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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br>   ARQUEOLOGIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Complexo arqueol&oacute;gico busca aproxima&ccedil;&atilde;o com comunidade por meio do turismo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patr&iacute;cia Mariuzzo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n4/a06fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Carne com marisco em estrutura de cuvete, cozida no ch&atilde;o forrado com seixos de rio previamente aquecidos e coberta por pele de animal e folhas; coelho cozido em panela de barro neol&iacute;tica ou preparado na grelha de madeira sobre o fogo e lentamente umedecido com mel e ervas at&eacute; estar pronto; truta temperada com ervas arom&aacute;ticas, enrolada em folhas largas e cozida sobre casca de &aacute;rvore coberta com argila; carne no espeto de pau e cozida diretamente no fogo durante v&aacute;rias horas. Como acompanhamentos: frutos silvestres, frutos secos e infus&otilde;es. Esse foi o card&aacute;pio do jantar neol&iacute;tico que aconteceu em agosto deste ano no Complexo Arqueol&oacute;gico dos Perdig&otilde;es, localizado na cidade portuguesa Reguengos de Monsaraz, no distrito de &Eacute;vora, regi&atilde;o do Alentejo. O objetivo dos organizadores, a Era Arqueologia e a prefeitura da cidade, era oferecer aos cerca de 50 visitantes a experi&ecirc;ncia da cozinha pr&eacute;-hist&oacute;rica, a partir das informa&ccedil;&otilde;es obtidas nas escava&ccedil;&otilde;es nesse que &eacute; um dos maiores complexos arqueol&oacute;gicos j&aacute; encontrados na Europa. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m do jantar, os visitantes puderam participar de oficinas de argila para aprender as t&eacute;cnicas para produ&ccedil;&atilde;o de recipientes cer&acirc;micos ou de adornos pr&eacute;-hist&oacute;ricos feitos com ossos ou conchas. As atividades tur&iacute;sticas s&atilde;o uma das iniciativas mais recentes da Finagra S.A., empresa portuguesa produtora de vinhos e azeite e propriet&aacute;ria das terras onde est&aacute; situado o complexo arqueol&oacute;gico. Al&eacute;m de divulgar as atividades cient&iacute;ficas desenvolvidas na &aacute;rea por meio do turismo, a empresa quer utilizar os recursos advindos da atividade como uma das fontes de financiamento da pesquisa e manuten&ccedil;&atilde;o do s&iacute;tio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Nesse sentido, Perdig&otilde;es pode ser um exemplo, na &aacute;rea de gest&atilde;o de patrim&ocirc;nio, de que &eacute; poss&iacute;vel conjugar de forma harm&ocirc;nica: o estudo e a preserva&ccedil;&atilde;o, participa&ccedil;&atilde;o da comunidade local, turismo e a atividade econ&ocirc;mica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DIVIDINDO ESPA&Ccedil;OS</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Constru&iacute;do h&aacute; cinco mil anos, no per&iacute;odo Neol&iacute;tico, considerado o &uacute;ltimo da pr&eacute;-hist&oacute;ria, o Complexo Arqueol&oacute;gico dos Perdig&otilde;es &eacute; um conjunto de recintos circulares e genericamente conc&ecirc;ntricos que se desenvolveram a partir de um ponto central. De acordo com Miguel Lago, da Era Arqueologia, empresa que presta servi&ccedil;os na &aacute;rea do patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico-arqueo-l&oacute;gico, o s&iacute;tio foi descoberto em 1983, mas a real dimens&atilde;o do conjunto s&oacute; seria conhecida em 1996, quando a Finagra adquiriu a propriedade com inten&ccedil;&atilde;o de plantar vinhas. "Na ocasi&atilde;o as atividades agr&iacute;colas foram suspensas e iniciaram-se os primeiros trabalhos de diagn&oacute;stico", conta. As pesquisas ficaram sob a responsabilidade da empresa Era Arqueologia. O diagn&oacute;stico revelou a exist&ecirc;ncia de cemit&eacute;rios e de recintos megal&iacute;ticos - conjuntos de constru&ccedil;&otilde;es feitas com grandes blocos de pedras -edificadas essencialmente no per&iacute;odo neol&iacute;tico com finalidades simb&oacute;licas, religiosas ou funer&aacute;rias. Em quase vinte anos de escava&ccedil;&otilde;es, v&aacute;rias foram as descobertas em Perdig&otilde;es. Hoje se sabe que teria sido palco de cerim&ocirc;nias de culto aos mortos e antepassados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Foi encontrado ainda um local de deposi&ccedil;&atilde;o de cr&acirc;nios humanos, alguns deles com sinais de que foram queimados, um ind&iacute;cio de que alguns mortos eram cremados. Toda a pesquisa conduzida na regi&atilde;o s&oacute; foi poss&iacute;vel a partir da interven&ccedil;&atilde;o do Instituto Portugu&ecirc;s do Patrim&oacute;nio Arquitet&ocirc;nico (Ippar) junto &agrave; Finagra. Com isso, a &aacute;rea do s&iacute;tio, com cerca de 20 hectares, foi transformada em reserva arqueol&oacute;gica e pode ser preservada.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARQUEOLOGIA EM CONSTRU&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> "Desde o in&iacute;cio tentamos imprimir um car&aacute;ter inovador no processo de investiga&ccedil;&atilde;o arqueol&oacute;gica em Perdig&otilde;es", contra Lago. Segundo ele, tradicionalmente esses processos t&ecirc;m pouca ou nenhuma articula&ccedil;&atilde;o com o meio social em que se insere.