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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A terra &eacute; azul!</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ricardo Moreira Chaloub</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor associado do Instituto de Qu&iacute;mica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IQ-UFRJ), l&iacute;der do grupo de pesquisa do Laborat&oacute;rio de Estudos Aplicados em Fotoss&iacute;ntese (Leaf)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Exclamou Iuri Gagarin, cosmonauta russo e primeiro ser humano a ir ao espa&ccedil;o, em 12 de abril de 1961.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E por que azul? Porque as mol&eacute;culas presentes em nossa atmosfera, em particular o oxig&ecirc;nio (O<sub>2</sub>) e o nitrog&ecirc;nio (N<sub>2</sub>) por serem menores, s&atilde;o mais eficientes em espalhar a radia&ccedil;&atilde;o com o menor comprimento de onda. Como na regi&atilde;o espectral do vis&iacute;vel as radia&ccedil;&otilde;es de menor comprimento de onda s&atilde;o o azul e violeta, o espalhamento seletivo promovido pelas mol&eacute;culas do ar &eacute; respons&aacute;vel pela cor azul do c&eacute;u. Entretanto, a atmosfera primitiva da terra era bem distinta da atual, sendo constitu&iacute;da principalmente por N<sub>2</sub>, g&aacute;s carb&ocirc;nico (CO<sub>2</sub>), vapor d'&aacute;gua e mon&oacute;xido de carbono (CO) em quantidades significativas, contendo pouqu&iacute;ssimo O<sub>2</sub> em decorr&ecirc;ncia da decomposi&ccedil;&atilde;o do vapor d'&aacute;gua pela radia&ccedil;&atilde;o ultravioleta (1). Estima-se que a terra tenha sido habitada h&aacute; 3,8 bilh&otilde;es de anos e que sua apar&ecirc;ncia tenha se modificado com o passar do tempo em virtude, entre outros fatores, da modifica&ccedil;&atilde;o das formas de vida presentes. Em anaerobiose, a mat&eacute;ria org&acirc;nica &eacute; fermentada a CO<sub>2</sub>, hidrog&ecirc;nio (H<sub>2</sub>), etanol (C<sub>2</sub>H<sub>6</sub>O) etc, por v&aacute;rios microrganismos, sendo a reposi&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria org&acirc;nica no ambiente desempenhada por organismos fotossint&eacute;ticos, ou seja, organismos que utilizam a luz solar como fonte de energia para promover a redu&ccedil;&atilde;o e/ou incorpora&ccedil;&atilde;o de nutrientes inorg&acirc;nicos, como CO<sub>2</sub>, N<sub>2</sub>, nitrato (NO<sub>3</sub>) nitrito (NO<sub>2</sub><sup>-</sup>), &iacute;ons am&ocirc;nia (NH<sub>4</sub><sup>+</sup>) e sulfato (SO<sub>4</sub><sup>2-</sup>) em compostos org&acirc;nicos, como glic&iacute;deos, lip&iacute;deos e prote&iacute;nas. Esta fun&ccedil;&atilde;o era desempenhada por bact&eacute;rias fotossint&eacute;ticas, majoritariamente bact&eacute;rias p&uacute;rpuras, que habitavam ambientes aqu&aacute;ticos e terrestres h&aacute; cerca de 3 bilh&otilde;es de anos. Ou seja, naquela &eacute;poca a terra era p&uacute;rpura!! (2).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; 2,7 bilh&otilde;es de anos, organismos fotossint&eacute;ticos denominados cianobact&eacute;rias ou algas verde-azuladas, desenvolveram a capacidade de utilizar a &aacute;gua (H<sub>2</sub>O) como fonte de el&eacute;trons para reduzir os nutrientes inorg&acirc;nicos e fixar o CO<sub>2</sub>. Esta fonte "inesgot&aacute;vel, barata e acess&iacute;vel" de el&eacute;trons para o processo de fixa&ccedil;&atilde;o fotossint&eacute;tica do carbono resultou na forma&ccedil;&atilde;o de um subproduto, o oxig&ecirc;nio molecular, que mudou a hist&oacute;ria da vida na terra. Em compara&ccedil;&atilde;o com as outras bact&eacute;rias fotossintetizantes, que utilizavam g&aacute;s sulf&iacute;drico (H<sub>2</sub>S) ou outros compostos inorg&acirc;nicos, ou mesmo tra&ccedil;os de compostos org&acirc;nicos como fonte de el&eacute;trons, a fotoss&iacute;ntese oxig&ecirc;nica resultante da