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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOT&Iacute;CIAS DO BRASIL    <br>   ENERGIA RENOV&Aacute;VEL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Faltam estrat&eacute;gias no Brasil para gerar energia das mar&eacute;s</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patricia Piacentini</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em tempos de preocupa&ccedil;&atilde;o com o futuro do planeta, a explora&ccedil;&atilde;o de energia limpa deve ser prioridade. Energia solar, e&oacute;lica (do vento), do baga&ccedil;o de cana s&atilde;o bem conhecidas, mas pouco se ouve falar sobre a energia que vem do mar, obtida da for&ccedil;a das mar&eacute;s, a maremotriz. "&Eacute; uma fonte renov&aacute;vel, n&atilde;o poluente, inesgot&aacute;vel e, sobretudo, previs&iacute;vel. Este &uacute;ltimo atributo &eacute; um grande diferencial em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s energias e&oacute;lica e solar, que t&ecirc;m incertezas associadas quanto &agrave; disponibilidade", defende Osvaldo Ronald Saavedra, professor do Instituto de Energia El&eacute;trica da Universidade Federal do Maranh&atilde;o (UFMA). O Brasil possui um dos maiores potenciais mundiais localizado no Maranh&atilde;o, com 8 metros de n&iacute;vel de mar&eacute;, mas ainda faltam incentivos para reduzir custos de investimento e incentivar esse potencial.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A energia das mar&eacute;s n&atilde;o utiliza combust&iacute;veis f&oacute;sseis nem gera res&iacute;duos ao meio ambiente. "Pode ser destacada a possibilidade de abastecimento de comunidades remotas e isoladas, bases cient&iacute;ficas e militares e aplica&ccedil;&atilde;o para atividades pesqueiras e portu&aacute;rias", diz Rafael Malheiro Ferreira, professor de hidr&aacute;ulica, hidrologia e engenharia portu&aacute;ria e costeira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador em engenharia oce&acirc;nica pela Coppe/UFRJ.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n3/a05fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>FUNCIONAMENTO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com Saavedra, uma das principais formas de explora&ccedil;&atilde;o da energia das mar&eacute;s &eacute; atrav&eacute;s do uso de turbinas instaladas em barragens. "Desta forma, as mar&eacute;s criam um desn&iacute;vel suficientemente elevado entre os lados da barragem, de modo que as turbinas sejam acionadas. Em outras palavras: trata-se basicamente do mesmo princ&iacute;pio utilizado em usinas hidrel&eacute;tricas convencionais", explica Ferreira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A diferen&ccedil;a, ele explica, &eacute; que o mar tem conex&atilde;o com um dos lados da barragem, respons&aacute;vel pela vaz&atilde;o da mar&eacute; - oscila&ccedil;&atilde;o para cima (preamar) e para baixo (baixamar). O desn&iacute;vel provocado entre a represa e a mar&eacute; alta ou baixa causa passagem de &aacute;gua pela turbina gerando eletricidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse tipo de energia alternativa, no entanto, pode provocar impactos na fauna e flora, uma vez que a represa criada pela barragem causa interfer&ecirc;ncia no estu&aacute;rio do rio, a exemplo do que ocorre com as hidrel&eacute;tricas. "Por&eacute;m, com uma opera&ccedil;&atilde;o planejada da barragem, esses efeitos podem ser reduzidos ou at&eacute; se tornar ben&eacute;ficos para o manejo da represa", ressalva Ferreira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Devido ao impulso das energias renov&aacute;veis nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, pequenos aproveitamentos hidr&aacute;ulicos de baixa queda (assim como &eacute; o maremotriz), que antes n&atilde;o eram considerados apropriados, v&ecirc;m sendo realizados. "Isto se d&aacute; principalmente porque utilizam novas tecnologias de turbinas de baixa queda e produzem menos impactos ambientais e econ&ocirc;micos", esclarece Ferreira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os projetos de usinas maremotrizes ainda s&atilde;o pouco explorados devido ao alto custo inicial e longos per&iacute;odos de constru&ccedil;&atilde;o. "As obras de constru&ccedil;&atilde;o civil representam o item mais custoso no or&ccedil;amento da usina, o que conduz a um relativo aumento do custo do kW instalado. O Conselho Mundial de Energia aponta para o valor de US$ 2.800/ kW, enquanto os valores atualizados das constru&ccedil;&otilde;es das usinas de La Rance e de Annapolis (ver box) seriam de US$ 3.200 e US$ 2.300/ kW", exemplifica Ferreira.