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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PALEONTOLOGIA    <br>   ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O estudo dos r&eacute;pteis f&oacute;sseis-cresce a contribui&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia brasileira</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Alexander Kellner</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor titular do Laborat&oacute;rio de Sistem&aacute;tica e Tafonomia de Vertebrados F&oacute;sseis Museu Nacional/UFRJ e membro da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dentre os grupos de organismos encontrados como f&oacute;sseis que mais se destacam por terem um grande apelo popular est&atilde;o os r&eacute;pteis. Capitaneados pelos dinossauros, esse grupo &eacute; extremamente diversificado, incluindo formas relativamente conhecidas como os crocodilomorfos, as tartarugas, os lagartos e as serpentes, e tamb&eacute;m grupos mais raros e desconhecidos, como os rauiss&uacute;quios (formas predadores com h&aacute;bitos terrestres distantemente relacionados aos crocodilomorfos), os pterossauros (primeiros vertebrados a desenvolverem o voo ativo), os mosassauros (grupo de lagartos marinhos, alguns de porte gigantesco) e os rincossauros (esp&eacute;cies herb&iacute;voras que tinham uma proje&ccedil;&atilde;o anterior no cr&acirc;nio que lembra um bico) (1).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muito se aprendeu sobre esses vertebrados ao longo dos anos e hoje existem centenas de pesquisadores que se dedicam ao estudo dos r&eacute;pteis f&oacute;sseis, tamb&eacute;m chamado de paleoherpetologia, cuja tend&ecirc;ncia &eacute; de alta em n&iacute;vel mundial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">At&eacute; pouco tempo, o conceito de Reptilia era bem diferente do de hoje e englobava os chamados "r&eacute;pteis mamaliformes", muito bem representados no Brasil atrav&eacute;s dos dicinodontes (formas herb&iacute;voras quadr&uacute;pedes, geralmente providas com um grande dente "canino " em cada lado do cr&acirc;nio &#91;2&#93;). No entanto, a maneira de classifica&ccedil;&atilde;o dos organismos mudou profundamente com o advento da sistem&aacute;tica filogen&eacute;tica - tamb&eacute;m conhecida como cladismo (3) - e afetou a composi&ccedil;&atilde;o do grupo Reptilia. Segundo essa metodologia, que, inclusive, vem se sofisticando cada vez mais (p. ex., 4), as classifica&ccedil;&otilde;es devem envolver agrupamentos que refletem com maior precis&atilde;o a hist&oacute;ria evolutiva de um determinado grupo, que tamb&eacute;m &eacute; designado de clado. Desta forma, procura se estabelecer (ou reconhecer) apenas os grupos (clados) chamados de naturais (ou monofil&eacute;ticos), que obrigatoriamente t&ecirc;m que incluir todos os descendentes derivados de um &uacute;nico ancestral. Ademais, a caracteriza&ccedil;&atilde;o (ou diagnose) desse agrupamento se d&aacute; por caracter&iacute;sticas &uacute;nicas (chamadas de sinapomorfias), que s&atilde;o compartilhadas apenas pelos membros de um determinado clado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Voltando aos dicinodontes e formas afins (os "r&eacute;pteis mamaliformes "), eles s&atilde;o considerados sin&aacute;psidos (p. ex., 2) e, como tal, est&atilde;o na linha evolutiva dos mam&iacute;feros e n&atilde;o na dos r&eacute;pteis. Ou seja, eles t&ecirc;m mais em comum com os mam&iacute;feros atuais do que com os r&eacute;pteis<i> stricto sensu</i> e, portanto, s&atilde;o exclu&iacute;dos de Reptilia. Da mesma forma, sabe-se que as aves s&atilde;o descendentes dos dinossauros, o que vem sendo fundamentado por uma s&eacute;rie de achados. Uma vez que os grupos naturais t&ecirc;m que incluir todos os descendentes de uma linha-gem, esses vertebrados plumados obrigatoriamente fazem parte do clado Reptilia, algo que pode ser considerado quase que consensual entre os pesquisadores, mas que ainda n&atilde;o &eacute; muito bem difundido e assimilado pelo p&uacute;blico em geral.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O presente artigo ir&aacute; enfocar o avan&ccedil;o das pesquisas sobre os r&eacute;pteis f&oacute;sseis em n&iacute;vel mundial, destacando a crescente participa&ccedil;&atilde;o brasileira. Por limita&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;o, ser&atilde;o abordados apenas tr&ecirc;s grupos de destaque: os dinossauros, os crocodilomorfos e os pteros-sauros. Ao final ser&atilde;o apresentadas algumas pesquisas recentes que envolvem temas ligados - mas n&atilde;o exclusivos - aos r&eacute;pteis f&oacute;sseis, como tamb&eacute;m perspectivas para o desenvolvimento dos estudos pa-leoherpetol&oacute;gicos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DINOSSAUROS</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio enfatizar que dentre os organismos que mais recebem aten&ccedil;&atilde;o do grande p&uacute;blico est&atilde;o os dinossauros (<a href="#fig1a">Figura 1</a>). De uma forma geral, existe uma percep&ccedil;&atilde;o equivocada que todo vertebrado de grande porte extinto seria um representante desses "r&eacute;pteis terr&iacute;veis " - uma tradu&ccedil;&atilde;o livre para o termo Dinosau-ria (designa&ccedil;&atilde;o oficial do grupo). No entanto, como destacamos no in&iacute;cio, existem diversos outros r&eacute;pteis que viveram, inclusive, durante o mesmo per&iacute;odo dos dinossauros por&eacute;m seguiram um caminho evolutivo independente e, por isso, n&atilde;o pertencem a esse grupo.