utiliza&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua proporcionou uma grande vantagem competitiva &agrave;s cianobact&eacute;rias que prosperaram e colonizaram grandes extens&otilde;es do planeta, promovendo a oxida&ccedil;&atilde;o progressiva da superf&iacute;cie da terra. Uma das consequ&ecirc;ncias desse processo, por exemplo, foi a forma&ccedil;&atilde;o de dep&oacute;sitos minerais ricos em ferro, denominados <i>red beds</i>, compostos por part&iacute;culas revestidas com &oacute;xido de ferro, principalmente a hematita (Fe<sub>2</sub>O<sub>3</sub>). Como o elemento ferro (Fe), indispens&aacute;vel para a realiza&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias atividades biol&oacute;gicas, &eacute; sol&uacute;vel em meio aquoso e biodisponibilizado quando se encontra na sua forma reduzida, ou seja, como Fe<sup>2+</sup>, sua exposi&ccedil;&atilde;o ao oxig&ecirc;nio promoveu a oxida&ccedil;&atilde;o de grande parte do ferro dissolvido em meio aquoso a Fe<sup>3+</sup>, bem menos sol&uacute;vel, resultando em restri&ccedil;&otilde;es "nutricionais" ao desenvolvimento da vida. Al&eacute;m disso, o aumento dos n&iacute;veis de O<sub>2</sub>, inicialmente na atmosfera e posteriormente no meio aquoso, resultou na necessidade de adapta&ccedil;&atilde;o dos organismos para sobreviver na presen&ccedil;a deste "poluente". A acumula&ccedil;&atilde;o atmosf&eacute;rica de O<sub>2</sub> permitiu o aparecimento da vida aer&oacute;bia, bem como na forma&ccedil;&atilde;o de uma camada de oz&ocirc;nio necess&aacute;ria para proteger a vida terrestre da radia&ccedil;&atilde;o ultravioleta. A disponibilidade de quantidades crescentes de O<sub>2</sub> propiciou a possibilidade de utiliza&ccedil;&atilde;o de um novo e melhor aceptor terminal de el&eacute;trons, visto que a respira&ccedil;&atilde;o oxidativa proporciona muito mais energia do que a fermenta&ccedil;&atilde;o ou a utiliza&ccedil;&atilde;o de outros aceptores de el&eacute;trons, promovendo uma grande diversifica&ccedil;&atilde;o dos organismos que n&atilde;o continham organelas, ou seja, os procariotas heterotr&oacute;ficos. Entretanto, a press&atilde;o seletiva resultou em eventos simbi&oacute;ticos de um desses procariotas dando origem &agrave;s atuais mitoc&ocirc;ndrias (3).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A evolu&ccedil;&atilde;o dos organismos eucariotos fotossint&eacute;ticos &eacute; uma hist&oacute;ria de endossimbioses (<a href="/img/revistas/cic/v67n3/a10fig01.jpg">figura 1</a>). A fotoss&iacute;ntese oxig&ecirc;nica parece ter surgido apenas uma vez e uma s&eacute;rie de evid&ecirc;ncias sugerem que uma &uacute;nica endossimbiose prim&aacute;ria deu origem ao primeiro eucariota fotossint&eacute;tico (4). A diversifica&ccedil;&atilde;o subsequente resultou em tr&ecirc;s grupos de microalgas contendo plast&iacute;deos (cloroplastos) decorrentes do evento prim&aacute;rio: as algas verdes (clor&oacute;fitas), as vermelhas (rod&oacute;fitas) e as glauc&oacute;fitas, que diferentemente das outras cont&ecirc;m cianelas (plast&iacute;deos que ret&ecirc;m caracter&iacute;sticas t&iacute;picas das cianobact&eacute;rias). Posteriormente, quatro outros grupos (heterocont&oacute;fitas, hapt&oacute;fitas, cript&oacute;fitas e din&oacute;fitas) contendo microalgas douradas, marrons, pardas, vermelhas, azuladas e de colora&ccedil;&atilde;o mista vieram a ser formados como resultado de endossimbioses secund&aacute;rias, onde eucariotos n&atilde;o fotossint&eacute;ticos adquiriram uma alga vermelha como endossimbionte (5). Assim, o planeta p&uacute;rpura que havia sido "tingido de azul" pelas cianobact&eacute;rias foi sendo progressivamente colorido pelo aparecimento dos diferentes grupos de microalgas, da mesma forma que a fase azul (1901-1904) de Pablo Picasso deu lugar, entre1905-1907, ao <i>fauvismo</i> policrom&aacute;tico de Henri Matisse.