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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Em revisão: o impacto da produção científica brasileira para o Brasil]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br>   POL&Iacute;TICA DE C&amp;T</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Em revis&atilde;o: o impacto  da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica brasileira para o Brasil</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Germana Barata</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos anos 1960, Eugene Garfield desenvolveu indicadores para organizar e avaliar refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas da &aacute;rea de medicina, com o objetivo de minimizar a subjetividade humana na sele&ccedil;&atilde;o e indexa&ccedil;&atilde;o de obras e aumentar a efici&ecirc;ncia da busca por informa&ccedil;&otilde;es relacionadas a um tema de pesquisa. Garfield fundou o Institute of Scientific Information (ISI) e influentes bases de dados internacionais, como o Web of Science (WoS) que re&uacute;ne uma seleta gama de revistas cient&iacute;ficas e divulga indicadores como o fator de impacto (FI) - m&eacute;dia de cita&ccedil;&otilde;es que os artigos de uma revista recebe nos dois anos anteriores. Mais do que meras ferramentas, os indicadores acabaram se tornando metas para as pol&iacute;ticas cient&iacute;ficas. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n4/a03fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de a ci&ecirc;ncia brasileira estar crescendo acima da m&eacute;dia mundial nos &uacute;ltimos anos - sobretudo a partir dos anos 1990, a participa&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s na produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica internacional passou dos apenas 1% para 2,5%, em 2013 - permanece a queixa de que o n&uacute;mero de cita&ccedil;&otilde;es dos artigos brasileiros no exterior se manteve est&aacute;vel. Assim, a meta dos &uacute;ltimos anos n&atilde;o &eacute; aumentar a quantidade de artigos, mas sua qualidade, traduzida pelo n&uacute;mero de cita&ccedil;&otilde;es de artigos de autores brasileiros indexados nos consagrados Scopus, da editora holandesa Elsevier, e WoS. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Lea Velho, especialista em estudos sociais da ci&ecirc;ncia do Instituto de Geoci&ecirc;ncias da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os fatores que levam uma pessoa a citar um artigo n&atilde;o t&ecirc;m rela&ccedil;&atilde;o com a sua qualidade. "&Eacute; como se estiv&eacute;ssemos induzindo as pessoas a acharem que aqueles n&uacute;meros &#91;cita&ccedil;&otilde;es&#93; refletem qualidade. A cita&ccedil;&atilde;o &eacute; um ato social, n&atilde;o de m&eacute;rito", afirma Lea, que nos anos 1980 publicou artigos sobre a pr&aacute;tica de cita&ccedil;&atilde;o. Ao mesmo tempo ela lembra uma das regras b&aacute;sicas da cienciometria na qual as compara&ccedil;&otilde;es s&oacute; valem se compararem iguais com iguais, ou seja, as mesmas &aacute;reas do conhecimento e n&atilde;o a soma de todas elas em na&ccedil;&otilde;es diferentes. "N&atilde;o h&aacute; nenhum problema de usarmos esses indicadores como suporte a processos de avalia&ccedil;&atilde;o. O que n&atilde;o concordamos &eacute; com o uso indiscriminado", conclui Jacqueline Leta, professora adjunta do Instituto de Bioqu&iacute;mica M&eacute;dica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que se dedica aos estudos de cienciometria.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>INDUZINDO MUDAN&Ccedil;AS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Outra regra da cienciometria &eacute; que os indicadores de produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica acabam modelando comportamentos, como o aumento no n&uacute;mero de publica&ccedil;&otilde;es, independentemente da qualidade e o direcionamento da pesquisa para temas de maior visibilidade internacional, por exemplo, o que contribui para efeitos delet&eacute;rios ao sistema. Talvez essa tenha sido uma das raz&otilde;es pela qual a Austr&aacute;lia extinguiu, em 2011, seu sistema de classifica&ccedil;&otilde;es de revistas cient&iacute;ficas. A classifica&ccedil;&atilde;o era controversa para in&uacute;meras &aacute;reas, por exemplo, as multidisciplinares, as novas e aquelas com &ecirc;nfase mais regional, que acabavam prejudicadas com o ranking. O pa&iacute;s preferiu deixar que cada &aacute;rea determinasse suas prioridades de publica&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n4/a03fig02.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As classifica&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m influenciam a percep&ccedil;&atilde;o de que os bons artigos est&atilde;o apenas nas revistas melhor colocadas. "N&atilde;o temos necessariamente que publicar em revistas de <i>mainstream</i> e ser citados no exterior! Esse n&atilde;o &eacute; o objetivo da pol&iacute;tica. Precisamos &eacute; produzir conhecimento para saber resolver os problemas que temos", defende Lea Velho.