</font></p>     <p><a name="fig1a"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v67n4/a13fig01a.jpg">    <br>   <a name="fig1b"></a><img src="/img/revistas/cic/v67n4/a13fig01b.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para exemplificar o que faz do dinossauro um dinossauro, temos que procurar caracter&iacute;sticas &uacute;nicas (as sinapomorfias, como mencionado acima) compartilhadas exclusivamente pelos membros desse grupo. Entre elas, destaca-se a presen&ccedil;a de um orif&iacute;cio na regi&atilde;o p&eacute;lvica, denominada de acet&aacute;bulo, onde se encaixa o f&ecirc;mur. Ter essa regi&atilde;o aberta (tecnicamente denominado de acet&aacute;bulo perfurado) &eacute; uma das caracter&iacute;sticas que s&atilde;o encontradas apenas nos dinossauros. Em todos os demais vertebrados, como nos mam&iacute;feros, crocodilomorfos e lagartos, essa regi&atilde;o &eacute; fechada por uma parede &oacute;ssea. At&eacute; mesmo nas aves o acet&aacute;bulo &eacute; perfurado, novamente confirmado a sua classifica&ccedil;&atilde;o dentro de Dinosauria e, desta forma, no clado Reptilia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o se sabe exatamente quando o primeiro dinossauro foi descoberto. Ao que consta, "ossos de gigantes extintos " foram relatados em escritos chineses muito antigos (5). Possivelmente poderiam se tratar de restos desses r&eacute;pteis, particularmente material encontrado na Mong&oacute;lia (5), uma regi&atilde;o extremamente rica em f&oacute;sseis. Apenas por curiosidade, vale a pena registrar que no Brasil existem marcas feitas por ind&iacute;genas ao lado de pegadas de dinossauros encontradas na Para&iacute;ba (5). Desta forma, existe uma grande probabilidade que essas popula&ccedil;&otilde;es nativas tenham se surpreendido n&atilde;o apenas pelas pegadas terem sido marcadas nas camadas endurecidas, mas, sobretudo, por pertencerem a animais de grande porte que eles n&atilde;o conheciam e que n&atilde;o estavam presentes na regi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante os s&eacute;culos 17 e 18, diversos ossos de "grandes animais " extintos foram sendo encontrados e reportados mundo afora, por&eacute;m n&atilde;o estudados em detalhe. O primeiro dinossauro descrito formalmente foi o<i> Megalosaurus</i> em 1824 a partir de fragmentos encontrados em rochas jur&aacute;ssicas da Inglaterra e que mais tarde foram atribu&iacute;dos a uma esp&eacute;cie carn&iacute;vora<i> (Megalosaurus bucklandi</i> Man-tell, 1827). O nome Dinosauria surgiu apenas anos depois, atrav&eacute;s do trabalho de Richard Owen (1804-1892) publicado em 1842 (6). Naquela &eacute;poca, eram apenas tr&ecirc;s esp&eacute;cies e que esse naturalista ingl&ecirc;s corretamente identificou como sendo representantes de um grupo de r&eacute;pteis totalmente distinto daqueles que vivem hoje em dia. Estimativas de quantos dinossauros n&atilde;o-avianos foram descritos at&eacute; hoje giram em torno de 1500 esp&eacute;cies, das quais menos de 1000 s&atilde;o consideradas v&aacute;lidas, j&aacute; que muitas foram baseadas em ossos bastante fragmentados e pouco diagn&oacute;sticos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pode-se dizer que em n&iacute;vel mundial existe uma grande tend&ecirc;ncia em sofisticar bastante a pesquisa dos dinossauros. Enquanto que no passado a &ecirc;nfase estava na caracteriza&ccedil;&atilde;o e descoberta de novas formas, atualmente existe uma maior preocupa&ccedil;&atilde;o com aspectos biol&oacute;gicos, numa tentativa de decifrar como esses animais viviam e funcionavam. Existe um esfor&ccedil;o cada vez maior por parte dos pesquisadores em procurar entender, dentro das limita&ccedil;&otilde;es naturais impostas pela pesquisa dos f&oacute;sseis, os poss&iacute;veis h&aacute;bitos das esp&eacute;cies e at&eacute; mesmo quest&otilde;es ligadas &agrave; sua fisiologia que envolvem, entre outros aspectos, as suas caracter&iacute;sticas externas como o revestimento do seu corpo. Para isso, tem-se empregado cada vez mais tecnologia e m&eacute;todos elaborados (7).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre as pesquisas, chamadas de fronteira, referente aos r&eacute;pteis f&oacute;sseis est&atilde;o os trabalhos de tomografia computadorizada que procuram entender (ou mapear) os espa&ccedil;os vazios no esqueleto, incluindo o cr&acirc;nio, e oferecer modelos do tipo de tecido que os preenchia (8). Diversas s&atilde;o as contribui&ccedil;&otilde;es do emprego dessa tecnologia de imagem (que tamb&eacute;m tem as suas varia&ccedil;&otilde;es de acordo como o equipamento e o material onde &eacute; empregada), variando desde aspectos fisiol&oacute;gicos (endotermia - ectotermia) at&eacute; o posicionamento mais prov&aacute;vel de &oacute;rg&atilde;os internos. A an&aacute;lise tomo-gr&aacute;fica computadorizada de r&eacute;pteis f&oacute;sseis e recentes forneceram at&eacute; mesmo uma localiza&ccedil;&atilde;o mais precisa das narinas externas dos dinossauros, que deveriam se posicionar mais na ponta do focinho do que as reconstru&ccedil;&otilde;es reportavam at&eacute; ent&atilde;o. Sem contar com o estabelecimento do grau de pneumaticidade dos ossos do esqueleto, que, entre outros, influenciaram a reavalia&ccedil;&atilde;o da estimativa de massa de diversas esp&eacute;cies.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m o Brasil inicia, ainda que de forma t&iacute;mida, pesquisa utilizando a tomografia computadorizada em r&eacute;pteis f&oacute;sseis. Os resultados obtidos at&eacute; o momento variam desde uma melhor compreens&atilde;o da estrutura interna de v&eacute;rtebras (9) at&eacute; a reconstru&ccedil;&atilde;o da caixa craniana onde ficava alojado o c&eacute;rebro (10).