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A utiliza&ccedil;&atilde;o da luz solar requer a presen&ccedil;a de pigmentos fotorreceptores (<i>clorofila-a</i> e pigmentos acess&oacute;rios) que, em associa&ccedil;&atilde;o com prote&iacute;nas, formam os complexos coletores de luz ou complexos antena (<a href="/img/revistas/cic/v67n3/a10fig02.jpg">figura 2</a>). A energia absorvida &eacute; transferida (na forma de &eacute;xcitons) entre os pigmentos fotorreceptores destes complexos, at&eacute; finalmente fluir para mol&eacute;culas fotoativas de <i>clorofila-a</i> que se encontram num microambiente especial, denominado centro de rea&ccedil;&atilde;o. Neste local ocorrem as rea&ccedil;&otilde;es fotoqu&iacute;micas da fotoss&iacute;ntese, que envolvem separa&ccedil;&atilde;o de cargas e transfer&ecirc;ncia de el&eacute;trons. Na medida em que os pigmentos acess&oacute;rios (carotenoides, bilinas e os outros tipos de <i>clorofila</i>) complementam o espectro de absor&ccedil;&atilde;o de luz da <i>clorofila-a</i> na regi&atilde;o do vis&iacute;vel, observase uma varia&ccedil;&atilde;o qualitativa e quantitativa desses compostos, tanto em fun&ccedil;&atilde;o do grupo de microalgas quanto do nicho ecol&oacute;gico em que se encontram. Por exemplo, a intensidade de luz e a distribui&ccedil;&atilde;o espectral da radia&ccedil;&atilde;o luminosa s&atilde;o bastante distintas em diferentes posi&ccedil;&otilde;es na coluna d'&aacute;gua, bem como quando comparamos um ambiente aqu&aacute;tico oligotr&oacute;fico com uma regi&atilde;o estuarina, que cont&eacute;m muitas part&iacute;culas e mat&eacute;ria org&acirc;nica em suspens&atilde;o. Assim, a composi&ccedil;&atilde;o pigmentar &eacute; naturalmente modulada por esses fatores, resultando numa atenua&ccedil;&atilde;o ou intensifica&ccedil;&atilde;o da colora&ccedil;&atilde;o da microalga. Caso extremo pode ser observado em algumas esp&eacute;cies de cianobact&eacute;rias capazes de apresentar adapta&ccedil;&atilde;o crom&aacute;tica complementar, ou seja, de se apresentar com colora&ccedil;&atilde;o esverdeada quando expostas &agrave; luz mais avermelhada ou se tornar avermelhadas quando a luz incidente &eacute; verde (6).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A <i>clorofila-a</i> &eacute; o fotopigmento mais difundido na natureza e os outros tipos de <i>clorofila</i> apresentam varia&ccedil;&otilde;es nas cadeias laterais e/ou no estado de redu&ccedil;&atilde;o. Substitui&ccedil;&otilde;es nas cadeias laterais por grupos formila (CHO) resultam em diferentes propriedades de absor&ccedil;&atilde;o de luz pela <i>clorofila-b, clorofila-d</i> e <i>clorofila-f</i>, sendo a <i>clorofila-d</i> o &uacute;nico pigmento que pode substituir todas as fun&ccedil;&otilde;es que a <i>clorofila-a</i> desempenha na fotoss&iacute;ntese oxig&ecirc;nica. Esses derivados formila exibem diferentes mudan&ccedil;as espectrais de acordo com a posi&ccedil;&atilde;o da substitui&ccedil;&atilde;o. A presen&ccedil;a de v&aacute;rios tipos de clorofila permite ao organismo captar luz em diferentes comprimentos de onda, aumentando a quantidade de luz absorvida. Por exemplo, as <i>clorofilas d</i> e <i>f</i> ao expandirem a regi&atilde;o espectral de absor&ccedil;&atilde;o da <i>clorofila-a</i> de 400-700 para 400-750nm aumentam em 19% a quantidade de f&oacute;tons dispon&iacute;veis para a fotoss&iacute;ntese (7). Cabe mencionar que a composi&ccedil;&atilde;o de pigmentos dos organismos fotossint&eacute;ticos oxig&ecirc;nicos tamb&eacute;m reflete as propriedades espectrais da superf&iacute;cie da terra, sendo que a luz e a concentra&ccedil;&atilde;o de oxig&ecirc;nio s&atilde;o os principais fatores ambientais que resultam em diferentes tipos de clorofila.