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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   DESLOCAMENTOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>Tempos e deslocamentos  na busca por justi&ccedil;a entre  "moradores de favelas"  e "refugiados"</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>Adriana Vianna<sup>I</sup>; &Aacute;ngela Facundo<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><sup>I</sup>Professora do Programa de P&oacute;s Gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia Social do  Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAS/UFRJ)    <br>   <sup>II</sup>Doutora pelo PPGAS do Museu Nacional da UFRJ e pesquisadora  p&oacute;s-doutoranda na Funda&ccedil;&atilde;o Casa de Rui Barbosa</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>"FAVELADOS" E "REFUGIADOS" COMO SUJEITOS-PERSONAGENS DO ESPA&Ccedil;O E DO TEMPO</b> Categorias sociais, pol&iacute;ticas e administrativas enfeixam processos complexos de distin&ccedil;&atilde;o, aglutina&ccedil;&atilde;o e hierarquiza&ccedil;&atilde;o entre pessoas, acontecimentos, espa&ccedil;os e tempos. Desse modo, produzem narrativas sobre vidas, lugares e temporalidades que t&ecirc;m por efeito, n&atilde;o raras vezes, a domestica&ccedil;&atilde;o e o congelamento de experi&ecirc;ncias m&uacute;ltiplas e diversas. Sua documenta&ccedil;&atilde;o em pap&eacute;is oficiais de ordens distintas e o poder de verdade que esses mesmos pap&eacute;is costumam ter, remodelam e delimitam de forma singular os desdobramentos que essas mesmas categorias exercem sobre a vida cotidiana daqueles que passam a estar ligados a elas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">No presente artigo, debru&ccedil;amo-nos sobre duas dessas categorias, acionadas de modos muito variados, e as tomamos como significantes que envolvem campos sem&acirc;nticos maiores. "Moradores de favela", "favelados", "refugiados", "reassentados" s&atilde;o pensados aqui como termos acionados em processos administrativos, em disputas pol&iacute;ticas e em zonas de competi&ccedil;&atilde;o moral que iluminam rela&ccedil;&otilde;es sociais desiguais. Embora apreendidos a partir de pesquisas etnogr&aacute;ficas distintas, tais campos sem&acirc;nticos mostram-nos propriedades semelhantes, sobretudo no que diz respeito &agrave; estreita conex&atilde;o entre os sujeitos-personagens que da&iacute; resultam - favelados, refugiados - e os universos sociais que parecem lhes dar sentido e por eles serem preenchidos(1).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">A primeira dessas propriedades est&aacute; relacionada &agrave; compreens&atilde;o de ambos os universos como inscritos em "territ&oacute;rios de margem", marcados por pr&aacute;ticas, sujeitos e espa&ccedil;os que s&atilde;o frequentemente considerados como estando nas margens do Estado, no sentido explorado por Das e Poole (2). As pessoas e lugares enfeixados em categorias como "ref&uacute;gio-refugiados" ou "favelafavelados" materializam processos de produ&ccedil;&atilde;o de desigualdades diversas, trazendo em si mesmas um conjunto de narrativas morais e pol&iacute;ticas pr&eacute;-definidas. Representam zonas de irregularidade, desordem e imprevisibilidade. Movimentam-se como corpos n&atilde;o confi&aacute;veis, trazendo em si a ambiguidade pr&oacute;pria &agrave;queles que podem ser simultaneamente tomados como v&iacute;timas ou sofredores de priva&ccedil;&atilde;o e como potencialmente perigosos. Nesse sentido, s&atilde;o figuras n&atilde;o apenas do deslocamento entre espa&ccedil;os f&iacute;sicos, mas sobretudo do deslocamento que se daria entre espa&ccedil;os morais, carregando em seu transitar o constante perigo de borrar fronteiras, sejam elas as dos Estados nacionais, como no caso dos refugiados, sejam as de espa&ccedil;os urbanos peculiarmente tensos e ciosos de suas hierarquias, como no caso dos moradores de favela ou favelados do Rio de Janeiro (3)<sup>1</sup>.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Em ambos os casos, a dimens&atilde;o racial est&aacute; fortemente presente como elemento que marca moral, pol&iacute;tica e administrativamente as pessoas e os territ&oacute;rios. Embora n&atilde;o possamos nos debru&ccedil;ar sobre essa discuss&atilde;o no presente artigo, cabe n&atilde;o perder de vista que os corpos tomados como pass&iacute;veis de serem mortos nas incurs&otilde;es policiais nas favelas s&atilde;o fundamentalmente corpos negros, tornados indiscern&iacute;veis uns dos outros a partir do cruzamento entre suas marcas raciais e espaciais. No caso dos refugiados, por sua vez, essas marca&ccedil;&otilde;es e especificamente a racializa&ccedil;&atilde;o de seus corpos, al&eacute;m de muitas vezes ter justificado ou facilitado sua expuls&atilde;o dos territ&oacute;rios de origem, ser&atilde;o tamb&eacute;m elementos important&iacute;ssimos na intera&ccedil;&atilde;o com as autoridades administrativas do ref&uacute;gio e com as comunidades locais onde lhe correspondeu se vincular. A interpreta&ccedil;&atilde;o racializada desses sujeitos servir&aacute; para lhes adjudicar locais sociais e geogr&aacute;ficos, igualmente interpretados como adequados.