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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A luz on&iacute;rica da ci&ecirc;ncia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>M&aacute;rcio Barreto</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Programa de Mestrado em Divulga&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica e Cultural (IEL/Labjor), membro dos grupos de pesquisa CTeMe (IFCH/Unicamp) e CHS (FCA/Unicamp). Email: <a href="mailto:marcio.barreto@fca.unicamp.br">marcio.barreto@fca.unicamp.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O fil&oacute;sofo Jos&eacute; Am&eacute;rico Motta Pessanha identificou duas dire&ccedil;&otilde;es do desejo na obra de Plat&atilde;o: a do desejo enquanto aspira&ccedil;&atilde;o, que leva a alma ascencionalmente &agrave; luz, &agrave; verdade, ao belo, ao bem, &agrave; sua condi&ccedil;&atilde;o origin&aacute;ria, e a do desejo enquanto apetite, que prende a alma &agrave;s vicissitudes &agrave;s quais a carne &eacute; sujeita.</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote> O primeiro &eacute; impulso de libera&ccedil;&atilde;o, o segundo aprisiona (...) Do lado do desejo-aspira&ccedil;&atilde;o ou desejo anelo situa-se o que no homem &eacute; depend&ecirc;ncia org&acirc;nica do <i>pneuma &aacute;peiron</i> (...); do lado do desejo-apetite encontra-se o que no homem &eacute; visceral e reclama reiteradamente satisfa&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea. (1) </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No mito da caverna, Plat&atilde;o assume o papel de diretor de um filme ao colocar o fogo externo que projeta as sombras acima da cabe&ccedil;a dos prisioneiros, fogo que se torna precursor do projetor de cinema; a parede da caverna corresponde a uma tela onde o jogo de luz e sombra d&aacute; movimento a imagens. No entanto, se "o mito da caverna &eacute; o texto de um significante de desejo que atormenta a hist&oacute;ria do cinema" (2) e se a caverna &eacute; o lugar onde ocorre apenas o que &eacute; exc&ecirc;ntrico e divergente da virtude, talvez o melhor fosse, como afirma Arlindo Machado com uma ponta de ironia, "manter esses fantasmas enclausurados nas profundezas de onde eles devem vir (...) segrega&ccedil;&atilde;o em guetos, em cavernas, em cinemas, como as zonas do meretr&iacute;cio" (3). Laymert Garcia dos Santos traduziu o recalque que se difundiu a partir desta met&aacute;fora de Plat&atilde;o:</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote> A alegoria da caverna transforma-se num grande dispositivo teatral ou cinematogr&aacute;fico (...). Quando a sess&atilde;o termina, o prisioneiro, o disc&iacute;pulo e n&oacute;s mesmos ficamos cegos por termos contemplado n&atilde;o mais as imagens da caverna, mas a imagem desse Deus-Pai-Sol-Real. (4) </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A caverna seria, ent&atilde;o, o lugar onde tudo o que ocorre op&otilde;e-se &agrave; finalidade superior da alma, inclusive o cinema em potencial que ali se revela. No entanto, para Gilles Deleuze,</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote> impor um limite a esse devir, orden&aacute;-lo ao mesmo, torn&aacute;-lo semelhante - e para a parte que permaneceria rebelde, recalc&aacute;-la o mais profundamente poss&iacute;vel, encerr&aacute;-la numa caverna no fundo do oceano: tal &eacute; o objetivo do platonismo em sua vontade de fazer triunfar os &iacute;cones sobre os simulacros. (5) </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O mito da caverna n&atilde;o est&aacute; livre de contradi&ccedil;&otilde;es. Plat&atilde;o, no di&aacute;logo com o disc&iacute;pulo Glauco, "interpreta o subterr&acirc;neo onde jazem os prisioneiros como sendo o nosso mundo, o mundo em que seres humanos como n&oacute;s se movem baseados em seus sentidos carnais. Ou seja, na verdade, o fora est&aacute; tamb&eacute;m dentro da caverna (...)" (6).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No interior da obra de Plat&atilde;o, os desejos pneum&aacute;ticos e viscerais interpenetram-se. Em <i>Fedro</i>, o movimento ascensional da alma em busca da luz, do belo e do verdadeiro, da pura ideia, come&ccedil;a com o inchamento das asas dos amantes, cuja descri&ccedil;&atilde;o &eacute; notavelmente fisiol&oacute;gica, carnal.