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A utiliza&ccedil;&atilde;o da energia luminosa na presen&ccedil;a de oxig&ecirc;nio molecular pode propiciar a forma&ccedil;&atilde;o de uma esp&eacute;cie reativa de oxig&ecirc;nio, o oxig&ecirc;nio singleto (<sup>1</sup>O<sub>2</sub><sup>*</sup>), em decorr&ecirc;ncia da transfer&ecirc;ncia de energia de estados excitados da clorofila. Adicionalmente, a ocorr&ecirc;ncia de rea&ccedil;&otilde;es de oxirredu&ccedil;&atilde;o na presen&ccedil;a de oxig&ecirc;nio pode promover a forma&ccedil;&atilde;o de outras esp&eacute;cies reativas de oxig&ecirc;nio altamente delet&eacute;rias, como o super&oacute;xido (O<sub>2</sub><sup>-</sup>) e o per&oacute;xido (O<sub>2</sub><sup>2-</sup>), capazes de interagir com pigmentos, prote&iacute;nas, lip&iacute;deos e &aacute;cidos nucl&eacute;icos (8). Um dos principais mecanismos de preven&ccedil;&atilde;o a esse tipo de dano envolve em vegetais superiores e nos grupos constitu&iacute;dos por algas verdes, algas pardas e dinoflagelados a presen&ccedil;a de carotenoides capazes de absorver e dissipar na forma de calor o excesso de energia de excita&ccedil;&atilde;o das clorofilas. A ilumina&ccedil;&atilde;o excessiva que incide nos lagos salgados do deserto de Atacama (norte do Chile) e do altiplano boliviano promove o aparecimento de uma colora&ccedil;&atilde;o vermelha da <i>Dunaliella salina</i>, que &eacute; uma microalga verde (clor&oacute;fita), devido ao ac&uacute;mulo acentuado de um carotenoide fotoprotetor e antioxidante: o </font>&#946;<font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">-caroteno. A transfer&ecirc;ncia do </font>&#946;<font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">-caroteno atrav&eacute;s da cadeia tr&oacute;fica resulta, para nosso deleite, na colora&ccedil;&atilde;o r&oacute;sea da plumagem dos flamingos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O azul, cor da terra, parece representar um marco no desenvolvimento da vida em nosso planeta. Em 1810, Johann Wolfgang von Goethe desenvolveu uma Teoria das Cores, dividindo o espectro do vis&iacute;vel em tons positivos e negativos: "as cores do lado positivo s&atilde;o o amarelo, o vermelho-amarelado (laranja) e o amarelo-avermelhado (cin&aacute;brio), despertando sensa&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas, vivazes e inspiradoras. As cores do lado negativo s&atilde;o o azul, o vermelho-azulado e o azul-avermelhado. Elas produzem uma impress&atilde;o de inquietude, de ansiedade. Assim como o amarelo &eacute; sempre acompanhado da luz, pode-se dizer que o azul traz consigo um princ&iacute;pio de escurid&atilde;o". Al&eacute;m da fase azul de Picasso, v&aacute;rios pintores reverenciaram esta cor contradit&oacute;ria entre excita&ccedil;&atilde;o e repouso, como por exemplo o movimento "Der Blaue Reiter" ("O cavaleiro azul") desencadeado por Wassily Kandinsky em conjunto com pintores alem&atilde;es e russos (1911-1914) e, entre n&oacute;s, Jo&atilde;o C&acirc;ndido Portinari, o pintor dos azuis, durante a d&eacute;cada de 1940. Entretanto, nenhum artista seria mais identificado com esta cor do que Yves Klein, que criou obras compostas somente por uma cor profunda e vibrante que ele inventou e batizou de International Klein Blue (IKB): "o azul exerce sua atra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o porque entra em n&oacute;s, mas porque nos absorve. Atribui-se &agrave; a&ccedil;&atilde;o de pintar uma liga&ccedil;&atilde;o com o sagrado e/ou com a magia. Enquanto no primeiro caso a pintura seria um meio comunica&ccedil;&atilde;o com o sobrenatural com o intuito de encontrar explica&ccedil;&otilde;es para a vida, no segundo a pintura exerceria um dom&iacute;nio e poder sobre o representado, como por exemplo os animais e os homens pintados nas cavernas. Deve haver um significado mais profundo para o fato de que o primeiro pigmento inorg&acirc;nico sint&eacute;tico produzido pelo homem, preparado 3.000 anos a.C. no Egito, foi o <i>azul do Egito</i>, enquanto que na mesma &eacute;poca era produzido pelos chineses o <i>azul de Han</i> ou <i>azul da