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Defendemos tamb&eacute;m em nossos respectivos trabalhos que a produ&ccedil;&atilde;o dessas condi&ccedil;&otilde;es de desigualdade se faz em meio a diversos expedientes administrativos de Estado, refor&ccedil;ando, uma vez mais, a dupla dimens&atilde;o das "margens", que dizem respeito tanto &agrave;queles que ocupariam o lugar de "administrados", quanto o de "administradores" (4). Concentrando-nos em processos judiciais e administrativos espec&iacute;ficos, procuramos compreend&ecirc;-los como um complexo de modos de classifica&ccedil;&atilde;o ou categoriza&ccedil;&atilde;o de pessoas, rela&ccedil;&otilde;es, atos e narrativas. No seu desenrolar, os sentidos e formas de gest&atilde;o dos espa&ccedil;os e personagens tanto do ref&uacute;gio, quanto da favela v&atilde;o sendo atualizados e continuamente produzidos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">No caso da pesquisa de Adriana Vianna, os processos judiciais visando a condena&ccedil;&atilde;o de um agente do Estado respons&aacute;vel pela morte de um morador de favela - policiais militares em sua maioria, mas tamb&eacute;m agentes do sistema prisional ou da Pol&iacute;cia Civil - configuram verdadeiro campo de disputas em torno dos sentidos dessa morte, de quem estaria nela envolvido e do papel desempenhado pelo pr&oacute;prio espa&ccedil;o da "favela" nessas disputas. Desde as condi&ccedil;&otilde;es em si da morte, em sua maioria fruto de incurs&otilde;es policiais em favelas, passando por seu registro policial-administrativo como "auto de resist&ecirc;ncia", at&eacute; todas as etapas de constitui&ccedil;&atilde;o material do processo, incluindo laudos cadav&eacute;ricos, per&iacute;cias no local e nas armas usadas, audi&ecirc;ncias e um eventual e raro julgamento, o que vemos &eacute; um processo em que corpos e espa&ccedil;os parecem constituir-se de maneira inextrinc&aacute;vel (5). O "auto de resist&ecirc;ncia" exprime sinteticamente a narrativa do "confronto", com seus personagens previamente fixados e, sobretudo, com a for&ccedil;a da representa&ccedil;&atilde;o mais abrangente da "guerra" que definiria a rela&ccedil;&atilde;o com a favela como espa&ccedil;o da desordem e aus&ecirc;ncia (ou presen&ccedil;a prec&aacute;ria) do Estado. Essa met&aacute;fora perversa, cujas implica&ccedil;&otilde;es foram indicadas j&aacute; por Marcia Leite e Machado da Silva, entre outros, pode ser pensada como continuamente atualizada a cada morte de morador de favela pelas m&atilde;os da pol&iacute;cia, bem como na escolha do termo "pacifica&ccedil;&atilde;o" para designar o que foi apresentado como pol&iacute;tica governamental para esses espa&ccedil;os nos &uacute;ltimos anos (6).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">A essa narrativa dominante e pervasiva, por&eacute;m, contrap&otilde;em-se as de familiares e militantes que buscam construir tal morte como um homic&iacute;dio e, com isso, condenar judicialmente os agentes do Estado que o cometeram. As formas e espa&ccedil;os para confec&ccedil;&atilde;o dessas outras narrativas (ou narrativas outras) s&atilde;o atos p&uacute;blicos, panfletos, v&iacute;deos, fotografias, faixas e cartazes. Quando se consegue, mat&eacute;rias jornal&iacute;sticas em m&iacute;dias diversas engrossam o caldo da "den&uacute;ncia" que modela a disputa de sentidos sobre tais mortes (7). A contesta&ccedil;&atilde;o de laudos cadav&eacute;ricos e periciais, bem como a procura por testemunhas ou ind&iacute;cios materiais das condi&ccedil;&otilde;es da morte tamb&eacute;m fazem parte da busca por estabelecer um relato outro sobre quem morreu, quem matou, o espa&ccedil;o em que a morte se deu e a ilegitimidade do modo como corpos e territ&oacute;rios foram tratados (8).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">No caso da pesquisa de &Aacute;ngela Facundo, as pessoas que chegam ao territ&oacute;rio nacional como solicitantes de ref&uacute;gio ou que s&atilde;o transferidas em condi&ccedil;&atilde;o de reassentados, passam por intensos processos administrativos atrav&eacute;s dos quais elas v&atilde;o sendo produzidas como refugiadas ou registradas sob outras categorias que qualificam seus tr&acirc;nsitos e definem a condi&ccedil;&atilde;o de sua perman&ecirc;ncia e perten&ccedil;a a uma comunidade imaginada como nacional. Nesses processos de categoriza&ccedil;&atilde;o os administradores se empenham em diferenciar os motivos que provocam os movimentos das pessoas atrav&eacute;s dos territ&oacute;rios e as fronteiras, querendo encontrar o que Good (9) tem chamado de "as origens leg&iacute;timas do medo" que diferenciariam os refugiados dos migrantes econ&ocirc;micos e de outras categorias de migra&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o estariam embasadas em um "fundado temor de persegui&ccedil;&atilde;o".