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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   MARIANA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="nta"></a><b>O desastre da Samarco e a pol&iacute;tica das afeta&ccedil;&otilde;es: classifica&ccedil;&otilde;es e a&ccedil;&otilde;es que produzem o sofrimento social<a href="#nt"><sup>*</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Andr&eacute;a Zhouri<sup>I</sup>; Norma Valencio<sup>II</sup>; Raquel Oliveira<sup>III</sup>; Marcos Zucarelli<sup>IV</sup>; Klemens Laschefski<sup>V</sup>; Ana Fl&aacute;via Santos<sup>VI</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Professora do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenadora do Gesta/UFMG    <br>   <sup>II</sup>Professora aposentada do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de S&atilde;o Carlos (UFSCar) e professora colaboradora do Programa de P&oacute;s- Gradua&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias da Engenharia Ambiental da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP)    <br>   <sup>III</sup>Professora do Departamento de Sociologia da UFMG e pesquisadora do Gesta/UFMG    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <sup>IV</sup>Professor da Universidade Funda&ccedil;&atilde;o Mineira de Educa&ccedil;&atilde;o e Cultura (Fumec) e doutorando PPGAN/UFMG e pesquisador do Gesta/UFMG    <br>   <sup>V</sup>Professor do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Geografia da UFMG e pesquisador do Gesta/UFMG    <br>   <sup>VI</sup>Professora do Departamento de Antropologia e Arqueologia da UFMG e pesquisadora do Gesta/UFMG</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A intensifica&ccedil;&atilde;o de investimentos extrativos prim&aacute;rios voltados &agrave; exporta&ccedil;&atilde;o em Minas Gerais tem resultado na multiplica&ccedil;&atilde;o dos conflitos sociais e ambientais (1). A tend&ecirc;ncia &eacute; que este cen&aacute;rio se amplie, devido &agrave; flexibiliza&ccedil;&atilde;o do licenciamento ambiental, tendo em vista a PEC 65/2012, aprovada em abril de 2016 pela Comiss&atilde;o de Constitui&ccedil;&atilde;o, Justi&ccedil;a e Cidadania do Senado; a discuss&atilde;o acerca do Novo C&oacute;digo da Minera&ccedil;&atilde;o proposto pelo Minist&eacute;rio das Minas e Energia; o Projeto de Lei 654/2015 em tramita&ccedil;&atilde;o no Senado Federal; e o Projeto de Lei 2.946/2015, aprovado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais em dezembro de 2015. Com efeito, um preocupante relaxamento na fiscaliza&ccedil;&atilde;o do planejamento, constru&ccedil;&atilde;o e opera&ccedil;&atilde;o de obras desenvolvimentistas vem gerando riscos incalcul&aacute;veis, os quais extrapolam as localidades onde os empreendimentos se inserem. O rompimento da barragem de rejeitos de Fund&atilde;o, em novembro de 2015, no munic&iacute;pio de Mariana, evidenciou de forma assustadora esse contexto cr&iacute;tico. A estrutura &eacute; de propriedade da empresa Samarco Minera&ccedil;&atilde;o S.A., cujo capital &eacute; controlado paritariamente pela Vale S.A e a BHP Billiton Brasil Ltda. O desastre causou de imediato 19 mortes, e liberou cerca de 50 milh&otilde;es de metros c&uacute;bicos de res&iacute;duos miner&aacute;rios que, carreados at&eacute; o rio Doce, percorreram aproximadamente 600 km at&eacute; o litoral do Esp&iacute;rito Santo. Este desastre, um dos maiores do mundo em termos de sua abrang&ecirc;ncia socioambiental, n&atilde;o foi um evento singular. Desde 1986, o rompimento de seis barragens em Minas Gerais j&aacute; havia deixado um total de 16 mortos, milhares de pessoas desalojadas e s&eacute;rios problemas de abastecimento de &aacute;gua nos munic&iacute;pios situados ao longo dos rios afetados (2).