China</i>. Cabe mencionar que no in&iacute;cio do s&eacute;culo XVIII foi sintetizado o primeiro pigmento sint&eacute;tico moderno, o <i>azul da Pr&uacute;ssia</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; muito que o azul ilumina o mundo de diferentes maneiras. A rela&ccedil;&atilde;o entre cor e som vem da Gr&eacute;cia antiga, quando se utilizava o termo crom&aacute;tico para se referir &agrave; escala musical. Recentemente, no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, uma grande variedade de tradi&ccedil;&otilde;es musicais tomou corpo entre a popula&ccedil;&atilde;o negra na Am&eacute;rica do Norte, resultando num estilo musical melanc&oacute;lico denominado <i>blues</i>: can&ccedil;&otilde;es de lamento, usualmente relacionadas com condi&ccedil;&otilde;es sociais prec&aacute;rias ou com amores perdidos. Reiterando o marco evolutivo do nosso planeta representado pelas algas verde-azuladas, uma atmosfera lenta, sedutora, sombria e meditativa foi introduzida em agosto de 1959 por Miles Davis atrav&eacute;s de um dos mais influentes &aacute;lbuns de jazz: <i>Kind of blue</i> (Columbia Records), que contou com a participa&ccedil;&atilde;o de m&uacute;sicos excepcionais, como John Coltrane, Julian "Cannonball" Adderley, Bill Evans, Wynton Kelly, Paul Chambers e Jimmy Cobb. Este &aacute;lbum, ao fundir com a m&uacute;sica tonal elementos da m&uacute;sica modal que dotam a esse tipo de m&uacute;sica caracter&iacute;sticas hipn&oacute;ticas adequadas a cerim&ocirc;nias ritual&iacute;sticas, constituiu um marco para o desenvolvimento da m&uacute;sica moderna. "Ao combinar um conte&uacute;do complexo com uma atmosfera forte e inebriante, cria um ambiente contemplativo onde a nossa conflituada alma pode talvez encontrar algum repouso" (9).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Kasting, J. F. "Earth's early atmosphere", Science, vol. 259, pp.920-926, 1993.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Sanrom&aacute;, E.; Pall&eacute;, E.; Parenteau, M.N.; Kiang, N.Y.; Guti&eacute;rrez-Navarro, A.M.; L&oacute;pez, R.; Monta&ntilde;&eacute;s-Rodr&iacute;guez, P. "Characterizing the purple earth: Modeling the globally integrated spectral variability of the Archean Earth", Astrophys. J., vol.780, pp.52-62, 2014.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Sagan, L. "On the origin of mitosing cells", J. Theoret. Biol. vol.14, pp.255-274, 1967. Lynn Sagan foi casada com Carl Sagan (divulgador cient&iacute;fico norte-americano), tendo posteriormente adotado o nome de Lynn Margulis, que aparece na maioria das refer&ecirc;ncias cient&iacute;ficas desta pesquisadora respons&aacute;vel pela teoria da endossimbiose.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Palmer, J. D. "The symbiotic birth and spread of plastids: How many times and whodunit?", J. Phycol., vol.39, pp.4-12, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Gibbs, S. P. "The chloroplasts of some algal groups may have evolved from endosymbiotic eukaryotic algae", Ann. NY Acad. Sci., vol.361, pp.193-208, 1981.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Tandeu De Marsac N.. "Occurrence and nature of chromatic adaptation in cyanobacteria", J. Bacteriol., vol.130, pp.82-9, 1977.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7 Chen M. &amp; Blankenship, R. E. "Expanding the solar spectrum used by photosynthesis", Trends in Plant Sc., vol.16, pp.427-431, 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Asada, K. "Production and scavenging of reactive oxygen species in chloroplasts and their functions", Plant Physiol., vol.141, pp.391-396, 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Williams, R. "Kind of blue - Miles Davis e o &aacute;lbum que reinventou a m&uacute;sica moderna", Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 286p. 2011.    </font></p>      ]]></body><back>
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