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Parte fundamental desses processos est&aacute; baseada na exig&ecirc;ncia de uma constru&ccedil;&atilde;o narrativa do sujeito que pretende conhecer a sua verdade e de seu deslocamento temporal e espacial para o Brasil. Ao faz&ecirc;-lo, por&eacute;m, as pessoas notam que sua hist&oacute;ria de &ecirc;xodo n&atilde;o pode ser contada na &iacute;ntegra nos espa&ccedil;os administrativos destinados a essa produ&ccedil;&atilde;o narrativa. Tal descompasso decorre do fato de lhes ser exigido que relatem o que seria a totalidade da experi&ecirc;ncia de migra&ccedil;&atilde;o, mas sem que essa se assemelhe a uma hist&oacute;ria de migra&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, tornando-se necess&aacute;rio arrumar e oferecer os fragmentos da experi&ecirc;ncia de &ecirc;xodo que se encaixem no perfil projetado da categoria refugiado.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Consideramos, assim, que, em ambos os casos, estamos lidando com processos de categoriza&ccedil;&atilde;o espacial-moral que constroem simultaneamente corpos e territ&oacute;rios. Dito de outra maneira, assistimos a processos nos quais os sujeitos existem porque pensados e produzidos em rela&ccedil;&atilde;o a um espa&ccedil;o. Os mortos "em confronto" com a pol&iacute;cia, centro dos controversos "autos de resist&ecirc;ncia", s&oacute; podem existir como corpos que habitam e simultaneamente d&atilde;o sentido a um espa&ccedil;o simb&oacute;lico espec&iacute;fico, a "favela". Do mesmo modo, os solicitantes de ref&uacute;gio colombianos s&atilde;o compreendidos como provenientes n&atilde;o apenas de um espa&ccedil;o nacional distinto, mas sobretudo de um territ&oacute;rio de guerra e persegui&ccedil;&atilde;o, algo tido como pr&eacute;-requisito para seu reconhecimento como potenciais refugiados.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> O que, de modos sempre distintos, fomos contemplando em nossos trabalhos, por&eacute;m, &eacute; que a essa constitui&ccedil;&atilde;o profundamente "espacializada" das pessoas, corresponde tamb&eacute;m um conjunto de representa&ccedil;&otilde;es, gest&otilde;es, pr&aacute;ticas e disputas em torno das temporalidades. Em um primeiro plano, considerando os tipos de situa&ccedil;&otilde;es com as quais lidamos, seja no caso dos processos criminais em torno dos assassinatos de moradores de favela ou dos processos administrativos do ref&uacute;gio, faz-se presente a percep&ccedil;&atilde;o profunda da ruptura que separa o "tempo de antes" e o "tempo de agora". Vividos como eventos cr&iacute;ticos (10), a morte do familiar e a sa&iacute;da do pa&iacute;s de origem marcam a dissolu&ccedil;&atilde;o de certa forma de vida e, por isso, a necessidade de altera&ccedil;&atilde;o de modos de compreender e orientar as a&ccedil;&otilde;es no tempo atual.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">No caso dos refugiados, o tempo que foi interrompido bruscamente, que nunca voltou ao ritmo que marcava a vida de todos os dias e desabilitou o espa&ccedil;o para ser habitado pelo cotidiano, parece ser um dos aspectos que alguns autores associam &agrave; figura contempor&acirc;nea do ref&uacute;gio e que podemos, segundo Said (11), pensar como um dos marcadores do ex&iacute;lio. Tamb&eacute;m no caso dos familiares dos favelados mortos pela pol&iacute;cia, a perda do cotidiano &eacute; evocada constantemente, marcando verdadeiro desmapeamento afetivo e moral para aqueles que ficaram, em especial suas m&atilde;es. Aqui, rotinas perdidas s&atilde;o lembradas com regularidade: a comida preferida, a hora de chegar e sair para a escola ou para o trabalho, as frases que eram usadas regularmente nas conversas. Esse tempo de antes permanece no presente como uma mem&oacute;ria envenenada, a reiterar a dist&acirc;ncia entre a vida de outrora e a de hoje, mas tamb&eacute;m a impossibilitar o tempo atual de ser reconhecido como um tempo pleno em si mesmo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">&Eacute; certa elabora&ccedil;&atilde;o dessa ruptura que engendra, assim, sujeitos pol&iacute;ticos e administrativos de matizes espec&iacute;ficos. No caso de nossas pesquisas, poder&iacute;amos tom&aacute;-los como os "candidatos ao ref&uacute;gio" e como os "familiares de v&iacute;tima", ambos inexistentes antes desse evento continuamente lembrado como decisivo. &Eacute; importante notar, por&eacute;m, que n&atilde;o &eacute; o evento em si que os cria, mas todo um processo complexo de contato com outros atores sociais e inst&acirc;ncias, permeado