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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>VIGIL&Acirc;NCIA    <br>   ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O que podem as m&aacute;scaras? Visibilidades e vigil&acirc;ncia nos movimentos em rede</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Luciana Santos Guilhon Albuquerque<sup>I</sup>; Rosa Pedro<sup>II</sup>; Ulisses dos Anjos Carvalho<sup>III</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Mestre em psicologia pelo Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutoranda em psicologia pelo Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Psicologia da UFRJ    <br>   <sup>II</sup>Doutora em comunica&ccedil;&atilde;o e cultura, professora do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Psicologia da UFRJ e coordenadora do N&uacute;cleo de Pesquisa Cultura Contempor&acirc;nea: subjetividade, conhecimento e tecnologia    <br>   <sup>III</sup>Bacharel e mestrando em psicologia pelo Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Psicologia da UFRJ</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As Jornadas de Junho de 2013, como ficaram conhecidas as manifesta&ccedil;&otilde;es contra o aumento da passagem de &ocirc;nibus no Brasil, nos trouxeram in&uacute;meras quest&otilde;es, que reverberam at&eacute; hoje. A quantidade de pessoas nas ruas foi surpreendente e uma novidade foi o papel dos dispositivos tecnol&oacute;gicos de comunica&ccedil;&atilde;o. Diferente do que tradicionalmente acontecia, os atos foram marcados e divulgados basicamente pelas redes s&oacute;cio-t&eacute;cnicas, em especial atrav&eacute;s do Facebook, rede social digital bastante popular. A prolifera&ccedil;&atilde;o de c&acirc;meras e celulares fez aumentar enormemente a circula&ccedil;&atilde;o de imagens e discursos alternativos &agrave; grande m&iacute;dia. A visibilidade proporcionada por essas tecnologias parece ter trazido, dentre outras coisas, a possibilidade de vigiar e ser vigiado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em conson&acirc;ncia com a Teoria Ator-Rede (TAR), entende-se que a sociedade &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o, coletiva e heterog&ecirc;nea, produzida na articula&ccedil;&atilde;o de humanos e n&atilde;o humanos, em que a tecnologia e os objetos possuem um papel fundamental. Para mergulhar nessa complexa realidade, resolvemos, ao inv&eacute;s de ir atr&aacute;s do novo, resgatar uma velha conhecida, que se tornou personagem controverso nessas manifesta&ccedil;&otilde;es: a m&aacute;scara.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Inspirados pela exposi&ccedil;&atilde;o "Objetos desobedientes" (1), que apresentou objetos utilizados em manifesta&ccedil;&otilde;es ao redor do mundo, fizemos uma reflex&atilde;o sobre as controv&eacute;rsias geradas pelo uso de m&aacute;scaras nas Jornadas de Junho com o objetivo de contribuir para uma an&aacute;lise mais ampla acerca das din&acirc;micas de vigil&acirc;ncia e visibilidade na atualidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Falar de m&aacute;scaras, neste artigo, serve para descobrir o que elas podem dizer sobre n&oacute;s e sobre as diversas din&acirc;micas de vigil&acirc;ncia e visibilidade que atravessam nosso cotidiano atualmente. Bruno Latour (2) fala que os objetos participam conosco da constru&ccedil;&atilde;o do mundo, afetando nossa forma de agir e transformando nossos modos de ser. Da mesma forma, s&atilde;o afetados por nossas a&ccedil;&otilde;es e pela rede ao qual est&atilde;o conectados. Assim, entendemos que ningu&eacute;m age sozinho e qualquer fen&ocirc;meno deve ser analisado como uma a&ccedil;&atilde;o coletiva e compartilhada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nosso material de an&aacute;lise &eacute; composto de entrevistas (3) realizadas com alguns atores que participaram desse processo, como ativistas, policiais, advogados e jornalistas, e da leitura de p&aacute;ginas na internet e Facebook de dois coletivos que se destacaram pelo uso das m&aacute;scaras durante as manifesta&ccedil;&otilde;es: o Anonymous e os Black Blocs. Ambos apareceram primeiro no exterior e, com a globaliza&ccedil;&atilde;o e a internet, chegaram ao Brasil. Ambos atuam e se sustentam usando a internet e as redes sociais como o Facebook. O primeiro come&ccedil;ou a atuar no Brasil em 2011 e se caracteriza por um <i>hacktivismo.</i> Atento ao monitoramento digital, o Anonymous,em suas p&aacute;ginas na internet, coloca explica&ccedil;&otilde;es e dicas para prote&ccedil;&atilde;o da privacidade na rede e tem como s&iacute;mbolo, uma m&aacute;scara inspirada no personagem Guy Fawkes do filme <i>Vde vingan&ccedil;a,</i> que &eacute; usada pelos seus integrantes durante as manifesta&ccedil;&otilde;es das quais participam para, entre outras raz&otilde;es, manter o anonimato. O outro grupo, os Black Blocs, surgiu com for&ccedil;a durante as manifesta&ccedil;&otilde;es de junho de 2013, antes disso n&atilde;o h&aacute; registro de sua atua&ccedil;&atilde;o no Brasil. N&atilde;o possuem uma m&aacute;scara s&iacute;mbolo, mas se vestem totalmente de preto cobrindo o rosto. N&atilde;o parecem estar t&atilde;o preocupados com o monitoramento digital.