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> "No entanto, quando os trabalhos se iniciaram, viv&iacute;amos um momento de mudan&ccedil;a na metodologia da disciplina de arqueologia em Portugal, com uma abertura que implicava em pensar tamb&eacute;m no retorno social desses estudos". Por&eacute;m, a preserva&ccedil;&atilde;o de um patrim&ocirc;nio somente se justifica na cria&ccedil;&atilde;o de valor para a sociedade, acredita o arque&oacute;logo. Isso implica que o conhecimento n&atilde;o &eacute; a representa&ccedil;&atilde;o de uma "verdade cient&iacute;fica", mas resulta da constru&ccedil;&atilde;o de verdades negociadas, &eacute; sempre relativo e provis&oacute;rio, e que deve, acima de tudo, ser compartilhado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 2004, por exemplo, a Era Arqueologia inaugurou o Centro Interpretativo da Torre do Espor&atilde;o, com uma exposi&ccedil;&atilde;o dos primeiros resultados da interven&ccedil;&atilde;o do s&iacute;tio voltada para o p&uacute;blico n&atilde;o especialista. Al&eacute;m disso, a partir desse ano, as escava&ccedil;&otilde;es passaram a ser abertas a visitas p&uacute;blicas integradas &agrave;s atividades de enoturismo que j&aacute; existiam na propriedade. "Ao mesmo tempo, &eacute; fundamental garantir a qualidade das pesquisas feitas em Perdig&otilde;es, por isso os resultados s&atilde;o divulgados periodicamente em revistas cient&iacute;ficas e congressos. A qualidade e o prest&iacute;gio da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica s&atilde;o fundamentais para termos reconhecimento dentro e fora da academia", afirma Lago.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ESTRAT&Eacute;GIAS DE LONGO PRAZO</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As investiga&ccedil;&otilde;es em Perdig&otilde;es buscavam responder aos desafios colocados pela cultura material, isto &eacute;, pelos objetos e configura&ccedil;&otilde;es no espa&ccedil;o do s&iacute;tio, mas tamb&eacute;m pensavam quest&otilde;es relacionadas &agrave; proje&ccedil;&atilde;o daquele patrim&ocirc;nio em longo prazo: como esse s&iacute;tio vai se manter?; Como continuar a produzir conhecimento?; Como assegurar a democratiza&ccedil;&atilde;o desse conhecimento? "A despeito de sua import&acirc;ncia hist&oacute;rica, &eacute; muito dif&iacute;cil depender apenas de subs&iacute;dios para pesquisa. Temos que encontrar formas do projeto se autofinanciar, mesmo que parcialmente", acredita Lago. Sua continuidade, portanto, depende de um modelo de financiamento diversificado, que inclui a gera&ccedil;&atilde;o de receitas. Com essa dimens&atilde;o ampla, o projeto em Perdig&otilde;es passou a incorporar profissionais da &aacute;rea de comunica&ccedil;&atilde;o, finan&ccedil;as e estudos de mercado. A ideia &eacute; criar um produto cultural que proporcione uma experi&ecirc;ncia para o turista. "Estamos em uma regi&atilde;o em que j&aacute; existe intensa atividade tur&iacute;stica, particularmente ligada ao vinho e &agrave; gastronomia", conta Miguel Lago. Em 2015, por exemplo, Reguengos de Monsaraz foi considerada "Cidade Europeia do Vinho", pela Rede Europeia de Cidades do Vinho (Recevin), que congrega associa&ccedil;&otilde;es nacionais de vinho de quase 800 cidades em toda a Europa. "Evidentemente que n&atilde;o estamos falando em um turismo de massa, mas temos que levar em conta que desfrutamos de uma posi&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica para atrair turistas", aponta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n4/a06fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ELO COM O P&Uacute;BLICO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O jantar neol&iacute;tico e as oficinas, realizadas em agosto deste ano em Perdig&otilde;es, eram parte de uma programa&ccedil;&atilde;o de uma semana que incluiu ainda palestras e visitas monitoradas ao s&iacute;tio. "Abrimos 25 vagas e a procura chegou ao dobro, mostrando que h&aacute; um p&uacute;blico potencial interessado em pr&eacute;-hist&oacute;ria", conta Lago. Para fortalecer a comunica&ccedil;&atilde;o com o p&uacute;blico, a Era Arqueologia utiliza intensamente as redes sociais, com a publica&ccedil;&atilde;o de textos curtos e fotos produzidos ainda em campo e que acabam produzindo boa repercuss&atilde;o com dados cient&iacute;ficos. "Isso gera um interesse, especialmente da comunidade local que, por conhecer aquele territ&oacute;rio, se identifica com nossas descobertas", enfatiza o arque&oacute;logo. Para ele, entre os pr&oacute;ximos desafios est&atilde;o aumentar a frequ&ecirc;ncia de atividades tur&iacute;sticas, como o jantar neol&iacute;tico, e envolver essa comunidade local n&atilde;o somente como audi&ecirc;ncia, mas como for&ccedil;a de trabalho. "Arqueologia n&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o privada, toda a cultura material com a qual lidamos, todo o conhecimento que produzimos &eacute; p&uacute;blico e deve ser gerido e compartilhado de maneira conjunta", finaliza.</font></p>      ]]></body>
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