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os casos chamam aten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apenas para a neglig&ecirc;ncia do empresariado e do poder p&uacute;blico com tais empreendimentos, mas tamb&eacute;m para a imprevid&ecirc;ncia no que diz respeito &agrave; gest&atilde;o das cat&aacute;strofes. Recentemente, a gest&atilde;o desses desastres tem se deslocado do eixo da investiga&ccedil;&atilde;o de poss&iacute;veis crimes ou infra&ccedil;&otilde;es legais para o eixo do tratamento administrativo de "conflitos socioambientais", aos quais s&atilde;o dedicadas tecnologias diversas de preven&ccedil;&atilde;o de disputas, com &ecirc;nfase em acordos orientados &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de pretensos pactos entre partes potencialmente litigantes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No caso de Mariana, o gerenciamento da crise derivada do desastre tem implicado na mobiliza&ccedil;&atilde;o de dispositivos espec&iacute;ficos, como mesas de negocia&ccedil;&atilde;o e a assinatura do "Termo de Transa&ccedil;&atilde;o e de Ajustamento de Conduta", celebrado entre a Uni&atilde;o, os governos dos estados de Minas Gerais e Esp&iacute;rito Santo, e as empresas respons&aacute;veis (3). Tais dispositivos s&atilde;o mobilizados sob a justificativa da necessidade de uma a&ccedil;&atilde;o mais c&eacute;lere e eficaz em contraste com a &ecirc;nfase em puni&ccedil;&otilde;es por via da judicializa&ccedil;&atilde;o, com a responsabiliza&ccedil;&atilde;o dos agentes corporativos e o cumprimento das demandas colocadas pelos atingidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o obstante as justificativas, esse processo de <i>contratualiza&ccedil;&atilde;o </i> (4) se realiza, de fato, em detrimento dos espa&ccedil;os e possibilidades de participa&ccedil;&atilde;o dos atingidos e apoiadores, segmentos que n&atilde;o foram ouvidos ou consultados quando da elabora&ccedil;&atilde;o do referido termo. Tal tratamento evidencia os limites das institui&ccedil;&otilde;es de defesa dos direitos que, a partir de receitu&aacute;rios oriundos de institui&ccedil;&otilde;es financeiras internacionais para o uso de tecnologias resolutivas, circunscrevem o debate pol&iacute;tico ao ajuste de interesses entre as partes. Desse modo, sob a &eacute;gide de uma <i>harmonia coerciva (5)</i>, escamoteia-se a discuss&atilde;o acerca do modelo de desenvolvimento adotado, os riscos envolvidos nas atividades econ&ocirc;micas priorizadas e as responsabilidades dos agentes corporativos na profus&atilde;o de incertezas e danos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este artigo analisa as classifica&ccedil;&otilde;es administrativas e as a&ccedil;&otilde;es adotadas por parte do Estado e das empresas que culminam no sofrimento social e na perpetua&ccedil;&atilde;o de injusti&ccedil;as socioambientais. Sob o manto da media&ccedil;&atilde;o e do acordo, por vezes operam imposi&ccedil;&otilde;es excludentes, cujo efeito &eacute; a flexibiliza&ccedil;&atilde;o de direitos j&aacute; garantidos pela Constitui&ccedil;&atilde;o Federal. Como se discutir&aacute;, a redu&ccedil;&atilde;o das possibilidades de participa&ccedil;&atilde;o enseja n&atilde;o s&oacute; o agravamento de vulnerabilidades desencadeadas pelo desastre, mas a marginaliza&ccedil;&atilde;o das mobiliza&ccedil;&otilde;es locais dos atingidos. Cabe lembrar que os desastres n&atilde;o se limitam ao evento catastr&oacute;fico, mas se desdobram em processos duradouros de crise social, frequentemente intensificada pelos encaminhamentos institucionais que lhe s&atilde;o dirigidos, o que faz perpetuar o sofrimento social.