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As energias oce&acirc;nicas ainda n&atilde;o fazem parte da agenda energ&eacute;tica do Brasil. "N&atilde;o existem pol&iacute;ticas de incentivos nem iniciativas para a realiza&ccedil;&atilde;o de um invent&aacute;rio objetivo do potencial energ&eacute;tico", lamenta Osvaldo Saavedra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Exemplo disso &eacute; que o pa&iacute;s n&atilde;o possui uma legisla&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica para fontes renov&aacute;veis de energia do mar. O pesquisador Rafael Mendon&ccedil;a Oliveira, da UFMA, em sua disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado "Energias oce&acirc;nicas: arcabou&ccedil;o legal e entraves a serem superados para o desenvolvimento no Brasil" (2016), afirma que, apesar dos avan&ccedil;os na legisla&ccedil;&atilde;o ambiental brasileira nas &uacute;ltimas tr&ecirc;s d&eacute;cadas, "n&atilde;o s&atilde;o sequer citadas as tecnologias para gera&ccedil;&atilde;o de energia de fontes oce&acirc;nicas". Segundo ele, os empreendimentos de gera&ccedil;&atilde;o de energia oce&acirc;nica s&atilde;o vistos como quaisquer outros empreendimentos e, portanto, se submetem &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o corrente, inviabilizando a instala&ccedil;&atilde;o de usinas maremotrizes no pa&iacute;s e o progresso da ind&uacute;stria de energia renov&aacute;vel marinha.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Estudos preliminares apontam para a exist&ecirc;ncia de mais 41 ba&iacute;as ao longo da costa norte do pa&iacute;s (AP, PA e MA) com alturas de mar&eacute; entre 3,7 e 8 m e pot&ecirc;ncias te&oacute;ricas superiores a 60 MW, alcan&ccedil;ando 5 GW de capacidade instalada total. "Em outros estados brasileiros, a possibilidade de explora&ccedil;&atilde;o da energia das mar&eacute;s deve ser analisada caso a caso, em fun&ccedil;&atilde;o da baixa varia&ccedil;&atilde;o das mar&eacute;s", ressalta Ferreira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Somente no litoral do Maranh&atilde;o, em estudos da d&eacute;cada de 1980, estimou-se um potencial dispon&iacute;vel acima de 8 GW. "Nesse contexto, o estu&aacute;rio do Bacanga, em S&atilde;o Lu&iacute;s, representa um caso bastante particular para a explora&ccedil;&atilde;o da energia maremotriz", diz Saavedra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1968, foi constru&iacute;da uma barragem sobre o rio Bacanga (MA) com o objetivo de diminuir a dist&acirc;ncia da capital S&atilde;o Lu&iacute;s ao porto de Itaqui. De acordo com Ferreira, a constru&ccedil;&atilde;o de uma usina maremotriz foi planejada, influenciada pela constru&ccedil;&atilde;o da usina de La Rance (Fran&ccedil;a) dois anos antes. "Entretanto, face aos custos e &agrave; viabilidade t&eacute;cnica, os equipamentos para a gera&ccedil;&atilde;o nunca foram instalados", enfatiza Rafael Ferreira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O projeto do Bacanga foi retomado em 2003 pelos departamentos de Engenharia El&eacute;trica da UFMA e de Engenharia Oce&acirc;nica da Coppe/ UFRJ, a fim de estabelecer um laborat&oacute;rio maremotriz para desenvolvimento desse tipo de tecnologia. "A concep&ccedil;&atilde;o proposta, tema de minha disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado, considerava a ocupa&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria do entorno da represa, com isso a gera&ccedil;&atilde;o de eletricidade seria reduzida comparada ao projeto original de 1980.