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NACIONALMENTE RELEVANTE</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando a &ecirc;nfase s&atilde;o os indicadores internacionais, como fica a produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica brasileira que n&atilde;o pode ser contabilizada a partir dessas bases de dados, como, por exemplo, a de &aacute;reas do conhecimento que tradicionalmente publicam em portugu&ecirc;s? Leta estima que existam cerca de mil revistas cient&iacute;ficas no Brasil. Destas, cerca de 400 est&atilde;o indexadas em bases como a brasileira SciELO (Scientific Eletronic Library Online), mas ainda h&aacute; in&uacute;meras outras publica&ccedil;&otilde;es indexadas, por exemplo, nos 162 portais de peri&oacute;dicos cient&iacute;ficos listados pelo Instituto Brasileiro de Informa&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (Ibict) que usam o Sistema Eletr&ocirc;nico de Editora&ccedil;&atilde;o de Revistas (SEER) e outras tantas ainda n&atilde;o indexadas. "Quem n&atilde;o est&aacute; indexado n&atilde;o tem indicador", resume Rog&eacute;rio Mugnaini, cientista da informa&ccedil;&atilde;o da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), que tem se dedicado a estudar indicadores para a produ&ccedil;&atilde;o nacional. Ele prop&otilde;e o desenvolvimento de indicadores que levem em considera&ccedil;&atilde;o as especificidades de cada &aacute;rea do conhecimento e que considerem tamb&eacute;m as publica&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o est&atilde;o indexadas no SciELO ou nos principais indexado-res estrangeiros. O principal &eacute; "ver o que &eacute; importante para os brasileiros". Segundo ele, a combina&ccedil;&atilde;o de indicadores de impacto nacionais e internacionais valoriza a produ&ccedil;&atilde;o local. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O atual sistema de avalia&ccedil;&otilde;es de cursos de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o, desenvolvido pela Coordena&ccedil;&atilde;o de Aperfei&ccedil;oamento de Pessoal de N&iacute;vel Superior (Capes), classifica, desde 2001, as revistas cient&iacute;ficas brasileiras, constituindo-se como um dos indicadores de qualidade. A classifica&ccedil;&atilde;o Qualis Peri&oacute;dicos acaba definindo as escolhas na hora de publicar um artigo, bem como cria a percep&ccedil;&atilde;o de que ela reflete a qualidade, n&atilde;o apenas das revistas, mas dos pr&oacute;prios artigos. H&aacute; in&uacute;meras inconsist&ecirc;ncias, no entanto, que colocam o sistema no epicentro da pol&ecirc;mica na academia. Dentre elas o fato de colocar nos principais estratos, A1 e A2, lado a lado, revistas brasileiras, com menor rigor de avalia&ccedil;&atilde;o, e publica&ccedil;&otilde;es internacionais, com crit&eacute;rios claros e rigorosa avalia&ccedil;&atilde;o por pares, n&atilde;o incluir revistas importantes para a &aacute;rea do conhecimento, ou conferir notas mais baixas para publica&ccedil;&otilde;es interdisciplinares ou muito especializadas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mugnaini avaliou os tipos de crit&eacute;rio de avalia&ccedil;&atilde;o adotados no Qualis Peri&oacute;dicos para defini&ccedil;&atilde;o nos estratos mais altos (A1, A2 e B1) nas diferentes &aacute;reas do conhecimento e constatou que "a maioria das &aacute;reas duras apresenta um perfil de avalia&ccedil;&atilde;o baseado estritamente em indicadores bibliom&eacute;tricos, principalmente o fator de impacto do JCR e em alguns casos, o &iacute;ndice H. J&aacute; as &aacute;reas de humanas, sociais e lingu&iacute;stica, letras e artes, por sua vez, apoiam-se no processo de sele&ccedil;&atilde;o realizado pelas bases de dados, principalmente os &iacute;ndices de cita&ccedil;&atilde;o (WoS, Scopus e SciELO), e tamb&eacute;m em outras bases como RedALyC e Latindex". Isso quer dizer que mesmo as &aacute;reas menos internacionalizadas, se baseiam em crit&eacute;rios internacionais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Segundo Leta o Brasil est&aacute; se aproximando de um est&aacute;gio m&aacute;ximo da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, o chamado <i>steady state,</i> com a limita&ccedil;&atilde;o de nossa capacidade produtiva refletida, sobretudo na p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o. Talvez seja o momento ideal de pensar em uma reformula&ccedil;&atilde;o nas prioridades de produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e seus crit&eacute;rios de avalia&ccedil;&atilde;o, de modo a investir em qualidade e n&atilde;o simplesmente para aumentar os indicadores internacionais, restritos a dois reposit&oacute;rios.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>FACA DE DOIS GUMES</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O desejo de aumentar o n&uacute;mero de cita&ccedil;&otilde;es de publica&ccedil;&otilde;es brasileiras no exterior tem sido defendido por financiadoras de pesquisa, como a Fapesp e Capes, que, de um lado, utilizam como refer&ecirc;ncia os indicadores internacionais como o fator de impacto e, por outro, investem nas publica&ccedil;&otilde;es de acesso aberto (gratuito para publicar e acessar o conte&uacute;do), como os investimentos no SciELO, mas exigem crit&eacute;rios de indexa&ccedil;&atilde;o cada vez mais internacionais. As publica&ccedil;&otilde;es dos estratos mais baixos do Qualis Peri&oacute;dicos t&ecirc;m cada vez menos chances de conseguirem mais e melhores artigos para galgarem melhores posi&ccedil;&otilde;es. Nessa pol&iacute;tica de duas vias, acaba-se criando uma desvantagem para as revistas relevantes para o cen&aacute;rio nacional publicadas sobretudo em portugu&ecirc;s, as novatas, as que n&atilde;o est&atilde;o indexadas, entre outras. Em artigo que analisa o sistema de avalia&ccedil;&atilde;o e classifica&ccedil;&atilde;o dos peri&oacute;dicos cient&iacute;ficos brasileiros, publicado na revista<i> Pensata</i> (vol.4, no.2, 2015), Jean Carlos Ferreira, Marko Monteiro e Monica Frigeri, sugerem um caminho para equacionar essa delicada quest&atilde;o: "A avalia&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia, ainda que necess&aacute;ria, precisaria desenvolver formas de julgamento e mensura&ccedil;&atilde;o da atividade cient&iacute;fica mais refinadas, que levem em conta a diversidade de pr&aacute;ticas de publica&ccedil;&atilde;o, sem perder de vista que a pr&oacute;pria avalia&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia ajuda a direcionar a pr&aacute;tica cient&iacute;fica".</font></p>      ]]></body>
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