<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252015000300006</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/2317-66602015000300006</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Causas semelhantes, impactos diferentes]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Assad]]></surname>
<given-names><![CDATA[Leonor]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2015</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2015</year>
</pub-date>
<volume>67</volume>
<numero>3</numero>
<fpage>14</fpage>
<lpage>16</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252015000300006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252015000300006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252015000300006&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br> MUDAN&Ccedil;AS CLIM&Aacute;TICAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Causas semelhantes, impactos diferentes</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Leonor Assad</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No domingo 14 de junho de 2015 a cidade de Tbilisi, capital da Ge&oacute;rgia, amanheceu em situa&ccedil;&atilde;o desastrosa. Le&otilde;es, ursos, tigres e um hipop&oacute;tamo vagavam pelas ruas cobertas de lama e detritos. Dezenas de casas e carros estavam danificados. Durante a madrugada, uma chuva intensa, que durou cerca de cinco horas, transformou o pequeno c&oacute;rrego que atravessa a cidade em um rio caudaloso. As &aacute;guas destru&iacute;ram o zool&oacute;gico local, muitos animais escaparam e outros tantos morreram. As inunda&ccedil;&otilde;es mataram pelo menos 16 pessoas. Em maio, temperaturas pr&oacute;ximas de 45º C, que atingiram a &Iacute;ndia durante semanas, mataram mais de 2,2 mil pessoas. No mesmo m&ecirc;s, ao menos 31 pessoas morreram em consequ&ecirc;ncia de tempestades que devastaram partes dos estados do Texas e de Oklahoma, nos Estados Unidos, e o norte do M&eacute;xico. No final de abril, fortes chuvas que ca&iacute;ram em Havana, Cuba, deixaram tr&ecirc;s mortos e mais de 10 mil desabrigados. No Brasil, em junho as cheias nos rios Solim&otilde;es e Negro atingiram seu maior n&iacute;vel em 100 anos, colocando Manaus e outros 43 munic&iacute;pios em situa&ccedil;&atilde;o de emerg&ecirc;ncia, complicando o dia a dia de mais de 400 mil pessoas no Amazonas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n3/a06fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Fen&ocirc;menos extremos</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dados do EM-DAT, um banco de dados internacional sobre as cat&aacute;strofes naturais, apontam que nos &uacute;ltimos 115 anos ocorreram no mundo mais de 500 eventos com temperaturas extremas (ondas de frio ou de calor intenso e condi&ccedil;&otilde;es severas no inverno), que mataram quase 174 mil pessoas no mundo. Mantido desde 1988 pelo Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres (Cred, na sigla em ingl&ecirc;s), o EM-DAT cont&eacute;m dados sobre mais de 18 mil desastres ocorridos no mundo a partir de 1900. Nele constata-se tamb&eacute;m que, at&eacute; hoje, ocorreram cerca de 660 eventos de seca severa e mais de 3,7 mil tempestades com grandes danos, que causaram mais de 13 milh&otilde;es de mortes e afetaram mais de tr&ecirc;s bilh&otilde;es de pessoas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sem fronteiras</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com Carlos Afonso Nobre, doutor em meteorologia e um dos autores do 4º Relat&oacute;rio do Painel Intergovernamental sobre Mudan&ccedil;as Clim&aacute;ticas (IPCC), um estudo recente procurou olhar at&eacute; que ponto o aquecimento global poderia explicar alguns dos eventos extremos no tempo e no clima que t&ecirc;m ocorrido nos &uacute;ltimos anos: "Chegaram &agrave; conclus&atilde;o de que - o que &eacute; intuitivamente esperado - cerca de 70% das recentes ondas de calor podem ser atribu&iacute;das parcialmente ao aquecimento global, j&aacute; que o planeta est&aacute; inequivocamente mais quente, o que leva &agrave; ocorr&ecirc;ncia de mais ondas de calor". No entanto, o pesquisador acrescenta: "chegaram &agrave; conclus&atilde;o de que 18% dos recentes eventos extremos se devem parcialmente ao aquecimento global". O que chama a aten&ccedil;&atilde;o &eacute; que isso est&aacute; sendo observado com um aquecimento m&eacute;dio de 0,8º C. Nobre salienta que os especialistas estimaram que, para um aquecimento de 2ºC, mais de 50% das secas extremas estariam ligadas ao aquecimento global. Ou seja, a continuidade do aquecimento global far&aacute; aumentar a frequ&ecirc;ncia e a intensidade de eventos extremos meteorol&oacute;gicos e clim&aacute;ticos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nobre, que &eacute; membro do World Climate Research Programme (WCRP), afirma que a atmosfera desconhece fronteiras e barreiras e conecta todas as regi&otilde;es do planeta. "Muitas vezes uma perturba&ccedil;&atilde;o atmosf&eacute;rica em uma regi&atilde;o propaga-se como uma onda afetando outras regi&otilde;es, em alguns casos, bem distantes. O exemplo mais conhecido dessa interconectividade &eacute; o