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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br> REVITALIZA&Ccedil;&Atilde;O URBANA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Nem tudo lixo, nem tudo flores: a transforma&ccedil;&atilde;o do bairro colombiano Moravia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A segunda maior cidade da Col&ocirc;mbia, Medell&iacute;n, com 2,5 milh&otilde;es de habitantes, que carrega na sua hist&oacute;ria epis&oacute;dios de narcotr&aacute;fico com intensas reverbera&ccedil;&otilde;es mundiais, adquiriu o t&iacute;tulo de "Innovative City of the Year 2013", em concurso promovido pelo Citi Group, pelo jornal <i>The Wall Street</i> e pelo Urban Land Institute.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em detrimento da imagem que a caracterizava como uma das cidades mais violentas do mundo, Medell&iacute;n passou a ser reconhecida pela transforma&ccedil;&atilde;o decorrente de a&ccedil;&otilde;es sociais empreitadas. Algumas medidas, por exemplo, inspiraram uma s&eacute;rie de iniciativas implementadas pelo governo do Rio de Janeiro no processo de "pacifica&ccedil;&atilde;o" de algumas regi&otilde;es da capital fluminense.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Moravia guarda em seu interior parte da hist&oacute;ria da cidade de Medell&iacute;n, porque, como bem disse um morador, seu solo &eacute; o passado de toda a cidade. Ali, no setor do 'morro', foram depositados desde 1977 at&eacute; 1984 os res&iacute;duos da cidade &#91;...&#93; Este fato desencandeou um fen&ocirc;meno social e cultural sem precendentes, o qual se converteu em um elemento de identifica&ccedil;&atilde;o e representa&ccedil;&atilde;o urbana, t&atilde;o marcado que o nome Moravia ainda &eacute; associado mentalmente ao antigo lix&atilde;o", afirmam Eduardo Barrera, Erika Arias e Herman Gil em "Moravia: memorias de un puerto de urbano", trabalho resultante da pesquisa desenvolvida pela equipe de Mem&oacute;ria e Patrim&ocirc;nio da Secretaria de Cultura Cidad&atilde;, de Medell&iacute;n, em 2005.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O bairro de Moravia, por ser um setor estrat&eacute;gico em Medell&iacute;n em virtude de sua localiza&ccedil;&atilde;o no contexto urbano, de sua din&acirc;mica econ&ocirc;mica e de sua acelerada transforma&ccedil;&atilde;o espacial &eacute; um dos principais representantes desse processo e da pr&oacute;pria hist&oacute;ria da cidade, descrevem Barrera e colegas.Localizado na parte norte do centro da cidade, com 45 mil hectares e 45 mil habitantes, aproximadamente, Moravia desperta curiosidade mundialmente. A fama da regi&atilde;o adv&eacute;m por ser s&iacute;mbolo de revitaliza&ccedil;&atilde;o urbana ap&oacute;s ser palco de um imenso lix&atilde;o a c&eacute;u aberto e por j&aacute; ter sido cen&aacute;rio de enfretamentos e disputas entre Estado, grupos armados e mil&iacute;cias; um passado recente caro &agrave; Col&ocirc;mbia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como toda grande interven&ccedil;&atilde;o urbana, a de Moravia traz &agrave; tona marcas que narram processos de ocupa&ccedil;&atilde;o, resist&ecirc;ncia, luta, falta de planejamento, descaso, disputas pol&iacute;ticas, jogos de interesses, mas tamb&eacute;m um movimento que pode parecer avesso &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es humanas no ambiente: de lix&atilde;o &agrave; &aacute;rea verde. Como &eacute; comum na maioria dos lix&otilde;es a c&eacute;u aberto, Moravia n&atilde;o contava com nenhum sistema de drenagem ou de tratamento de lixiviados, al&eacute;m das demais precariedades urbanas intr&iacute;nsecas a esse contexto.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v67n3/a08fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v67n3/a08thumbfig01.jpg" border="0">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Moravia foi decretada como bairro em 1993, mas sua ocupa&ccedil;&atilde;o informal e irregular remonta a meados de 1950, decorrente da desregrada migra&ccedil;&atilde;o campo-cidade causada pela urbaniza&ccedil;&atilde;o e pela viol&ecirc;ncia no campo. A regi&atilde;o j&aacute; era carente de servi&ccedil;os b&aacute;sicos quando, em 1977, nela intensificou-se o despejo de res&iacute;duos e foi iniciada a cria&ccedil;&atilde;o de um grande morro de lixo, conhecido como El Morro. Esse fato provocou um aumento maci&ccedil;o no seu processo ocupacional. Em 1984, foi dado como encerrado o lix&atilde;o, mas El Morro j&aacute; estava em m&eacute;dia com 35 metros de altura, uma base de 10 hectares, onde eram depositados mais de 500 mil quilos de lixo por dia e com 15 mil pessoas vivendo no seu entorno.