<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252015000300003</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/2317-66602015000300003</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Estamos vivendo um processo de "descerebramento"?]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Flório]]></surname>
<given-names><![CDATA[Victória]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2015</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2015</year>
</pub-date>
<volume>67</volume>
<numero>3</numero>
<fpage>6</fpage>
<lpage>8</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252015000300003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252015000300003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252015000300003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br> POL&Iacute;TICA DE C&amp;T</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Estamos vivendo um processo de "descerebramento"?</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Vict&oacute;ria Fl&oacute;rio</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Recentemente, a brasileira Mariana Vasconcelos recebeu uma bolsa para estudar no Vale do Sil&iacute;cio, Calif&oacute;rnia, em uma institui&ccedil;&atilde;o ligada &agrave; Ag&ecirc;ncia Espacial Americana, Nasa. Ela foi selecionada entre mais de 500 participantes do mundo todo pela cria&ccedil;&atilde;o do aplicativo Agrosmart, que otimiza o consumo de &aacute;gua na irriga&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola. Em 2013, o aplicativo Hand Talk - que traduz conte&uacute;dos do portugu&ecirc;s para Libras (L&iacute;ngua Brasileira de Sinais) - criado pelo cientista da computa&ccedil;&atilde;o Ronaldo Ten&oacute;rio, foi reconhecido pela Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), como melhor aplicativo do mundo na categoria inclus&atilde;o social. Seria o reconhecimento internacional de jovens como Mariana e Ronaldo um impulso para que cientistas e aspirantes &agrave; carreira cient&iacute;fica busquem outros pa&iacute;ses como via de acesso ao competitivo mundo acad&ecirc;mico e ao mercado de trabalho internacional? Segundo pesquisa publicada pela Belta 2015 (Brazilian Educational &amp; Language Travel Association), o n&uacute;mero de brasileiros estudando no exterior aumentou 500% na &uacute;ltima d&eacute;cada. S&oacute; em 2014, mais de 230 mil jovens foram estudar fora do pa&iacute;s (em 2013 eram 34 mil). Muitos deles t&ecirc;m o sonho de construir uma carreira internacional, seja na academia ou no mercado de trabalho. Em entrevista para o portal UOL (2014), Carlos Hauer Junior, presidente do Student Travel Bureau (STB), a fuga de c&eacute;rebros brasileiros tende a aumentar em 50% nos pr&oacute;ximos cinco anos. Apesar de ser uma pergunta cuja resposta envolve muitos fatores, ela surge, mais uma vez, inc&ocirc;moda: h&aacute; atualmente uma fuga de c&eacute;rebros no Brasil?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Fuga de c&eacute;rebros?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1968, quando o f&iacute;sico brasileiro Moys&eacute;s Nussenzveig alertava os participantes do Primeiro Congresso Latino-Americano de F&iacute;sica (no M&eacute;xico) sobre a evas&atilde;o de cientistas, j&aacute; usava a express&atilde;o "brain drain", fuga de c&eacute;rebros. Preocupado com o n&uacute;mero de pesquisadores brasileiros no exterior, Nussenzveig fez um esfor&ccedil;o para apontar as causas do &ecirc;xodo: a falta de autonomia financeira e estrutura das universidades (eram, ent&atilde;o, 40 universidades no Brasil, mais da metade, federais) seriam os principais respons&aacute;veis. Segundo o f&iacute;sico e historiador da ci&ecirc;ncia, Olival Freire J&uacute;nior, pr&oacute;-reitor de Pesquisa, Cria&ccedil;&atilde;o e Inovac&atilde;o da Universidade Federal da Bahia (UFBA), na d&eacute;cada de 1960 tivemos uma n&iacute;tida fuga de c&eacute;rebros no Brasil. Cientistas como Sergio Porto, Leite Lopes, Cerqueira Leite, Moys&eacute;s Nussenzveig, entre outros, sa&iacute;ram do pa&iacute;s porque as condi&ccedil;&otilde;es materiais n&atilde;o eram favor&aacute;veis, um cen&aacute;rio que foi agravado pelos problemas pol&iacute;ticos impostos pelo Golpe de 64. Em 1966, houve at&eacute; uma Comiss&atilde;o Parlamentar de Inqu&eacute;rito no Senado para apurar a evas&atilde;o de cientistas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A despeito do chamado "milagre econ&ocirc;mico" da d&eacute;cada de 1970 ter motivado a volta de muitos pesquisadores, nas d&eacute;cadas seguintes, com aumento da infla&ccedil;&atilde;o, crise econ&ocirc;mica e desesperan&ccedil;a, a evas&atilde;o voltou a aumentar. De acordo com dados do Sistema Econ&ocirc;mico Latino-Americano e do Caribe (Sela), com sede em Caracas, entre 1990 e 1997 houve um aumento percentual de 242% no n&uacute;mero de brasileiros qualificados vivendo em pa&iacute;ses ricos, o segundo maior aumento registrado entre os pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina no per&iacute;odo (no M&eacute;xico o aumento foi de 270%). Os dados foram publicados pela BBC Brasil, em 2009.