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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Biodiversidade, bioprospec&ccedil;&atilde;o e inova&ccedil;&atilde;o no Brasil</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Vanderlan da S. Bolzani</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professora titular do Instituto de Qu&iacute;mica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), vice-presidente da SBPC e membro da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias (ABC)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A qu&iacute;mica de produtos naturais sempre teve papel relevante para o desenvolvimento de f&aacute;rmacos, cosm&eacute;ticos, fragr&acirc;ncias, e outros bioprodutos, dado a diversidade estrutural e grupos funcionais presentes em milhares de subst&acirc;ncias que comp&otilde;em a biodiversidade terrestre. Este imenso laborat&oacute;rio qu&iacute;mico altamente sofisticado tamb&eacute;m desempenha um papel importante na conserva&ccedil;&atilde;o e no uso sustent&aacute;vel da diversidade biol&oacute;gica, especialmente por que s&atilde;o essas subst&acirc;ncias essenciais aos processos biol&oacute;gicos de regula&ccedil;&atilde;o celular, comunica&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica e defesa. Sob este aspecto, a biodiversidade brasileira, inclu&iacute;da entre as maiores do planeta &eacute; ainda pouco explorada, sendo que bioprodutos de grande impacto, capazes de gerar riqueza e contribuir para a balan&ccedil;a econ&ocirc;mica nacional ainda est&atilde;o no plano dos desejos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os pa&iacute;ses desenvolvidos, mesmo n&atilde;o sendo grandes detentores da biodiversidade terrestre, nunca tiveram duvidas sobre a riqueza molecular escondida na natureza, exemplo disto &eacute; a quantidade de medicamentos no mercado mundial, inspirados nos produtos naturais, como antitumorais, ou f&aacute;rmacos para o tratamento de doen&ccedil;as card&iacute;acas ou do sistema nervoso central (SNC) ou da diabetes, antinflam&aacute;torios, antivirais etc. A industria de cosm&eacute;ticos e fragr&acirc;ncias comercializa uma quantidade significativa de produtos baseados em inova&ccedil;&otilde;es a partir de subst&acirc;ncias naturais, exemplo recente &eacute; um derivado semissint&eacute;tico produzido a partir de &aacute;cido jasm&ocirc;nico, extra&iacute;do do &oacute;leo de jasmim e utilizado em creme antiidade e muitos outros produtos imprescind&iacute;veis para a melhora da qualidade de vida humana. Isso tem contribuido para a economia de pa&iacute;ses detentores das inova&ccedil;&otilde;es oriundas da biodiversidade que, em muitos casos, est&aacute; geograficamente situada al&eacute;m de suas fronteiras.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Brasil, detentor de uma das maiores riquezas naturais do planeta, n&atilde;o pode se orgulhar de uma bioeconomia vigorosa e baseada em inova&ccedil;&otilde;es a partir da sua rica biodiversidade - uma f&aacute;brica natural sofisticada de subst&acirc;ncias de classes diversas e estruturas qu&iacute;micas inusitadas que teria, se bem aproveitada, um potencial enorme para inova&ccedil;&otilde;es radicais e incrementais para os setores de f&aacute;rmacos, cosm&eacute;ticos, fragr&acirc;ncias, agroqu&iacute;micos e suplementos alimentares.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos &uacute;ltimos 15 anos, muitas discuss&otilde;es, tanto do lado acad&ecirc;mico quanto empresarial, foram levantadas, convergindo a um mesmo consenso: o atraso em inova&ccedil;&otilde;es a partir de produtos naturais e derivados oriundos da nossa rica biodiversidade deveu-se, em parte, aos entraves burocr&aacute;ticos causados pela edi&ccedil;&atilde;o, em 2000, da Medida Provis&oacute;ria (MP) 2050, reeditada como MP-2186 - 16/2001, pelo governo federal, referente ao acesso ao patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico, aos saberes tradicionais, prote&ccedil;&atilde;o e &agrave; reparti&ccedil;&atilde;o de benef&iacute;cios. Naquela &eacute;poca, a MP foi a resposta do governo ao apelo de setores significativos da sociedade frente &agrave;s den&uacute;ncias levantadas na &eacute;poca, devido ao contrato firmado entre uma multinacional e o Centro de Pesquisa da Amaz&ocirc;nia, julgado inapropriado na equidade das partes envolvidas, em preju&iacute;zo do lado brasileiro!</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Como pesquisadora, atuando na &aacute;rea da qu&iacute;mica de produtos naturais h&aacute; 40 anos, vivenciei os problemas que a MP causou aos pesquisadores que atuam na qu&iacute;mica de produtos naturais, farm&aacute;cia, farmacologia e &aacute;reas correlatas durante esse tempo. Sempre fui defensora de uma lei que fosse capaz de proteger nossas riquezas naturais - um legado que, al&eacute;m de ser motivo de orgulho para o pa&iacute;s, deve ser defendido. No entanto, uma lei que dificultava as pesquisas sobre nossa diversidade biol&oacute;gica e qu&iacute;mica, atrasando a gera&ccedil;&atilde;o de conhecimento sobre os nossos biomas e organismos, me levou a participar ativamente de v&aacute;rias discuss&otilde;es em Bras&iacute;lia e escrever v&aacute;rios textos, especialmente quando o programa Biota, de mapeamento da biodiversidade paulista, foi lan&ccedil;ado pela Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp) em 1998. Nesta ocasi&atilde;o juntamente com colegas das tr&ecirc;s universidades p&uacute;blicas paulistas (Unesp, USP e Unicamp), do Instituto de Bot&acirc;nica (IBt) e da Universidade Federal do Cear&aacute; (UFC) iniciamos o projeto tem&aacute;tico <i>Bioprospec&ccedil;&atilde;o de plantas do Cerrado e da Mata Atl&acirc;ntica do estado de S&atilde;o Paulo.