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DO CONCEITO DE CONFLITO AMBIENTAL </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entende-se por conflito ambiental aquele que surge dos distintos modos de apropria&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica, econ&ocirc;mica, social e cultural do mundo material (6). Os conflitos ambientais t&ecirc;m sido associados a situa&ccedil;&otilde;es de disputa sobre a apropria&ccedil;&atilde;o dos recursos e servi&ccedil;os ambientais em que imperam condi&ccedil;&otilde;es de desproporcionalidade no acesso &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es naturais, bem como na disposi&ccedil;&atilde;o dos efluentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m disso, os conflitos ambientais caracterizam-se pela irrup&ccedil;&atilde;o de embates entre pr&aacute;ticas espaciais distintas que operam sobre um mesmo territ&oacute;rio ou sobre territ&oacute;rios interconexos, levando &agrave; colis&atilde;o e concorr&ecirc;ncia entre sistemas diversos de uso, controle e significa&ccedil;&atilde;o dos recursos, em que n&atilde;o raro se processa a despossess&atilde;o dos grupos locais (7). Trata-se de lutas pol&iacute;ticas e simb&oacute;licas estabelecidas em torno do sentido e do destino dos territ&oacute;rios. Duas observa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o aqui imperativas: a primeira &eacute; a de que os conflitos ambientais n&atilde;o se restringem ao confronto de interesses entre duas ou mais partes litigantes e, tampouco, se reduzem &agrave; irrup&ccedil;&atilde;o de uma controv&eacute;rsia entre polos cujas posi&ccedil;&otilde;es sociais equivalentes redundam em iguais condi&ccedil;&otilde;es de negocia&ccedil;&atilde;o. Ao contr&aacute;rio, constituem cen&aacute;rios em que os agentes envolvidos ocupam posi&ccedil;&otilde;es assim&eacute;tricas, em que uma distribui&ccedil;&atilde;o desigual dos capitais econ&ocirc;mico, pol&iacute;tico e simb&oacute;lico lhes define o poder de a&ccedil;&atilde;o e enuncia&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Destaca-se, assim, que o desastre provocado pela Samarco j&aacute; era temido pelos moradores antes do rompimento: 68% dos entrevistados em Bento Rodrigues relataram medo em rela&ccedil;&atilde;o ao rompimento das barragens, 94% reclamaram quanto &agrave; polui&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas causada pelas opera&ccedil;&otilde;es da Samarco e 64% temiam que suas propriedades pudessem ser desapropriadas pela empresa (8). O desastre concretizou, portanto, a amea&ccedil;a ensejada por conflitos pret&eacute;ritos. Com o evento, aqueles que j&aacute; eram afetados pela opera&ccedil;&atilde;o do complexo miner&aacute;rio sofreram perdas de vida e a deteriora&ccedil;&atilde;o de sua sa&uacute;de, al&eacute;m de bens materiais e do comprometimento permanente de seu territ&oacute;rio. De <i>atingidos </i>passaram a <i>v&iacute;timas</i>, com o pleno direito de compensa&ccedil;&atilde;o pelos danos materiais e morais. Coloc&aacute;-los numa mesa de negocia&ccedil;&atilde;o &eacute; ato que os ressignifica como "parte interessada" e abre espa&ccedil;os para que a r&eacute;, a Samarco (Vale/BHP-Billiton), tamb&eacute;m seja ressignificada da mesma forma. V&iacute;timas e agentes corporativos, engajados em uma esp&eacute;cie de barganha de medidas reparat&oacute;rias e compensat&oacute;rias, passam a estar confrontados em posi&ccedil;&otilde;es supostamente sim&eacute;tricas. Contudo, em posi&ccedil;&atilde;o enfraquecida para negocia&ccedil;&atilde;o, as primeiras correm o risco de serem privadas dos seus direitos. Argumentaremos que, inserida em uma estrat&eacute;gia generalizada da pol&iacute;tica ambiental - a "resolu&ccedil;&atilde;o negociada de conflitos" -, a gest&atilde;o do <i>desastre tecnol&oacute;gico</i> de Mariana tende a minar justamente o princ&iacute;pio que deveria prevalecer no estado democr&aacute;tico de direito: o princ&iacute;pio da dignidade humana.