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 2012, o ent&atilde;o ministro da Ci&ecirc;ncia, Tecnologia e Inova&ccedil;&atilde;o, Marco Ant&ocirc;nio Raupp, alertava, em mat&eacute;ria da revista <i>Exame</i>, sobre a necessidade de se criar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que impedissem a fuga de c&eacute;rebros do pa&iacute;s. Naquele ano, o Brasil estimava enviar, somente para os Estados Unidos, cerca de 20 mil pesquisadores - entre alunos de gradua&ccedil;&atilde;o e p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o. Para Freire, a evas&atilde;o pode ser um momento de crise ligado a fatores na economia, mas &eacute; dif&iacute;cil imaginar que os cientistas que est&atilde;o deixando o pa&iacute;s n&atilde;o v&atilde;o voltar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v67n3/a03fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v67n3/a03thumbfig01.jpg" border="0">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Brasileiros sem fronteiras</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo estudo da OCDE, o investimento do Brasil por aluno no ensino superior &eacute; de US$11 mil. O valor &eacute; menor na &aacute;rea de pesquisa e desenvolvimento (P&amp;D), menos de US$1 mil por aluno. Os EUA, por exemplo, investem anualmente, em m&eacute;dia, US$26 mil por estudante e em P&amp;D s&atilde;o US$3 mil por aluno. Esse investimento em P&amp;D nas universidades representa um grande diferencial para estudantes brasileiros. Foi o que atraiu o f&iacute;sico paraense C&aacute;ssio Sozinho Amorim, pesquisador e bolsista da Japan Society for Promotion of Science, que est&aacute; no Jap&atilde;o desde 2008. Amorim acredita que existe reconhecimento no Brasil, mas em se tratando de recompensas financeiras fica um pouco a desejar. Ele conta que em pa&iacute;ses como China e Jap&atilde;o, essa quest&atilde;o funciona de modo totalmente diferente, porque um indiv&iacute;duo n&atilde;o deve se destacar muito mais do que o grupo. J&aacute; T&aacute;bata Amaral de Pontes escolheu Harvard, nos EUA, para cursar ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica. Ela foi aprovada com bolsa integral em seis universidades norte-americanas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante o ensino m&eacute;dio T&aacute;bata atuou como co-fundadora do VOA, um projeto educacional na Grande S&atilde;o Paulo, que prepara alunos de escolas p&uacute;blicas para olimp&iacute;adas cient&iacute;ficas. Ela acredita que essa iniciativa ajudou seu ingresso em Harvard porque eles valorizam habilidades como lideran&ccedil;a, iniciativa etc, que n&atilde;o s&atilde;o levadas em conta nos processos seletivos das universidades brasileiras. Quando voltar ao Brasil, a jovem cientista pretende usar a experi&ecirc;ncia no exterior para transformar a educa&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s, seu maior sonho. Recentemente, ela ajudou a fundar o Mapa do Buraco, movimento que busca engajar o jovem no debate nacional sobre educa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Atraindo talentos</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pa&iacute;ses desenvolvidos t&ecirc;m um bom percentual de sua popula&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria estudando fora, mas, de acordo com a Organiza&ccedil;&atilde;o para a Coopera&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento Econ&ocirc;mico (OCDE), em m&eacute;dia, os pa&iacute;ses desenvolvidos receberam tr&ecirc;s universit&aacute;rios estrangeiros para cada estudante nacional que saiu para estudar fora. Na Austr&aacute;lia esse n&uacute;mero &eacute; 18:1, no Reino Unido 13:1, nos EUA 11:1, enquanto que, no Brasil, h&aacute; menos de um estudante estrangeiro para cada estudante que deixa o pa&iacute;s. Um dos motivos para isso &eacute; o fato das universidades brasileiras n&atilde;o adotarem o ingl&ecirc;s como l&iacute;ngua oficial nos cursos. O governo federal e a iniciativa privada t&ecirc;m feito esfor&ccedil;os para atrair estudantes internacionais. Uma parceria da Coordena&ccedil;&atilde;o de Aperfei&ccedil;oamento de Pessoal de N&iacute;vel Superior (Capes), do Itamaraty e de universidades brasileiras oferece bolsas de estudo para estudantes estrangeiros, mas atrai especialmente o p&uacute;blico latino-americano. &Eacute; o caso do colombiano Olmar G&oacute;mez que escolheu a Universidade Federal da Bahia (UFBA) para fazer o doutorado em matem&aacute;tica. Ele conta que uma das maiores dificuldades que enfrenta aqui &eacute; ter que se dedicar exclusivamente ao doutorado, condi&ccedil;&atilde;o imposta aos bolsistas. "Na &aacute;rea de ensino &eacute; desej&aacute;vel que a gente d&ecirc; aulas ao mesmo tempo em que pesquisa. Mas, por outro lado, a bolsa e a dedica&ccedil;&atilde;o exclusiva refletem diretamente na qualidade da minha pesquisa". Na Col&ocirc;mbia, os estudantes de doutorado n&atilde;o recebem bolsa. Ele teria que desembolsar entre R$ 60 mil e R$ 100 mil reais para concluir o doutorado.</font></p>      ]]></body>
</article>