</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote> Depois de tudo o que dissemos, chegamos &agrave; quarta esp&eacute;cie de del&iacute;rio: ocorre quando algu&eacute;m neste mundo v&ecirc; a beleza. Recorda-se este da beleza verdadeira, recebe asas e deseja voar para o alto (...). Logo que percebe, atrav&eacute;s dos olhos, a emana&ccedil;&atilde;o da beleza, sente esse doce calor que alimenta as asas da sua alma. Esse calor derrete os entraves da vitalidade, aquilo que, pelo endurecimento, impedia a germina&ccedil;&atilde;o. O afluxo do alimento produz uma esp&eacute;cie de intumesc&ecirc;ncia, um sopro de crescimento no corpo das asas. Esse &iacute;mpeto vai se espalhar por toda a alma. Esta, quando as asas come&ccedil;am a desenvolver-se, ferve, incha e sofre da mesma maneira como padecem as crian&ccedil;as que, ao lhe nascerem novos dentes, sentem pruridos e irrita&ccedil;&atilde;o nas gengivas. Tamb&eacute;m a alma freme, padece e sente dores, ao lhe crescerem as asas. (7) </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A carga er&oacute;tica do trecho acima e a virada no di&aacute;logo com Glauco sugerem complementaridades entre m&uacute;ltiplas pot&ecirc;ncias do cinema que v&atilde;o al&eacute;m da impress&atilde;o inicial de sua condena&ccedil;&atilde;o ao mofo da caverna: arte e ci&ecirc;ncia, entretenimento e fotogenia, dura&ccedil;&atilde;o e temporalidade espacial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>The cave of forgotten dreams</i> (A caverna dos sonhos esquecidos, 2010), dirigido por Werner Herzog, parece ser, a princ&iacute;pio, um document&aacute;rio realizado para exibi&ccedil;&atilde;o em tr&ecirc;s dimens&otilde;es; mas logo o espectador, o pr&oacute;prio Herzog e a equipe de cientistas que penetra com ele na caverna s&atilde;o tomados por uma esp&eacute;cie de embriaguez provocada pela vertiginosa percep&ccedil;&atilde;o da escala temporal que separa o homem contempor&acirc;neo dos que desenharam, h&aacute; trinta mil anos, com impressionante refinamento nos tra&ccedil;os, imagens de mamutes, bis&otilde;es, le&otilde;es e tigres nas paredes desta caverna, ancestral long&iacute;nqua da caverna de Plat&atilde;o. No sentido oposto do movimento sugerido pelo mito da caverna, a luz da equipe de filmagem entra na Caverna de Chauvet e permite ao espectador e aos membros da equipe o encontro com o que Walter Benjamin chamou de aura da obra de arte (8). As imagens desses animais foram desenhadas no relevo irregular das paredes internas; algumas tinham m&uacute;ltiplas patas, provavelmente para sugerir o movimento, uma esp&eacute;cie de proto-cinema, segundo a narrativa do pr&oacute;prio Herzog. A luz conduzida para dentro da Caverna de Chauvet &eacute; um exemplo do que liberta o cinema <i>avant l'&eacute;cran</i> de seu confinamento na alegoria plat&ocirc;nica e de sua condena&ccedil;&atilde;o &agrave; fantasmagoria depreciativa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center">* * *</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os sonhos esquecidos na caverna de Chauvet insinuam que o potencial do cinema vai al&eacute;m da elabora&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria de um devaneio. George M&eacute;li&egrave;s foi um ilusionista que permitiu ao espectador embarcar em sua nave que levava &agrave; lua e em outros sonhos que constru&iacute;a; Walt Disney especializou-se na fabrica&ccedil;&atilde;o de fantasias supostamente dirigidas ao p&uacute;blico infantil e, hoje, os efeitos especiais ajudam o p&uacute;blico a percorrer o sobe e desce das emo&ccedil;&otilde;es de um devaneio, uma montanha russa, cujo trajeto &eacute; programado pelos roteiristas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas o cinema, originalmente criado para o mero entretenimento, tamb&eacute;m oferece uma via on&iacute;rica da experi&ecirc;ncia do tempo, como acontece em <i>A caverna dos sonhos esquecidos</i> quando o espectador percebe-se <i>Homo spiritualis</i>. Tamb&eacute;m quando h&aacute; quebra da linearidade do tempo e da sequ&ecirc;ncia l&oacute;gica de causalidades, a temporalidade do sonho toma a consci&ecirc;ncia do espectador, como em <i>Molhalland drive</i> (Cidade dos sonhos - 2001), de David Lynch: a chave da pequena caixa azul abre no filme diferentes dimens&otilde;es on&iacute;ricas, como se ela fosse o recipiente de onde os sonhos se libertam para preencher a caixa escura da sala de cinema. Em <i>2001: a space odissey,</i> (2001: Uma odisseia no espa&ccedil;o, 1968), de Stanley Kubrick, a viagem de Bowman em seu retorno para casa, odisseia que o aproxima de Ulisses, &eacute; narrada com a multiplicidade temporal de um sonho. A livre associa&ccedil;&atilde;o de ideias tamb&eacute;m pode conferir ao filme a textura de um sonho, como acontece em <i>Un chien andalou</i> (Um c&atilde;o andaluz, 1928), com a nuvem fina que passa diante da Lua se atualizando na navalha que corta o globo ocular.