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DO CONCEITO DE DESASTRE E DESASTRE TECNOL&Oacute;GICO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Os desastres s&atilde;o acontecimentos coletivos tr&aacute;gicos nos quais h&aacute; perdas e danos s&uacute;bitos e involunt&aacute;rios que desorganizam, de forma multidimensional e severa, as rotinas de vida (por vezes, o modo de vida) de uma dada coletividade. </i>Isso implica a integra&ccedil;&atilde;o da<i> situa&ccedil;&atilde;o em si</i>, a crise social aguda, e o <i>processo no qual a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; produzida, </i>isto &eacute;, a crise social cr&ocirc;nica (9). Elementos explicativos da "crise aguda" precisam ser buscados numa dimens&atilde;o hist&oacute;rica mais ampla. No caso brasileiro, remetem ao processo de vulnerabiliza&ccedil;&atilde;o social (10) que obstruiu recursos das vozes daqueles que est&atilde;o em persistente fragiliza&ccedil;&atilde;o ao passo que desresponsabiliza os sujeitos geradores dessas descompensa&ccedil;&otilde;es sociais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como Bento Rodrigues, in&uacute;meras comunidades ribeirinhas na bacia do rio Doce constitu&iacute;ram historicamente os seus lugares e modos de vida em torno da din&acirc;mica fluvial, e somente com a posterior inser&ccedil;&atilde;o do megaempreendedor miner&aacute;rio no territ&oacute;rio &eacute; que seus respectivos lugares foram transformados em "&aacute;reas de risco", sujeitas a cat&aacute;strofes. &Iacute;ndice significativo desse processo &eacute; a estimativa feita pela Funda&ccedil;&atilde;o Estadual do Meio Ambiente de que, das 735 barragens existentes em Minas Gerais, 42 n&atilde;o apresentam garantia de estabilidade (11). Sabe-se que a barragem de Fund&atilde;o tinha passado por auditoria e era considerada est&aacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No caso espec&iacute;fico dos empreendimentos da Samarco (Vale/BHP Billiton), os riscos de um poss&iacute;vel rompimento e as medidas que deveriam ter sido tomadas para evit&aacute;-lo j&aacute; eram conhecidos pelas autoridades ambientais anteriormente ao evento. Em per&iacute;cia realizada a pedido do MP de Minas Gerais, o Instituto Pr&iacute;stino alertara, ainda em 2013, para o risco de colapso da barragem de Fund&atilde;o. O laudo recomendava o peri&oacute;dico monitoramento geot&eacute;cnico e estrutural dos diques e da barragem; e destacava a necessidade de um plano de conting&ecirc;ncia para situa&ccedil;&otilde;es de risco ou acidentes (12). Tais recomenda&ccedil;&otilde;es contrastam com a real inexist&ecirc;ncia, na &aacute;rea do empreendimento, do mais elementar sistema de alarme sonoro, destinado ao alerta da popula&ccedil;&atilde;o do entorno em casos de acidente ou agravamento dos riscos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, &eacute; mister aprofundar a cr&iacute;tica a uma interpreta&ccedil;&atilde;o baseada em <i>hazards</i> para considerar o evento cr&iacute;tico deflagrado pelo rompimento da barragem de Fund&atilde;o como um <i>desastre tecnol&oacute;gico</i>, ou seja, um desastre atribu&iacute;do em parte ou no todo a uma inten&ccedil;&atilde;o humana, erro, neglig&ecirc;ncia, ou envolvendo uma falha de um sistema humano, resultando em danos (ou ferimentos) significativos ou mortes. Exemplos : o 11 de setembro, o massacre da escola Columbine, o vazamento do Exxon Valdez, o desastre da Challenger da Nasa, o desastre de Chernobyl. (13)</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Atrav&eacute;s de uma an&aacute;lise enviesada do desastre, o Estado cria bases para suscitar uma elabora&ccedil;&atilde;o interpretativa na qual a Samarco se torna <i>uma</i> dentre as demais <i>v&iacute;timas das circunst&acirc;ncias.