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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Serviços comunitários de saúde mental para refugiados: um relato da fronteira turca]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br>   REFUGIADOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Servi&ccedil;os comunit&aacute;rios de sa&uacute;de mental para refugiados: um relato da fronteira turca</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>N&aacute;dia Duarte Marini</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Psic&oacute;loga, mestranda na Universidade Nova de Lisboa, trabalha na &aacute;rea humanit&aacute;ria desde 2014 e atualmente na fronteira da Turquia com a S&iacute;ria</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Alaa &eacute; agente comunit&aacute;rio de sa&uacute;de mental na ONG turca Support to Life que presta aux&iacute;lio a outros s&iacute;rios que, como ele, escaparam da guerra. Segundo Alaa, n&atilde;o h&aacute; um cidad&atilde;o s&iacute;rio sequer que n&atilde;o tenha sido afetado pela atual guerra em que o pa&iacute;s se encontra. Os n&uacute;meros n&atilde;o s&atilde;o modestos. A Ag&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para Refugiados regional na S&iacute;ria (ACNUR) estima que cerca de 5 milh&otilde;es de pessoas estejam refugiadas do pa&iacute;s, al&eacute;m de outros 6 milh&otilde;es deslocados internamente, o que somados significaria quase a metade da popula&ccedil;&atilde;o s&iacute;ria antes da guerra, iniciada em 2011. Concentrados principalmente nos pa&iacute;ses vizinhos, 2,8 milh&otilde;es dos refugiados est&atilde;o cadastrados apenas na Turquia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As experi&ecirc;ncias provocadas pela guerra causam ou exacerbam problemas psicol&oacute;gicos. Isso &eacute; um fato j&aacute; conhecido na &aacute;rea de sa&uacute;de mental. A pr&oacute;pria hist&oacute;ria do desenvolvimento da &aacute;rea traz uma s&eacute;rie de casos cl&aacute;ssicos de pessoas que sobreviveram &agrave; guerra e desenvolveram todo tipo de sintoma psicol&oacute;gico, tais como dist&uacute;rbios do sono, dificuldade de ajustamento ao meio de origem, rememora&ccedil;&atilde;o involunt&aacute;ria das cenas de guerra, dentre outros. O estudo de tais casos levou Sigmund Freud a cunhar o termo "neurose de guerra" e teve grande import&acirc;ncia no desenvolvimento do conceito de "trauma", processo que ocorreria na vida de um sujeito quando ele experiencia um evento para o qual n&atilde;o h&aacute; condi&ccedil;&otilde;es ps&iacute;quicas de elabora&ccedil;&atilde;o para tal, provocando um dist&uacute;rbio na forma como aquele evento fica registrado, o que estaria na origem dos sintomas j&aacute; citados. Muito j&aacute; se avan&ccedil;ou no estudo cl&iacute;nico de casos de guerra. A contribui&ccedil;&atilde;o de diversas &aacute;reas do conhecimento produziu um rol de diferentes interven&ccedil;&otilde;es hoje dispon&iacute;veis ao profissional de sa&uacute;de mental. A recorda&ccedil;&atilde;o sobre a origem do conceito em Freud, no entanto, se faz importante para apontar o aspecto subjetivo e individual do trauma, que, no caso da guerra, mesmo sendo um evento coletivo e potencialmente traumatizante em grande escala, afeta cada indiv&iacute;duo de maneira singular. Em termos de sa&uacute;de p&uacute;blica, isso aponta para o fato de que nem todo indiv&iacute;duo que passou pela guerra ou por uma situa&ccedil;&atilde;o catastr&oacute;fica est&aacute; necessariamente traumatizado. Rea&ccedil;&otilde;es psicol&oacute;gicas tempor&aacute;rias podem aparecer e n&atilde;o devem ser consideradas apressadamente como patol&oacute;gicas, visto serem rea&ccedil;&otilde;es normais em resposta a um evento anormal (a cat&aacute;strofe), e geralmente desaparecem com o retorno do indiv&iacute;duo a uma rotina e com o seu engajamento em uma comunidade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n3/a08fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>AG&Ecirc;NCIAS HUMANIT&Aacute;RIAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Especialistas em programas de sa&uacute;de mental no contexto de emerg&ecirc;ncias, como os do Comit&ecirc; Permanente Inter-ag&ecirc;ncias (IASC) das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, alertam ainda para o risco de se focar no estresse p&oacute;s-traum&aacute;tico como principal problema psicol&oacute;gico e negligenciar a diversidade de fen&ocirc;menos subjetivos que podem requerer igual aten&ccedil;&atilde;o em sa&uacute;de mental nesses contextos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De fato, em campo observa-se rea&ccedil;&otilde;es e processos pessoais tais como o luto, a sensa&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o pertencimento, a prostra&ccedil;&atilde;o, as rea&ccedil;&otilde;es psicossom&aacute;ticas, a desestabiliza&ccedil;&atilde;o de casos graves que antes estavam est&aacute;veis, al&eacute;m de problemas psicossociais complexos como o aumento de conflitos familiares, a viol&ecirc;ncia contra mulheres e crian&ccedil;as, o casamento com menores e o trabalho infantil.Em todos esses problemas podem acontecer interven&ccedil;&otilde;es do psic&oacute;logo e do profissional de sa&uacute;de mental. Para os profissionais que j&aacute; viram de perto a realidade vivida num contexto de emerg&ecirc;ncia humanit&aacute;ria, constata-se que a dimens&atilde;o social da cat&aacute;strofe est&aacute; implicada intrinsecamente em suas consequ&ecirc;ncias cl&iacute;nicas, o que aponta para um modelo de aten&ccedil;&atilde;o em sa&uacute;de mental que re&uacute;na ambos os componentes, o cl&iacute;nico e o social.