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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br> MUDAN&Ccedil;AS CLIM&Aacute;TICAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Rela&ccedil;&otilde;es perigosas: aumento de temperatura e doen&ccedil;as negligenciadas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Leonor Assad</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda &eacute; cedo para avaliar os resultados da Confer&ecirc;ncia do Clima de Paris (COP 21), que aconteceu em dezembro de 2015, mas um de seus pontos positivos foi que, pela primeira vez, os representantes dos 195 pa&iacute;ses reunidos no evento concordaram que &eacute; preciso conter o aumento da temperatura m&eacute;dia do planeta. Embora as medidas para alcan&ccedil;ar esse objetivo ainda n&atilde;o sejam suficientemente contundentes, trata-se de um ponto de partida importante para combater o aquecimento global. Embora ainda n&atilde;o seja consenso na comunidade cient&iacute;fica, um dos sinais que refor&ccedil;am sua exist&ecirc;ncia &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o entre o aquecimento global e as doen&ccedil;as tropicais negligenciadas (DTN).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 2015, a Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de (OMS) publicou um relat&oacute;rio sobre o assunto - <i>Investing to overcome the global impact ofneglected tropical diseases,</i> alertando para a rela&ccedil;&atilde;o perigosa entre aquecimento global e doen&ccedil;as tropicais negligenciadas: com o aumento da temperatura, a zona de clima tropical do planeta deve se expandir, ampliando tamb&eacute;m as &aacute;reas acometidas por doen&ccedil;as tropicais como a mal&aacute;ria e a dengue. De acordo com o documento, a mudan&ccedil;a clim&aacute;tica dever&aacute; aumentar a propaga&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias DTNs, notadamente a dengue, cujo vetor, o mosquito <i>Aedes aegypti</i>, tem ciclo de vida diretamente influenciado pela temperatura, precipita&ccedil;&atilde;o e umidade relativa do ar. De fato, nos &uacute;ltimos anos, a doen&ccedil;a tem aparecido fora da zona tropical do planeta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 2014, a China enfrentou um dos piores surtos de dengue da sua hist&oacute;ria, com mais de 40 mil casos registrados. Em 2010, os Estados Unidos tamb&eacute;m tiveram casos da doen&ccedil;a, como na Fl&oacute;rida, onde n&atilde;o havia registros desde 1934. Houve casos tamb&eacute;m nos estados da Calif&oacute;rnia e do Texas, sem caracterizar, no entanto, um surto. De acordo com Mariana Jorge de Miranda, pesquisadora da Faculdade de Sa&uacute;de P&uacute;blica da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), v&aacute;rios estudos apontam que a intensifica&ccedil;&atilde;o de casos de doen&ccedil;as tropicais como mal&aacute;ria e dengue est&aacute; relacionada a processos migrat&oacute;rios, grandes aglomera&ccedil;&otilde;es humanas e, possivelmente, o aumento da temperatura m&eacute;dia do planeta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n1/a07fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REEMERGENTE</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com Expedito Luna, professor do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Ci&ecirc;ncias M&eacute;dicas da Santa Casa de S&atilde;o Paulo, doen&ccedil;as infecciosas emergentes e reemergentes s&atilde;o aquelas cuja incid&ecirc;ncia em humanos vem aumentando nas &uacute;ltimas duas d&eacute;cadas ou amea&ccedil;a aumentar num futuro pr&oacute;ximo. Em artigo publicado em 2002, na <i>Revista Brasileira de Epidemiologia,</i> ele afirma que existem dois focos de aten&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o a essas doen&ccedil;as: o surgimento ou identifica&ccedil;&atilde;o de novos problemas de sa&uacute;de e novos agentes infecciosos e a mudan&ccedil;a no comportamento epidemiol&oacute;gico de doen&ccedil;as j&aacute; conhecidas, incluindo a introdu&ccedil;&atilde;o de agentes j&aacute; conhecidos em novas popula&ccedil;&otilde;es de hospedeiros suscet&iacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo a OMS, a incid&ecirc;ncia dos casos de dengue aumentou 30 vezes nos &uacute;ltimos 50 anos. A infec&ccedil;&atilde;o &eacute; considerada a principal doen&ccedil;a reemergente nos pa&iacute;ses tropicais e subtropicais. Tamb&eacute;m &eacute; considerada um importante problema de sa&uacute;de p&uacute;blica no Paquist&atilde;o, Ar&aacute;bia Saudita e I&ecirc;men, com repetidos surtos em centros urbanos e propaga&ccedil;&atilde;o nas zonas rurais. Na Europa a transmiss&atilde;o local do v&iacute;rus foi relatada pela primeira vez na Cro&aacute;cia e na Fran&ccedil;a, em 2010. Dois anos depois um surto na ilha da Madeira, Portugal, resultou em mais de 2.200 casos da doen&ccedil;a. Segundo estimativas da organiza&ccedil;&atilde;o para sa&uacute;de ligada &agrave; Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU) os investimentos anuais teriam que ser de US$ 510 milh&otilde;es por ano, at&eacute; 2030, para controlar a popula&ccedil;&atilde;o de vetores que transmitem a dengue.