</i> Um desdobramento poss&iacute;vel dessa interpreta&ccedil;&atilde;o pode vir a ser a propaga&ccedil;&atilde;o de um discurso que qualifica a pr&aacute;tica empresarial junto aos grupos afetados como sendo um <i>apoio </i>ou <i>solidariedade prestada &agrave; comunidade</i>: uma a&ccedil;&atilde;o de car&aacute;ter volunt&aacute;rio e assistencialista, que vai se desvinculando de uma responsabilidade efetiva da empresa quanto &agrave; repara&ccedil;&atilde;o dos danos por ela causados. Efetivamente, a forma como se qualifica o fator causal de um desastre tem estreita correspond&ecirc;ncia com estrat&eacute;gias de cria&ccedil;&atilde;o e revers&atilde;o de significados em prol das posi&ccedil;&otilde;es dominantes em jogo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma armadilha que a narrativa sobre o desastre "natural" cria &eacute; tratar o p&oacute;s-colapso de barragens como "p&oacute;s-desastre", assim permitindo o desaparecimento do agente causador da trag&eacute;dia. Tal estrat&eacute;gia ficou evidente no debate sobre a toxicidade da lama que se espalhou ao longo do rio Doce. Enquanto a empresa dizia que os rejeitos eram <i>inertes</i>, ou seja, n&atilde;o continham metais pesados de forma livre que poderiam causar danos &agrave; sa&uacute;de, os relatores especiais da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU) encaminhados para a regi&atilde;o afirmaram, tr&ecirc;s semanas ap&oacute;s o desastre, que os "50 milh&otilde;es de toneladas de res&iacute;duos de min&eacute;rio de ferro continham altos n&iacute;veis de metais pesados t&oacute;xicos e outros produtos qu&iacute;micos t&oacute;xicos", que contaminaram solos, rios e sistemas de &aacute;gua ao longo de mais de 850 quil&ocirc;metros (14). Vendo-se posteriormente for&ccedil;ada a admitir a presen&ccedil;a de metais t&oacute;xicos na lama de rejeitos (15), a Vale, de modo t&iacute;pico, atribuiria esse fato a um ac&uacute;mulo de eventos anteriores ao desastre. Na verdade, a sugest&atilde;o da inexist&ecirc;ncia de nexo causal constituiu uma forma de, a um s&oacute; tempo, desviar a aten&ccedil;&atilde;o das reais consequ&ecirc;ncias do desastre, diminuir sua responsabilidade e silenciar as preocupa&ccedil;&otilde;es e observa&ccedil;&otilde;es dos grupos afetados.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DO EVENTO CATASTR&Oacute;FICO AOS ARRANJOS INSTITUCIONAIS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O desastre tecnol&oacute;gico em Mariana causou a destrui&ccedil;&atilde;o de centenas de moradias, o comprometimento das atividades produtivas de diversas comunidades ribeirinhas, uma extensa mortandade de peixes, suspens&atilde;o da pesca at&eacute; a foz do rio Doce, e significativos danos &agrave; qualidade da &aacute;gua naquela bacia hidrogr&aacute;fica, fonte de abastecimento de milhares de habitantes. Se s&atilde;o extensas as perdas materiais imediatas e graves os preju&iacute;zos &agrave; vida e &agrave; sa&uacute;de dessas popula&ccedil;&otilde;es, &eacute; preciso enfatizar que se tratou, tamb&eacute;m, da destrui&ccedil;&atilde;o de seus territ&oacute;rios enquanto base de sua reprodu&ccedil;&atilde;o social, cultural e econ&ocirc;mica, assentada em condi&ccedil;&otilde;es socioecol&oacute;gicas espec&iacute;ficas, aniquiladas a partir do desastre.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em Mariana, moradores dos distritos rurais de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, totalmente atingidos pela lama, foram acomodados em hot&eacute;is da cidade e se constitu&iacute;ram em alvo das inst&acirc;ncias diversas que se apresentaram como mediadores do suposto conflito entre a empresa e os atingidos, a exemplo dos comit&ecirc;s de media&ccedil;&atilde;o promovidos pela prefeitura de Mariana. Nesse contexto, passaram a lidar com a desinforma&ccedil;&atilde;o, os boatos, os ass&eacute;dios, as desconfian&ccedil;as, as difama&ccedil;&otilde;es, as brigas, os medos e as tens&otilde;es, t&iacute;picos da forma&ccedil;&atilde;o e atua&ccedil;&atilde;o das organiza&ccedil;&otilde;es de representa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitos sequer sabiam o que era uma "comiss&atilde;o", motivo pelo qual foi solicitada ao promotor uma explica&ccedil;&atilde;o mais did&aacute;tica em uma reuni&atilde;o com as v&iacute;timas (16). Outros relataram seus receios para com os intermedi&aacute;rios externos e o "medo de serem representados e de as quest&otilde;es serem decididas pela mesa de negocia&ccedil;&atilde;o formada pelo governo do Estado" (17), que oferecia solu&ccedil;&otilde;es distantes de suas realidades.