por experi&ecirc;ncias tomadas como solid&aacute;rias, injustas, desrespeitosas etc. &Agrave; dimens&atilde;o dram&aacute;tica da ruptura somam-se, assim, novas rotiniza&ccedil;&otilde;es em meio &agrave;s quais tais sujeitos v&atilde;o se constituindo. Entre essas rotiniza&ccedil;&otilde;es, est&atilde;o as peregrina&ccedil;&otilde;es a ag&ecirc;ncias de Estado, com o ac&uacute;mulo de documentos variados e a elabora&ccedil;&atilde;o de expectativas e formas de demanda pelo reconhecimento ou sancionamento legal em torno desse "evento". Cada ida ao F&oacute;rum ou &agrave;s inst&acirc;ncias administrativas do ref&uacute;gio exige, desse modo, a reelabora&ccedil;&atilde;o narrativa do tempo passado, selecionando tanto dados de seu cotidiano quanto de seus momentos dram&aacute;ticos, bem como a gest&atilde;o do tempo presente e das expectativas em rela&ccedil;&atilde;o ao futuro. Os processos que acompanhamos n&atilde;o deixam de ser, portanto, terreno de disputas sobre a verdade dos sujeitos e dos fatos que eles e outros narram a seu respeito ou a respeito de quem lhes &eacute; caro. &Eacute; sobre esse ponto que nos deteremos agora brevemente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>CATEGORIAS E ESTRAT&Eacute;GIAS DA GEST&Atilde;O DO TEMPO </b>Tanto os "solicitantes de ref&uacute;gio", quanto os "familiares de v&iacute;timas" precisam, para serem reconhecidos enquanto tal, confrontarem-se com suas principais imagens em negativo, aquelas que representam os espectros aos quais n&atilde;o querem ser identificados e que inviabilizariam os bens de direito que est&atilde;o demandando. Como j&aacute; mencionado, no caso dos solicitantes de ref&uacute;gio o perigo principal est&aacute; em serem considerados migrantes econ&ocirc;micos e assim catalogados e fixados em lugares geogr&aacute;ficos, administrativos e morais distintos daqueles reservados aos primeiros. Pelo lado dos diversos agentes de Estado encarregados de filtrar os "verdadeiros refugiados" dentre uma massa de outras categorias migrantes, por sua vez, h&aacute; o temor de que com esse equ&iacute;voco (tomar por refugiado quem &eacute; "apenas" migrante) acabem por "corromper a institui&ccedil;&atilde;o do ref&uacute;gio", colocando em d&uacute;vida sua capacidade profissional para realizar essa sele&ccedil;&atilde;o t&atilde;o cara &agrave; ordem nacional.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Nos encontros entre solicitantes e agentes do ref&uacute;gio acontecem intera&ccedil;&otilde;es nas quais os detalhes da experi&ecirc;ncia dos sujeitos e sua efic&aacute;cia na mobiliza&ccedil;&atilde;o das emo&ccedil;&otilde;es de quem escuta s&atilde;o uma parte fundamental. Por&eacute;m, no processo de sele&ccedil;&atilde;o, na hora de comunicar uma experi&ecirc;ncia de persegui&ccedil;&atilde;o ou sofrimento, n&atilde;o basta uma narra&ccedil;&atilde;o que mobilize certas emo&ccedil;&otilde;es no ouvinte. Para conseguir a legitima&ccedil;&atilde;o dessa hist&oacute;ria, sob a forma de um reconhecimento legal como refugiado, &eacute; necess&aacute;rio que a emotividade provocada no agente possa ser constru&iacute;da ou apresentada como uma emotividade experta, como uma compaix&atilde;o profissional. Isso quer dizer que, para al&eacute;m da empatia pessoal com o outro sofredor, o que est&aacute; em jogo &eacute; a empatia profissional com um tipo determinado de dor e sua capacidade de diferenci&aacute;-la de outras dores comuns.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> Tal movimento parece ser a garantia de que a dor das pessoas aceitas como refugiadas seja inscrita em um espa&ccedil;o considerado p&uacute;blico para o qual eles, como agentes especialistas do ref&uacute;gio, est&atilde;o contratados. Nessa medida, a interpreta&ccedil;&atilde;o adequada do sofrimento dos outros tamb&eacute;m &eacute; uma forma de legitimar o exerc&iacute;cio profissional das advogadas, psic&oacute;logas e assistentes sociais, inscrevendo-o no espa&ccedil;o da gest&atilde;o pol&iacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> J&aacute; no caso dos familiares, o processo segue, de certo modo, a dire&ccedil;&atilde;o inversa. Tendo sido as mortes registradas como "auto de resist&ecirc;ncia", resultado, portanto, de suposto confronto armado, cabe a eles lutar para romper essa categoria classificat&oacute;ria em torno da situa&ccedil;&atilde;o da morte, de modo que seu familiar possa ser reconhecido propriamente como uma v&iacute;tima. As categorias que assombram a v&iacute;tima e seus familiares est&atilde;o dispostas na pl&ecirc;iade de termos mobilizada em documentos que fazem parte do pr&oacute;prio processo judicial, como depoimentos e argumenta&ccedil;&otilde;es de defensores e advogados, mas tamb&eacute;m na m&iacute;dia: s&atilde;o os "traficantes", "os bandidos" e, mais corriqueiramente, os "vagabundos".