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma outra &aacute;rea da pesquisa dos dinossauros que tem evolu&iacute;do bastante &eacute; o estabelecimento da rela&ccedil;&atilde;o de parentesco entre aves e um grupo de formas carn&iacute;voras (ter&oacute;podes): os deinonicossauros. Apesar da descend&ecirc;ncia das aves a partir dos dinossauros ser uma ideia bem antiga, s&atilde;o os achados dos dep&oacute;sitos paleontol&oacute;gicos da China, particularmente de Liaoning, que t&ecirc;m fornecido as melhores evid&ecirc;ncias dessa rela&ccedil;&atilde;o (11). Entre as descobertas que mais se destacam est&atilde;o f&oacute;sseis que cont&ecirc;m n&atilde;o apenas penas, mas tamb&eacute;m estruturas revestindo o corpo do animal identificadas como protopenas e que revelam os primeiros est&aacute;gios de desenvolvimento dessa estrutura epid&eacute;rmica outrora considerada exclusiva das aves. Sem contar nos tra&ccedil;os anat&ocirc;micos do pr&oacute;prio esqueleto, tais como o encontro da f&uacute;rcula, osso tido como caracter&iacute;stico das aves, em v&aacute;rias esp&eacute;cies de dinossauros n&atilde;o-avianos, incluindo os velociraptores (11).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre os temas principais onde o Brasil tem dado uma contribui&ccedil;&atilde;o mais significativa para a pesquisa dos dinossauros est&aacute; a quest&atilde;o da origem desse grupo de r&eacute;pteis, particularmente por achados realizados nos dep&oacute;sitos tri&aacute;ssicos (~210-220 milh&otilde;es de anos) do Rio Grande do Sul (p. ex., 12). Esses achados s&atilde;o bem importantes e, em conjunto com descobertas realizadas na Argentina, auxiliam no estabelecimento dos passos evolutivos que culminaram com o surgimento dos primeiros dinossauros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em termos de aves, vale a pena registar que ossos e penas t&ecirc;m sido encontrados em alguns dep&oacute;sitos. Vale o registro, inclusive, da primeira ave f&oacute;ssil brasileira a ser formalmente nominada e que apresenta as penas da cauda bastante alongadas, cuja fun&ccedil;&atilde;o ainda n&atilde;o &eacute; totalmente elucidada (13).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PTEROSSAUROS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Pterossauros s&atilde;o r&eacute;pteis alados que foram os primeiros vertebrados a desenvolverem o voo ativo (<a href="#fig1b">Figura 1D</a>). Surgiram em torno de 220 milh&otilde;es de anos atr&aacute;s e se extinguiram no limite entre o Cret&aacute;ceo e o Pale&oacute;geno, em uma das mais bem estudadas extin&ccedil;&otilde;es em massa j&aacute; documentadas no nosso planeta (veja abaixo). A abertura alar (dist&acirc;ncia entre as extremidades das asas) desses animais variava desde menos de um palmo at&eacute; mais de 11 metros, fazendo deles os maiores vertebrados - tanto considerando formas extintas como recentes - a al&ccedil;arem voo (14).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira vez na qual se falou nesses animais alados foi em 1784, quando Cosimo Alessandro Collini (1727-1806), um antigo secret&aacute;rio do fil&oacute;sofo iluminista Voltaire (1694-1778), descreveu um pequeno f&oacute;ssil preservado em uma laje de rocha calc&aacute;ria proveniente da Baviera, sul da Alemanha. Olhando para aquele exemplar, Collini determinou que se tratava de um vertebrado novo para a ci&ecirc;ncia, de posi&ccedil;&atilde;o zool&oacute;gica d&uacute;bia e possivelmente de h&aacute;bitos anf&iacute;bios. Resumindo: ele n&atilde;o tinha a menor no&ccedil;&atilde;o do que havia encontrado. Foi apenas em 1801, quando o naturalista e grande anatomista franc&ecirc;s Georges Cuvier (1769-1832) teve acesso a alguns desenhos desse mesmo f&oacute;ssil (15), que se teve a percep&ccedil;&atilde;o real do que aquele animal representava: um r&eacute;ptil que desenvolveu a capacidade de voar! Para desenvolver o voo ativo, esses vertebrados alongaram o quarto d&iacute;gito da m&atilde;o, que passou a ser a estrutura principal de sustenta&ccedil;&atilde;o de uma membrana alar, ao contr&aacute;rio do que ocorreu com os morcegos (que se valem de quatro d&iacute;gitos para suportar a membrana da asa) e das aves (que desenvolveram penas e aumentaram o tamanho do antebra&ccedil;o formado pelos ossos denominados de r&aacute;dio e ulna), que s&atilde;o os outros dois grupos de vertebrados a desenvolverem o voo ativo. O termo Pterosauria-nome oficial desse grupo (clado) de vertebrados alados - somente surgiu tempos depois, em 1834 (14).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">At&eacute; hoje existem perto de 240 esp&eacute;cies de pterossauros descritas, das quais cerca de 150 s&atilde;o consideradas v&aacute;lidas. Essa discrep&acirc;ncia se deve ao fato da grande maioria das esp&eacute;cies terem sido propostas em material bastante fragment&aacute;rio. Apesar dessa quest&atilde;o ser geral na paleontologia, uma vez que o material que efetivamente &eacute; encontrado preservado nas rochas do organismo extinto tende a ser muito incompleto, a situa&ccedil;&atilde;o dos pterossau-ros pode ser vista como extrema dentre os vertebrados. Por serem animais voadores, eles possuem o esqueleto bem fr&aacute;gil, onde as paredes &oacute;sseas raramente superam 2 mil&iacute;metros de espessura, mesmo em indiv&iacute;duos com uma envergadura alar acima de 8 metros (16). Ademais, por serem animais voadores, eles estavam longe dos ambientes mais prop&iacute;cios para a fossiliza&ccedil;&atilde;o dos organismos, que s&atilde;o o fundo de lagos e mares rasos. Desta forma, a fragilidade do esqueleto