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre 2006 e 2008 e, novamente, entre 2010 e 2013, foram recebidos recursos financeiros do CNPq &#91;Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico&#93; para avan&ccedil;ar a pesquisa em engenharia civil, mec&acirc;nica e el&eacute;trica, assim como nos m&eacute;todos oceanogr&aacute;ficos de medi&ccedil;&atilde;o das mar&eacute;s. Atualmente, busca-se financiamento para constru&ccedil;&atilde;o da casa de for&ccedil;a anexa &agrave; barragem existente, que abrigar&aacute; as turbinas e geradores para a produ&ccedil;&atilde;o de eletricidade", detalha Ferreira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os estudos foram concomitantes com a elabora&ccedil;&atilde;o de um projeto de recupera&ccedil;&atilde;o da barragem e comportas do governo do estado do Maranh&atilde;o. "Ambos os projetos s&atilde;o complementares e est&atilde;o pautados para futura implanta&ccedil;&atilde;o, &agrave; procura de financiamento", complementa Saavedra.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No Brasil, pesquisas em energia oce&acirc;nica ainda s&atilde;o t&iacute;midas e concentradas em poucas universidades. Osvaldo Saavedra lamenta a falta de uma pol&iacute;tica estrat&eacute;gica de desenvolvimento voltada para esse tipo de fonte renov&aacute;vel, que direcione os recursos de P&amp;D e a capacita&ccedil;&atilde;o de recursos humanos. &ldquo;Esse cen&aacute;rio se contrap&otilde;e com a realidade de pa&iacute;ses como a Esc&oacute;cia, que investe h&aacute; d&eacute;cadas no desenvolvimento de tecnologias para a explora&ccedil;&atilde;o comercial de energias oce&acirc;nicas&rdquo;, explica. Na mesma dire&ccedil;&atilde;o est&aacute; a avalia&ccedil;&atilde;o de Rafael Oliveira sobre o futuro da energia de mar&eacute;s no pa&iacute;s: &ldquo;existe um oceano de possibilidades e potencial que n&atilde;o deve ser ignorado, devendo o Brasil, para explorar a gera&ccedil;&atilde;o oce&acirc;nica, tra&ccedil;ar um robusto planejamento (...), iniciando com uma atualiza&ccedil;&atilde;o dos dados sobre a potencialidade oce&acirc;nica brasileira, passando pelo fomento ao desenvolvimento t&eacute;cnico e cient&iacute;fico com parcerias internacionais e proposi&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas voltadas para o mercado de energias oce&acirc;nicas&rdquo;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PRIMEIRA USINA DE MAREMOTRIZ TEM 50 ANOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de desconhecida, a energia de mar&eacute;s j&aacute; era usada em moinhos nos engenhos no norte do Brasil desde o s&eacute;culo XVIII e a explora&ccedil;&atilde;o dessa energia data do s&eacute;culo XIX, quando se pretendeu construir uma barragem sobre o estu&aacute;rio do rio Severn (Reino Unido) em 1849 e, em 1920, implantar uma usina maremotriz para a gera&ccedil;&atilde;o de eletricidade. Essa energia &eacute; obtida com as chamadas usinas maremotrizes. Na Fran&ccedil;a, est&aacute; instalada desde a d&eacute;cada de 1960 a usina de La Rance, com capacidade de 240 MW, ou seja, pode abastecer uma cidade de 270 mil habitantes aproximadamente. &ldquo;Em 1966, ap&oacute;s muitos anos de pesquisas, foi constru&iacute;da a usina de La Rance, a primeira maremotriz de grande escala para fins comerciais. Outras maremotrizes existentes no mundo, tanto de car&aacute;ter experimental quanto comercial, s&atilde;o: Annapolis, de 20 MW, no Canad&aacute;; Jiangxia, de 3,2 MW, na China; Kislaya, de 0,4 MW, na R&uacute;ssia e Sihwa, de 260 MW, na Coreia do Sul, a mais recente conclu&iacute;da em 2010&rdquo;, enumera Rafael Ferreira da UFRJ. Por&eacute;m, um dos locais de maior destaque em termos de potencial extra&iacute;vel &eacute; o Reino Unido. &ldquo;L&aacute; se estima cerca de 18 TW-h em aproveitamentos dispon&iacute;veis&rdquo;, destaca Osvaldo Saavedra, da UFMA.</font></p>      ]]></body>
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