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Em ambas as situa&ccedil;&otilde;es, portanto, est&aacute; em jogo a fabrica&ccedil;&atilde;o de uma narrativa sobre o passado que tem poder moral, pol&iacute;tico e administrativo de redefinir o presente e o futuro. Para que essa narrativa seja aceita, por&eacute;m, s&atilde;o necess&aacute;rias "provas" de diversas ordens, que falam do "evento cr&iacute;tico" em si mesmo (laudos, per&iacute;cias, comprova&ccedil;&otilde;es do "fundado temor de persegui&ccedil;&atilde;o" etc), mas tamb&eacute;m da trajet&oacute;ria de vida dos pr&oacute;prios sujeitos. Acumulam-se, assim, nos processos criminais em torno da morte de moradores de favela, boletins escolares, carteiras de trabalho, diplomas de conclus&atilde;o de curso. Est&aacute; em jogo, antes de tudo, construir a imagem do "pobre trabalhador", que se antagonizaria a do "traficante" ou "bandido", desfazendo a narrativa encapsulada no "auto de resist&ecirc;ncia". Quando esta narrativa &eacute; relativamente bem sucedida, como j&aacute; observado em um julgamento, os argumentos tendem a recair sobre a peculiaridade f&iacute;sica e moral do espa&ccedil;o: a morte ocorreu por ser a favela uma &aacute;rea de confrontos constantes. A "confus&atilde;o" entre as personagens pode migrar, assim, nas argumenta&ccedil;&otilde;es dos defensores e advogados, para a "confus&atilde;o" pr&oacute;pria ao espa&ccedil;o, ao territ&oacute;rio. Sua morte teria sido um infort&uacute;nio, sobre o qual os policiais n&atilde;o podem ser responsabilizados (12).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">No caso dos solicitantes de ref&uacute;gio, o processo de sele&ccedil;&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m uma forma de filtrar as verdadeiras v&iacute;timas do conjunto de sujeitos que teriam outro tipo de envolvimento com a guerra e, por isso, com os deslocamentos a ela creditados. Existe, o tempo todo, o risco de estar diante de perseguidores e n&atilde;o de perseguidos e as pessoas solicitantes devem se esfor&ccedil;ar para que sua vers&atilde;o os coloque do lado dos que requerem e merecem ser protegidos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> A gest&atilde;o das narrativas sobre o tempo &eacute;, portanto, fundamental para, de um lado, tentar "comprovar", legitimar e manter a for&ccedil;a da pr&oacute;pria vers&atilde;o sobre o que aconteceu no evento central ao processo, bem como para precisar a rela&ccedil;&atilde;o entre seus personagens principais: quem foi perseguido, quem &eacute; perseguidor, quem &eacute; a v&iacute;tima inocente, quem &eacute; culpado (13). Todo esse processo exige, por sua vez, a depura&ccedil;&atilde;o das ambiguidades, imprecis&otilde;es e ziguezagues na vida das pessoas. Nessas narrativas fortemente moralizadas sobre v&iacute;timas e culpados, &eacute; necess&aacute;rio que aqueles que pleiteiam, de algum modo, o estatuto de v&iacute;timas – da viol&ecirc;ncia policial; das condi&ccedil;&otilde;es da guerra – apresentemse fora das zonas mais perigosas de d&uacute;vida e confus&atilde;o. Como disse recentemente a m&atilde;e de um rapaz morto por policiais militares em uma favela com dois tiros e na frente de diversas testemunhas: "meu filho era drogado, mas n&atilde;o era bandido, n&atilde;o merecia morrer assim".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Processo semelhante ocorre nas narrativas dos candidatos a ref&uacute;gio, que buscam encaixar suas lembran&ccedil;as nas causas v&aacute;lidas para solicitar prote&ccedil;&atilde;o e nos tempos considerados "adequados" para faz&ecirc;-lo. Um candidato ao ref&uacute;gio, expressava por exemplo que "eu at&eacute; poderia voltar sem ser morto na hora, mas se eu falar isso eles n&atilde;o v&atilde;o me dar o ref&uacute;gio e eu n&atilde;o quero voltar". De outra parte, express&otilde;es como "eu sempre fui um bom cidad&atilde;o" ou "se eu fosse um criminoso n&atilde;o estaria c&aacute; pedindo ref&uacute;gio" s&atilde;o s&oacute; algumas das formas mais comuns de se localizar moralmente num espa&ccedil;o marcado pelas experi&ecirc;ncias de viol&ecirc;ncia e pela ambiguidade do papel desempenhado nessa guerra produtora de deslocamentos (14).