e o seu modo de vida faz com que f&oacute;sseis de pterossauros sejam bem raros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de j&aacute; terem sido encontrados em todos os continentes (incluindo a Ant&aacute;rtica), perto da metade de todas as esp&eacute;cies desses r&eacute;pteis voadores conhecidas e mais de 90% de todos exemplares s&atilde;o procedentes de apenas cinco conjuntos de dep&oacute;sitos: o calc&aacute;rio de Solnhofen, de idade jur&aacute;ssica (150 milh&otilde;es de anos &#91;Ma&#93; e de onde vem o material descrito por Collini) na Alemanha; Grupo Jehol que re&uacute;ne as forma&ccedil;&otilde;es cret&aacute;ceas Yixian (125 Ma) e Jiufotang (120 Ma); as forma&ccedil;&otilde;es Crato (115 Ma) e Romualdo (110 Ma) da bacia do Araripe, nordeste do Brasil; o Cambridge Greensand (Cret&aacute;ceo superior, ca. 95 Ma) da Inglaterra; e a forma&ccedil;&atilde;o Nio-brara (87-82 Ma) da Am&eacute;rica do Norte. O material brasileiro, em particular da forma&ccedil;&atilde;o Romualdo, exibe uma preserva&ccedil;&atilde;o excepcional, com os ossos geralmente preservados em tr&ecirc;s dimens&otilde;es sem terem sofrido distor&ccedil;&otilde;es significativas na sua estrutura anat&ocirc;mica, diferindo da condi&ccedil;&atilde;o achada (bidimensional) que &eacute; comum no material de outros dep&oacute;sitos. Desta forma, os pterossauros (e outros f&oacute;sseis) da bacia do Araripe s&atilde;o muito importantes do ponto de vista cient&iacute;fico e cobi&ccedil;ados internacionalmente (17). Pode-se afirmar que quase todos os temas principais relacionados aos pterossauros passam em maior ou menor grau pela discuss&atilde;o de exemplares brasileiros (14), tais como estudos morfo-funcionais envolvendo aspectos como a locomo&ccedil;&atilde;o terrestre, a capacidade e modo de voo, as poss&iacute;veis fun&ccedil;&otilde;es das cristas cranianas e diversas outras quest&otilde;es biol&oacute;gicas (p. ex., 18-20).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m dos pterossauros brasileiros, importantes contribui&ccedil;&otilde;es para a pesquisa desses r&eacute;pteis alados v&ecirc;m sendo realizadas atrav&eacute;s de descobertas na China. Desde 1997 foram encontrados mais exemplares desses r&eacute;pteis voadores em dep&oacute;sitos chineses do que a soma combinada no mesmo per&iacute;odo de todo o material do grupo proveniente dos demais dep&oacute;sitos fossil&iacute;feros do mundo. Al&eacute;m da expressiva quantidade de material, os f&oacute;sseis da China surpreendem pela sua diversidade (21). Cabe registrar que muitas formas s&atilde;o, surpreendentemente, mais proximamente relacionadas com esp&eacute;cies brasileiras do que com as esp&eacute;cies de outras partes do mundo (p. ex., 22), algo que ainda carece de um estudo mais aprofundado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os destaques dos achados chineses incluem o primeiro ovo de pterossauro a ser registrado, comprovando que esses animais eram ov&iacute;paros (23). Recentemente o primeiro registro de uma acumula&ccedil;&atilde;o em massa de pterossauros - a primeira da &Aacute;sia - apresentou diversos ovos excepcionalmente preservados, contribuindo para um melhor entendimento da estrat&eacute;gia reprodutiva desses animais (24). At&eacute; mesmo uma f&ecirc;mea gr&aacute;vida (25) foi encontrada, junto com a qual foram descobertos dois ovos, um ainda dentro do seu corpo (26), demonstrando que esses animais alados tinham dois ovidutos funcionais, diferente do que ocorre nas aves.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m da contribui&ccedil;&atilde;o brasileira ao estudo dos pterossauros a partir de descobertas realizadas no pr&oacute;prio pa&iacute;s, que incluem o achado de uma rara concentra&ccedil;&atilde;o de centenas de indiv&iacute;duos (a mais numerosa j&aacute; documentada) de uma esp&eacute;cie tida como frug&iacute;vora em rochas que representam um o&aacute;sis dentre um paleodeserto (27), vale a pena destacar que muitas das pesquisas de destaque envolvendo material encontrado na China t&ecirc;m participa&ccedil;&atilde;o de paleont&oacute;logos brasileiros (p. ex., 24, 26).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CROCODILOMORFOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> N&atilde;o se pode falar na pesquisa paleoherpetol&oacute;-gica realizada no Brasil sem mencionar os crocodilomorfos, termo que envolve tanto as formas recentes como as extintas. Para alguns pesquisadores, esse &eacute; o grupo de r&eacute;pteis f&oacute;sseis mais diversificado no pa&iacute;s (28). Hoje em dia os crocodilomorfos s&atilde;o representados pelos crocodilos, gaviais e jacar&eacute;s e est&atilde;o restritos a 23 esp&eacute;cies, todas de h&aacute;bitos semiaqu&aacute;ticos, ocupando a faixa intertropical do planeta. No entanto, no passado geol&oacute;gico, esses r&eacute;pteis eram extremamente diversificados e estavam, ao longo de sua hist&oacute;ria evolutiva, presentes nos mais variados ambientes em todos os continentes com exce&ccedil;&atilde;o da Ant&aacute;rtica. Havia formas totalmente adaptadas para uma vida aqu&aacute;tica, como os representantes dos clados Teleosauridae, Metriorhynchidae e Dyrosauridae, alguns chegando a ter os seus membros apendiculares modificados em verdadeiras nadadeiras. Outros eram muito bem adaptados para ambientes terrestres, com os membros dispostos abaixo do corpo, assumindo uma posi&ccedil;&atilde;o mais ereta ao contr&aacute;rio das formas recentes, o que &eacute; o caso dos sebec&iacute;deos e dos baurussuqu&iacute;deos, ambos representados no Brasil (29).