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Seguindo alguns movimentos desses atores, buscamos cartografar as controv&eacute;rsias que emergiram e chegamos a tr&ecirc;s sentidos diferentes para o uso das m&aacute;scaras: disfarce e prote&ccedil;&atilde;o; identidade coletiva; e empoderamento.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A M&Aacute;SCARA COMO DISFARCE E PROTE&Ccedil;&Atilde;O </b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um primeiro sentido para o uso de m&aacute;scaras est&aacute; ligado a uma defini&ccedil;&atilde;o mais corriqueira e comum, que nos remete &agrave; ideia de disfarce e prote&ccedil;&atilde;o. Por disfarce, podemos entender que sua fun&ccedil;&atilde;o principal seria falsear e distorcer uma imagem. Ao dar visibilidade e apresentar uma fisionomia a ser vista e admirada, ela esconderia atr&aacute;s de si um rosto, este sim verdadeiro e protegido pela invisibilidade. Al&eacute;m de proteger contra olhares invasivos, ela pode ganhar um sentido de escudo contra ataques vindos de fora.Mas percebe-se claramente que, al&eacute;m do disfarce, a m&aacute;scara &eacute; mecanismo de prote&ccedil;&atilde;o frente &agrave; repress&atilde;o esperada em manifesta&ccedil;&otilde;es, em particular quando h&aacute; aumento de a&ccedil;&otilde;es mais conflituosas, em um mundo povoado por tecnologia que pode capturar, gravar e circular imagens de qualquer pessoa em qualquer momento.. O uso posterior dessas imagens escapa a qualquer tipo de controle, o que parece produzir uma sensa&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidade muito grande. O policial, como agente repressor, n&atilde;o precisa necessariamente estar presente no local da manifesta&ccedil;&atilde;o, podendo apenas usar imagens gravadas para investiga&ccedil;&atilde;o e monitoramento. E a m&aacute;scara serviria para tentar proteger, pelo anonimato e invisibilidade, os manifestantes, apesar disso ser cada vez mais dif&iacute;cil num mundo crescentemente monitorado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No perfil do Facebook do Black Bloc/RJ, encontramos, claramente, essa inten&ccedil;&atilde;o de esconder o rosto: "As roupas e m&aacute;scaras negras que d&atilde;o nome &agrave; estrat&eacute;gia s&atilde;o usadas para dificultar ou mesmo impedir qualquer tipo de identifica&ccedil;&atilde;o pelas autoridades".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Da p&aacute;gina do Anonymous, reproduzimos um trecho de um panfleto (4) em que essa ideia tamb&eacute;m se torna expl&iacute;cita:</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>       <p>O uso de m&aacute;scaras em protestos surge da necessidade de seguran&ccedil;a frente &agrave; coer&ccedil;&atilde;o policial sofrida pelos movimentos sociais quando em situa&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas de resist&ecirc;ncia. Os rostos expostos em situa&ccedil;&otilde;es como esta favorecem a repress&atilde;o, facilitando a criminaliza&ccedil;&atilde;o dos sujeitos pol&iacute;ticos que se colocam em oposi&ccedil;&atilde;o ao que baseia a sociedade desigual em que vivemos.</p>       <p>O registro fotogr&aacute;fico, ou em v&iacute;deo, das pessoas que fazem manifesta&ccedil;&otilde;es serve como ind&iacute;cio para a pol&iacute;cia agir de modo a intimar e penalizar arbitrariamente os que est&atilde;o simplesmente se recusando a viver sob os moldes do capitalismo. Os nossos registros na internet (caixas de email, perfis do Orkut e Facebook etc) tamb&eacute;m acabam sendo investigados, configurando assim um processo de persegui&ccedil;&atilde;o em que o Estado aponta e se organiza para a a&ccedil;&atilde;o de exterm&iacute;nio das for&ccedil;as que a ele se op&otilde;em.</p>       <p>Dessa forma, as m&aacute;scaras nos protegem, reservam a n&oacute;s autonomia diante de nossas identidades (5).</p> </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Chama a aten&ccedil;&atilde;o, como o texto acima ressalta, o perigo que a visibilidade pode trazer, indicando uma dimens&atilde;o de vulnerabilidade ao olhar do outro que est&aacute; presente na exposi&ccedil;&atilde;o de si, principalmente numa situa&ccedil;&atilde;o de polariza&ccedil;&atilde;o de lados, vivenciada por ativistas e policiais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De um lado, coletivos que se colocam, de forma muito pr&oacute;xima dos movimentos sociais e do "povo", explicitam suas cr&iacute;ticas ao Estado em suas p&aacute;ginas na internet e apoiam claramente t&aacute;ticas que incluem invas&atilde;o de p&aacute;ginas oficiais no mundo virtual e a depreda&ccedil;&atilde;o de propriedades privadas de grandes corpora&ccedil;&otilde;es. Essas t&aacute;ticas s&atilde;o pol&ecirc;micas inclusive entre os pr&oacute;prios ativistas, que n&atilde;o comp&otilde;em uma massa homog&ecirc;nea, pelo contr&aacute;rio, s&atilde;o