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SA&Uacute;DE MENTAL</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dentro do contexto da Turquia, o modelo de centros comunit&aacute;rios para atendimento de refugiados foi trazido pelas ONGs em resposta &agrave; crise humanit&aacute;ria da S&iacute;ria. Nesses centros comunit&aacute;rios, oferece-se um espa&ccedil;o de encontro para o (re)estabelecimento de la&ccedil;os tanto com a comunidade local quanto com a pr&oacute;pria comunidade s&iacute;ria. Os centros s&atilde;o administrados e financiados por diferentes ONGs locais e internacionais e oferecem cursos profissionalizantes, cursos de idiomas, atividades psicossociais para crian&ccedil;as e adultos, e encaminhamento para programas sociais, dentre outros servi&ccedil;os comunit&aacute;rios. Mais recentemente, h&aacute; uma tend&ecirc;ncia em agregar um componente de sa&uacute;de mental e aten&ccedil;&atilde;o psicossocial nesses centros, de forma integrada &agrave;s outras atividades sociais j&aacute; existentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este &eacute; o caso de um dos centros comunit&aacute;rios em Sanliurfa, cidade de fronteira ao sul da Turquia onde trabalha Alaa, um refugiado que busca refazer os pr&oacute;prios la&ccedil;os cuidando de outros refugiados em um projeto de sa&uacute;de mental. Alaa tem 31 anos, nasceu em Kobani, na S&iacute;ria, e formou-se em l&iacute;ngua e literatura &aacute;rabe. Atuou como professor em sua terra natal at&eacute; ter de imigrar para escapar da guerra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hoje, ele mora sozinho e sua fam&iacute;lia est&aacute; espalhada em diferentes lugares e pa&iacute;ses. Como agente comunit&aacute;rio de sa&uacute;de mental, ele desenvolve atividades psicossociais em grupo para crian&ccedil;as e adolescentes e acompanha pacientes, adultos e crian&ccedil;as, que necessitam de atendimento psiqui&aacute;trico. "Depois da guerra, os problemas de sa&uacute;de mental aumentaram. Todo refugiado vive uma perda, um mal-estar. Alguns precisam de terapia, outros de atendimento no hospital, por isso a import&acirc;ncia desse trabalho. Poder ajudar &eacute; uma coisa boa", diz ele. Como projeto pessoal, Alaa pretende filmar um document&aacute;rio que trate da perda.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para ele, &eacute; importante ouvir, sentir e compartilhar o que os refugiados vivem. Dessa forma, as pessoas t&ecirc;m a oportunidade de falar sobre o que viveram e resignificar experi&ecirc;ncias, recome&ccedil;ando caminhos que foram interrompidos pela guerra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Das dificuldades, ele diz da sua pr&oacute;pria, que &eacute; a de estar no lugar de estrangeiro, em uma terra &agrave; qual ele n&atilde;o se sente pertencente. A esperan&ccedil;a de retornar &agrave; sua terra &eacute; uma das coisas que d&atilde;o for&ccedil;a a Alaa. "Como refugiado, no lugar do que foi perdido, o que foi encontrado?". Com essa pergunta, endere&ccedil;ada aos refugiados do seu document&aacute;rio, ele abre espa&ccedil;o para a elabora&ccedil;&atilde;o de sua pr&oacute;pria trajet&oacute;ria. A hist&oacute;ria, que &eacute; pessoal e singular, faz la&ccedil;o com outras hist&oacute;rias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O projeto e a experi&ecirc;ncia de Alaa mostram como o modelo comunit&aacute;rio em sa&uacute;de mental pode ser uma resposta criativa &agrave; crise humanit&aacute;ria. Esse e outros indicativos provenientes do trabalho de campo sugerem que ele &eacute; adequado aos contextos de ref&uacute;gio, onde h&aacute; grande demanda por cuidados em sa&uacute;de mental mas, geralmente, poucos recursos humanos e financeiros. A implementa&ccedil;&atilde;o e o estudo de tal modelo podem trazer contribui&ccedil;&otilde;es ao campo do conhecimento da sa&uacute;de mental de refugiados. Pode, ainda, agregar um poss&iacute;vel benef&iacute;cio &agrave; realidade local do sistema de sa&uacute;de mental da Turquia, j&aacute; que os servi&ccedil;os s&atilde;o tradicionalmente centrados nos hospitais e o pa&iacute;s vem tentando mudar essa realidade, na dire&ccedil;&atilde;o de um cuidado mais acess&iacute;vel e integrado &agrave; comunidade.</font></p>      ]]></body>
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