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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Privacidade em disputa no Brasil: Marco Civil da Internet, dados pessoais e o "PL Espião"]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br>   SEGURAN&Ccedil;A DIGITAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Privacidade em disputa no Brasil: Marco Civil da Internet, dados pessoais e o "PL Espi&atilde;o"</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sarah Schmidt</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em uma quarta-feira nublada, na Vila Mariana, em S&atilde;o Paulo, um grupo de ativistas, pesquisadores e jornalistas participavam de uma oficina sobre seguran&ccedil;a digital. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mais precisamente, o grupo se reuniu no simb&oacute;lico espa&ccedil;o do Centro Brasileiro de An&aacute;lises e Planejamento (Cebrap) para discutir e entender melhor o funcionamento t&eacute;cnico da <i>web </i>e conhecer ferramentas que permitam uma navega&ccedil;&atilde;o mais segura: como criar senhas mais fortes, n&atilde;o ser rastreado por mecanismos comerciais ou evitar que cada email tenha seu conte&uacute;do facilmente acessado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O encontro, organizado pela Oficina Antivigil&acirc;ncia, Conectas, Tactical Tech, com o apoio da Rede Latino-Americana de Estudos Sobre Vigil&acirc;ncia, Tecnologia e Sociedade (Lavits), destacou que os dados de navega&ccedil;&atilde;o s&atilde;o todos registrados e dizem muito sobre cada usu&aacute;rio. Quando o assunto &eacute; lidar com fontes que precisam ser protegidas e trabalhar com dados sens&iacute;veis, saber navegar de forma segura &eacute; essencial.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n1/a04fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda n&atilde;o h&aacute; uma legisla&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s que regulamente o direito de prote&ccedil;&atilde;o aos dados pessoais dos cidad&atilde;os. O tema vem sendo discutido em muitos pa&iacute;ses e deve permanecer na pauta ao longo do ano. Por ora, o Brasil tem algumas garantias resguardadas na Lei do Marco Civil da Internet (MCI). Mas ativistas e especialistas em direitos digitais alertam que tais garantias est&atilde;o amea&ccedil;adas pelo Projeto de Lei 215, de 2015, do deputado Hildo Rocha (PMDB-MA), apelidado de "PL Espi&atilde;o".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O projeto nasceu com a ideia de aumentar o rigor das penas para crimes contra a honra cometidos pela internet - com foco nas redes sociais. Mas, ao longo do processo, ele foi aglutinando uma s&eacute;rie de pontos, tramitando com mais dois projetos apresentados - PL 1547/2015 e PL 1589/2015 - e se tornou alvo de cr&iacute;ticas. "O Marco Civil mal completou um ano e j&aacute; querem alter&aacute;-lo. &Eacute; um infantic&iacute;dio", analisa o advogado e pesquisador do Grupo de Pol&iacute;ticas P&uacute;blicas para o Acesso &agrave; Informa&ccedil;&atilde;o da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), Bruno Bioni.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma das se&ccedil;&otilde;es mais criticadas do PL 215/2015 dizia respeito ao acesso a dados pessoais e registros de navega&ccedil;&atilde;o. Ocorre que o provedor de acesso &agrave; internet identifica a conex&atilde;o do usu&aacute;rio em qualquer site, registrando o hor&aacute;rio, dia e endere&ccedil;o de origem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Os provedores de servi&ccedil;os na internet, sejam os de email ou de conta na rede social, tamb&eacute;m fazem esse registro, inclusive do conte&uacute;do criado. "Na Constitui&ccedil;&atilde;o, temos a quest&atilde;o da prote&ccedil;&atilde;o do sigilo das comunica&ccedil;&otilde;es. O Marco Civil refor&ccedil;a essa prote&ccedil;&atilde;o e esse sigilo s&oacute; pode ser quebrado por uma ordem judicial", explica a fundadora da Coding Rights, Joana Varon, que tamb&eacute;m &eacute; coordenadora do projeto Oficina Antivigil&acirc;ncia. O problema &eacute; que as primeiras vers&otilde;es do PL 215/2015 pediam o fim dessa prote&ccedil;&atilde;o. Ou seja, qualquer autoridade competente poderia acessar dados pessoais, se assim julgasse necess&aacute;rio, sem ordem judicial. Essa quest&atilde;o mudou nas vers&otilde;es mais recentes do projeto, ap&oacute;s press&atilde;o popular e campanha realizada nas redes sociais em setembro e outubro de 2015.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O PL 215 foi aprovado na Comiss&atilde;o de Constitui&ccedil;&atilde;o, Cidadania e Justi&ccedil;a da C&acirc;mara dos Deputados. "De l&aacute; deve ir para o plen&aacute;rio e ent&atilde;o segue o tr&acirc;mite normal legislativo (Senado e Presid&ecirc;ncia). At&eacute; l&aacute;, muita coisa pode mudar e acontecer", explica Bioni.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>LIBERDADE DE EXPRESS&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O "PL Espi&atilde;o" traz outros pontos question&aacute;veis, segundo Bruno Bioni. Um deles diz respeito aos dados cadastrais. O PL 215 tenta alargar a no&ccedil;&atilde;o do que seriam esses dados, como qualifica&ccedil;&atilde;o pessoal, endere&ccedil;o e filia&ccedil;&atilde;o, incluindo informa&ccedil;&otilde;es como telefone, CPF e conta de email.