formados por for&ccedil;as e ideias diferentes e, muitas vezes, conflitantes. Para quem defende essa pr&aacute;tica — chamada de a&ccedil;&atilde;o direta pelos ativistas e de vandalismo pela pol&iacute;cia e pela imprensa tradicional —, ela carrega um valor pol&iacute;tico e &eacute; considerada uma forma de luta. Para quem condena, &eacute; considerada crime ou uma m&aacute; estrat&eacute;gia pol&iacute;tica, pois acaba afastando a maior parte da popula&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De qualquer forma, s&atilde;o pr&aacute;ticas que costumam ganhar bastante visibilidade e possuir um apelo midi&aacute;tico, expondo quem a defende, incomodando quem protesta, mas n&atilde;o concorda, e amedrontando a popula&ccedil;&atilde;o que observa. O risco de ser pego pela pol&iacute;cia, para alguns, &eacute; minimizado diante da possibilidade de expressar sua indigna&ccedil;&atilde;o e dar visibilidade a uma causa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma imagem de uma fachada de banco sendo destru&iacute;da a pedradas, muitas vezes, &eacute; inclu&iacute;da numa narrativa que potencializa seu sentido violento, esvaziando seu car&aacute;ter pol&iacute;tico. Sem entrar em uma discuss&atilde;o mais complexa do que pode ser considerado crime, consider&aacute;-las apenas sob esse vi&eacute;s, reduz seu sentido a um s&oacute;, encobrindo outros sentidos a que pode estar ligada e desloca a discuss&atilde;o, deixando de lado a grande quest&atilde;o que mobilizou as manifesta&ccedil;&otilde;es: o aumento da passagem de &ocirc;nibus e a insatisfa&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o com a qualidade do transporte p&uacute;blico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De outro lado, temos as pol&iacute;cias civis e militares, com suas diferentes fun&ccedil;&otilde;es. A primeira encarregada das investiga&ccedil;&otilde;es sobre as depreda&ccedil;&otilde;es de pr&eacute;dios p&uacute;blicos e privados e a segunda encarregada de acompanhar os manifestantes para descobrir os trajetos dos protestos, quando n&atilde;o era avisada, como tradicionalmente acontecia, muitas vezes o trajeto era modificado no momento da manifesta&ccedil;&atilde;o. Ambas utilizaram as informa&ccedil;&otilde;es e imagens coletadas via internet, redes sociais e c&acirc;meras para auxiliar em seu trabalho de tentar identificar os autores dos atos considerados violentos e monitorar o movimento dos manifestantes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a potencializa&ccedil;&atilde;o da exposi&ccedil;&atilde;o que esses dispositivos tecnol&oacute;gicos permitem, a m&aacute;scara surge como uma estrat&eacute;gia de permanecer invis&iacute;vel aos olhos da pol&iacute;cia, uma vez que ela &eacute; vista como inimiga e capaz de perseguir mesmo aqueles que n&atilde;o est&atilde;o envolvidos em atos violentos. Ao se tornar um objeto de resist&ecirc;ncia (6) &agrave; vigil&acirc;ncia do Estado, ela passa a ser um problema.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ent&atilde;o, a m&aacute;scara se torna um objeto <i>non grato</i> para o Estado, uma vez que atrapalha seu trabalho de vigil&acirc;ncia. Para a pol&iacute;cia, a m&aacute;scara esconderia criminosos, que se aproveitariam do anonimato para praticarem atos de vandalismo. Usar m&aacute;scara passa a ter o sentido de ter algo a esconder e isso pode ser perigoso, tornando aquele que se esconde suspeito, principalmente num mundo que nos incita &agrave; transpar&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nem todos que participaram das manifesta&ccedil;&otilde;es, no entanto, usaram m&aacute;scaras ou esconderam os rostos com camisas. Mesmo assim, isso ganhou uma dimens&atilde;o que culminou com um projeto de lei proibindo o uso de m&aacute;scaras ou de algo que esconda o rosto em eventos p&uacute;blicos, o que acabou gerando outra mobiliza&ccedil;&atilde;o: um grupo organizou um baile de m&aacute;scaras, uma vez que, no Rio de Janeiro, o carnaval de rua tem ganhado express&atilde;o e um de seus elementos festivos &eacute; a m&aacute;scara.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m da vigil&acirc;ncia digital, a pol&iacute;cia tamb&eacute;m se fez presente com o uso da for&ccedil;a na repress&atilde;o <i>in loco</i> dos manifestantes, fazendo surgir outro uso para as m&aacute;scaras, a prote&ccedil;&atilde;o contra o g&aacute;s lacrimog&ecirc;nio, arma n&atilde;o letal, usada maci&ccedil;amente pela pol&iacute;cia para dispersar a multid&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dialogamos com os estudos no campo da Teoria Ator-Rede (TAR) (2), que buscam articular ci&ecirc;ncia, tecnologia e sociedade em uma perspectiva s&oacute;cio-t&eacute;cnica. Nessa perspectiva, o que est&aacute; em jogo s&atilde;o os modos pelos quais a sociedade se produz, tendo em vista a participa&ccedil;&atilde;o da tecnologia e das conex&otilde;es entre atores humanos e n&atilde;o humanos na constru&ccedil;&atilde;o do social. Assim, entendemos os objetos como atores que participam da