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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> BIG BROTHER INFANTIL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Privacidade e contato prematuro com internet s&atilde;o pol&ecirc;micas causadas por nova boneca</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patr&iacute;cia Mariuzzo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ela tem um microfone embutido que capta os sons ao redor. Uma conex&atilde;o Wi-Fi envia esses dados para os servidores do fabricante onde poder&atilde;o ser armazenados e analisados. Al&eacute;m disso, ela pode aumentar seu repert&oacute;rio de palavras conforme vai sendo utilizada. N&atilde;o, n&atilde;o estamos falando de um novo aplicativo de celular ou de um novo computador port&aacute;til. A descri&ccedil;&atilde;o acima &eacute; de uma boneca, a Hello Barbie, lan&ccedil;amento da fabricante de brinquedos norte-americana Mattel, que deve chegar &agrave;s prateleiras das lojas nos Estados Unidos em outubro deste ano. Em um mundo onde as crian&ccedil;as entram cada vez mais cedo no mundo digital, a Hello Barbie pode ser interpretada como uma tentativa de trazer os produtos da gigante dos brinquedos para o s&eacute;culo XXI para atrair esses consumidores e, com isso, vender mais bonecas. Segundo comunicado da Mattel, as vendas globais ca&iacute;ram 6% no quarto trimestre de 2014. Mas, que desafios e implica&ccedil;&otilde;es uma boneca conectada com a internet nas m&atilde;os de crian&ccedil;as, em geral menores de 10 anos, representa para os pais e para a pr&oacute;pria crian&ccedil;a? Susan Linn, psic&oacute;loga e diretora da campanha por uma inf&acirc;ncia sem comerciais pediu o fim da produ&ccedil;&atilde;o da nova Barbie. Em artigo publicado no jornal <i>O Estado de S. Paulo</i>, em mar&ccedil;o deste ano, ela afirmou que quando as crian&ccedil;as fa-lam com brinquedos, elas podem revelar segredos, trabalhar experi&ecirc;ncias perturbadoras e explorar seus sonhos e esperan&ccedil;as e que esse conte&uacute;do deveria permanecer restrito ao ambiente familiar e n&atilde;o ser exposto a uma grande corpora&ccedil;&atilde;o cujo interesse &eacute; financeiro.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Big brother infantil</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A nova boneca falante da Mattel entra na categoria dos chamados <i>smart toys</i> ou brinquedos inteligentes que podem interagir com crian&ccedil;as por meio de uma s&eacute;rie de recursos tecnol&oacute;gicos que permitem, por exemplo, que eles aceitem comandos de voz, mexam partes do corpo, respondam a perguntas etc. Os mais modernos podem ainda ser conectados com outros dispositivos, caso da Hello Barbie. A nova boneca funciona da seguinte maneira: ao apertar um bot&atilde;o na cintura da boneca, ela come&ccedil;a a "escutar" o que a crian&ccedil;a diz. O texto &eacute; gravado e enviado via Wi-Fi para um servidor da ToyTalk, uma <i>start-up</i> com sede na cidade de S&atilde;o Francisco, nos Estados Unidos, que desenvolveu o software para a Mattel. Na empresa a fala da crian&ccedil;a &eacute; reconhecida e processada e, com esses dados, a Barbie pode dar respostas inteligentes. Se a crian&ccedil;a fala o nome de sua professora ou do seu cachorro, por exemplo, a Hello Barbie pode mencionar isso em uma conversa posterior. A boneca tamb&eacute;m pode participar de jogos interativos e contar hist&oacute;rias. O software permite ainda que os pais limitem os assuntos sobre os quais a Barbie pode conversar e que eles recebam e-mails com o conte&uacute;do das conversas com a crian&ccedil;a. Para o advogado Dennys Antonialli, diretor do InternetLab, Centro de Pesquisa em Direito e Tecnologia, o problema est&aacute; tanto na coleta dos di&aacute;logos que, no caso da crian&ccedil;a, podem ser especialmente fantasiosos, &iacute;ntimos ou inocentes, quanto no tratamento que &eacute; dado a eles por parte da empresa. "Como garantir para quais finalidades ser&atilde;o usados? Como garantir a seguran&ccedil;a desses registros para que eles n&atilde;o vazem e cheguem &agrave;s m&atilde;os de terceiros?", questiona.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Amea&ccedil;a &agrave; privacidade</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No lan&ccedil;amento da boneca, no in&iacute;cio deste ano, Mattel e ToyTalk afirmaram que a coleta de dados tem como finalidade melhorar o sistema de reconhecimento de voz e que os dados n&atilde;o podem ser usados para marketing ou publicidade, embora ainda n&atilde;o tenham divulgado uma pol&iacute;tica de privacidade para o novo brinquedo. "Confiar a uma empresa registros sobre o que a crian&ccedil;a fala enquanto manuseia um brinquedo equivale a dar a essa empresa acesso aos desejos e fantasias da crian&ccedil;a. Bonecas, em especial, s&atilde;o figuras que as crian&ccedil;as assumem como amigas e confidentes. Essas s&atilde;o informa&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o s&atilde;o &uacute;teis apenas para personalizar a intera&ccedil;&atilde;o da boneca com a crian&ccedil;a, como defende a empresa, mas, tamb&eacute;m, para estudar seu comportamento. Isso pode gerar perfis bastante detalhados sobre as prefer&ecirc;ncias de cada crian&ccedil;a, perfis esses que podem servir a finalidades indesej&aacute;veis, como a publicidade. A exist&ecirc;ncia desses perfis detalhados sobre a personalidade das crian&ccedil;as e suas fam&iacute;lias &eacute; uma s&eacute;ria amea&ccedil;a &agrave; sua privacidade", acredita Antonialli.