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"O PL torna obrigat&oacute;rio o cadastro dos usu&aacute;rios para a sua navega&ccedil;&atilde;o na internet. O texto fala que os provedores ter&atilde;o que tomar as medidas necess&aacute;rias para cumprir essas normas. O que vai acontecer na pr&aacute;tica &eacute; que os provedores v&atilde;o ter que institucionalizar um cadastro dos usu&aacute;rios para navegar na internet", prev&ecirc; Bioni. Para cada acesso a um site seria preciso preencher um formul&aacute;rio com todos esses dados para que o provedor pudesse oferecer acesso sem ordem judicial para as autoridades competentes, analisa o pesquisador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra quest&atilde;o que tamb&eacute;m preocupa os especialistas em direito digital quanto ao PL 215 &eacute; o chamado "direito ao esquecimento", o qual prev&ecirc; a completa remo&ccedil;&atilde;o e indisponibiliza&ccedil;&atilde;o de um conte&uacute;do, em vez de sua desindexa&ccedil;&atilde;o nos buscadores, em caso de solicita&ccedil;&atilde;o daqueles que alegarem ter sua honra ferida ou que julguem terem sido associados a algum crime do qual tenham sido absolvidos. Neste caso, especialistas acreditam que a exclus&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o pela via do "direito ao esquecimento" esbarra no "direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o". Segundo nota divulgada no site da Oficina Antivigil&acirc;ncia, o receio &eacute; o de que "os poderosos possam usar essa lei para apagar a hist&oacute;ria e perseguir defensores de direitos humanos". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No artigo "Projeto de Lei 215/2015, infantic&iacute;dio aos rec&eacute;m-nascidos direitos digitais no Brasil", publicado no site Digital Rights, Latin America and The Caribbean, Bioni lembra que no caso de direito ao esquecimento sempre &eacute; preciso um exame casu&iacute;stico a respeito da utilidade da informa&ccedil;&atilde;o para que n&atilde;o se estrangule o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o. Ele argumenta que o PL 215/2015 atropela esse debate, uma vez que o &uacute;nico crit&eacute;rio estabelecido &eacute; a exist&ecirc;ncia de uma suposta informa&ccedil;&atilde;o ofensiva &agrave; honra. "N&atilde;o se elenca, por exemplo, outros crit&eacute;rios como o valor hist&oacute;rico e p&uacute;blico da informa&ccedil;&atilde;o a excepcionar a aplica&ccedil;&atilde;o do direito ao esquecimento".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Comit&ecirc; Gestor da Internet no Brasil (CGI) tamb&eacute;m se posicionou contr&aacute;rio ao PL 215. De acordo com o professor da Escola de Comunica&ccedil;&atilde;o da UFRJ, Marcos Dantas, membro do CGI, o projeto fere os princ&iacute;pios que norteiam o comit&ecirc; e revoga pontos chaves doMCI, especialmente os que asseguram a livre express&atilde;o do pensamento na internet e o devido processo judicial em caso de supostas viola&ccedil;&otilde;es de direitos individuais ou empresariais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Cabe sublinhar que o MCI &eacute;, hoje, uma refer&ecirc;ncia internacional em legisla&ccedil;&atilde;o regulat&oacute;ria da internet: est&aacute; sendo estudado e tende a ser adotado, nos seus princ&iacute;pios, em muitos outros pa&iacute;ses. O Brasil est&aacute; na vanguarda mundial nessa quest&atilde;o. O PL 215 &eacute; um retrocesso que nos envergonha, como brasileiros", lamenta Dantas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PROTE&Ccedil;&Atilde;O DE DADOS PESSOAIS </b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em meio a esse cen&aacute;rio, a defini&ccedil;&atilde;o de uma legisla&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica sobre o uso de dados pessoais &eacute; relevante. O Marco Civil, inclusive, faz refer&ecirc;ncia a uma futura lei de prote&ccedil;&atilde;o de dados pessoais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Joana Varon existem, pelo menos, tr&ecirc;s projetos de prote&ccedil;&atilde;o de dados pessoais em discuss&atilde;o no Brasil: um na C&acirc;mara dos Deputados, outro no Senado e outro no Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a. "A &uacute;ltima vers&atilde;o que vi do da C&acirc;mara &eacute; muito pobre, &eacute; incorporado por ag&ecirc;ncias de publicidade", analisa Joana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">At&eacute; o momento, o texto provavelmente mais conhecido sobre a prote&ccedil;&atilde;o de dados pessoais &eacute; o anteprojeto de lei apresentado pelo Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, no &uacute;ltimo dia 20 de outubro e &eacute; fruto de cinco anos de discuss&atilde;o, incluindo a incorpora&ccedil;&atilde;o de sugest&otilde;es p&oacute;s consulta p&uacute;blica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em sua mais recente vers&atilde;o, o texto destaca que a lei tem como objetivos assegurar o livre desenvolvimento da personalidade, al&eacute;m da liberdade, intimidade e privacidade. Bruno Bioni avalia positivamente a nova vers&atilde;o, mas avalia que h&aacute; disparidade regulat&oacute;ria entre o setor privado, mais avan&ccedil;ado, e o setor estatal. "Ainda se fala de um &oacute;rg&atilde;o competente fiscalizador, mas n&atilde;o diz qual seria o arranjo dele", explica. Teme-se que a medida regulat&oacute;ria punitiva possa prejudicar a liberdade de express&atilde;o ao inibir opini&otilde;es cr&iacute;ticas. N&atilde;o por outro motivo, documentos e recomenda&ccedil;&otilde;es internacionais indicam que tais atos il&iacute;citos deveriam ser deslocados para a esfera civil", prop&otilde;e Bruno Bioni.</font></p>      ]]></body>
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