a&ccedil;&atilde;o, o que n&atilde;o significa dizer que a determinam ou que carregam em si um sentido <i>apriori,</i> pois &eacute; na conex&atilde;o com outros objetos e humanos que seus sentidos e fun&ccedil;&otilde;es v&atilde;o sendo produzidos e modificados. Ent&atilde;o, seu sentido depende da rede ao qual est&aacute; ligada. Para a pol&iacute;cia ela pode ter um sentido, para manifestantes outro e, mesmo dentro desses grupos, que n&atilde;o s&atilde;o homog&ecirc;neos, podem adquirir sentidos variados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A m&aacute;scara protege ou esconde? Quem est&aacute; por tr&aacute;s das m&aacute;scaras s&atilde;o v&acirc;ndalos ou manifestantes, v&iacute;timas da agress&atilde;o policial ou criminosos que precisam ser identificados? Cada lado constr&oacute;i discursos para defender seu ponto de vista e talvez n&atilde;o seja poss&iacute;vel responder a essa pergunta escolhendo um dos lados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Interessante notar que a vulnerabilidade n&atilde;o est&aacute; apenas do lado dos manifestantes. Policiais e jornalistas da grande m&iacute;dia tamb&eacute;m foram alvo de monitoramento e agress&atilde;o por parte de ativistas. Coletivos de m&iacute;dia-ativismo e os pr&oacute;prios manifestantes independentes empunharam suas c&acirc;meras para denunciar abusos de viol&ecirc;ncia policial, provocar policiais na rua, construir um contra-discurso &agrave; m&iacute;dia tradicional. Podemos dizer que houve uma disputa pela narrativa dos fatos, por meio de discursos e imagens, al&eacute;m de uma persegui&ccedil;&atilde;o de ambas as partes. Jornalistas que tiveram que sair da rua e policiais que tiveram dados pessoais expostos na internet s&atilde;o exemplos de situa&ccedil;&otilde;es em que esse sentimento de desprote&ccedil;&atilde;o e vulnerabilidade apareceu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com isso n&atilde;o queremos dizer que se trata de uma guerra sim&eacute;trica em que ambos os lados possuem os mesmos recursos, mas nos interessa apontar que, apesar dos embates, parece haver um ponto de converg&ecirc;ncia, a busca por uma <b>invisibilidade que protege.</b> Enquanto manifestantes procuram usar m&aacute;scaras, policiais muitas vezes sa&iacute;ram sem identifica&ccedil;&atilde;o, o que gerou outra controv&eacute;rsia sobre a legalidade dessa pr&aacute;tica. Al&eacute;m disso, muitos jornalistas e pessoas que estavam filmando e tirando fotos foram agredidos. Ter sua imagem capturada tamb&eacute;m parece ser um risco para a pol&iacute;cia, que atua como representante do Estado. Este parece pretender ser o &uacute;nico detentor dos mecanismos de vigil&acirc;ncia, mas a populariza&ccedil;&atilde;o de objetos que capturam imagem coloca na m&atilde;o de cidad&atilde;os comuns a possibilidade de vigiar seus vigias. Quase como uma equa&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica, mais c&acirc;meras produzem mais imagens e, com isso, mais den&uacute;ncias sobre o comportamento policial.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A M&Aacute;SCARA COMO IDENTIDADE COLETIVA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Extra&iacute;mos outro sentido para o uso das m&aacute;scaras analisando posturas tanto do Anonymous quanto dos Black Blocs. Cobrir o rosto &eacute; uma forma de expressar uma ideia sem lig&aacute;-la a um indiv&iacute;duo espec&iacute;fico, &eacute; uma forma de n&atilde;o pessoalizar a luta pol&iacute;tica. Nesse sentido, o uso da m&aacute;scara se justifica como uma forma de criar uma identidade coletiva, diluindo o protagonismo individual numa massa. Como podemos observar nesses trechos em destaque:</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>       <p>As roupas e m&aacute;scaras negras (...) s&atilde;o usadas (...) tamb&eacute;m com a finalidade de parecer uma &uacute;nica massa imensa, promovendo solidariedade entre seus participantes e criando uma clara presen&ccedil;a revolucion&aacute;ria (7).O anonimato se torna inevit&aacute;vel e imprescind&iacute;vel, no sentido de descentralizar a origem da a&ccedil;&atilde;o, e para que ela n&atilde;o se esgote nela mesma. O ato de fechar avenidas, quebrar os &ocirc;nibus das empresas de transporte n&atilde;o &eacute; um ato isolado, nele est&aacute; contido a indigna&ccedil;&atilde;o de todos os que n&atilde;o est&atilde;o de acordo com o sistema de transporte e organiza&ccedil;&atilde;o urbana dos quais dependemos. Uma a&ccedil;&atilde;o an&ocirc;nima em uma manifesta&ccedil;&atilde;o carrega consigo a for&ccedil;a de uma constru&ccedil;&atilde;o coletiva. Ningu&eacute;m &eacute; dono absoluto de um ato, este surge do processo de intera&ccedil;&atilde;o com v&aacute;rias pessoas e nesse sentido o anonimato &eacute; uma forma de n&atilde;o apropria&ccedil;&atilde;o de uma causa que &eacute; p&uacute;blica. (...) As m&aacute;scaras n&atilde;o servem de "esconderijo covarde" para os nossos rostos, como bem pregam as for&ccedil;as reacion&aacute;rias, mas para expor o processo que nos levar&aacute; &agrave; emancipa&ccedil;&atilde;o social como algo que s&oacute; pode vir a acontecer por meio da a&ccedil;&atilde;o coletiva aut&ocirc;noma. Sem rosto, sem l&iacute;deres (8).