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Simultaneamente, na medida em que as inst&acirc;ncias de media&ccedil;&atilde;o de conflito aconteciam, movimentos sociais, defensores p&uacute;blicos, jornalistas e pesquisadores, que acompanhavam de perto o desenrolar das a&ccedil;&otilde;es, registravam, com preocupa&ccedil;&atilde;o, um certo ass&eacute;dio da empresa Samarco sobre as v&iacute;timas hospedadas nos hot&eacute;is da cidade. Denunciavam, entre outros problemas, que as v&iacute;timas estariam vivendo em regime de internato, com hor&aacute;rios controlados para a entrada e sa&iacute;da dos hot&eacute;is, assim como limite para visitas (18).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O clima de tens&atilde;o e de suspeitas era constante. Segundo uma moradora de Paracatu de Baixo, "a Samarco est&aacute; todo dia fotografando, aplicando question&aacute;rio, inclusive tem pe&atilde;o fazendo isso. Podem estar produzindo provas contra n&oacute;s mesmos" (19).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os moradores de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo querem que seus direitos sejam respeitados e que a vida seja restabelecida, mas t&ecirc;m dificuldades para lidar com as novas demandas, principalmente organizacionais. O pr&oacute;prio ato de alojar os desabrigados em hot&eacute;is espalhados pela cidade e, posteriormente, em casas alugadas, distantes umas das outras, teria dificultado a articula&ccedil;&atilde;o dos atingidos. Mesmo lidando com o trauma do desastre, elas foram obrigadas, sem tempo de preparo, a formarem comiss&otilde;es representativas, apreenderem estrat&eacute;gias de di&aacute;logo e de negocia&ccedil;&atilde;o, tudo isso sem pontos de refer&ecirc;ncia para os encontros que lhes proporcionassem uma seguran&ccedil;a. A falta de um lugar comum enquanto local de conversas, trocas de experi&ecirc;ncias, debates e decis&otilde;es parece ter repercutido em uma quase acomoda&ccedil;&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o em que vivem atualmente. Mas observa&ccedil;&otilde;es indicam um quadro de depress&atilde;o que deveria ser acompanhado por psic&oacute;logos, outro servi&ccedil;o ainda executado precariamente .</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, h&aacute; algo mais nos desastres do que um conjunto de danifica&ccedil;&otilde;es materiais que possam ser mensuradas e equacionadas por meio de indeniza&ccedil;&otilde;es financeiras. O pr&oacute;prio processo de reabilita&ccedil;&atilde;o "p&oacute;s-cat&aacute;strofe" pode estar repleto de dimens&otilde;es variadas de viol&ecirc;ncias que aviltam ainda mais a qualidade de vida daqueles que j&aacute; sofreram. Diante desse contexto, entidades sociais de direitos humanos, pesquisadores e movimentos sociais passaram a contestar a pertin&ecirc;ncia das inst&acirc;ncias de negocia&ccedil;&atilde;o entre as empresas e as v&iacute;timas, identificadas como atingidos em situa&ccedil;&atilde;o de conflito ambiental.