fen&ocirc;meno El Ni&ntilde;o". O El Ni&ntilde;o &eacute; caracterizado por um aquecimento anormal das &aacute;guas superficiais no oceano Pac&iacute;fico Tropical, e que pode afetar o clima regional e global, mudando os padr&otilde;es de vento a n&iacute;vel mundial. As chuvas normais que ocorrem sobre o Pac&iacute;fico Ocidental se deslocam para o centro do oceano e modificam as circula&ccedil;&otilde;es atmosf&eacute;ricas em escala global. A onda de calor na &Iacute;ndia, por exemplo, &eacute; atribu&iacute;da ao atraso do in&iacute;cio das chuvas intensas de ver&atilde;o, as chamadas chuvas mon&ccedil;&ocirc;nicas. H&aacute; um El Ni&ntilde;o em curso e este pode estar relacionado &agrave; recente onda de calor na &Iacute;ndia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas o fato de que a atmosfera interconecta as perturba&ccedil;&otilde;es de modo global n&atilde;o explica que extremos clim&aacute;ticos, que aconte&ccedil;am simultaneamente em regi&otilde;es distantes entre si, estejam correlacionados. A n&atilde;o ser para fen&ocirc;menos mais conhecidos, como o El Ni&ntilde;o, em geral &eacute; dif&iacute;cil atribuir causalidade para esses eventos como, por exemplo, relacionar a onda de calor na &Iacute;ndia com as chuvas excessivas em estados do sul dos EUA. Outro aspecto importante &eacute; que esses eventos extremos podem ocorrer em qualquer parte, independentemente de regi&atilde;o ou pa&iacute;s, como se viu recentemente. Mas a forma como as pessoas s&atilde;o afetadas por esses eventos e a capacidade que essa popula&ccedil;&atilde;o local tem de se recuperar s&atilde;o diversas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Vulnerabilidade e resili&ecirc;ncia</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A carioca T&acirc;nia Barreto estava em Houston, no Texas, na noite de 23 de maio, quando seu celular disparou uma s&eacute;rie de alarmes anunciando risco iminente de enchente. Instalada em uma casa de um bairro pr&oacute;ximo ao Brays Bayou, um canal que atravessa a cidade, T&acirc;nia n&atilde;o se deu conta da gravidade do risco. Na manh&atilde; do domingo, 24 de maio, o caos estava instalado. O canal havia transbordado em consequ&ecirc;ncia de uma chuva que n&atilde;o se registrava h&aacute; 40 anos: foram 250 mil&iacute;metros em tr&ecirc;s horas. Na quinta-feira que se seguiu &agrave; inunda&ccedil;&atilde;o do Brays Bayou, o <i>Houston Chronicle</i>, jornal local, registrava a manchete "Disaster could be much, much worse" (O desastre poderia ter sido muito, muito pior). Com efeito, as inunda&ccedil;&otilde;es seriam muito maiores se obras n&atilde;o estivessem sendo conduzidas h&aacute; d&eacute;cadas visando melhorar a capacidade de drenagem do Brays Bayou.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O car&aacute;ter e a gravidade dos impactos de eventos clim&aacute;ticos e meteorol&oacute;gicos extremos tamb&eacute;m dependem do grau de exposi&ccedil;&atilde;o e da vulnerabilidade das comunidades afetadas e de sua resili&ecirc;ncia. Resili&ecirc;ncia &eacute; a capacidade de um sistema de antecipar, absorver, acomodar ou se recuperar dos efeitos de um evento perigoso em tempo h&aacute;bil e eficiente, garantindo a preserva&ccedil;&atilde;o, restaura&ccedil;&atilde;o ou a melhoria da sua estrutura e de suas fun&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">T&acirc;nia Barreto &eacute; consultora em projetos de agricultura e ambiente e p&ocirc;de perceber a rapidez com que os moradores se recuperaram dos danos sofridos. "No dia seguinte, internet e coleta de lixo recicl&aacute;vel ainda n&atilde;o estavam normalizadas. Mas casas e ruas estavam sendo limpas e, como muitos moradores possuem seguro, m&oacute;veis, carpetes e outros utens&iacute;lios danificados foram descartados e substitu&iacute;dos por novos. As ruas na segunda-feira amanheceram com muito material para ser recolhido, o que foi feito de forma bem r&aacute;pida", explica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Situa&ccedil;&atilde;o bem diferente enfrenta a Ge&oacute;rgia, pequeno pa&iacute;s situado no C&aacute;ucaso, na fronteira entre a Europa e a &Aacute;sia. Ocupa uma &aacute;rea um pouco maior do que a do estado da Para&iacute;ba e possui uma popula&ccedil;&atilde;o de cerca de 4,3 milh&otilde;es de pessoas, das quais 20% vivem em Tbilisi. Com economia fr&aacute;gil, a Ge&oacute;rgia precisar&aacute; de ajuda externa para se recuperar dos impactos causados pelas inunda&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os extremos clim&aacute;ticos afetam mais profundamente os pa&iacute;ses menos desenvolvidos porque possuem menor resili&ecirc;ncia social e econ&ocirc;mica para fazer frente aos choques causados pelos extremos. Nobre afirma que "uma das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas mais importantes de adapta&ccedil;&atilde;o &agrave;s mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas &eacute; aumentar a resili&ecirc;ncia quanto aos extremos clim&aacute;ticos". E este, apesar de longo, &eacute; o caminho que precisamos percorrer em um mundo t&atilde;o desigual quanto o nosso.</font></p>      ]]></body>
</article>