</p>       <p>A m&aacute;scara &eacute; um s&iacute;mbolo para mostrar que somos iguais. N&atilde;o h&aacute; lideran&ccedil;a, n&atilde;o h&aacute; um maior ou melhor que o outro, &eacute; tudo de forma horizontal. &Eacute; dessa forma que somos, &eacute; dessa forma que vemos todo o resto (9).</p>       <p>O ato an&ocirc;nimo carrega consigo a for&ccedil;a de um grupo, uma vez que a a&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seria responsabilidade de apenas um indiv&iacute;duo, mas &eacute; resultado de uma constru&ccedil;&atilde;o coletiva e, portanto, p&uacute;blica. Para a TAR (2), a origem da a&ccedil;&atilde;o &eacute; sempre incerta e n&atilde;o pode ser atribu&iacute;da a apenas um ator. Tanto um quanto o outro s&atilde;o atravessados por in&uacute;meras entidades que os colocam em movimento. Usar a palavra 'ator' significa que nunca &eacute; claro quem ou o que est&aacute; agindo quando n&oacute;s agimos, uma vez que o ator em cena nunca est&aacute; sozinho enquanto atua. (...) Por defini&ccedil;&atilde;o, a a&ccedil;&atilde;o &eacute; deslocada. A a&ccedil;&atilde;o &eacute; emprestada, distribu&iacute;da, sugerida, influenciada, dominada, tra&iacute;da, traduzida (10).</p>       <p>A a&ccedil;&atilde;o, portanto, para esses coletivos, diz respeito a uma experi&ecirc;ncia subjetiva em que o outro est&aacute; inclu&iacute;do e vem para somar. A afirma&ccedil;&atilde;o de uma individualidade pr&oacute;pria n&atilde;o est&aacute; em quest&atilde;o, mas a viv&ecirc;ncia de uma irmandade ganha for&ccedil;a, dentro de uma perspectiva em que eu s&oacute; existo conectado com os outros.Quem t&aacute; cobrindo o rosto est&aacute; se irmanando com outro algu&eacute;m que tamb&eacute;m est&aacute; cobrindo o rosto. Ent&atilde;o, voc&ecirc; deixa de ser voc&ecirc; enquanto indiv&iacute;duo e passa a assumir uma identidade coletiva e &eacute; uma identidade coletiva que, de certa forma, protege um pouco os seus atos. (...) A m&aacute;scara gera uma perspectiva simb&oacute;lica de agregar pessoas conforme um ideal. Eu acho que como voc&ecirc; tem os partidos, que t&ecirc;m uma bandeira vermelha, ou uma estrela no peito, que simboliza essa identidade coletiva com quem tamb&eacute;m tem uma estrela no peito, a m&aacute;scara talvez seja uma forma simb&oacute;lica de trazer para esses indiv&iacute;duos uma forma de constru&ccedil;&atilde;o de comunh&atilde;o, somos iguais, fazemos parte de um mesmo grupo, do mesmo ide&aacute;rio, ent&atilde;o, eu vejo a m&aacute;scara um pouco enquanto isso, uma tentativa de constru&ccedil;&atilde;o de uma identidade coletiva (11).</p> </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa ideia se traduz na forma&ccedil;&atilde;o horizontal que esses grupos tentam construir ao pretenderem n&atilde;o eleger nenhuma lideran&ccedil;a. Mas isso &eacute; controverso, pois mesmo n&atilde;o havendo uma lideran&ccedil;a formal e oficial, havia indiv&iacute;duos que se destacavam, que tinham uma maior proje&ccedil;&atilde;o e puxavam situa&ccedil;&otilde;es na rua, sendo identificados pela pol&iacute;cia como l&iacute;deres na hora de ser necess&aacute;ria qualquer negocia&ccedil;&atilde;o durante os protestos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A pol&iacute;cia, especialmente a Delegacia de Repress&atilde;o aos Crimes de Inform&aacute;tica (DRCI), montou um inqu&eacute;rito e realizou investiga&ccedil;&otilde;es baseando-se, entre outras coisas, no que era exposto na internet e Facebook, procurando identificar pessoas que exercessem um papel importante dentro desses coletivos, para que, ao det&ecirc;-los, tamb&eacute;m minasse o poder de a&ccedil;&atilde;o desses grupos. Frente a essa tentativa de identifica&ccedil;&atilde;o pessoal, a m&aacute;scara parece se opor, ao buscar uma identidade coletiva. Nesse sentido, a m&aacute;scara n&atilde;o &eacute;, simplesmente, uma forma de se manter invis&iacute;vel, mas de <b>criar uma visibilidade pr&oacute;pria.</b> &Eacute; uma forma de expressar uma ideia, que se op&otilde;e &agrave; individualiza&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o. E mais uma vez se apresenta como <b>resist&ecirc;ncia</b> aos mecanismos de vigil&acirc;ncia do Estado, que tentou usar a estrat&eacute;gia de identificar l&iacute;deres e prend&ecirc;-los para minar a possibilidade de novas manifesta&ccedil;&otilde;es.