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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CINEMA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Emprego dom&eacute;stico e a arquitetura da desigualdade</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Paula Gomes</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O quarto de empregada faz parte de uma tradi&ccedil;&atilde;o arquitet&ocirc;nica brasileira, de segrega&ccedil;&atilde;o, que remonta ao per&iacute;odo de escravid&atilde;o. Ele surge como uma solu&ccedil;&atilde;o para separar empregados e patr&otilde;es que permaneceram vivendo juntos ap&oacute;s a aboli&ccedil;&atilde;o, em 1888. A delimita&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os de circula&ccedil;&atilde;o a partir da condi&ccedil;&atilde;o social vem se alterando lentamente, entre avan&ccedil;os e retrocessos. Um bom exemplo foi a aprova&ccedil;&atilde;o da Lei nº 11.995/1996, que veda a discrimina&ccedil;&atilde;o no acesso aos elevadores segundo a condi&ccedil;&atilde;o social das pessoas na cidade de S&atilde;o Paulo. Antes de ser aprovado, o projeto de lei gerou bastante discuss&atilde;o e foi tema de uma coluna do jornal <i>Folha de S. Paulo</i>, em que a <i>promoter</i> Daniela Diniz dizia: &ldquo;n&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o de discrimina&ccedil;&atilde;o, mas de respeito. Acho que cada um deve ter o seu espa&ccedil;o&rdquo;. Outra importante conquista dos empregados dom&eacute;sticos veio em 2013, com a aprova&ccedil;&atilde;o da &ldquo;PEC das dom&eacute;sticas&rdquo;, que estende os benef&iacute;cios trabalhistas j&aacute; existentes para essa classe de trabalhadores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essas mudan&ccedil;as acabaram por colocar a empregada dom&eacute;stica tamb&eacute;m na pauta da produ&ccedil;&atilde;o audiovisual brasileira. Se at&eacute; os anos 2000, era uma figura retratada quase que exclusivamente nos n&uacute;cleos c&ocirc;micos de telenovelas, nos &uacute;ltimos anos alguns filmes t&ecirc;m colocado a empregada em muitos outros cen&aacute;rios propondo interessantes reflex&otilde;es sobre o tema e explorando, entre outras quest&otilde;es, a arquitetura da desigualdade no Brasil, caracterizado por ambientes como a &ldquo;&aacute;rea de servi&ccedil;o&rdquo;, o &ldquo;quarto de empregada&rdquo; e o &ldquo;elevador de servi&ccedil;o&rdquo;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como revelou Joel Zito Ara&uacute;jo, no livro <i>A nega&ccedil;&atilde;o do Brasil: o negro na telenovela</i> brasileira (2004), o papel da empregada era quase sempre interpretado por uma atriz negra, &uacute;nico espa&ccedil;o que elas tinham na televis&atilde;o. Os primeiros sinais de mudan&ccedil;a aparecem com o lan&ccedil;amento da com&eacute;dia <i>Dom&eacute;sticas</i> (2001), dirigida pelo, ent&atilde;o estreante, Fernando Meirelles e por Nando Olival. Apesar da inova&ccedil;&atilde;o de trazer para as telas um grupo social at&eacute; ent&atilde;o ignorado, o filme foi bastante criticado por produzir um retrato estereotipado das empregadas dom&eacute;sticas que aparecem cometendo equ&iacute;vocos gramaticais e culturais. Al&eacute;m disso, o fato de o filme n&atilde;o mostrar as empregadoras foi entendido como uma maneira de poup&aacute;-las de qualquer cr&iacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ap&oacute;s esta primeira incurs&atilde;o humor&iacute;stica, a empregada dom&eacute;stica volta a protagonizar uma obra audiovisual no document&aacute;rio de Gabriel Mascaro <i>Dom&eacute;stica</i> (2013). Para