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Deleuze, ao referir-se ao sonho no cinema, chama a aten&ccedil;&atilde;o para os <i>flash-backs</i>, especialmente os de Mankiewicz, nos quais "o tempo &eacute; exatamente o que Borges descreve em <i>O jardim dos caminhos que se bifurcam:</i> n&atilde;o &eacute; o espa&ccedil;o, &eacute; o tempo que se bifurca" (9). Os <i>flash-backs</i> remetem o presente dos personagens de Mankiewicz ao passado, um curto-circuito com o que, ent&atilde;o, era futuro:</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote> a mem&oacute;ria nunca poderia evocar e contar o passado, se n&atilde;o se tivesse constitu&iacute;do no momento em que o passado ainda era presente, portanto, um objetivo por vir. &Eacute; por isso mesmo que ela &eacute; conduta: &eacute; no presente que se faz uma mem&oacute;ria para ela servir no futuro, quando o presente for passado. (10) </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em <i>Vertigo</i> (Um corpo que cai, 1958) os curtos <i>flash-backs</i> dos personagens de Alfred Hitchcock n&atilde;o apresentam exatamente as bifurca&ccedil;&otilde;es sutis do tempo &agrave;s quais se refere Deleuze, nas quais len&ccedil;&oacute;is do passado se sobrep&otilde;em em camadas. Trata-se de uma trama que n&atilde;o precisa ser impreterivelmente narrada no passado, mas na qual o passado atualiza-se em profunda conex&atilde;o com o presente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As lembran&ccedil;as aparecem como fantasmas a perturbar os personagens: o fantasma do policial que despenca do telhado no in&iacute;cio do filme, evento que desencadeou a acrofobia de Scottie, o fantasma de Carlotta Valdes, em parte constru&iacute;do pela farsa dos criminosos, e o da pr&oacute;pria Madeleine, se apresentam como inc&ocirc;modos a serem exorcizados pelo esclarecimento racional dos acontecimentos, pelo encaixe das pe&ccedil;as de um quebra-cabe&ccedil;as que, soltas, adquirem a atmosfera surreal de um sonho. Mas a trama tamb&eacute;m &eacute; constitu&iacute;da por lapsos de mem&oacute;ria, ainda que falsos e encenados pela falsa Madeleine; em<i> Vertigo</i>, lembran&ccedil;as perturbadoras alternam-se com aus&ecirc;ncias de mem&oacute;ria e o espectador v&ecirc;-se entre o desejo de desvendar os enigmas que se formam ao longo do enredo e a sedu&ccedil;&atilde;o que a possibilidade dos fen&ocirc;menos sobrenaturais oferece, o que faz do filme uma das pel&iacute;culas que melhor representam o sonho, pois "o conte&uacute;do on&iacute;rico &eacute; tratado com a espessura de evento real" (11). Os tons, ora azulados, ora esverdeados como o do luminoso do <i>Empire Hotel</i>, refor&ccedil;am a atmosfera do pesadelo de Scottie, o qual se insinua constantemente durante a vig&iacute;lia, mas que &eacute; contido por uma racionalidade promissora de esclarecimentos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Scottie &eacute; um detetive, um investigador que se apaixona por seu objeto de pesquisa, rompendo o protocolo b&aacute;sico da conduta do cientista: manter a dist&acirc;ncia segura do objeto para abarc&aacute;-lo de um ponto de vista dominador, sem envolvimentos passionais que turvem a vis&atilde;o objetiva do m&eacute;todo cient&iacute;fico. Se a f&iacute;sica qu&acirc;ntica incluiu o observador nas medi&ccedil;&otilde;es em escalas subat&ocirc;micas, isto n&atilde;o significa, nem de longe, que a paix&atilde;o pelo objeto de pesquisa fa&ccedil;a parte do m&eacute;todo de investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. No entanto, o descontrole de Scottie em sua paix&atilde;o e em sua enfermidade psicol&oacute;gica, o conhecimento informal do vendedor de livros e a relutante aceita&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos sobrenaturais s&atilde;o decisivos para o esclarecimento dos fatos que comp&otilde;em o enredo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A analogia entre o detetive e o cientista permite uma entrada no filme para inusitada percep&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia. Nesta via, um elemento central, a queda, pontua o filme do in&iacute;cio ao fim: se ma&ccedil;&atilde; imp&ocirc;s-se na cultura ocidental como fruto que provocou a Queda do Para&iacute;so, ela tamb&eacute;m surgiu imponente na hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia com o triunfo do mecanicismo pela revela&ccedil;&atilde;o da lei da atra&ccedil;&atilde;o gravitacional. Tal coincid&ecirc;ncia pode n&atilde;o ter sido apenas casual, embora o referido fruto n&atilde;o seja mencionado no G&ecirc;nesis e n&atilde;o haja registros confi&aacute;veis sobre ele na obra de Newton e na literatura a seu respeito.