</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>No dia 11 de junho de 2014, v&eacute;spera da final da Copa do Mundo, algumas pessoas foram presas acusadas de forma&ccedil;&atilde;o de quadrilha. Para alguns, a inten&ccedil;&atilde;o era esvaziar os protestos, o que n&atilde;o aconteceu. Segundo um dos entrevistados, a raz&atilde;o das pris&otilde;es era:Por causa da nossa amea&ccedil;a ao sistema, para dar uma li&ccedil;&atilde;o, porque tinha que produzir terror para controlar as manifesta&ccedil;&otilde;es. A gente ficou muito feliz, nossa maior alegria na cadeia foi saber que a galera fez a manifesta&ccedil;&atilde;o mesmo assim no dia seguinte, manifesta&ccedil;&atilde;o que era a gente que tava puxando, mais ningu&eacute;m praticamente. Fez mesmo assim a galera, veio gente de v&aacute;rios lugares do Brasil. Foram pra l&aacute;, sabe, aguentaram a porrada e ficaram l&aacute;, &oacute;timo, lindo, prova de que o movimento &eacute; muito mais do que uma ou outra pessoa. A causa &eacute; uma coisa que supera indiv&iacute;duos. Isso &eacute; a prova concreta disso, voc&ecirc; vai e prende as ditas lideran&ccedil;as populistas e as coisas continuam acontecendo. As ditas lideran&ccedil;as, n&eacute;, essa coisa de lideran&ccedil;a &eacute; question&aacute;vel" (12). </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m disso, a afirma&ccedil;&atilde;o de uma identidade coletiva se configura como uma resist&ecirc;ncia &agrave; ideologia neoliberal e ao individualismo que parecem dominar o cen&aacute;rio pol&iacute;tico atual. Em um artigo sobre as manifesta&ccedil;&otilde;es de 2013, Duarte (13) tra&ccedil;a um breve hist&oacute;rico de mudan&ccedil;as ocorridas no governo brasileiro no in&iacute;cio dos anos 1990, em que observa valores ligados &agrave; prote&ccedil;&atilde;o social e &agrave; coisa p&uacute;blica dando lugar aos ideais do liberalismo econ&ocirc;mico. Presentes no discurso, por meio da defesa do Estado m&iacute;nimo, da economia de mercado e da prioridade para a iniciativa privada, e na pr&aacute;tica dos governos, por meio das privatiza&ccedil;&otilde;es e do sucateamento do servi&ccedil;o p&uacute;blico, esses ideais contribu&iacute;ram para a dissemina&ccedil;&atilde;o do individualismo como valor na sociedade brasileira. Individualismo que entende o indiv&iacute;duo como um ser isolado, livre e respons&aacute;vel por suas pr&oacute;prias conquistas e derrotas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar dessa dissemina&ccedil;&atilde;o, o mesmo autor acredita que as pr&aacute;ticas e valores de vida comunit&aacute;ria n&atilde;o desapareceram no Brasil e voltaram a crescer, principalmente ligados a festas populares como o carnaval de rua. Acompanhando esse racioc&iacute;nio, entendemos que essa <b>for&ccedil;a do coletivo</b> e do esp&iacute;rito comunit&aacute;rio se estabelece como uma resist&ecirc;ncia &agrave;s pr&aacute;ticas ligadas ao individualismo e ganhou forte express&atilde;o nas ruas em 2013, sustentada, inclusive, pelo uso de m&aacute;scaras.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A M&Aacute;SCARA COMO EMPODERAMENTO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como terceiro sentido, um entrevistado chamou a aten&ccedil;&atilde;o para a for&ccedil;a de <b>empoderamento</b> que a m&aacute;scara trouxe para alguns indiv&iacute;duos, que com ela se sentiram &agrave; vontade para agir de uma forma mais solta, livre e expressiva, mas n&atilde;o necessariamente violenta. O fato de estar ou n&atilde;o com m&aacute;scara fazia diferen&ccedil;a na forma de atuar no mundo, como se a m&aacute;scara permitisse ao sujeito ser e fazer o que jamais faria sem a m&aacute;scara. N&atilde;o exatamente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; a&ccedil;&atilde;o direta (ataque a bancos e grandes corpora&ccedil;&otilde;es), mas a se expressar com mais eloqu&ecirc;ncia e afetividade. O que se op&otilde;e &agrave; ideia corrente de que o verdadeiro eu aparece ao tirar a m&aacute;scara. Nesse caso, <b>o eu se constr&oacute;i ao colocar a m&aacute;scara,</b> ela surge como um elemento que ajuda a compor uma forma de ser e atuar no mundo. Usar a m&aacute;scara n&atilde;o &eacute; uma forma de se esconder, mas de se expressar melhor e com mais vigor.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao evocarmos a TAR (14), dilu&iacute;mos a dicotomia que tende a colocar em lados opostos o humano e o artificial. Nosso eu tamb&eacute;m &eacute; um artif&iacute;cio que se produz na intera&ccedil;&atilde;o com os objetos. Nesse caso, a conex&atilde;o manifestante-m&aacute;scara ganha v&aacute;rios sentidos, inclusive o de provocar transforma&ccedil;&otilde;es naquele que utiliza a m&aacute;scara. N&atilde;o existe, necessariamente, uma intencionalidade pr&eacute;via mas, ao se conectarem, um campo de possibilidades se abre, fazendo indiv&iacute;duos agirem de forma n&atilde;o previs&iacute;vel, expandindo sua forma de ser e atuar no mundo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Resumidamente, podemos dizer que as m&aacute;scaras escondem, protegem, revelam e potencializam rostos, indiv&iacute;duos, ideias e a&ccedil;&otilde;es. Nessa primeira reflex&atilde;o, encontramos tr&ecirc;s sentidos que a conex&atilde;o manifestantes-m&aacute;scaras assumiu nos protestos de 2013. O primeiro exp&otilde;e o que gostar&iacute;amos de chamar de imperativo da visibilidade e o quanto ela pode nos deixar vulner&aacute;veis e submetidos a uma constante vigil&acirc;ncia. Buscar a invisibilidade, usando m&aacute;scara, pode significar a busca por uma prote&ccedil;&atilde;o e ao mesmo tempo ser incriminador. Numa realidade em que a exposi&ccedil;&atilde;o de si se coloca cada vez mais naturalizada, ter algo a esconder pode soar estranho e perturbador.