produzir o filme, Mascaro adotou um procedimento inusitado: pediu para que sete adolescentes previamente selecionados filmassem as funcion&aacute;rias de suas casas durante uma semana. O resultado da edi&ccedil;&atilde;o desse material &eacute; um retrato intimista e dram&aacute;tico da vida dessas sete pessoas e a sua rela&ccedil;&atilde;o com os &ldquo;patr&otilde;es-mirins&rdquo;. Ainda que em muitos momentos o filme tenha um tom bem humorado, h&aacute; uma grande dist&acirc;ncia do tom c&ocirc;mico e estereotipado que encontramos no filme de Meirelles e Olival.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n2/a20fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m vem de Pernambuco outras duas produ&ccedil;&otilde;es que abordaram a quest&atilde;o da empregada dom&eacute;stica no pa&iacute;s, sob diferentes aspectos. <i>Recife frio</i> e <i>O som ao redor</i>, ambos do diretor Kleber Mendon&ccedil;a Filho (2009 e 2012). Em <i>Recife frio</i> uma brusca altera&ccedil;&atilde;o clim&aacute;tica transforma a capital pernambucana em uma regi&atilde;o de baix&iacute;ssimas temperaturas. A situa&ccedil;&atilde;o inusitada provoca uma invers&atilde;o de valores arquitet&ocirc;nicos no apartamento de uma fam&iacute;lia de classe m&eacute;dia, na medida em que o filho passa a cobi&ccedil;ar o quarto da empregada, antes pequeno e com pouca ventila&ccedil;&atilde;o, mas que passa a ser o c&ocirc;modo mais quente da casa. Em <i>O som ao redor</i>, o protagonista, um corretor de im&oacute;veis, mostra um apartamento para um potencial comprador, dizendo, com entusiasmo, que o quarto de empregada &eacute; diferenciado, pois tem uma janela.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>QUARTO DOS FUNDOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas &eacute; em <i>Que horas ela volta?, </i>de Anna Muylaert, que a rela&ccedil;&atilde;o entre a arquitetura e a desigualdade social &eacute; colocada em primeiro plano. No filme, Val, interpretada pela atriz Regina Cas&eacute;, deixa sua cidade natal, em Pernambuco, para trabalhar como dom&eacute;stica e bab&aacute; para uma fam&iacute;lia de classe alta, em S&atilde;o Paulo. Ela, que mora em um quartinho nos fundos da casa, v&ecirc; sua vida mudar quando a filha vem visit&aacute;-la, depois de treze anos em que foi criada pela av&oacute;. A partir desse enredo e utilizando a arquitetura da casa, Muylaert revela a desigualdade entre patr&otilde;es e empregados: o contraste entre o amplo e espa&ccedil;oso quarto de visitas, sempre desocupado, e  o min&uacute;sculo quarto da empregada; a piscina, que surge como um importante s&iacute;mbolo da segrega&ccedil;&atilde;o social. Nas cenas finais do filme, ela adquire ares de met&aacute;fora visual quando Val decide pedir demiss&atilde;o, e, antes de se mudar, entra na piscina, transgredindo aquela fronteira f&iacute;sica socialmente imposta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O arquiteto e professor associado da Universidade do Texas, Fernando Luiz Lara explica que, at&eacute; o final do s&eacute;culo XIX a arquitetura das casas remontava a "mini casasgrandes". Na parte frontal ficava a &aacute;rea nobre e social e a &aacute;rea de fundo correspondia aos c&ocirc;modos "de servi&ccedil;o", entre eles as acomoda&ccedil;&otilde;es dos empregados, muitas vezes na forma de ed&iacute;culas, independentes do resto da casa. Este modelo, que sofreu pequenas varia&ccedil;&otilde;es no decorrer dos anos, pode ser encontrado em muitas casas at&eacute; hoje.