<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252016000100020</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/2317-66602016000100020</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Febre culinária]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bueno]]></surname>
<given-names><![CDATA[Chris]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2016</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2016</year>
</pub-date>
<volume>68</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>63</fpage>
<lpage>65</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252016000100020&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252016000100020&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252016000100020&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TELEVIS&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Febre culin&aacute;ria</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Chris Bueno</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pegue uma por&ccedil;&atilde;o de entretenimento, carregue nas imagens de comidas deliciosas, coloque uma pitada de drama, misture tudo e voc&ecirc; tem uma receita de sucesso para um programa de televis&atilde;o. Os programas de culin&aacute;ria viraram uma verdadeira febre no Brasil e atraem cada vez mais pessoas, dos perfis mais variados. Programas dedicados a ensinar receitas s&atilde;o t&atilde;o antigos quanto a pr&oacute;pria televis&atilde;o. Mas hoje em dia eles mudaram seu formato e s&atilde;o garantia de sucesso de espectadores. Segundo levantamento feito pelo Ibope em 2014, em mais de 70 canais abertos e pagos, h&aacute; 67 programas de culin&aacute;ria sendo veiculados na televis&atilde;o brasileira. Existe at&eacute; um canal exclusivamente dedicado a eles, o ChefTV, primeiro canal 100% gastron&ocirc;mico do pa&iacute;s, no ar desde 2011. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O perfil do p&uacute;blico desses programas &eacute; variado, indo dos apaixonados pela gastronomia aos cozinheiros de final de semana, passando por aqueles que buscam novas ideias para o card&aacute;pio do dia a dia, pessoas sem tempo na agenda que querem fugir da comida congelada ou semipronta ou aqueles preocupados com a dieta que buscam alternativas mais saud&aacute;veis. Afinal, a culin&aacute;ria envolve afetos. Os atos de cozinhar e de comer ainda s&atilde;o capazes de reunir a fam&iacute;lia ao redor da mesa ou mesmo em frente &agrave; televis&atilde;o. "Acredito que a gente viva um paradoxo, especialmente nas grandes cidades, onde n&atilde;o temos tempo para mais nada: nunca cozinhamos t&atilde;o pouco e, no entanto, nunca fomos t&atilde;o aficionados pela cozinha!", aponta a jornalista especializada em gastronomia e alimenta&ccedil;&atilde;o Luciana Mastrorosa Bueno de Souza, autora do livro <i>Pingado e p&atilde;o na chapa - hist&oacute;rias e receitas de caf&eacute; da manh&atilde;</i> (editora Mem&oacute;ria Visual).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v68n1/a20fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v68n1/a20fig01thumb.jpg" border="0">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>EVOLU&Ccedil;&Atilde;O GASTRON&Ocirc;MICA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As primeiras receitas de culin&aacute;ria na televis&atilde;o brasileira foram ao ar em 1958 em um quadro no programa <i>Revista feminina,</i> da TV Tupi, comandado por Of&eacute;lia Ramos Anunciato. Depois de 10 anos &agrave; frente do quadro, a apresentadora transferiu-se para a TV Bandeirantes e passou a apresentar o <i>Cozinha maravilhosa de Of&eacute;lia,</i> que ficou mais de 30 anos no ar e at&eacute; hoje &eacute; refer&ecirc;ncia em programas de culin&aacute;ria. Por muito tempo, os programas de culin&aacute;ria seguiram o modelo do programa de Of&eacute;lia: uma senhora sorridente dando o passo a passo da receita ao lado do fog&atilde;o, para um p&uacute;blico essencialmente feminino.