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A origem dos Crocodylomorpha ainda n&atilde;o &eacute; bem compreendida, mas a maioria dos autores considera que os primeiros membros deste grupo surgiram no Tri&aacute;ssico (h&aacute; cerca de 230 milh&otilde;es de anos). Eram formas relativamente pequenas com um comprimento em torno de 1 metro e de esqueleto delicado, conjuntamente classificados dentro de Sphenosuchia. Apesar de caminhar nas quatro patas, teriam o esqueleto ereto e foram encontrados sobretudo na Argentina e nos Estados Unidos (30). Tamb&eacute;m no Brasil existe um r&eacute;ptil que pode estar ligado a origem dos crocodilomorfos:<i> Barberenasuchus brasiliensis</i> Mattar, 1987. No entanto, a sua posi&ccedil;&atilde;o filogen&eacute;tica &eacute; tida como controversa (30).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma das linhas principais de pesquisa relacionada aos crocodi-lomorfos &eacute; a biogeografia, que se preocupa com a distribui&ccedil;&atilde;o dos organismos no espa&ccedil;o e no tempo. Um dos primeiros estudos nessa linha se deu a partir do encontro de esp&eacute;cies na bacia do Araripe, mais especificamente as encontrados na forma&ccedil;&atilde;o Romualdo (16; 31; 32), que tamb&eacute;m foram descobertas em dep&oacute;sitos do continente africano, demonstrando que durante o Cret&aacute;ceo inferior as massas continentais da Am&eacute;rica do Sul e da &Aacute;frica ainda estavam unidas. Em especial<i> Araripesuchus</i> Price, 1959, chama a aten&ccedil;&atilde;o, pois esp&eacute;cies desse g&ecirc;nero foram encontrados noo Brasil, na Rep&uacute;blica do N&iacute;ger, em Madagascar, no Marrocos e em duas localidades da Argentina, fazendo desse um dos mais interessantes crocodilomorfos para quest&otilde;es biogeogr&aacute;ficas (33).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O contraste entre a diversidade desses r&eacute;pteis em tempos passados comparados ao atual levou os pesquisadores a procurarem entender melhor as caracter&iacute;sticas ecol&oacute;gicas dos membros extintos dos crocodilomorfos. Entre os principais grupos enfocados est&atilde;o os notoss&uacute;quios por possu&iacute;rem uma morfologia muito particular. A grande maioria s&atilde;o animais de pernas longas, postura ereta, corpo delgado e de pequeno porte, atingindo um comprimento total em torno de 1 metro. Al&eacute;m disso, possu&iacute;am a parte rostral (focinho) do cr&acirc;nio reduzido e s&atilde;o predominantemente encontrados em &aacute;reas do antigo supercontinente denominado de Gonduana, que reunia as massas continentais da Am&eacute;rica do Sul, &Aacute;frica, Ant&aacute;rtica, Austr&aacute;lia e &Iacute;ndia. O mais surpreendente nos notoss&uacute;quios &eacute; a sua denti&ccedil;&atilde;o bem diversificada, a maioria apresentando marcada heterodontia (dentes com morfologias distintas na mesma esp&eacute;cie). Existem formas com dentes possuindo v&aacute;rias c&uacute;spides (pontas) como os encontrados em<i> Candidodon,</i> que chegou a ser equivocadamente classificado como um mam&iacute;fero (34). Tamb&eacute;m foram encontradas esp&eacute;cies com dentes em forma de folha sugerindo h&aacute;bitos herb&iacute;voros (35); outros com dentes curtos e robustos, dispostos diagonalmente nas arcadas, possuindo l&acirc;minas indicando que eram utilizados para quebrar material resistente, como ossos, (36); e at&eacute; mesmo uma esp&eacute;cie que possu&iacute;a dentes dispostos em uma plataforma formada pela regi&atilde;o do dent&aacute;rio (principal osso da mand&iacute;bula), possivelmente utilizados para amassar e triturar o alimento (37). Todas essas varia&ccedil;&otilde;es dent&aacute;rias, que s&atilde;o encontradas sobretudo (mas n&atilde;o unicamente) em esp&eacute;cies de dep&oacute;sitos brasileiros e africanos, demonstram que os notoss&uacute;quios foram, sob o ponto de vista ecol&oacute;gico, os mais diversificados membros de Crocodylomorpha.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra importante contribui&ccedil;&atilde;o brasileira ao estudo desses r&eacute;pteis foi o encontro de esp&eacute;cies de grande porte que possu&iacute;am dentes achatados lateralmente e serrilhados, a exemplo do que de observa nos dinossauros carn&iacute;voros. Trata-se, principalmente, de esp&eacute;cies classificadas dentro dos clados Baurusuchidae (<a href="#fig1b">Figura 1E</a>) e Peiro-sauridae (p. ex., 39) - grupos que alguns pesquisadores classificam dentro de Notosuchia (40) predominantemente encontrados em dep&oacute;sitos brasileiros. Curiosamente, o fato de dinossauros carn&iacute;voros serem bastante raros no Brasil sugere que possivelmente esses crocodilomorfos tenham ocupado no supercontinente Gonduana o mesmo nicho ecol&oacute;gico que os dinossauros ter&oacute;podes ocupavam na Laur&aacute;sia (supercontinente que unia a Am&eacute;rica do Norte, Europa e &Aacute;sia).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra interessante contribui&ccedil;&atilde;o brasileira &agrave; pesquisa dos crocodilomorfos foi o estudo demonstrando que os dirossaur&iacute;deos (formas marinhas) eram encontrados em menor diversidade e n&uacute;mero antes da extin&ccedil;&atilde;o em massa ocorrida h&aacute; aproximadamente 66 milh&otilde;es de anos no limite entre o Cret&aacute;ceo e o Pale&oacute;gono (K-Pg), mas que se tornaram os principais predadores marinhos ap&oacute;s o K-Pg (41). Segundo o estudo, esse dom&iacute;nio somente foi poss&iacute;vel pelo fato de alguns grupos de r&eacute;pteis marinhos, em especial os mosassauros (largartos marinhos), que competiam com os dirossaur&iacute;deos antes do K-Pg, terem sido extintos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O &uacute;ltimo destaque sobre a pesquisa brasileira realizada no campo da paleoherpetologia que ser&aacute; focada aqui s&atilde;o os crocodilomorfos gigantes encontrados em dep&oacute;sitos formados entre 15 e 6 milh&otilde;es de anos atr&aacute;s no Acre. Entre os principais est&aacute; a forma<i> Purussaurus</i> Barbosa Rodrigues, 1892, que poderia alcan&ccedil;ar perto de 15 metros de comprimento, tamanho pr&oacute;ximo a de um<i> Tyrannosaurus rex.