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n3/a18fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ele observa ainda que &agrave; medida que a empresa "aprende" mais sobre a crian&ccedil;a, mais ela tem capacidade para tornar a boneca especialmente persuasiva. "Se a crian&ccedil;a revela que gosta de tomar sorvete, n&atilde;o parece razo&aacute;vel que a boneca 'sugira' que a crian&ccedil;a pe&ccedil;a de anivers&aacute;rio uma m&aacute;quina de fazer sorvete fabricada pela mesma empresa?", diz o advogado. Al&eacute;m da quest&atilde;o da publicidade, Susan Linn lembra tamb&eacute;m que a empresa ter&aacute; acesso a todo tipo de di&aacute;logo produzido pela crian&ccedil;a e sua fam&iacute;lia. "E se as crian&ccedil;as mencionarem assuntos delicados, como viol&ecirc;ncia ou abuso por parte de familiares ou conhecidos, como a empresa lidaria com informa&ccedil;&otilde;es como essas?", questionou Linn. Em 1938, o fil&oacute;sofo e historiador Johan Huizinga j&aacute; dizia que o brincar &eacute; um instinto natural do ser humano. Brincadeiras s&atilde;o um modo aprender a lidar com as situa&ccedil;&otilde;es da vida. Os brinquedos s&atilde;o ferramentas de representa&ccedil;&atilde;o do mundo real. De acordo com a psic&oacute;loga e presidente da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Brinquedotecas (ABBri), Maria C&eacute;lia Malta Campos, bonecas, por exemplo, s&atilde;o objetos l&uacute;dicos privilegiados para a evoca&ccedil;&atilde;o de experi&ecirc;ncias, como a rela&ccedil;&atilde;o entre m&atilde;e e filho(a). "A linguagem e as imagens internas se entrela&ccedil;am e a crian&ccedil;a dialoga com sua boneca, expondo todo um mundo interno. Por isso essas brincadeiras de faz de conta s&atilde;o t&atilde;o valorizadas na ludoterapia", explica. Ela tamb&eacute;m acredita que h&aacute; perigo de invas&atilde;o de privacidade se a crian&ccedil;a utilizar todos os recursos dispon&iacute;veis na nova boneca da Mattel. "A crian&ccedil;a n&atilde;o censura o que fala ou o que faz com um brinquedo, ela se abre espontaneamente, ao contr&aacute;rio do que faria se estivesse em uma entrevista com um adulto, por exemplo", diz.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O futuro do brincar</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A pesquisa Kids Online Brasil, feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informa&ccedil;&atilde;o (Cetic), da Unesco (2013), mostrou que as crian&ccedil;as est&atilde;o tendo contato com a internet cada vez mais cedo, 44% delas com menos de 10 anos j&aacute; acessaram &agrave; rede. E esse contato &eacute; feito tamb&eacute;m por meio de redes sociais, mesmo que boa parte delas exija uma idade m&iacute;nima para o cadastramento. As crian&ccedil;as nascem e crescem em um ambiente em que seus pais, e elas mesmas, exp&otilde;em suas vidas na internet. Ser&aacute;, ent&atilde;o, que faria sentido questionar a seguran&ccedil;a de uma crian&ccedil;a em brincar com uma Barbie conectada &agrave; internet?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para o diretor do InternetLab, faz todo sentido. "Em primeiro lugar, porque o p&uacute;blico infantil merece aten&ccedil;&atilde;o e cuidados redobrados. A crian&ccedil;a, em geral, n&atilde;o tem discernimento para avaliar as consequ&ecirc;ncias de revelar determinadas informa&ccedil;&otilde;es para uma empresa, al&eacute;m de ser mais vulner&aacute;vel &agrave; manipula&ccedil;&atilde;o", afirma Antonialli. Segundo ele, &eacute; por essa raz&atilde;o que, nos Estados Unidos, h&aacute; uma legisla&ccedil;&atilde;o especial e robusta dedicada especificamente &agrave; prote&ccedil;&atilde;o dos dados pessoais das crian&ccedil;as (Children's Online Protection Privacy Act). Ela estabelece crit&eacute;rios rigorosos para a coleta de dados de crian&ccedil;as e imp&otilde;e obst&aacute;culos para a utiliza&ccedil;&atilde;o desses dados para fins publicit&aacute;rios. No Brasil, ainda n&atilde;o h&aacute; uma legisla&ccedil;&atilde;o sobre prote&ccedil;&atilde;o de dados pessoais, o que deixa as crian&ccedil;as infinitamente mais expostas. Est&aacute;, atualmente, em fase de consulta p&uacute;blica um anteprojeto de lei de prote&ccedil;&atilde;o de dados pessoais, elaborado pelo Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo Maria C&eacute;lia Campos, da ABBri, brinquedos e brincadeiras s&atilde;o ferramentas de socializa&ccedil;&atilde;o, com alto potencial para gerar imagens e linguagem. "Defendemos um brincar livre e criativo, autodirigido pela crian&ccedil;a", diz. "Os di&aacute;logos da boneca n&atilde;o s&atilde;o inventados pela pr&oacute;pria crian&ccedil;a, assim perde-se esse espa&ccedil;o transitivo entre realidade-fantasia. Tudo &eacute; 'de verdade' j&aacute; que sua fala &eacute; programada a dist&acirc;ncia, por uma central informatizada do fabricante, de acordo com o que surge de intera&ccedil;&atilde;o da crian&ccedil;a com a boneca. Podemos dizer que esse caso &eacute; um exemplo contundente do pragmatismo consumista versus uma posi&ccedil;&atilde;o respeitosa para com a inf&acirc;ncia", finaliza.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n3/a18fig02.jpg"></p>      ]]></body>

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