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hoje isso mudou - e muito! "De relegados a segundo plano, focados em um p&uacute;blico muito espec&iacute;fico de donas de casa, passamos para uma explos&atilde;o de programas culin&aacute;rios nos mais diferentes formatos. Ainda cabe a cozinha do dia a dia, mas nos vemos fascinados pelo trabalho dos grandes chefs, a rotina extenuante das cozinhas profissionais, o mergulho no universo da gastronomia por meio de outros olhares", diz Souza. H&aacute; programas que apostam no card&aacute;pio r&aacute;pido, outros na sofistica&ccedil;&atilde;o dos pratos do dia a dia, outros dedicados apenas &agrave; comida saud&aacute;vel, os exclusivos para receitas doces. Temos ainda atra&ccedil;&otilde;es em que o apresentador degusta as mais variadas receitas viajando por pa&iacute;ses ex&oacute;ticos ou mesmo pelo interior do pa&iacute;s, como o <i>Viagem gastron&ocirc;mica</i> (GNT) e o <i>Receita de viagem com Bel Coelho</i> (TLC). Outros preferem ensinar receitas em suas pr&oacute;prias e aconchegantes cozinhas, como <i>Nigellissima</i> (GNT), <i>Di&aacute;rio de Olivier</i> (GNT) e <i>Que Marravilha! </i>(GNT). H&aacute; programas apresentados por crian&ccedil;as, como o <i>Tem crian&ccedil;a na cozinha</i> (Gloob), e por modelos e atores, como <i>Tempero de fam&iacute;lia</i> (GNT) e <i>Receitas de Carolina</i> (GNT).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REALIDADE E FIC&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um fil&atilde;o que vem ganhando cada vez mais espa&ccedil;o s&atilde;o os <i>reality shows</i> e as competi&ccedil;&otilde;es culin&aacute;rias. <i>Cake boss</i> (TLC), um dos mais conhecidos, mostra o cotidiano da confeitaria liderada por Buddy Valastro, os desafios dos mais inusitados pedidos de bolo e sua vida em fam&iacute;lia. O sucesso foi tanto que Buddy Valastro ganhou mais dois programas: <i>Kitchen boss</i> e <i>Nextgreat baker.</i> J&aacute; o <i>Cozinha sobre press&atilde;o</i> (SBT) une os dois mundos - <i>reality show</i> e competi&ccedil;&atilde;o - mostrando a realidade do servi&ccedil;o de jantar de grandes restaurantes e a disputa entre chefs profissionais de todo o pa&iacute;s.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre os programas de competi&ccedil;&atilde;o, a franquia <i>MasterChef'</i>(Band) &eacute; a de maior sucesso. O programa foi criado em 1990, no Reino Unido, e em 2005 passou a ser exibido em mais de 40 pa&iacute;ses, em diferentes vers&otilde;es, como o <i>Junior MasterChef,</i> onde os competidores s&atilde;o crian&ccedil;as, e o <i>Celebrity MasterChef,</i> com famosos na disputa. O programa ganhou sua vers&atilde;o brasileira em 2014. Seu maior concorrente &eacute; o programa <i>Top chef </i>(Sony) e a principal diferen&ccedil;a entre os dois programas &eacute; que o primeiro mostra a disputa entre amadores e o segundo entre profissionais. <i>Top chef </i>j&aacute; foi produzido em nove pa&iacute;ses e tamb&eacute;m teve adapta&ccedil;&otilde;es, como <i>Top chef: masters,</i> em que os competidores s&atilde;o chefs premiados, e <i>Top chef justdesserts,</i> dedicado exclusivamente &agrave; confeitaria. "Atualmente, comer deixou de ser apenas uma fonte de nutri&ccedil;&atilde;o ou uma refei&ccedil;&atilde;o saborosa para se tornar algo pr&oacute;ximo do mundo das celebridades, dos grandes shows", explica Souza. "&Eacute; uma busca por prazer, por entrosamento, pela identifica&ccedil;&atilde;o com algo maior: cultura, profiss&atilde;o, sabores, uma forma de ampliar as experi&ecirc;ncias do cotidiano por meio da alimenta&ccedil;&atilde;o".