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n3/a08fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na hist&oacute;ria do bairro colombiano h&aacute; v&aacute;rias tentativas de aproxima&ccedil;&atilde;o entre a comunidade e o Estado, interrompidas pela falta de continuidade das pol&iacute;ticas e dos acordos iniciados ou pelas estremecidas a&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas na regi&atilde;o. Os resultados eram levantes populares, enfrentamentos violentos e o surgimento de grupos de poder paralelo. Dentre eles, est&aacute; um dos principais protagonistas do narcotr&aacute;fico colombiano, Pablo Escobar, que teve grande empoderamento ao intervir na constitui&ccedil;&atilde;o do bairro, respaldar grupos locais e oferecer melhorias em geral, como as lumin&aacute;rias do campinho de futebol. Na d&eacute;cada de 1980, Escobar foi respons&aacute;vel tamb&eacute;m por transladar cerca de 300 fam&iacute;lias de Moravia para outro assentamento por ele financiado - Medell&iacute;n sin Tugurios, conhecido informalmente por Pablo Escobar -, ap&oacute;s um epis&oacute;dio de repress&atilde;o do Estado &agrave; comunidade quando do assassinato do ent&atilde;o ministro da Justi&ccedil;a Rodrigo Lara Bonilla, cuja autoria &eacute; atribu&iacute;da ao grupo do narcotraficante.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para a implementa&ccedil;&atilde;o do Plano Parcial de Melhoramento Integral do Moravia (2004-2011), desenvolvido pela prefeitura, retomou-se um processo de aproxima&ccedil;&atilde;o com a comunidade para dar in&iacute;cio a a&ccedil;&otilde;es no &acirc;mbito de desenvolvimento urbano, social, econ&ocirc;mico, cultural e ambiental na regi&atilde;o. Dentre as a&ccedil;&otilde;es propostas est&aacute; "Moravia florece para la vida", realizada em parceria com 17 entidades, como o Parque Explora e a C&aacute;tedra da Unesco de Sustentabilidade, que prev&ecirc; uma interven&ccedil;&atilde;o socioambiental e o tratamento do lixiviado por meio de fitorremedia&ccedil;&atilde;o via participa&ccedil;&atilde;o ativa da comunidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Somente em 2006, Moravia foi decretada como zona de calamidade p&uacute;blica pelo Minist&eacute;rio do Interior e da Justi&ccedil;a. Segundo a pesquisa "Moravia como ejemplo de transformaci&oacute;n de &aacute;reas urbanas degradadas: tecnolog&iacute;as apropriadas para la restauraci&oacute;n integral de cuencas hidrogr&aacute;ficas", da C&aacute;tedra Unesco de Sustentabilidade, Tecnol&oacute;gico de Antioquia e ONU-Habitat, a heran&ccedil;a de anos de uma montanha de lixo &eacute; a instabilidade do solo; constru&ccedil;&otilde;es habitacionais prec&aacute;rias; res&iacute;duos dom&eacute;sticos, cl&iacute;nicos e hospitalares e a cont&iacute;nua emana&ccedil;&atilde;o de gases t&oacute;xicos e lixiviados, que submetem os moradores da regi&atilde;o a um elevado e constante risco de contamina&ccedil;&atilde;o quim&iacute;ca e microbi&oacute;logica. Mais uma vez a regi&atilde;o passou por um processo de remo&ccedil;&atilde;o de grupos familiares, de forma involut&aacute;ria em muitos casos, que carregam consigo um tenso hist&oacute;rico de reassentamento e de esquecimento por parte do poder p&uacute;blico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Depois de mais um epis&oacute;dio turbulento no bairro, hoje, sobre os 35 metros de lixo h&aacute; um jardim de 30 mil metros quadrados com diversas esp&eacute;cies cultivadas pela Cooperativa de Jardineiras de Moravia (Cojadircom). O denominado Parque de Moravia foi inaugurado em abril de 2014, durante o VII F&oacute;rum Urbano Mundial, mas ainda n&atilde;o est&aacute; finalizado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A subida &agrave; antiga montanha de lixo &agrave; c&eacute;u aberto &eacute; tamb&eacute;m um caminhar por narrativas que constroem a hist&oacute;ria de Moravia. Tudo ainda est&aacute; ali, entranhado entre os res&iacute;duos, como os gases que se dissipam, nem submerso, nem aterrado, mas em camadas de sobreposi&ccedil;&atilde;o. No percurso, h&aacute; o Corredor de Arte e Mem&oacute;ria com obras pl&aacute;sticas produzidas de res&iacute;duos do lix&atilde;o; pain&eacute;is com fotos da regi&atilde;o no passado e no presente; al&eacute;m de nomes de protagonistas, de influ&ecirc;ncias pol&iacute;ticas e palavras de luta. Na chegada ao topo a vis&atilde;o &eacute; de uma cidade que teve sua constru&ccedil;&atilde;o irregular, irrefre&aacute;vel, tal como outras tantas no cen&aacute;rio da Am&eacute;rica Latina.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">El Morro &eacute; o arqu&eacute;tipo de Moravia, de Medell&iacute;n, que pode ter o seu processo de inova&ccedil;&atilde;o assentado sobre toneladas de lixo, em um passado recente e ainda premente no imagin&aacute;rio da cidade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Carol Gama    <br>   Colabora&ccedil;&atilde;o Marcela Salazar</i></font></p>      ]]></body>
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