</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">O tempo como trajet&oacute;ria &eacute; vertido em narrativas que precisam conviver, negar ou aceitar as categorias de identifica&ccedil;&atilde;o, matizando-as, dando-lhes outros contornos, inscrevendo o singular do tempo de vida de cada um em meio &agrave; padroniza&ccedil;&atilde;o e rigidez das classifica&ccedil;&otilde;es e suas oposi&ccedil;&otilde;es vitais (trabalhadores ou bandidos, refugiados ou migrantes). A administra&ccedil;&atilde;o (de justi&ccedil;a, de cidadania, de pessoas e de corpos), para conseguir levar a cabo sua tarefa de gest&atilde;o, tem que se desfazer dessas ambiguidades, contradi&ccedil;&otilde;es, d&uacute;vidas e esquecimentos que costumam caracterizar as experi&ecirc;ncias vitais das pessoas. Os espa&ccedil;os administrativos destinados a esses fins s&atilde;o eles pr&oacute;prios espa&ccedil;os-tempos limitados: entrevistas de algumas horas para narrar toda a hist&oacute;ria de persegui&ccedil;&atilde;o, audi&ecirc;ncias judiciais, formul&aacute;rios para traduzir o percurso do &ecirc;xodo e a vida precedente, boletins de ocorr&ecirc;ncia etc. As "pessoas de papel" encerradas nos documentos s&atilde;o tamb&eacute;m efeito, assim, de modos de registro peculiares, condi&ccedil;&otilde;es assim&eacute;tricas de interlocu&ccedil;&atilde;o e momentos circunscritos de fala-escuta-registro.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Dessa perspectiva, portanto, o pr&oacute;prio desenrolar dos processos pode ser tomado como um tempo n&atilde;o apenas de formula&ccedil;&atilde;o de narrativas, mas de altera&ccedil;&atilde;o e fixa&ccedil;&atilde;o do passado e do presente atrav&eacute;s desses jogos narrativos. H&aacute; o que deve ser dito, o que deve ser comprovado, o que n&atilde;o deve ser dito, o que deve ser esquecido e esses limites v&atilde;o sendo depurados, aprimorados e aprendidos em diferentes situa&ccedil;&otilde;es de intera&ccedil;&atilde;o (15). Poder&iacute;amos pensar que nas tentativas de confec&ccedil;&atilde;o desse passado plaus&iacute;vel para os refugiados ou para os mortos da favela v&atilde;o se tornando cada vez mais presentes tamb&eacute;m o c&aacute;lculo e a expertise em rela&ccedil;&atilde;o ao que pode ou n&atilde;o obter sucesso administrativa, judicial ou politicamente.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Por outro lado, o tempo transcorrido nos processos &eacute; um valor em si mesmo. A persist&ecirc;ncia, a capacidade de permanecer aguardando cada etapa, de n&atilde;o desistir, v&atilde;o se configurando como substratos morais relevantes, capazes de afian&ccedil;ar a verdade dos pr&oacute;prios sujeitos. A m&atilde;e que fica anos a fio "lutando por justi&ccedil;a" comprova, por sua tenacidade e resili&ecirc;ncia, que o filho n&atilde;o poderia ser traficante, como declarou um operador do direito em meio a um julgamento. De forma semelhante, o candidato a ref&uacute;gio que aceita permanecer nas condi&ccedil;&otilde;es que lhe foram oferecidas, mesmo que delas se queixe &agrave; pesquisadora e a outros, comprova sua verdade como algu&eacute;m que efetivamente n&atilde;o pode retornar a seu pa&iacute;s de origem.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">H&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o importante entre aquilo que &eacute; percebido como um tempo lento, de ritmo arrastado ou dado a imprevisibilidades e a escassez dos recursos. A percep&ccedil;&atilde;o de um tempo adverso, que se precisa saber enfrentar - ou atravessar-&eacute; formada pela composi&ccedil;&atilde;o de dois elementos b&aacute;sicos. O primeiro deles &eacute; o encontrar-se em posi&ccedil;&atilde;o de inferioridade em termos das decis&otilde;es a serem tomadas ou dos recursos a serem acessados. &Eacute; estar dependendo de algum modo de inst&acirc;ncias que parecem deter todo o controle sobre o poder de dar ou n&atilde;o dar tais recursos e, por isso mesmo, de poder faz&ecirc;-lo de forma que parece sempre escassa, mesquinha e irregular. O segundo elemento &eacute; n&atilde;o ter como interferir significativamente no ritmo dos acontecimentos, ficando assujeitado a mudan&ccedil;as repentinas das regras do jogo.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Estar &agrave; espera aparece, assim, como express&atilde;o dessa assimetria profunda entre os diferentes envolvidos nos processos administrativos, podendo ser interpretado, nos casos trabalhados por Adriana Vianna, como sinais n&atilde;o apenas de desinteresse ou descompromisso com o que seria "justo" e "certo" (a apura&ccedil;&atilde;o dos crimes), mas de m&aacute; f&eacute; e comprometimento com "o outro lado", a pol&iacute;cia. Ou, nos casos de ref&uacute;gio, como uma forma de testagem cruel e adversa, cujo resultado final seria fazer desistir do pr&oacute;prio bem almejado. Como colocou um solicitante: "eles procuram desesperar a gente com tanta espera, para que a gente termine indo embora ou renunciando ao ref&uacute;gio".