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n1/a20fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUDAN&Ccedil;A DE H&Aacute;BITOS </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa enxurrada de programas culin&aacute;rios aponta um interesse maior da sociedade pela alimenta&ccedil;&atilde;o. "Sem d&uacute;vida ele expressa um deslocamento do interesse da esfera do 'quanto se come' para a 'qualidade do que se come'. Esse fen&ocirc;meno &eacute; not&aacute;vel nos &uacute;ltimos 30 anos e tem v&aacute;rias raz&otilde;es, sendo uma delas a perda da confian&ccedil;a cega na ind&uacute;stria da alimenta&ccedil;&atilde;o, especialmente depois da crise da 'vaca louca' na Europa", explica o soci&oacute;logo Carlos Alberto D&oacute;ria, pesquisador de sociologia da alimenta&ccedil;&atilde;o da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor dos livros <i>A culin&aacute;ria materialista: a constru&ccedil;&atilde;o racional do alimento e do prazer gastron&ocirc;mico</i> (Editora Senac) e <i>Forma&ccedil;&atilde;o da culin&aacute;ria brasileira: escritos sobre a cozinha inzoneira </i>(Tr&ecirc;s Estrelas).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitos programas de culin&aacute;ria incentivam uma alimenta&ccedil;&atilde;o mais saud&aacute;vel, utilizam alimentos frescos, colhidos diretos da horta, sugerem trocar ingredientes industrializados por outros mais saud&aacute;veis e at&eacute; mesmo d&atilde;o dicas de nutri&ccedil;&atilde;o. Isso pode contribuir para que o p&uacute;blico se preocupe mais com sua alimenta&ccedil;&atilde;o. "Acredito que esses programas possam ajudar, sim, a mudar algo nos h&aacute;bitos alimentares de quem assiste. Mas eles funcionam como a influ&ecirc;ncia de uma novela, ou de um filme: atuam no campo da inspira&ccedil;&atilde;o. Se uma pessoa est&aacute; aprendendo a cozinhar, adquirindo t&eacute;cnicas b&aacute;sicas para se alimentar com mais sabor e qualidade, penso que esses programas podem ajudar - e muito - como uma influ&ecirc;ncia muito positiva", afirma D&oacute;ria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas essa rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; direta nem determinante. &Eacute; importante ter em mente que o papel principal dos programas de culin&aacute;ria &eacute; entreter e n&atilde;o educar. "Educar para o 'saud&aacute;vel' &eacute; bem mais do que uma quest&atilde;o publicit&aacute;ria e exige coragem para tocar nas quest&otilde;es reais, que realmente importam na discuss&atilde;o sobre o futuro. Tome o exemplo dos transg&ecirc;nicos, dos herbicidas, dos horm&ocirc;nios que envenenam nossa alimenta&ccedil;&atilde;o. Nada disso esses programas discutem", enfatiza D&oacute;ria.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MULHER NA COZINHA    <br>   </b> Um ponto positivo que esses programas trouxeram foi a mudan&ccedil;a da vis&atilde;o do papel da mulher. As apresentadoras s&atilde;o nutricionistas, chefs profissionais, executivas e tamb&eacute;m modelos e atrizes. E tamb&eacute;m n&atilde;o falam mais para um p&uacute;blico exclusivamente feminino, formado por donas de casa preocupadas em alimentar sua fam&iacute;lia. H&aacute; ainda uma mensagem de que cozinhar n&atilde;o &eacute; uma obriga&ccedil;&atilde;o inerente ao sexo feminino, mas uma escolha e um prazer. Uma das maiores representantes do empoderamento das mulheres na cozinha &eacute; a cozinheira brit&acirc;nica Nigella Lawson, que deu o que falar ao acrescentar uma pitada de sensualidade em suas receitas. Apesar de ter sido muito criticada por explorar sua sexualidade, Nigella contribui para a defesa da alimenta&ccedil;&atilde;o sem culpa, numa &eacute;poca em que as mulheres s&atilde;o bombardeadas com modelos inating&iacute;veis de beleza e vivem sobre a press&atilde;o de serem eternamente jovens e magras.</font></p>      ]]></body>
</article>