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a verticaliza&ccedil;&atilde;o das cidades, os pr&eacute;dios de apartamentos criaram solu&ccedil;&otilde;es arquitet&ocirc;nicas para perpetuar essa segmenta&ccedil;&atilde;o entre patr&otilde;es e empregados. Como explica Lara, os apartamentos s&atilde;o compostos por dois eixos: de um lado, o eixo social, formado por sala, corredor, quartos e banheiro, e do outro, o eixo de servi&ccedil;o, com cozinha, &aacute;rea de servi&ccedil;o e quarto de empregada. Essa &aacute;rea de servi&ccedil;o possui uma porta que a conecta com os elevadores, a chamada porta de servi&ccedil;o, em geral mais simples do que a porta social. Al&eacute;m disso, muitos pr&eacute;dios possuem dois tipos de elevadores, os sociais e os de servi&ccedil;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ESPA&Ccedil;OS DIVIDIDOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Mesmo quando, por quest&otilde;es puramente econ&ocirc;micas, o quarto de empregada desaparece, permanece o preconceito expresso na porta de servi&ccedil;o ou na insistente separa&ccedil;&atilde;o entre cozinha e sala de jantar, que desapareceu h&aacute; d&eacute;cadas nos pa&iacute;ses onde a desigualdade de ra&ccedil;a e de g&ecirc;nero &eacute; menor que a brasileira", afirma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar do avan&ccedil;o da legisla&ccedil;&atilde;o trabalhista, o ambiente do trabalho do empregado dom&eacute;stico est&aacute; sujeito a outras din&acirc;micas. A condi&ccedil;&atilde;o singular do emprego dom&eacute;stico, marcada pela proximidade com os empregadores acaba por gerar la&ccedil;os de afetividade que tendem a dissolver as distin&ccedil;&otilde;es cl&aacute;ssicas entre funcion&aacute;rio e patr&atilde;o. N&atilde;o &eacute; incomum o empregador afirmar que a empregada dom&eacute;stica &eacute; "praticamente da fam&iacute;lia". Esse fator, somado ao perfil desse trabalhador, em geral mulheres com baixa escolaridade e remunera&ccedil;&atilde;o, coloca essa categoria em uma situa&ccedil;&atilde;o de grande vulnerabilidade, suscet&iacute;vel a condi&ccedil;&otilde;es abusivas de trabalho.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Neste sentido, o filme <i>Casa grande </i>(2014), de Fellipe Barbosa, cujo t&iacute;tulo &eacute; uma clara refer&ecirc;ncia ao livro <i>Casa-grande &amp; senzala</i> (1933), de Gilberto Freyre, busca mostrar como essas mudan&ccedil;as s&atilde;o lentas. Na hist&oacute;ria, um adolescente de classe m&eacute;dia alta, cuja fam&iacute;lia enfrenta graves problemas financeiros, se v&ecirc; for&ccedil;ado a mudar de h&aacute;bitos. Ao entrar em contato com outras realidades sociais, ele passa a reconhecer que a sua fam&iacute;lia &eacute; respons&aacute;vel por perpetuar desigualdades. Um exemplo &eacute; a demiss&atilde;o do motorista sem a garantia de seus direitos trabalhistas. O filme traz ainda a quest&atilde;o do sexo entre patr&otilde;es e empregadas, assunto tratado por Freyre, que revelou a complexa din&acirc;mica entre despotismo e intimidade que ocorria na rela&ccedil;&atilde;o entre senhores e escravas no per&iacute;odo da escravid&atilde;o. <i>Casa grande</i> &eacute; um filme sobre mudan&ccedil;as e sobre perman&ecirc;ncias. Como mostra a &uacute;ltima cena, o rapaz apoiado no parapeito da janela do pequeno quartinho da empregada, sugere que mesmo que esse espa&ccedil;o deixe de existir, ainda resistir&aacute; por muito tempo como constru&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria, pautando a rela&ccedil;&atilde;o entre patr&otilde;es e empregadas.</font></p>      ]]></body>

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