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O segundo sentido tende a se opor e questionar a ideia de que as a&ccedil;&otilde;es s&atilde;o individuais. O que parece estar em disputa &eacute; at&eacute; que ponto os atos s&atilde;o coletivos ou individuais. Enquanto a pol&iacute;cia tenta identificar indiv&iacute;duos, apostando que seu isolamento pode neutralizar a a&ccedil;&atilde;o dos grupos, os grupos tentam se organizar diluindo a centralidade do poder, para que a a&ccedil;&atilde;o seja maior que os indiv&iacute;duos. &Eacute; uma atitude que al&eacute;m de servir como resist&ecirc;ncia &agrave; a&ccedil;&atilde;o policial, questiona e se op&otilde;e &agrave; tradicional organiza&ccedil;&atilde;o hierarquizada e formal dos partidos pol&iacute;ticos e da democracia representativa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O terceiro sentido aponta para a possibilidade de se expor com mais intensidade. Usar m&aacute;scara n&atilde;o significa se esconder, mas ampliar a atua&ccedil;&atilde;o na visibilidade. Num mundo que se constr&oacute;i cada vez mais vigiado, esconder-se n&atilde;o se apresenta como a &uacute;nica resist&ecirc;ncia a uma visibilidade que se imp&otilde;e. A possibilidade de construir uma imagem e poder operar, escolhendo o que deve ser visto, tamb&eacute;m encontra seus caminhos de resist&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A visibilidade n&atilde;o &eacute; apenas o lugar da vulnerabilidade, ao nos expor a uma vigil&acirc;ncia cont&iacute;nua, mas tamb&eacute;m pode se transformar no lugar da disputa pol&iacute;tica, da defesa de ideias e da afirma&ccedil;&atilde;o de si.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar do risco de pris&atilde;o a a&ccedil;&atilde;o direta tem um apelo visual forte, a depreda&ccedil;&atilde;o de pr&eacute;dios p&uacute;blicos ou privados ganha mais facilmente visibilidade do que t&aacute;ticas mais pac&iacute;ficas. Para muitos jovens que atuaram como Black Blocs a conquista de visibilidade pode ter sido um dos grandes objetivos. Segundo alguns dos entrevistados, a maioria desses jovens era da periferia do Rio de Janeiro, com sua trajet&oacute;ria marcada pela invisibilidade e a falta de acesso a direitos b&aacute;sicos, e a visibilidade para eles talvez seja mais um desejo do que um risco.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m de dar express&atilde;o a uma causa, a conquista da visibilidade ganha um vi&eacute;s pol&iacute;tico ao por em cena situa&ccedil;&otilde;es que costumam ficar escondidas no cotidiano e n&atilde;o costumam ganhar aten&ccedil;&atilde;o da grande m&iacute;dia e da sociedade como um todo, como a viol&ecirc;ncia policial dentro das comunidades mais pobres da cidade. Ent&atilde;o usar a t&aacute;tica Black Bloc pode ser visto como uma estrat&eacute;gia, n&atilde;o necessariamente consciente, de dar visibilidade a uma forma de viol&ecirc;ncia que n&atilde;o &eacute; t&atilde;o comum nos centros urbanos, mas &eacute; banalizada na periferia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro uso pol&iacute;tico e estrat&eacute;gico da visibilidade &eacute; poder escolher o que e como se expor. &Eacute; claro que alguns escolhem n&atilde;o ter p&aacute;gina no Facebook, por exemplo, pensando na quest&atilde;o da vigil&acirc;ncia, mas este n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico motivo e mesmo que essa preocupa&ccedil;&atilde;o esteja presente n&atilde;o ser&aacute; sempre um impeditivo para a exposi&ccedil;&atilde;o, uma vez que a visibilidade traz vantagens, ainda que haja algum risco. A maioria dos coletivos parece ver as vantagens nessa exposi&ccedil;&atilde;o que a internet e uma rede social podem oferecer, tornando suas ideias p&uacute;blicas e mais conhecidas, ampliando, assim, suas conex&otilde;es e seu poder de a&ccedil;&atilde;o. Essa escolha, no entanto, n&atilde;o deixa de ser sem tens&otilde;es, principalmente ap&oacute;s as pris&otilde;es de alguns manifestantes em outubro de 2013, que produziu certa paranoia coletiva e fez alguns indiv&iacute;duos se tornarem mais cautelosos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O potencial de comunica&ccedil;&atilde;o, conex&atilde;o e visibilidade que a internet e as redes sociais conseguem produzir tende a ser reconhecido e, por isso, desejado. Em alguns casos, a consci&ecirc;ncia da vigil&acirc;ncia opera como um agenciador da cautela e da cria&ccedil;&atilde;o de estrat&eacute;gias para usufruir da visibilidade, escapando da vigil&acirc;ncia. A clareza do monitoramento pelo Estado e pela pol&iacute;cia, principalmente ap&oacute;s as pris&otilde;es na v&eacute;spera da final da Copa das Confedera&ccedil;&otilde;es, fez alguns recuarem e outros buscarem tecnologias para resistir a esse rastreamento, como fazer um perfil <i>fake</i> no Facebook.