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ma&ccedil;&atilde; de Ad&atilde;o deu peso ao homem, mas n&atilde;o lhe deu asas. Esta for&ccedil;a, que prende o homem &agrave; terra, o lembra a todo instante da dire&ccedil;&atilde;o de seu destino, como se a chama da vida fosse o constante esfor&ccedil;o no sentido ascendente para vencer a gravidade que, um dia, ir&aacute; devolver o corpo ao p&oacute; de onde veio, tal como foi sentenciado na ocasi&atilde;o da Expuls&atilde;o do Para&iacute;so. O aprisionamento gravitacional do corpo &eacute; met&aacute;fora do que, em Plat&atilde;o, Pessanha (1) classificou como desejo-apetite, pois simboliza tamb&eacute;m o apego &agrave;s paix&otilde;es, a cess&atilde;o &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o, a pequeneza da alma.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em Newton, a ma&ccedil;&atilde; vai permitir o equacionamento dessa for&ccedil;a como lei universal: a queda do fruto &eacute; a centelha que faz relacionar a for&ccedil;a de atra&ccedil;&atilde;o entre a Terra e a ma&ccedil;&atilde; com a for&ccedil;a que mant&eacute;m a Lua ao redor da Terra. A partir da&iacute;, Newton persegue a formula&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica que une as leis celestes e terrestres: F=G.m.m'/d<sup>2</sup>. A descoberta de Newton est&aacute; carregada de metaf&iacute;sica, pois ele acreditava que Deus havia colocado seu pr&oacute;prio discurso nas leis da natureza para que os que as descobrissem pudessem ouvi-lo. Newton atribui &agrave; gravidade um car&aacute;ter divino, realizando, assim, o caminho de volta da Queda, a ascens&atilde;o intelectual que coroou a ci&ecirc;ncia moderna. O que moveu Newton em sua descoberta foi, em consider&aacute;vel medida, sua obsess&atilde;o pelo Deus-Pai, onipotente e onipresente, ou seja, aquilo que Pessanha classificaria como um desejo-aspira&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A chave da descoberta de Newton est&aacute; no reconhecimento da n&atilde;o distin&ccedil;&atilde;o entre c&eacute;u e terra, entre o mundo dos fen&ocirc;menos ordin&aacute;rios, como o de um corpo que cai, e o mundo dos fen&ocirc;menos celestes. A for&ccedil;a que atrai uma ma&ccedil;&atilde; &agrave; terra &eacute; da mesma natureza da for&ccedil;a que mant&eacute;m a Lua ao redor da Terra, a Terra ao redor do Sol, for&ccedil;a que, enfim, mant&eacute;m est&aacute;vel toda a estrutura do universo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A origem desse aspecto fundamental na concep&ccedil;&atilde;o da lei da gravita&ccedil;&atilde;o universal &eacute; incontorn&aacute;vel: a fa&iacute;sca que iluminou o pensamento de Newton vem de seus dedicados estudos &agrave; alquimia; mais especificamente, vem da frase que abre a T&aacute;bua de Esmeralda, atribu&iacute;da a Hermes Trismegisto: "O que est&aacute; embaixo &eacute; como o que est&aacute; no alto; o que est&aacute; no alto &eacute; como o que est&aacute; embaixo" (12).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A norte-americana Betty Dobbs, em <i>The foundations of Newton's alchemy</i> (13), mostrou que o conceito de for&ccedil;a a dist&acirc;ncia &eacute; oriundo da tradi&ccedil;&atilde;o herm&eacute;tica, daquilo que na alquimia &eacute; conhecido por <i>princ&iacute;pio ativo</i> (ou <i>esp&iacute;rito universal</i>). No Esc&oacute;lio Geral dos <i>Principia</i>, Newton escreveu: "agora poder&iacute;amos acrescentar algo concernente a certo esp&iacute;rito mais sutil que penetra e jaz escondido em todos os corpos s&oacute;lidos; um esp&iacute;rito atrav&eacute;s de cuja for&ccedil;a e a&ccedil;&atilde;o as part&iacute;culas dos corpos se atraem, e se mant&ecirc;m unidas" (14). Newton vai perseguir a ideia de que as leis que valem para o micromundo das menores part&iacute;culas da mat&eacute;ria valem tamb&eacute;m para o movimento dos planetas. Ele teria transferido o <i>esp&iacute;rito sutil</i> para o macrocosmo, associando, como apregoa a T&aacute;bua de Esmeralda, o que est&aacute; acima ao que est&aacute; embaixo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro exemplo dessa transfer&ecirc;ncia do mundo de pequena escala para o mundo de escala c&oacute;smica &eacute; o da <b>estrela de antim&ocirc;nio:</b> os alquimistas ficavam fascinados com o resultado da rea&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica entre o ferro e o sulfeto de antim&ocirc;nio. O antim&ocirc;nio (Sb) &eacute; um semimetal naturalmente encontrado ligado ao enxofre, ou seja, na forma de sulfeto de antim&ocirc;nio (Sb<sub>2</sub>S<sub>3</sub>). Para isolar o antim&ocirc;nio, utiliza-se calor para provocar a rea&ccedil;&atilde;o do referido sulfeto com o ferro (Fe). Os cristais de antim&ocirc;nio resultantes na rea&ccedil;&atilde;o s&atilde;o finos e longos e, muitas vezes, se arranjam em volta de um ponto, adquirindo a apar&ecirc;ncia de uma estrela.  