concentraci&oacute;n en Argentina.</i>Buenos Aires: Colihue. pp. 143. 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093037&pid=S0009-6725201500020001300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">10. Schindel, E. "Las ciudades y el olvido".In:<i> Puentes.</i> La Plata, Ano 2, No. 7, p. 30. julho de 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093039&pid=S0009-6725201500020001300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 11. O desaparecimento for&ccedil;ado de pessoas pode ser entendido aqui a partir da no&ccedil;&atilde;o de<i> evento cr&iacute;tico</i> de Veena Das: Das, V.<i> Critical Events. An anthropological perspective on contemporary India.</i> New Dheli/ Oxford: Oxford University Press. 1995.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093041&pid=S0009-6725201500020001300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 12. Para uma an&aacute;lise que trata das disputas em torno dos sentidos da categoria desaparecidos, ver: Vecchioli, V. "Pol&iacute;ticas de la memoria y formas de clasificaci&oacute;n social. Qui&eacute;nes son las v&iacute;ctimas del terrorismo de Estado en la Argentina?". In: Groppo, B. &amp; Flier, P. (Orgs.).<i> La imposibilidad del olvido: recorridos de la memoria en Argentina, Chile y Uruguay.La</i> Plata: Ediciones Al Margen. 2001.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093043&pid=S0009-6725201500020001300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 13. Para uma discuss&atilde;o sobre a<i> despolitiza&ccedil;&atilde;o</i> do relato sobre a ditadura argentina no per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica, ver: Crenzel, E,<i> op. cit.</i> 2008; Feld, C.<i> Del estrado a la pantalla: las im&aacute;genes del juicio a los ex comandantes e Argentina. Madrid:</i> Siglo XXI de Espa&ntilde;a Editores. 2002;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093045&pid=S0009-6725201500020001300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Jelin, E. "La justicia despu&eacute;s del juicio: legados y desaf&iacute;os en la Argentina postdictatorial". In: Fico, C., Ferreira, M. &amp; Quadrat, S. (Orgs.).<i> Ditadura e democracia na Am&eacute;rica Latina: balan&ccedil;o hist&oacute;rico e perspectivas.</i> Rio de Janeiro: Editora FGV. 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093046&pid=S0009-6725201500020001300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 14. Foucault.<i> A verdade e as formas jur&iacute;dicas. Rio</i> de Janeiro: Nau Editora. 1996.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093048&pid=S0009-6725201500020001300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">15. A express&atilde;o "viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica" se refere, usualmente, a um tipo espec&iacute;fico de uso da for&ccedil;a dirigido &agrave;queles indiv&iacute;duos que portam conjuntos de valores, cren&ccedil;as ou projetos pol&iacute;ticos contr&aacute;rios ao programa pol&iacute;tico oficial, ou dominante. Em regimes autorit&aacute;rios a viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica &eacute; computada entre as formas de exerc&iacute;cio leg&iacute;timo da for&ccedil;a, nos Estados democr&aacute;ticos ela &eacute; sempre ilegal. Essa viol&ecirc;ncia tenta manter fora da arena p&uacute;blica n&atilde;o apenas o sujeito a quem se dirige, mas tamb&eacute;m aqueles os quais suas palavras representariam. Esta modalidade violenta se diferencia de outras formas de uso da for&ccedil;a, por ser centralmente dirigida &agrave; locu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, &agrave;s palavras, e n&atilde;o apenas aos corpos dos indiv&iacute;duos que a sofrem (mat&aacute;-los tem por fun&ccedil;&atilde;o estrita silenci&aacute;-los).</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 16. Feltran, G.S. "Margens da pol&iacute;tica, fronteiras da viol&ecirc;ncia: uma a&ccedil;&atilde;o coletiva das periferias de S&atilde;o Paulo". In:<i> Lua Nova,</i> 79. 2010;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093051&pid=S0009-6725201500020001300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Feltran, G.S. "The management of violence on the periphery of S&atilde;o Paulo: a normative apparatus repertoire in the PCC era". In:<i> Vibrant,</i> 7. 2010;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093052&pid=S0009-6725201500020001300019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Feltran, G.S. "Governo que produz crime, crime que produz governo. O dispositivo de gest&atilde;o do homic&iacute;dio em S&atilde;o Paulo (1992-2011)". In: <i>Revista Brasileira de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica,</i> 6. 2012.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093053&pid=S0009-6725201500020001300020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">17.	 Ver: Biondi, K.<i> Junto e misturado: uma etnografia do PCC.</i> S&atilde;o Paulo: Terceiro Nome/Fapesp. 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093055&pid=S0009-6725201500020001300021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Biondi, K. e Marques, A. J. "Mem&oacute;ria e hist&oacute;ria em dois comandos prisionais". In:<i> Lua Nova,</i> 79. 2010;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093056&pid=S0009-6725201500020001300022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Dias, C.C.N. "Da pulveriza&ccedil;&atilde;o ao monop&oacute;lio da viol&ecirc;ncia: expans&atilde;o e consolida&ccedil;&atilde;o da domina&ccedil;&atilde;o do PCC no sistema carcer&aacute;rio paulista". Tese (doutorado em sociologia). Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Sociologia. Universidade de S&atilde;o Paulo. 2011;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093057&pid=S0009-6725201500020001300023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Hirata, D.V. "Sobreviver na adversidade: entre o mercado e a vida". Tese (doutorado em sociologia). Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Sociologia. Universidade de S&atilde;o Paulo. 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093058&pid=S0009-6725201500020001300024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">18. Machado da Silva, L.A. "Criminalidade violenta: por uma nova perspectiva de an&aacute;lise". In:<i> Revista de Sociologia e Pol&iacute;tica,</i> 13. 1999.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093060&pid=S0009-6725201500020001300025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">19. Cr&iacute;ticas ao potencial democr&aacute;tico da democracia liberal, baseadas na sua depend&ecirc;ncia da forma empresa, j&aacute; foram enunciadas em: Lindblom, C. E.<i> Pol&iacute;tica e mercados: os sistemas pol&iacute;ticos e econ&ocirc;micos do mundo.</i> Rio de Janeiro: Zahar Editores. 1979.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093062&pid=S0009-6725201500020001300026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> Feltran,<i> op. cit.</i></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">20. Ara&uacute;jo, F. "Das consequ&ecirc;ncias da 'arte' macabra de fazer desaparecer corpos: viol&ecirc;ncia, sofrimento e pol&iacute;tica entre familiares de v&iacute;tima de desaparecimento for&ccedil;ado". Tese de doutorado. PPGAS/IFCS/UFRJ. 2012;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093064&pid=S0009-6725201500020001300027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Vianna, A. e Farias, J. "A guerra das m&atilde;es: dor e pol&iacute;tica em situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia institucional". In:<i> Cadernos Pagu,</i> 37. 2011;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=093065&pid=S0009-6725201500020001300028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> Hirata, .V.<i> op. cit.</i> 2010.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">21. Feltran, G.S,<i> op. cit.</i> 2012.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">22. Butler, J.,<i> op. cit.</i> 2006.</font></p>      ]]></body>
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