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diante das limita&ccedil;&otilde;es da pesquisa de bioprospec&ccedil;&atilde;o, ou dos entraves decorrentes da MP, ap&oacute;s a san&ccedil;&atilde;o da Lei nº 13.123, em 20 de maio de 2015, pela presidente Dilma Rousseff, n&atilde;o me via capaz de emitir coment&aacute;rios que, mesmo com pontos ainda controversos, beneficia os cientistas e principalmente setores industriais que exploram produtos a partir da biodiversidade. Mas, diante de fatos hist&oacute;ricos e da situa&ccedil;&atilde;o atual, &eacute; poss&iacute;vel perceber que a Lei de Acesso &agrave; Biodiversidade n&atilde;o &eacute; o maior entrave para que o setor industrial desenvolva inova&ccedil;&atilde;o com ativos da biodiversidade. &Eacute; preciso que as in&uacute;meras discuss&otilde;es e semin&aacute;rios acad&ecirc;micos e empresariais sobre bioeconomia possam incentivar os setores acad&ecirc;micos, governamentais e empresariais a montarem uma agenda para inova&ccedil;&atilde;o industrial baseada em produtos naturais e derivados a partir da nossa biodiversidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As primeiras descobertas de bioprodutos da biodiversidade brasileira datam de 1533, quando os portugueses aqui chegaram. Os novos conquistadores, na busca por esp&eacute;cies de plantas para explora&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, descobriram a <i>Caesalpinia echinata,</i> o pau-Brasil, uma fonte de corante vermelho (brasilina, brasilidina) valiosa, o primeiro exemplo de produtos naturais de valor agregado mas que n&atilde;o trouxe qualquer impacto econ&ocirc;mico ao pa&iacute;s, restando-nos apenas herdar o nome Brasil para a terra rec&eacute;m-descoberta. In&uacute;meros outros exemplos dariam algumas p&aacute;ginas escritas, mas destaco a <i>Chondro-dendron tomentosa,</i> Menispermaceae. Uma das esp&eacute;cies de curares conhecidas da Amaz&ocirc;nia. A tubocurarina, um dos alcaloides isolados desta esp&eacute;cie usada pelos ind&iacute;genas, inspirou o desenvolvimento de uma classe de coadjuvantes anest&eacute;sicos: o derivado sint&eacute;tico Atracurium (<sup>&reg;</sup>Tracurium) &eacute; outro exemplo que mostra que o pa&iacute;s n&atilde;o logrou divisa econ&ocirc;mica. Nos anos 1960, pesquisas realizadas pelo professor Sergio Ferreira sobre venenos da cobra <i>Bothrops jararaca,</i> resultou no pept&iacute;deo bradiquinina, um inibidor da enzima conversora da angiotensina. O Captopril, um medicamento mundialmente consagrado, foi planejado por um sofisticado estudo de qu&iacute;mica medicinal a partir da bradiquinina. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Voltando aos dias atuais, especialmente depois da sans&atilde;o da Lei de Acesso ao Patrim&ocirc;nio Gen&eacute;tico, pela presidente Dilma, tenho participado de v&aacute;rios semin&aacute;rios, onde a discuss&atilde;o gira em torno da bioeconomia e, portanto, do potencial econ&ocirc;mico que a nossa rica biodiversidade pode render ao pa&iacute;s e do entusiasmo mostrado por pesquisadores e gestores sobre a inova&ccedil;&atilde;o com base na biodiversidade brasileira. Tendo me dedicado &agrave; pesquisa sobre os produtos naturais, n&atilde;o tenho qualquer duvida sobre o valor cient&iacute;fico desta &aacute;rea para promover inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e riqueza econ&ocirc;mica e social. No entanto, a industrializa&ccedil;&atilde;o de bioprodutos a partir de mol&eacute;culas extra&iacute;das da biodiversidade &eacute;, como toda inova&ccedil;&atilde;o, um processo complexo e de risco. Na explos&atilde;o de biodiversidade, como bem comentou em v&aacute;rias mat&eacute;rias o jornalista Marcelo Coelho, h&aacute; uma tarefa &aacute;rdua de pesquisa e garimpo visando a viabiliza&ccedil;&atilde;o de produtos. A natureza &eacute; uma fonte de inspira&ccedil;&atilde;o, mas como reproduzir, em escala comercial, mol&eacute;culas de alta complexidade? Como domesticar plantas nativas pouco investigadas, como as dos ambientes tropicais e equatoriais? S&atilde;o quest&otilde;es importantes e, muito embora o setor industrial brasileiro venha se modernizando, incorporando pesquisa em seus portf&oacute;lios, estas pesquisas ainda s&atilde;o muito t&iacute;midas e o setor n&atilde;o &eacute; afeito ao risco. Com isso, temos contabilizadas, nos &uacute;ltimos 30 anos, ainda poucas inova&ccedil;&otilde;es oriundas da rica diversidade biol&oacute;gica brasileira, mesmo com o avan&ccedil;o cient&iacute;fico alcan&ccedil;ado pelo pa&iacute;s - na qu&iacute;mica, farmacologia, qu&iacute;mica farmac&ecirc;utica e biologia molecular - e com todos os esfor&ccedil;os do lado empresarial. Nossa biodiversidade segue sendo um desafio instigante para os que acreditam na bioeconomia como for&ccedil;a propulsora da ind&uacute;stria nacional.</font></p>      ]]></body>
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