Para Newton, as linhas radiais em torno de um ponto sugeriam uma converg&ecirc;ncia para o centro e, em 1669, ele teria associado essa converg&ecirc;ncia a for&ccedil;as de atra&ccedil;&atilde;o. Newton achou a estrela de antim&ocirc;nio parecida com uma estrela que fica no centro da constela&ccedil;&atilde;o de Le&atilde;o e, por isso, adotou o Le&atilde;o como s&iacute;mbolo alqu&iacute;mico do antim&ocirc;nio. Assim, a ideia de atra&ccedil;&atilde;o sugerida pelos raios convergentes da estrela de antim&ocirc;nio foi transferida aos c&eacute;us, n&atilde;o apenas por semelhan&ccedil;a com a estrela da constela&ccedil;&atilde;o de Le&atilde;o, mas tamb&eacute;m pela ideia de for&ccedil;a atrativa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que est&aacute; acima com o que est&aacute; embaixo: no cerne da ci&ecirc;ncia moderna, o interior e o exterior da caverna se confundem. Em <i>Vertigo</i>, quando Scottie sobe a escadaria que d&aacute; acesso &agrave; torre da igreja, &eacute; atacado por sua acrofobia; paradoxalmente, &eacute; um sentimento col&eacute;rico, a raiva, que o leva a vencer a vertigem e a subir a escada que leva &agrave; verdade. Mas cada subida tem como consequ&ecirc;ncia uma queda.</font></p>     <p align="center">* * *</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A luz tem propriedades ondulat&oacute;rias, mas comporta-se tamb&eacute;m como part&iacute;cula (f&oacute;ton). O f&iacute;sico alem&atilde;o Max Born postulou que os f&oacute;tons de luz s&atilde;o part&iacute;culas cujos comportamentos s&atilde;o regidos por probabilidades de sofrerem interfer&ecirc;ncias e difra&ccedil;&otilde;es, como as ondas. A dualidade onda-part&iacute;cula, inicialmente proposta por Niels Bohr, &eacute; particularmente interessante no misto est&aacute;vel de homem e natureza, de pensamento e de fen&ocirc;menos naturais que se encontram no cinemat&oacute;grafo, pois ressoa n&atilde;o apenas nesse pr&oacute;prio misto enquanto analogia de complementaridade, mas tamb&eacute;m na tens&atilde;o entre as duas formas de desejo no interior da obra de Plat&atilde;o, nas complementaridades entre luz e sombra e entre o <b>tempo matem&aacute;tico</b> e a pura <b>dura&ccedil;&atilde;o</b>. Pois se a luz &eacute; mat&eacute;ria-prima do cinema, o tempo tamb&eacute;m &eacute;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Andrei Tarkovsky definia o trabalho do diretor de um filme como o ato de "esculpir o tempo" (15). Os termos esculpir e tempo parecem estar em insol&uacute;vel contradi&ccedil;&atilde;o, pois, das artes, a escultura talvez seja a mais est&aacute;tica no espa&ccedil;o, e o tempo se apresenta como incompar&aacute;vel fluidez fugitiva.</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote> O conflito, no entanto, se dissolve se ouvirmos o termo escultura como o modo atrav&eacute;s do qual o tempo se traduz em espa&ccedil;o. Vale dizer: se materializa. Ent&atilde;o a escultura surge n&atilde;o como objeto inerte, mas enquanto a&ccedil;&atilde;o que vai realizando o tempo, e que &eacute; o pr&oacute;prio tempo que vai realizando. A&ccedil;&atilde;o que &eacute; transforma&ccedil;&atilde;o. (16) </blockquote> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao tempo, tal como &agrave; luz em sua dualidade onda-part&iacute;cula, &eacute; atribu&iacute;da, portanto, uma dupla natureza: por um lado, &eacute; uma medida geralmente tomada a partir de um movimento no espa&ccedil;o; por outro, &eacute; dura&ccedil;&atilde;o, continuidade que escapa entre os dedos da an&aacute;lise e que se revela em sua a&ccedil;&atilde;o transformadora. O cinema incorporou esta dupla natureza do tempo. Walter Benjamin o percebeu como indissoci&aacute;vel da era da reprodutibilidade t&eacute;cnica e da cultura de massa, como rea&ccedil;&atilde;o compensat&oacute;ria ao empobrecimento da experi&ecirc;ncia na modernidade regida pela medida do tempo em rel&oacute;gios, mas tamb&eacute;m, referindo-se &agrave; fotografia (que segundo ele continha virtualmente o cinema), reconheceu que "a t&eacute;cnica mais exata pode dar &agrave;s suas cria&ccedil;&otilde;es um valor m&aacute;gico" (18). No cinema, a magia &eacute; a&ccedil;&atilde;o transformadora, escultura do tempo viabilizada pela t&eacute;cnica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A ci&ecirc;ncia moderna triunfou ao fazer do tempo uma vari&aacute;vel independente, relacionando cada instante &agrave; posi&ccedil;&atilde;o de um m&oacute;vel. A an&aacute;lise do movimento ganha precis&atilde;o quando um intervalo de tempo tende a zero e reduz-se &agrave; abstra&ccedil;&atilde;o de um instante, mas a ess&ecirc;ncia do tempo, o seu fluxo cont&iacute;nuo indivis&iacute;vel, &eacute; sacrificado. Em outras palavras, "no que diz respeito ao tempo, a ci&ecirc;ncia conta os instantes, marca as simultaneidades, mas segue sem apreciar o que se passa durante os intervalos" (17).