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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>POESIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Manoel de Barros: ver, rever e transver</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>K&aacute;tia Kishi</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n2/a18fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Eu n&atilde;o amava que botassem data na minha exist&ecirc;ncia. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em n&oacute;s. A gente era o que quisesse ser s&oacute; usando esse adv&eacute;rbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma &aacute;rvore e podia apreciar melhor os passarinhos", explica o poeta Manoel de Barros em <i>Mem&oacute;rias inventadas: a segunda inf&acirc;ncia. </i>Manoel nasceu em Corumb&aacute;, mas logo foi morar com a fam&iacute;lia na "capital do pantanal", Corumb&aacute; (MS), onde viveu at&eacute; seus oito anos. Desse local, em que &aacute;gua e terra se confundem, veio a inspira&ccedil;&atilde;o para seu estilo que n&atilde;o diferencia verso de frase. "Na verdade, ele escrevia uma esp&eacute;cie de mistura entre poesia e prosa. Voc&ecirc; olha e tem cara de verso, mas &eacute; prosa. E &agrave;s vezes voc&ecirc; l&ecirc; uma prosa, mas no fundo &eacute; verso. &Eacute; como as &aacute;guas. As &aacute;guas misturam as coisas", explica o professor de teoria da literatura e de literatura e cinema, da Universidade Federal Fluminense (UFF), Adalberto M&uuml;ller Jr.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa inventividade foi al&eacute;m da estrutura dos textos para seus conte&uacute;dos. Por&eacute;m, Barros nunca gostou de ser classificado como "poeta da natureza" ou "poeta do pantanal" s&oacute; por utilizar dessas experi&ecirc;ncias como recursos textuais e de criatividade. Sua obra &eacute; mais que uma bela descri&ccedil;&atilde;o, afinal poeta lida com palavras e inventa a ponto de levar  o leitor a alargar seu olhar. "As coisas n&atilde;o querem mais ser vistas por pessoas razo&aacute;veis:/ Elas desejam ser olhadas de azul -/ Que nem uma crian&ccedil;a que voc&ecirc; olha de ave.", ensina o poeta no <i>Livro das ignor&atilde;&ccedil;as</i>. E &eacute; nesse jogo, entre a natureza e a linguagem, que se deve ler o poeta. "Ele faz o conte&uacute;do (a natureza) entrar na forma e se confundir com ela, &eacute; uma linguagem da natureza e, de outro lado, a natureza da linguagem", esclarece M&uuml;ller. Segundo ele, Barros opera uma mudan&ccedil;a sobre quem &eacute; o sujeito das a&ccedil;&otilde;es, libertando e dando voz &agrave;s coisas. "&Eacute; o que acontece no poeminha sobre os carac&oacute;is: 'Ah, como ser&atilde;o ardentes nos carac&oacute;is os desejos de voar!' Essa &eacute; uma perspectiva que vem do caracol. Quem vai imaginar que o caracol quer voar? Fica se arrastando na pedra, na parede... Ent&atilde;o Manoel imagina pontos de vista que n&atilde;o s&atilde;o humanos. Isso significa se tornar 'coisal', quando o homem se funde com a natureza", explica o pesquisador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Aos nove anos, Manoel se mudou para o col&eacute;gio interno de Campo Grande para concluir o antigo ensino prim&aacute;rio. O contato com livros na escola intensificou seu interesse pela literatura. &Eacute; da obra do padre Ant&ocirc;nio Vieira que vem o misticismo presente na poesia de Manoel de Barros. "Ele &eacute; um poeta m&iacute;stico, mas n&atilde;o religioso. O m&iacute;stico &eacute; algu&eacute;m que acredita que a transcend&ecirc;ncia s&oacute; se realiza na exist&ecirc;ncia. Nas coisas. Na vida...", ressalta M&uuml;ller. De acordo com ele, o m&iacute;stico est&aacute; presente na ideia do &ecirc;xtase ou gozo com  o sagrado, as coisas e a linguagem, como quando "O corpo do rio prateia/ quando a lua/ se abre", do poema <i>O livro de Bernardo</i>, e tamb&eacute;m presente em <i>O guardador de &aacute;guas </i>quando Manoel de Barros declara que "a lesma influi muito em meu desejo de/ gosmar sobre as palavras/ nesse coito com letras!".