</i> Al&eacute;m desse, diversas outras esp&eacute;cies de crocodilomorfos da regi&atilde;o v&ecirc;m sendo descritas, todos de grande porte (28).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEMAS DIVERSOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Entre os temas que t&ecirc;m sido cada vez mais enfatizados na pesquisa paleontol&oacute;gica e que tamb&eacute;m interessam aos estudos paleoherpetol&oacute;gicos est&atilde;o as quest&otilde;es relacionadas &agrave;s extin&ccedil;&otilde;es. Apesar de existirem v&aacute;rias que influenciaram a hist&oacute;ria evolutiva dos r&eacute;pteis, como a ocorrida no limite do Permiano e Tri&aacute;ssico, h&aacute; aproximadamente 252 milh&otilde;es de anos, e que &eacute; tida como a mais devastadora de todos os tempos (42), a mais famosa &eacute; a que ocorreu h&aacute; 66 milh&otilde;es de anos e dizimou algo em torno de 70% de toda a vida existente no planeta (43).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A hip&oacute;tese de que um impacto de um corpo celeste foi respons&aacute;vel pela extin&ccedil;&atilde;o em massa ocorrida no limite entre os per&iacute;odos Cret&aacute;ceo e Pale&oacute;geno (K-PG) foi proposta em 1980 por uma equipe que inclu&iacute;a um ganhador de pr&ecirc;mio Nobel em f&iacute;sica (44). A partir dessa proposta, dezenas de pesquisadores das mais diferentes &aacute;reas (por exemplo paleontologia, geoqu&iacute;mica, sedimentologia, f&iacute;sica, estat&iacute;stica e biologia) se debru&ccedil;aram sobre o tema, procurando encontrar respostas que pudessem confirmar ou oferecer alternativas &agrave; proposta da causa extraterreste para a extin&ccedil;&atilde;o em massa do K-Pg. Nesse processo foi se acumulando uma enorme quantidade de conhecimento. At&eacute; mesmo uma cratera, denominada de Chicxulub em refer&ecirc;ncia &agrave; cidade hom&ocirc;nima onde se situa, na pen&iacute;nsula de Iucat&atilde; no M&eacute;xico, foi encontrada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre as alternativas &agrave; proposta de Alvarez e colegas (44), surgiu o vulcanismo expresso pelos dep&oacute;sitos denominados de Deccan Traps, na &Iacute;ndia, que com mais de 2 km de espessura e abrangendo uma &aacute;rea de meio milh&atilde;o de quil&ocirc;metros quadrados oferecia uma alternativa vi&aacute;vel para a explica&ccedil;&atilde;o da extin&ccedil;&atilde;o dos dinossauros e outras formas de vida (45). Houve, inclusive, quem tenha levantado a hip&oacute;tese que possivelmente esses dois eventos de grande magnitude estejam relacionados, com o impacto de um corpo celeste podendo estimular e aumentar a atividade vulc&acirc;nica. Essa hip&oacute;tese, mesmo que ainda controversa, tem ganho corpo atrav&eacute;s de estudos recentes de data&ccedil;&atilde;o das lavas do Deccan Traps, demonstrando que 50 mil anos ap&oacute;s o impacto representado pela cratera de Chicxulub, houve um aumento do derramamento de lava na &Iacute;ndia, que perdurou por mais de 500 mil anos ap&oacute;s o impacto, retardando a recupera&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-extin&ccedil;&atilde;o da biota (43).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro tema muito interessante que pode ser visto como pesquisa de fronteira, refere-se ao encontro de biomol&eacute;culas, o que tem sido feito particularmente em material de r&eacute;pteis f&oacute;sseis. At&eacute; pouco tempo atr&aacute;s, a preserva&ccedil;&atilde;o de tecido mole ainda era algo visto como bastante improv&aacute;vel, particularmente ao n&iacute;vel molecular. Por&eacute;m, quando alguns exemplares foram analisados com tecnologias e metodologias modernas, esse tipo de tecido passou a ser encontrado com uma frequ&ecirc;ncia cada vez maior. Entre os estudos mais interessantes existem alguns que apresentam evid&ecirc;ncias da preserva&ccedil;&atilde;o de vasos sangu&iacute;neos e at&eacute; mesmo de estruturas semelhantes a c&eacute;lulas sangu&iacute;neas em um material do dinossauro carn&iacute;voro<i> Tyrannosaurus rex</i> Osborn, 1905 (46). Apesar de controverso (p. ex., 47), o tema &eacute; fascinante, particularmente pelo fato de que biomol&eacute;culas foram encontrados em material &oacute;sseo de dinossauros n&atilde;o particularmente bem preservados (48). N&atilde;o resta d&uacute;vidas que essa &aacute;rea dever&aacute; crescer muito nos anos vindouros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nestes dois temas - extin&ccedil;&otilde;es e biomol&eacute;culas fossilizadas - o Brasil praticamente n&atilde;o realiza pesquisa. Ambas requerem um investimento de maior vulto e laborat&oacute;rios onde esse tipo de an&aacute;lise possa ser feita. Apesar do limite K-PG ter sido encontrado no pa&iacute;s (p. ex., 49), n&atilde;o existem grupos de pesquisa dedicados ao estudo das extin&ccedil;&otilde;es. No que tange a tecidos moles fossilizados, trabalhos isolados como o que encontrou m&uacute;sculos e vasos sangu&iacute;neos em um dinossauro da bacia do Araripe (50), que posteriormente foi denominado de<i> Santanaraptor placidus</i> Kellner, 1999, s&atilde;o exce&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o