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Mas como determinar a influ&ecirc;ncia do aumento da temperatura na dissemina&ccedil;&atilde;o da dengue para al&eacute;m da zona tropical do planeta? Ainda n&atilde;o h&aacute; certezas sobre isso. Para Miranda, j&aacute; existem modelos matem&aacute;ticos para prever as consequ&ecirc;ncias do aumento da temperatura sobre a mal&aacute;ria, por exemplo. Eles indicam que um clima um pouco mais quente pode aumentar o risco de transmiss&atilde;o dessa doen&ccedil;a, especialmente em regi&otilde;es onde o controle da tamb&eacute;m chamada maleita ainda &eacute; inst&aacute;vel. Por outro lado, nas &aacute;reas com maior acesso a servi&ccedil;os de sa&uacute;de de qualidade, os efeitos do aquecimento global seriam menores. "&Eacute; preciso considerar a complexidade dos processos ambiente-doen&ccedil;a antes de afirmar que a expans&atilde;o da mal&aacute;ria, assim como de outras doen&ccedil;as vetoriais, est&aacute; sendo causada diretamente pelo aquecimento global", afirma a ge&oacute;grafa que desenvolve estudos em geografia m&eacute;dica e da sa&uacute;de e climatologia m&eacute;dica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Miranda destaca que, j&aacute; em 2008, o relat&oacute;rio organizado pela Organiza&ccedil;&atilde;o Pan-Americana da Sa&uacute;de (Opas), em colabora&ccedil;&atilde;o com o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de e a Funda&ccedil;&atilde;o Osvaldo Cruz, salientava que aspectos sociodemogr&aacute;ficos, como migra&ccedil;&otilde;es e densidade populacional, e fatores como o estado imunol&oacute;gico das popula&ccedil;&otilde;es e a efetividade dos sistemas de sa&uacute;de e dos programas de controle e preven&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;as, v&atilde;o determinar a velocidade de dissemina&ccedil;&atilde;o e o impacto da dengue em determinada regi&atilde;o. "Paralelamente aos processos de mudan&ccedil;as do clima, v&ecirc;m se acelerando a globaliza&ccedil;&atilde;o (...), as mudan&ccedil;as que alteram ecossistemas, reduzem a biodiversidade e que resultam na acumula&ccedil;&atilde;o de subst&acirc;ncias t&oacute;xicas no ambiente e, ao mesmo tempo, temos um processo de precariza&ccedil;&atilde;o de sistemas de governo, reduzindo investimentos em sa&uacute;de, aumentando a depend&ecirc;ncia de mercados e aumentando as desigualdades sociais. Os riscos associados &agrave;s mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas globais n&atilde;o podem ser avaliados em separado desse contexto", aponta o documento. Para a pesquisadora, a possibilidade de retorno dessas doen&ccedil;as se d&aacute; em contextos hist&oacute;ricos diferentes daquelas do s&eacute;culo XIX. Ela enfatiza que o setor de sa&uacute;de deve trabalhar para reduzir as vulnerabilidades sociais, para construir "um mundo mais justo e mais saud&aacute;vel", finaliza.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n1/a07fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas e sa&uacute;de</b>    <br>   A OMS considera as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas a maior amea&ccedil;a &agrave; sa&uacute;de mundial do s&eacute;culo XXI. De acordo com a organiza&ccedil;&atilde;o, o aquecimento global ser&aacute; a causa de 250 mil mortes adicionais por ano at&eacute; 2030. Ondas de calor mais intensas e inc&ecirc;ndios; aumento da preval&ecirc;ncia de doen&ccedil;as causadas por alimentos e &aacute;gua contaminados e de doen&ccedil;as transmitidas por vetores; aumento da probabilidade de desnutri&ccedil;&atilde;o resultante da redu&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o de alimentos em regi&otilde;es pobres e perda da capacidade de trabalho em popula&ccedil;&otilde;es vulner&aacute;veis s&atilde;o os principais riscos para a sa&uacute;de. Riscos incertos, mas potencialmente mais graves incluem: colapso em sistemas alimentares, conflitos violentos associados a escassez de recursos e movimentos de popula&ccedil;&atilde;o, e exacerba&ccedil;&atilde;o da pobreza, minando a sa&uacute;de. No geral, as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas dever&atilde;o aumentar as desigualdades na sa&uacute;de entre as popula&ccedil;&otilde;es. Em um evento paralelo &agrave; COP21, a OMS defendeu que a prote&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de &eacute; poss&iacute;vel e deve ser uma prioridade para os investimentos dos fundos de adapta&ccedil;&atilde;o &agrave;s altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas. Al&eacute;m de ter impacto imediato sobre a vida das pessoas, esses investimentos devem fortalecer a resili&ecirc;ncia de longo prazo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s consequ&ecirc;ncias do aquecimento global.</font></p>      ]]></body>
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