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A preocupa&ccedil;&atilde;o com a seguran&ccedil;a e a vigil&acirc;ncia coexistem com o desejo de visibilidade, como podemos resumir nessa fala: "Seria uma forma de tentar utilizar a ferramenta, mas sem dar os dados pra ferramenta, sem voc&ecirc; participar desse jogo de ter que se expor totalmente ali" (15).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda dentro dessa l&oacute;gica, poder operar na pr&oacute;pria visibilidade, poder escolher o que expor no Facebook e na internet, por exemplo, pode ser um modo de prote&ccedil;&atilde;o e resist&ecirc;ncia, tudo depende de como se estabelece uma conex&atilde;o com a ferramenta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dependendo do lugar onde est&aacute; e das conex&otilde;es estabelecidas a m&aacute;scara pode ser uma prote&ccedil;&atilde;o, um perigo, um risco, uma for&ccedil;a e assim por diante. Ampliar os sentidos que ela pode assumir &eacute; uma tentativa de fazer a realidade soar mais complexa, controversa e contradit&oacute;ria. Nossa inten&ccedil;&atilde;o &eacute; que a realidade seja maior que nossa capacidade de interpret&aacute;-la e enquadr&aacute;-la em qualquer plano te&oacute;rico. Queremos que ela escape &agrave;s nossas habilidades acad&ecirc;micas e intelectuais e nos surpreenda sempre. N&atilde;o almejamos acalmar as disputas, mas torn&aacute;-las vis&iacute;veis.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. A exposi&ccedil;&atilde;o aconteceu em Londres, at&eacute; fevereiro de 2015, contando a hist&oacute;ria dos protestos a partir do uso de alguns objetos.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Latour, B. <i>Reassembling the social: an introduction to actor-network-theory.</i> New York: Oxford University Press Inc., 2005.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. As entrevistas fazem parte do projeto de pesquisa de doutorado "Ver e ser visto no Facebook: modos de subjetiva&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;neos", que se iniciou em 2012 e ter&aacute; fim em 2016.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Circulado no segundo protesto contra o aumento das passagens, no dia 23 de janeiro de 2012, em Recife.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. "Por que esconder nossos rostos?" Publicado na p&aacute;gina do Anonymous Rio. &#91;Panfleto circulado no 2º protesto contra o aumento das passagens.&#93; Fonte: <a href="http://reciferesiste.org/porque-esconder-nossos-rostos" target="_blank">http://reciferesiste.org/porque-esconder-nossos-rostos</a>/. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.anonymousrio.net/2012/11/por-que-esconder-nossos-rostos.html" target="_blank">http://www.anonymousrio.net/2012/11/por-que-esconder-nossos-rostos.html</a>. Acesso 15 dezembro 2014. Recife, 23 de janeiro de 2012.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Entendemos resist&ecirc;ncia como uma for&ccedil;a que se op&otilde;e &agrave; outra. Tomamos como base o estudo de Foucault (16) sobre o poder, enquanto rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as que atuam umas sobre as outras.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Black Bloc RJ. Black Bloc RJ. P&aacute;gina no Facebook. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.facebook.com/BlackBlocRJ/info?tab=page_info" target="_blank">https://www.facebook.com/BlackBlocRJ/info?tab=page_info</a>. Acesso em 07 abril 2015.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. "Por que esconder nossos rostos?", <i>op. cit.</i> 2012.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. "A verdade por tr&aacute;s das cr&iacute;ticas ao Anonymous Brasil". Publicado na p&aacute;gina do Anonymous Rio. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.anonymousbrasil.com/nos-somos-legiao/a-verdade-por-tras-das-criticas-ao-anonymous-brasil/" target="_blank">http://www.anonymousbrasil.com/nos-somos-legiao/a-verdade-por-tras-das-criticas-ao-anonymous-brasil/</a>. Acesso em 15 dezembro 2014.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Latour, B., <i>op. cit.</i> pp 46. Tradu&ccedil;&atilde;o nossa. 2005.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. Entrevistado 1, entrevista individual gravada, 27 de novembro de 2014.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. Entrevistado 2, entrevista individual gravada, 01 de dezembro de 2014.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. Duarte, V. "O movimento de junho e as pr&aacute;ticas pol&iacute;ticas institucionais". In: <i>Advir,</i> Rio de Janeiro, p. 111-122, dez. 2013.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14. Foucault, M. "&Eacute;tica, sexualidade, pol&iacute;tica". In: Foucault, M. <i>Ditos e escritos, volume V.</i> Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria, 2010.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">15. Entrevistado 4, entrevista individual gravada, 14 de janeiro de 2014.</font></p>      ]]></body><back>
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