</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Tanto nas situa&ccedil;&otilde;es dos familiares de v&iacute;timas, como nas situa&ccedil;&otilde;es que envolvem os solicitantes de ref&uacute;gio, para al&eacute;m das poss&iacute;veis express&otilde;es p&uacute;blicas de revolta ou as queixas mais explicitamente formuladas, a espera parece guardar tamb&eacute;m um poder corrosivo que afeta as pessoas de modo englobante e profundamente subjetivo. Essa espera min&uacute;scula do dia a dia, muitas vezes sem resposta, foi descrita por um solicitante de ref&uacute;gio como a sensa&ccedil;&atilde;o de se sentir "castrado" e pela irm&atilde; de um homem morto pela pol&iacute;cia na favela como ter "a casa desabando". Em ambos os casos, o que se expressa &eacute; a percep&ccedil;&atilde;o da impot&ecirc;ncia e da fragilidade exacerbada por esse "tempo em suspenso" cont&iacute;nuo, que rouba a for&ccedil;a pessoal e esmaga as pessoas, suas rela&ccedil;&otilde;es e seus afetos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">O idioma principal de contraposi&ccedil;&atilde;o e controle de seus efeitos mais nocivos &eacute; o da den&uacute;ncia ao desrespeito e &agrave; desconsidera&ccedil;&atilde;o. Sustentar a espera no tempo presente significa, ent&atilde;o, reiterar continuamente o valor da verdade contida no tempo passado: afirmar n&atilde;o esquecer o que ocorreu com o filho morto, n&atilde;o aceitar que sua morte n&atilde;o seja investigada e punida, reiterar as persegui&ccedil;&otilde;es, perigos e priva&ccedil;&otilde;es vividos antes e durante o processo do ref&uacute;gio. O descaso ou a m&aacute; f&eacute; experimentados no presente s&atilde;o combatidos com esse estofo moral constitu&iacute;do atrav&eacute;s da re-narra&ccedil;&atilde;o de si mesmo e de sua trajet&oacute;ria. Mas, tamb&eacute;m, com a afirma&ccedil;&atilde;o, sempre que poss&iacute;vel, na confian&ccedil;a em um tempo futuro melhor. Esse, por&eacute;m, se apresenta como inc&oacute;gnita durante a espera. Afirmar a confian&ccedil;a nele &eacute; um ato de f&eacute; que pode ou n&atilde;o se confirmar, o que faz da espera uma forma peculiar de temporalidade, cujo sentido pleno s&oacute; poder&aacute; ser dado a posteriori, quando ser&aacute; transformada na narrativa &eacute;pica da supera&ccedil;&atilde;o das adversidades ou no relato melanc&oacute;lico das desconsidera&ccedil;&otilde;es e derrotas acumuladas.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">Apesar das diferen&ccedil;as do que acontece ao chegar ao territ&oacute;rio brasileiro entre os solicitantes espont&acirc;neos de ref&uacute;gio e os reassentados, uma sensa&ccedil;&atilde;o comum de impot&ecirc;ncia e desespero foi descrita pelas pessoas em ambas as situa&ccedil;&otilde;es. Para eles, &eacute; particularmente dif&iacute;cil essa combina&ccedil;&atilde;o da espera - como um tempo que passa sem que nada passe ou em que passa o inapropriado - e o sentimento de precariedade profunda experimentado (16). Nesse sentido, o trabalho sobre o tempo deve ser compreendido como fundamental para preservar o valor das vidas. Os acontecimentos do passado, o sentido que este passado cobra no tempo presente e as possibilidades da pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia projetada no futuro dependem, em grande medida, da luta por dotar ao tempo, aos espa&ccedil;os e aos corpos que os habitam de um sentido particular que os permita combater a for&ccedil;a aniquiladora advinda da produ&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua de sua desimport&acirc;ncia social ou de seu descr&eacute;dito moral.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 1. As reflex&otilde;es sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre temporalidades e espacialidades que hoje apresentamos surgiram das intersec&ccedil;&otilde;es que fomos encontrando durante nossas respectivas pesquisas sobre a movimenta&ccedil;&atilde;o familiar e pol&iacute;tica estabelecida em torno da morte pela pol&iacute;cia de um morador de favela, ou sobre processos de ref&uacute;gio e reassentamento de colombianos no Brasil. Sobre a pesquisa de Vianna ver: Vianna, A. "Tempos, dores e corpos: considera&ccedil;&otilde;es sobre a 'espera' entre familiares de v&iacute;timas de viol&ecirc;ncia policial no Rio de Janeiro". In: Birman, P; Leite, M; Machado, C. (orgs).<i> Dispositivos urbanos e tramas dos viventes: ordens e resist&ecirc;ncias,</i> 2014.    <!-- ref --> Sobre a de Facundo, ver: Facundo, &Aacute;. 2014. "&Ecirc;xodos e ref&uacute;gio: colombianos refugiados no Sul e Sudeste do Brasil". Tese de doutorado, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia Social, PPGAS-MN. Defendida em abril de 2014.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 2. Das, V. &amp; Poole, D. "State and its margins: comparative ethnographies". In:______.<i> Anthropology in the margins of the State.</i> New Mexico, School of American Research Press, 2004.    </font></p>     <p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 3. Optamos pela utiliza&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m do termo favelado, que pode ser usado socialmente de forma altamente pejorativa, por ser esse frequentemente o termo de prefer&ecirc;ncia dos militantes e familiares de v&iacute;timas com quem Vianna vem trabalhando, em um processo ativo e expl&iacute;cito de reapropria&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e sem&acirc;ntica.