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A princ&iacute;pio, a Teoria da Relatividade de Einstein, embora tenha introduzido a multiplicidade de medidas do tempo em substitui&ccedil;&atilde;o ao car&aacute;ter absoluto do tempo newtoniano, n&atilde;o retirou o tempo da ci&ecirc;ncia de seu inv&oacute;lucro espacial. O tempo homog&ecirc;neo &eacute; uma fic&ccedil;&atilde;o, um &iacute;dolo da linguagem criado pela intelig&ecirc;ncia; o tempo m&uacute;ltiplo da relatividade &eacute; uma fic&ccedil;&atilde;o sofisticada: "Devemos a esta teoria a primeira ideia de um meio a quatro dimens&otilde;es englobando o tempo e o espa&ccedil;o. (...) Uma quarta dimens&atilde;o do espa&ccedil;o &eacute; sugerida por toda espacializa&ccedil;&atilde;o do tempo: ela tem sido, portanto, sempre implicada por nossa ci&ecirc;ncia e por nossa linguagem" (19).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O cinema nasce da decomposi&ccedil;&atilde;o do movimento por homens de ci&ecirc;ncia, como Marey e Londe, cujos interesses passavam longe da cria&ccedil;&atilde;o do cinema. Mas empreendedores como os irm&atilde;os Lumi&egrave;re viram o potencial para neg&oacute;cios que a reconstitui&ccedil;&atilde;o artificial do movimento atrav&eacute;s da sucess&atilde;o das imagens est&aacute;ticas oferecia. A princ&iacute;pio, o procedimento parece profano, tanto do ponto de vista cient&iacute;fico quanto art&iacute;stico. Como descreveu Bergson na famosa passagem sobre o cinemat&oacute;grafo em <i>A evolu&ccedil;&atilde;o criadora</i>,</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote> O procedimento consistiu, em suma, em extrair de todos os movimentos pr&oacute;prios a todas as figuras um movimento impessoal, abstrato e simples, o movimento geral, por assim dizer, em coloc&aacute;-lo no aparelho, e em reconstituir a individualidade de cada movimento particular pela composi&ccedil;&atilde;o deste movimento an&ocirc;nimo com as atitudes pessoais. Este &eacute; o artif&iacute;cio do cinemat&oacute;grafo. (20) </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que tornou poss&iacute;vel o cinema foi a seguran&ccedil;a da equidist&acirc;ncia das imagens fotogr&aacute;ficas, as quais, gra&ccedil;as &agrave; perfura&ccedil;&atilde;o da fita onde est&atilde;o perfiladas, podiam ser exibidas num fluxo constante. A perfura&ccedil;&atilde;o da fita e a const&acirc;ncia da velocidade com que o aparelho eletrificado a desenrolava garantiram a percep&ccedil;&atilde;o de continuidade fluida do movimento, tal como o tempo tem seu fluxo reconstitu&iacute;do pela somat&oacute;ria de instantes, tal como uma reta &eacute; composta por um conjunto de pontos sucessivos. Mas a inumerabilidade da reta que atormentou Georg Cantor at&eacute; sua morte reflete a impossibilidade de reconstitui&ccedil;&atilde;o do tempo a partir de instantes e a artificialidade da recomposi&ccedil;&atilde;o do movimento a partir de imagens im&oacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, Deleuze acrescenta &agrave; argumenta&ccedil;&atilde;o de Bergson que os meios artificiais pelos quais o cinema se concretiza n&atilde;o implicam a artificialidade do seu resultado: a "imagem-movimento" e o seu "corte m&oacute;vel" conferem ao cinema a possibilidade de uma nova percep&ccedil;&atilde;o da realidade, ou ainda, a cria&ccedil;&atilde;o de uma nova realidade (22).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O cinemat&oacute;grafo dos irm&atilde;os Lumi&egrave;re perpetuou uma s&eacute;rie de t&eacute;cnicas que o precederam e se afirmou enquanto objeto t&eacute;cnico, este "misto est&aacute;vel do humano e do natural" (23), um encontro entre os pensamentos l&oacute;gicos que nele se coagulam e fen&ocirc;menos naturais regidos por propriedades da luz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O feixe luminoso emitido pelo projetor reconstitui a luz original da cena que foi subtra&iacute;da pela c&acirc;mera no momento da filmagem. Refletido na tela de proje&ccedil;&atilde;o, o feixe modulado pelas imagens que o olho do cinegrafista capturou, volta ao olho, agora o do espectador. A opera&ccedil;&atilde;o consiste, portanto, na substitui&ccedil;&atilde;o da luz "real" pela luz "artificial" gerada pelo projetor. Mas haveria a fronteira entre o real e o artificial nesse caso? O cinemat&oacute;grafo, ao reconstituir a luminosidade das imagens que estavam guardadas na pel&iacute;cula instaura uma nova realidade, que &eacute; ao mesmo tempo real e artificial, pois se instaura na mem&oacute;ria do espectador indistintamente das imagens que o impressionam fora do universo projetado na tela.