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SONHO DE SER "IN&Uacute;TIL"</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Manoel de Barros concluiu o gin&aacute;sio e o curso de direito no Rio de Janeiro, onde se tornou membro da Juventude Comunista, experi&ecirc;ncia que marcou toda sua obra. Mas abandonou a organiza&ccedil;&atilde;o ap&oacute;s o discurso de Luiz Carlos Prestes em apoio ao governo de Get&uacute;lio Vargas. Depois disso, viajou para Bol&iacute;via, Peru e estudou cinema e pintura por um ano em Nova York. Ao voltar para  o Rio, teve v&aacute;rias ocupa&ccedil;&otilde;es, incluindo a de corretor de im&oacute;veis, quando conheceu aquela que seria sua esposa, a mineira Stella Leite. O casal se mudou para Corumb&aacute; ap&oacute;s a morte do pai de Manoel para cuidar da fazenda herdada, isolandose mais ainda das grandes rodas de literatura. Por anos, o poeta morou na fazenda, at&eacute; conseguir se estabelecer em Campo Grande e realizar seu sonho de ser "in&uacute;til", como descrevia a profiss&atilde;o de poeta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um dos poetas que mais vendeu livros no Brasil s&oacute; teve sua obra largamente conhecida quase meio s&eacute;culo depois de lan&ccedil;ar seu primeiro livro <i>Poemas concebidos sem pecado,</i> publicado com 21 exemplares artesanais, em 1937.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A capacidade de fazer rir de Manoel de Barros fez com que as editoras explorassem em demasia uma imagem de poeta para crian&ccedil;as que s&oacute; fala da natureza, o que acabou ofuscando o aspecto pol&iacute;tico da sua obra. "O Manoel de Barros era profundamente pol&iacute;tico. N&atilde;o que ele apoiasse candidato A ou B, mas ele vinha de uma forma&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; ligada ao Partido Comunista, mas de uma leitura m&iacute;stica de Marx", aponta M&uuml;ller. O professor da UFF compara a poesia de Manoel com a ideia b&aacute;sica de S&atilde;o Francisco de Assis, de amor &agrave; natureza e a qualquer criatura, na busca por uma sociedade mais justa. "Isso &eacute; o mais profundo da poesia de Manoel de Barros, ele fala de 'inutens&iacute;lio', de uma poesia que cuida daquilo que a sociedade capitalista jogou fora.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n2/a18fig02.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tanto do sapato velho descartado, quanto das pessoas que foram descartadas pelo sistema. Ent&atilde;o ele fala do andarilho... o andarilho o que &eacute;? A pessoa que n&atilde;o se enquadra em lugar nenhum no sistema capitalista. Quando Manoel de Barros fala do &iacute;nfimo, do descartado, do desnecess&aacute;rio, claro que &eacute; pol&iacute;tico", completa M&uuml;ller.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>AL&Eacute;M DOS LIVROS </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O processo de cria&ccedil;&atilde;o de Manoel de Barros era singular. Ainda segundo Muller, ele mesmo fabricava seus caderninhos sem pauta, geralmente com uma pintura que gostava na capa, e come&ccedil;ava a escrever a m&atilde;o. Normalmente juntava tr&ecirc;s e publicava um livro, da&iacute; as divis&otilde;es em suas obras, que na verdade n&atilde;o existem. Para Muller, podese considerar todos seus livros uma s&oacute; obra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As entrevistas escritas que concedia tamb&eacute;m s&atilde;o uma rica fonte para conhecer o poeta. "Ele escrevia com as mesmas t&eacute;cnicas que usava para escrever os poemas", explica M&uuml;ller, que reuniu todas as entrevistas concedidas at&eacute; 2003 no livro <i>Encontros</i>. Os textos do poeta tamb&eacute;m foram adaptados para o cinema, no document&aacute;rio <i>S&oacute; dez por cento &eacute; mentira</i> (2008) de Pedro C&eacute;zar, e os curta-metragens <i>Caramujo-Flor</i>, de Joel Pizzini e <i>Wenceslau e a &aacute;rvore gramofone</i>, de Adalberto M&uuml;ller Jr. Tamb&eacute;m inspiraram pe&ccedil;as de teatro, exposi&ccedil;&otilde;es e m&uacute;sica, como  o &aacute;lbum <i>M&uacute;sica de sobreviv&ecirc;ncia, </i>de Egberto Gismonti.  "Manoel de Barros &eacute; intraduz&iacute;vel. Tudo que a gente pode fazer &eacute; tentar entender a linguagem dele, se apropriar dessa linguagem e criar um outro meio, como em outra m&iacute;dia, algo de equivalente", finaliza M&uuml;ller.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Manoel de Barros, que completaria 100 anos em 2016, faleceu aos 98 anos, no dia 13 de novembro de 2014. Muitos n&uacute;meros para algu&eacute;m que, ao inv&eacute;s de contar ou medir, escolheu ver, rever e transver o mundo.</font></p>      ]]></body>
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