chegam a investigar o potencial para a preserva&ccedil;&atilde;o de biomol&eacute;culas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PERSPECTIVAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> De uma forma geral, as perspectivas da pesquisa em paleoherpetologia no Brasil s&atilde;o bastante interessantes, naturalmente se houver investimento cont&iacute;nuo e aten&ccedil;&atilde;o para a &aacute;rea de paleontologia como um todo. O grande potencial de aumento na contribui&ccedil;&atilde;o dos cientistas brasileiros se deve ao fato que temos em nosso pa&iacute;s muitos dep&oacute;sitos onde a ocorr&ecirc;ncia de exemplares de r&eacute;pteis f&oacute;sseis j&aacute; foi comprovada e ainda h&aacute; diversos outros a explorar. Mesmo naqueles onde esses vertebrados j&aacute; foram encontrados, praticamente todos est&atilde;o longe de ser exauridos. Um bom exemplo s&atilde;o os dep&oacute;sitos tri&aacute;ssicos do Rio Grande do Sul, conhecidos h&aacute; mais de um s&eacute;culo e que nos &uacute;ltimos anos t&ecirc;m revelado, entre outros vertebrados (2), v&aacute;rios novos exemplares de dinossauros basais (p. ex., 12). Faltam nesses dep&oacute;sitos o registro dos chamados proto-di-nossauros, que s&atilde;o formas que est&atilde;o na linha evolutiva desses r&eacute;pteis e que os antecederam. Esse tipo de animal (que &eacute; classificado como dinossauromorfo basal) j&aacute; foi encontrado na vizinha Argentina (p. ex., os lagerpet&iacute;deos), cujos dep&oacute;sitos tri&aacute;ssicos s&atilde;o, pelo menos em parte, correlacion&aacute;veis aos do Brasil (2; 12). Desta forma, &eacute; apenas uma quest&atilde;o de tempo (e de esfor&ccedil;o de coleta) para que algum desses proto-dinossauros seja encontrado no territ&oacute;rio nacional.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esses mesmos dep&oacute;sitos tri&aacute;ssicos do Rio Grande do Sul tamb&eacute;m t&ecirc;m o potencial de oferecer exemplares basais de pterossauros e de crocodilomorfos. No caso dos pterossauros, tal contribui&ccedil;&atilde;o teria expressivo impacto mundial, j&aacute; que n&atilde;o se tem absolutamente nenhum animal que se enquadra nessa categoria: o representante desse clado mais basal conhecido j&aacute; possui todas as fei&ccedil;&otilde;es de um pterossauro t&iacute;pico como o quarto d&iacute;gito alar alongado e as paredes dos ossos bem delgadas (at&eacute; mais o que se observa nas aves).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m dos dep&oacute;sitos com r&eacute;pteis f&oacute;sseis j&aacute; conhecidos, existem centenas de afloramentos, particularmente no nordeste do pa&iacute;s, com enorme potencial para o encontro de mais exemplares desses vertebrados (al&eacute;m de outros organismos). A Bahia, por exemplo, tem dezenas de forma&ccedil;&otilde;es inexploradas onde achados fant&aacute;sticos poderiam ser realizados. A medida em que mais paleont&oacute;logos s&atilde;o fixados nas institui&ccedil;&otilde;es daquele estado (e de outros como Cear&aacute;, Piau&iacute; e Pernambuco), as chances de uma maior atividade de coleta aumentam e certamente descobertas de impacto ser&atilde;o realizadas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma linha de pesquisa que poderia ser mais desenvolvida pelos pesquisadores do nosso pa&iacute;s &eacute; a tomografia computadorizada. Praticamente usual em centros paleontol&oacute;gicos mais avan&ccedil;ados como nos Estados Unidos, Canad&aacute;, diversos pa&iacute;ses da Europa, China e Jap&atilde;o, esse tipo de tecnologia ainda &eacute; utilizado de forma muito t&iacute;mida no Brasil, sobretudo no que tange &agrave; publica&ccedil;&atilde;o de resultados. No caso dos r&eacute;pteis f&oacute;sseis, temos diversos exemplares que se prestariam a esse tipo de an&aacute;lise, como os excepcionais cr&acirc;nios de crocodilomorfos e pterossauros encontrados em dep&oacute;sitos cret&aacute;ceos brasileiros, cujo estudo poderiam contribuir sobremaneira para o entendimento de aspectos ecol&oacute;gicos, inclusive comportamentais de diversas esp&eacute;cies. Uma compara&ccedil;&atilde;o paleoneurol&oacute;gica dos notos-s&uacute;quios, por exemplo, seria muito importante para procurar entender o desenvolvimento das diferentes estruturas do c&eacute;rebro desses r&eacute;pteis ao longo do tempo e as relacionar com o modo de vida e alimenta&ccedil;&atilde;o de cada uma das esp&eacute;cies.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro assunto cient&iacute;fico que poderia ser desenvolvido com r&eacute;pteis f&oacute;sseis no Brasil &eacute; o da busca de biomol&eacute;culas. O n&iacute;vel de preserva&ccedil;&atilde;o de exemplares encontrados no pa&iacute;s muitas vezes &eacute; bem superior ao de outros pa&iacute;ses, abrindo a possibilidade para achados extremamente importantes. Entre outros, poder&iacute;amos ter uma melhor no&ccedil;&atilde;o dos limites da preserva&ccedil;&atilde;o de tecidos moles em f&oacute;sseis, algo que vem sendo debatido e pesquisado com maior intensidade nas na&ccedil;&otilde;es desenvolvidas. Como sabemos da situa&ccedil;&atilde;o complexa que envolve a sa&iacute;da de f&oacute;sseis do Brasil (p. ex., 17), &eacute; apenas uma quest&atilde;o de tempo para que descobertas importantes em termos de biomol&eacute;culas com base em material brasileiro seja feito, possivelmente sem a participa&ccedil;&atilde;o dos pesquisadores nacionais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Benton, M. J.<i> Vertebrate Palaeontology.</i> Wiley-Blackwell 3ed., 472p, 2009.