</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote> Descoberta e constru&ccedil;&atilde;o do homem, realiza&ccedil;&atilde;o de uma historicidade que n&atilde;o &eacute; somente eventual, mas que &eacute; tamb&eacute;m reserva de virtualidades e potencial de autocria&ccedil;&atilde;o, este &eacute; o significado da prova &agrave; qual o cinema submete a humanidade atrav&eacute;s de um novo modo de consci&ecirc;ncia e de conhecimento, de aprecia&ccedil;&atilde;o e de representa&ccedil;&atilde;o. Retorno da realidade do homem ao conhecimento do homem, do gesto &agrave; consci&ecirc;ncia do gesto, com certa defasagem e uma formaliza&ccedil;&atilde;o que definida apaga ou refor&ccedil;a seletivamente um ou outro aspecto, uma ou outra dimens&atilde;o, o cinema &eacute; uma esp&eacute;cie de regime da rela&ccedil;&atilde;o do homem consigo pr&oacute;prio, como indiv&iacute;duo e como grupo, consigo pr&oacute;prio e com o outro. (24) </blockquote> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center">* * *</p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote> Mais que na lua ou no cometa    <br>  Ou na constela&ccedil;&atilde;o    <br>  O sangue impresso na gazeta    <br>  Tem mais inspira&ccedil;&atilde;o    <br>  No bucho do analfabeto    <br>  Letras de macarr&atilde;o    <br>  Letras de macarr&atilde;o    <br>  Fazem poema concreto    <br>  (trecho de <i>A bela e a fera</i>,can&ccedil;&atilde;o de Chico Buarque e Edu Lobo) </blockquote> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Leonardo Da Vinci escrevia f&aacute;bulas, ainda que essa habilidade seja pouco conhecida, talvez ofuscada pelas outras tantas que possu&iacute;a. <i>A pedra e o metal</i> conta a hist&oacute;ria de uma pedra que, golpeada diversas vezes pelo metal, protesta indignada. O metal ent&atilde;o responde: "se voc&ecirc; tiver um pouco de paci&ecirc;ncia, ver&aacute; que posso fazer voc&ecirc; produzir uma coisa maravilhosa. (...) De repente, fez-se uma fa&iacute;sca que acendeu um fogo maravilhoso, com o poder de fazer coisas fant&aacute;sticas" (25).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A centelha tem um encanto, uma magia que convida ao devaneio, mas &eacute; met&aacute;fora tamb&eacute;m da luz que Leonardo levar&aacute; para dentro dos corpos por ele dissecados para estudar a anatomia humana, como hoje uma fibra &oacute;tica o faz num procedimento de endoscopia, por exemplo. Ao trazer a luz para dentro, Da Vinci faz uma esp&eacute;cie de invers&atilde;o no sentido do movimento que comumente se associa ao mito da caverna, alegoria na qual a plenitude da luz e da verdade restringe-se &agrave; exterioridade. A pedra e o metal s&atilde;o personagens antropomorfizados que interagem para produzir uma fa&iacute;sca fascinante e on&iacute;rica como a de uma estrela cadente, mas que tamb&eacute;m &eacute; capaz de iluminar as sombras dos dogmas e de revelar a realidade do corpo humano sem mist&eacute;rios.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Luz e sombra, fasc&iacute;nio e revela&ccedil;&atilde;o, f&iacute;sica e metaf&iacute;sica: o cinema, como nenhuma outra arte, foi capaz de sintetizar a t&eacute;cnica da recomposi&ccedil;&atilde;o artificial do movimento e o que Jean Epstein chamou de <b>fotogenia,</b> "momentos fugazes da experi&ecirc;ncia do espectador de cinema, irracionaliz&aacute;veis cognitivamente e de descri&ccedil;&atilde;o imposs&iacute;vel pela linguagem verbal" (26); permitiu ainda uma nova percep&ccedil;&atilde;o da realidade por ser "um instrumento privilegiado que, como a luneta ou microsc&oacute;pio, revela aspectos do universo at&eacute; ent&atilde;o desconhecidos" (27).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O cinema, luz on&iacute;rica da ci&ecirc;ncia, dissolve os fantasmas da alegoria da caverna que contagiaram a cultura ocidental e promove a complementaridade entre o tempo matem&aacute;tico regulado pela perfura&ccedil;&atilde;o da fita e o tempo que est&aacute; impresso no filme, dura&ccedil;&atilde;o que coincide na consci&ecirc;ncia do espectador com o murm&uacute;rio ininterrupto de sua vida interior.