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 4. Al&eacute;m do trabalho j&aacute; mencionado de Das e Poole, ambas temos como refer&ecirc;ncia fundamental as discuss&otilde;es formuladas por Ant&ocirc;nio Carlos de Souza Lima ao falar das formas de gest&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es e territ&oacute;rios: Souza Lima, A.<i> Um grande cerco de paz: poder tutelar, indianidade e forma&ccedil;&atilde;o do Estado no Brasil.</i> Petr&oacute;polis: Vozes, 1995;     inspiradas, por sua vez, em quest&otilde;es sobre administra&ccedil;&atilde;o presentes em trabalhos de Weber e poder, em trabalhos de Foucault, entre outros.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 5. Farias, J. "Governo das mortes: uma etnografia da gest&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es de favelas no Rio de Janeiro". Tese de doutorado defendida no Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Sociologia e Antropologia - IFCS da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 2014.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 6. Ver: Leite, M. As m&atilde;es em movimento. In: Birman, P.; Leite, M. P. (orgs). <i>Um mural para a dor: movimentos c&iacute;vico-religiosos por justi&ccedil;a e paz.</i> Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2004.    <!-- ref --> Tamb&eacute;m Machado da Silva, L. A. &amp; Leite, M. "Viol&ecirc;ncia, crime e pol&iacute;tica: o que os favelados dizem quando falam desses temas?" In: Machado da Silva, L.A. (org.)<i> Vida sob cerco: viol&ecirc;ncia e rotina nas favelas do Rio de Janeiro.</i> Rio de Janeiro, Faperj/Nova Fronteira, 2008.    <!-- ref --> E Oliveira, J. P. de.<i> Pacifica&ccedil;&atilde;o e tutela militar na gest&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es e territ&oacute;rios.</i> Mana &#91;online&#93;. 2014, vol.20, n.1 pp. 125-161.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 7. Estamos trabalhando com a produ&ccedil;&atilde;o da "den&uacute;ncia" nos termos propostos por Boltanski. Ver, entre outros textos, as formula&ccedil;&otilde;es presentes em Boltanski, L.<i> La souffrance a distance: morale humanitaire, m&eacute;dias et politique.</i> Paris: M&eacute;taili&eacute;, Collection Le&ccedil;ons de Choses, 1993.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 8. Sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre os corpos dos mortos e o espa&ccedil;o da favela, ver tamb&eacute;m: Vianna, A.; Farias, J.. "A guerra das m&atilde;es: dor e pol&iacute;tica em situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia institucional".<i> Cadernos Pagu,</i> no. 37, pp.79-116, jul./dez. 2011.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">9. Good, A.. "Anthropologists as expert witnesses political asylum cases involving Sri Lankan Tamils". In: Wilson, R. A.; Mitchell, J. P. (eds.).<i>Human rights in global perspective: anthropological studies of rights, claims and entitlements.</i> Londres e Nova Iorque: Routledge, 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">10. Das,	 V.<i> Critical events. An anthropological perspective in contemporary India.</i> Oxford Indian Paperbacks, 1997.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 11. Said, E.<i> Reflex&otilde;es sobre o ex&iacute;lio e outros ensaios.</i> S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 2001.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">12. Ver Vianna e Farias, "A guerra das m&atilde;es",<i> Cadernos Pagu,</i> 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 13. Boltanski, L.<i> La souffrance a distance: morale humanitaire, m&eacute;dias et politique.</i> Paris: M&eacute;taili&eacute;, Collection Le&ccedil;ons de Choses, 1993.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">14. A disputa e, muitas vezes, a ambiguidade, que encerra a categoria de v&iacute;tima tamb&eacute;m foi identificada no trabalho de Piscitelli e Lowenkron neste N&uacute;cleo Tem&aacute;tico da revista<i> Ci&ecirc;ncia e Cultura.</i> Entre outras considera&ccedil;&otilde;es muito pertinentes tamb&eacute;m a nossos campos, as autoras analisam "o desenvolvimento de<i> tecnologias de si</i> que buscam engendrar, at&eacute; agora de maneira ineficaz, um processo de subjetiva&ccedil;&atilde;o/sujei&ccedil;&atilde;o moral capaz de despertar nas pessoas tecnicamente definidas como traficadas a consci&ecirc;ncia de que s&atilde;o v&iacute;timas".</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif"> 15. Ross, F.<i> Bearing witness: women and the truth and reconciliation commission in South Africa.</i> London: Pluto Press, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="verdana,Arial,Helvetica,sans-serif">16. Butler,	 J.<i> Precarious life: the powers of mourning and violence.</i> New York: Verso, 2006.    </font></p>      ]]></body><back>
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