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Soares, M. B. "Cinodontes brasileiros revelam os primeiros passos na evolu&ccedil;&atilde;o dos mam&iacute;feros".<i> Ci&ecirc;ncia e Cultura,</i> Vol.67, no.4, 2015.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Amorim, D. S.<i> Fundamentos de sistem&aacute;tica filogen&eacute;tica.</i> Holos: 156p, 2002.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Goloboff, P. A.; Farris, J. F. &amp; Nixon, K. C. "TNT - a free program for phylogenetic analysis".<i> Cladistics,</i> 24(5): 774-786, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Kellner, A. W. A. Sim, n&oacute;s temos dinossauros... e muitos!<i> In:</i> Soares, M. B. (ed).<i> A paleontologia na sala de aula.</i> Sociedade Brasleira de Paleontologia, Ed. Imprensa Livre, Porto Alegre, 1ª edi&ccedil;&atilde;o (livro digital) (ISBN 978-85-7697-316-4) (<a href="http://www.paleontologianasaladeaula.com" target="_blank">www.paleontologianasaladeaula.com</a>), 2015.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Padian, K. "Phylogeny of dinosaurs".<i> In:</i> Currie P.J. &amp; Padian, K (ed.) <i>Encyclopedia of dinosaurs.</i> San Diego Academic Press, p. 546-551, 1997.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Say&atilde;o, J.M. &amp; Bantim, R. "A paleontologia do s&eacute;culo XXI: novas t&eacute;cnicas e interpreta&ccedil;&otilde;es".<i> Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura,</i> Vol.67, no.4, 2015.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Bourke, J.M. et al. "Breathing life into dinosaus: tackling challenges of soft-tissue restauration and nasal airflow in extinct species". <i>Anatomical Record</i> 297: 2148-2186, 2014.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Machado, E. B.; Avilla, L. S.; Nava, W. R.; Campos, D. A. &amp; Kellner, A. W. A. "A new titanosaur sauropod from the late Cretaceous of Brazil". <i>Zootaxa</i> 3701(3): 301-321, 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Sobral, G.; Hipsley, C.A. &amp; M&uuml;ller, J. "Braincase redescription of dysalo-tosaurus lettowvorbecki (Dinosauria, Ornithopoda) based on computed tomography".<i> Journal of Vertebrate Paleontology</i> 32: 1090-1102, 2012.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. Norell, M.; Makovicky, P. &amp; Clark, J.M. "A<i> Velociraptor</i> wishbone". <i>Nature,</i> 389: 447, 1997.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. Bittencourt J. S. &amp; Langer, M. C. "Mesozoic dinosaurs from Brazil and their biogeographical implications".<i> Anais da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias,</i> 83: 23-60.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. Carvalho, I. S. et al. "A new genus and species of enantiornithine bird from the early Cretaceous of Brasil".<i> Brazilian Journal of Geology,</i> 45: 161-171, 2015.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14. Kellner, A. W. A.<i> Pterossauros - os senhores do c&eacute;u do Brasil.</i> Vieira &amp; Lent, Rio de Janeiro, 176p, 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">15. Padian K. "The case of the bat-winged pterosaur".<i> In:</i> Czerkas S. J.; Olson E. C. (eds.).<i> Dinosaur past and present.</i> Los Angeles: University of Washington Press, 65-81, 1987.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">16. Kellner, A. W. A. et al. "The largest flying reptile from Gondwana: a new specimen of<i> Tropeognathus</i> cf. T<i> mesembrinus</i> Wellnhofer, 1987 (Pterodactyloidea, Anhangueridae) and other large pterosaurs from the Romualdo formation, lower Cretaceous, Brazil".<i> Anais da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias,</i> 85(1): 113-135, 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">17. Sim&otilde;es, T. R. &amp; Caldwell, M.W. "F&oacute;sseis e legisla&ccedil;&atilde;o - breve compara&ccedil;&atilde;o entre Brasil e Canad&aacute;".<i> Ci&ecirc;ncia e Cultura,</i> Vol.67, no.4, 2015.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">18. Wellnhofer P.<i> The illustrated encyclopedia of pterosaurs.</i> London, Salamander Books, 192 p., 1991.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">19. Say&atilde;o J. M. "Histovariability in bones of two pterodactyloid pterosaurs from the Santana formation, Araripe basin, Brazil: preliminary results". Geol Soc London,<i> Spec Public</i> 217: 335-342, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">20. Steel L. "The paleohistology of pterosaur bone: an overview". <i>Zitteliana Reihe</i> B 28: 109-125, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">21. Wang, X. &amp; Zhou, Z. "Pterosaur assemblages of the Jehol biota and their implication for the early Cretaceous pterosaur radiation". <i>Geological Journal</i> 41: 405-418, 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">22. Wang, X.; Kellner, A. W. A.; Jiang, S. &amp; Cheng, X. "New toothed flying reptile from Asia: close similarities between early Cretaceous pterosaur faunas from China and Brazil".<i> Naturwissenschaften,</i> 99: 249-257, 2012.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">23. Wang X. &amp; Zhou, Z. "Pterosaur embryo from the early Cretaceous". <i>Nature</i> 429: 621, 2004.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">24. Wang X. et al. "Sexually dimorphic tridimensional&#094; preserved pterosaurs and their eggs from China".<i> Curr Biol</i> 24(12): 1323-1330, 2014.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">25. L&uuml; J.C. et al. "An egg-adult association, gender, and reproduction in pterosaurs".<i> Science</i> 331: 321-324, 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">26. Wang, X., et al. 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