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se em <i>Vertigo</i> a queda pode remeter o espectador &agrave; for&ccedil;a da gravidade que prende o corpo humano &agrave; terra e &agrave; imediatez dos desejos viscerais, ela tamb&eacute;m &eacute; reveladora da relev&acirc;ncia do descontrole na busca de uma verdade que n&atilde;o &eacute; absoluta, mas em constante transforma&ccedil;&atilde;o. Se, por um lado, a gravidade aprisiona, por outro, ela &eacute; a mais viva liga&ccedil;&atilde;o do homem com o cosmo. Quando um raio de luz se curva, a queda &eacute; t&atilde;o para baixo quanto o tempo &eacute; para frente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Pessanha, J. A. M. O desejo: a &aacute;gua e o mel. S&atilde;o Paulo: Cia das Letras. 1990. p. 91.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Baudry, J.-L. Le dispositif: approches metapsycologiques de l'impression de realit&eacute;. Paris: Communications. 1975. p. 63.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Machado, A. Pr&eacute;-cinema e p&oacute;s-cinema. Campinas: Papirus. 2013. p. 30.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Santos, L. G. Desregulagens - educa&ccedil;&atilde;o, planejamento e tecnologia como ferramenta social. S&atilde;o Paulo: Brasiliense. 1981. p. 192-193.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Deleuze, G. L&oacute;gica do sentido. S&atilde;o Paulo: Perspectiva. 1974. p. 264.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Machado, A. Pr&eacute;-cinema e p&oacute;s-cinema. Campinas: Papirus. 2013. p. 30.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Plat&atilde;o. Fedro. Lisboa, Guimar&atilde;es Editores. 1998. p. 19.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Benjamin, W. Walter Benjamim. Obras escolhidas (Magia e t&eacute;cnica, arte e pol&iacute;tica). S&atilde;o Paulo: Editora Brasiliense. 1985. p. 170.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Deleuze, G. Cinema 1: A imagem-movimento. S&atilde;o Paulo: Brasiliense. 1983. p. 65.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Deleuze, G. Cinema 1: A imagem-movimento. S&atilde;o Paulo: Brasiliense. 1983. p. 68.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. Machado, A. Pr&eacute;-cinema e p&oacute;s-cinema. Campinas: Papirus. 2013. p. 52.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. Hermes Trismegisto. A t&aacute;bua de esmeralda. In: Corpus Hermeticum. S&atilde;o Paulo: Hemus. 1990. p. 126.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. Dobbs, B. J. T. The foundations of Newton's alchemy or The hunting of the greene lyon. Cambridge: Cambridge University Press. 1983.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14. Newton, I. Principios matem&aacute;ticos de la filosof&iacute;a natural, 2. Madrid: Alianza Editorial. 1987. p. 785.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">15. Tarkovsky, A. Esculpir o tempo. S&atilde;o Paulo, Martins Fontes. 1990. p. 72.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">16. Santos, L. G. dos. Tempo de ensaio. S&atilde;o Paulo. Cia das Letras. 1989. p. 111.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">17. Bergson, H. Dur&eacute;e et simultan&eacute;it&eacute;. Paris: Quadridge/PUF. 1998. p. 57.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">18. Benjamin, W. Walter Benjamim. Obras escolhidas (Magia e t&eacute;cnica, arte e pol&iacute;tica). S&atilde;o Paulo: Editora Brasiliense. 1985. p. 91.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">19. Bergson, H. Dur&eacute;e et simultan&eacute;it&eacute;. Paris: Quadridge/PUF. 1998. p. 149.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">20. Bergson, H. A evolu&ccedil;&atilde;o criadora. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70. 2001. p. 271.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">21. Bergson, H. A evolu&ccedil;&atilde;o criadora. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70. 2001. p. 271.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">22. Deleuze, G. Cinema 1: a imagem-movimento. S&atilde;o Paulo: Brasiliense. 1983. p. 11.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">23. Simondon, G. Du mode d'existence des objets techniques. Paris, Aubier-Montaigne. 1969. p. 245.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">24. Simondon, G. Sur la technique. Paris: Presses Universitaires de France. 2013. p. 356.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">25. Da Vinci, L. F&aacute;bulas e lendas. S&atilde;o Paulo, C&iacute;rculo do Livro. 1972. p. 13.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">26. Epstein, J. Ecrits sur le cinema. 1921 - 1953. Paris: Seghers. 1974. p. 145.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">27. Epstein, J. Ecrits sur le cinema. 1921 - 1953. Paris: Seghers. 1974. p. 17.    </font></p>      ]]></body><back>
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