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DAS DIMENS&Otilde;ES DO SOFRIMENTO SOCIAL</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Deve-se ressaltar que, em geral, o tratamento institucional dispensado aos atingidos constitui o principal fator capaz de engendrar o sofrimento social dos afetados, que resulta "daquilo que o poder pol&iacute;tico, econ&ocirc;mico e institucional faz &agrave;s pessoas e, reciprocamente, de como estas mesmas formas de poder influenciam as respostas aos problemas sociais" (20). O conceito de sofrimento social permite evidenciar que as afli&ccedil;&otilde;es vividas por determinados grupos sociais n&atilde;o s&atilde;o resultantes exclusivamente de conting&ecirc;ncias, infort&uacute;nios e acasos, mas consistem em experi&ecirc;ncias ativamente produzidas e distribu&iacute;das no interior da ordem social (21). No caso em tela, trata-se de um <i>evento cr&iacute;tico </i>cujas ra&iacute;zes sociopol&iacute;ticas est&atilde;o associadas &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o de conflitos ambientais pret&eacute;ritos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No Brasil, estudos apontam os efeitos de uma defini&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e administrativa do atingido, em que o sofrimento s&oacute; existe se apropri&aacute;vel como "sofrimento m&eacute;trico" (22), ou seja, se demonstr&aacute;vel por diagn&oacute;sticos, laudos e exames. A no&ccedil;&atilde;o de <i>sofrimento social</i> permitenos sair dessa perspectiva biom&eacute;dica estrita, para compreender "os aspectos socioculturais que engendram o sofrimento dos atingidos". Tais aspectos se relacionam &agrave; intersec&ccedil;&atilde;o entre os eventos f&iacute;sicos e o modo como os grupos afetados reagem a eles, &agrave;s formas de interlocu&ccedil;&atilde;o que lhes s&atilde;o exigidas, por um lado; e, por outro, ao modo como as ag&ecirc;ncias corporativas e p&uacute;blicas respondem institucionalmente &agrave;s suas demandas, submetendo-as a uma inflex&atilde;o t&eacute;cnica que promove a desautoriza&ccedil;&atilde;o de suas narrativas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No caso em an&aacute;lise, serve de exemplo o supracitado debate em torno da toxicidade da lama, ao longo do qual as v&iacute;timas permaneceram, meses ap&oacute;s o incidente, na incerteza sobre a contamina&ccedil;&atilde;o das suas terras e das suas fontes de &aacute;gua. Os moradores das &aacute;reas afetadas continuam preocupados, devido &agrave; falta de clareza sobre a poss&iacute;vel contamina&ccedil;&atilde;o de alimentos produzidos nessas &aacute;reas. As controv&eacute;rsias sociot&eacute;cnicas que acompanham a crise desencadeada pelo desastre, configuram um estado particular de irresolu&ccedil;&atilde;o, experimentado pelos afetados atrav&eacute;s da espera: espera por mais testes, pelas avalia&ccedil;&otilde;es, pelo monitoramento, pelas decis&otilde;es judiciais. A espera, ent&atilde;o, constitui sentidos de sujei&ccedil;&atilde;o e crescente frustra&ccedil;&atilde;o, que afligem as v&iacute;timas (23). O dano passa a constituir o ponto de disputa sobre o qual s&atilde;o forjadas as contra-demandas e reivindica&ccedil;&otilde;es dos afetados, de forma que grande parte das disputas pol&iacute;ticas e simb&oacute;licas se desenrolam em torno da defini&ccedil;&atilde;o e reconhecimento institucional do conceito de "atingido" (24). No desastre em Mariana, tens&otilde;es similares est&atilde;o presentes. Pautada por refer&ecirc;ncias do Banco Mundial, a Samarco operacionaliza uma defini&ccedil;&atilde;o de atingido baseada na distin&ccedil;&atilde;o entre <i>deslocamento f&iacute;sico</i> e <i>deslocamento econ&ocirc;mico </i>(25). Essa distin&ccedil;&atilde;o foi tomada como ponto de partida para um escalonamento das "afeta&ccedil;&otilde;es" em termos de gravidade e grau de emerg&ecirc;ncia, bem como para o reconhecimento das demandas, a serem atendidas a partir de uma classifica&ccedil;&atilde;o e hierarquiza&ccedil;&atilde;o das reivindica&ccedil;&otilde;es. As categorias administrativas da empresa parecem tecer, assim, fronteiras m&oacute;veis e sutis de inclus&atilde;o e exclus&atilde;o, pass&iacute;veis de contesta&ccedil;&atilde;o pelas v&iacute;timas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A debilidade institucional na gest&atilde;o da cat&aacute;strofe, no que tange ao restabelecimento das condi&ccedil;&otilde;es de vida das v&iacute;timas, e a mobiliza&ccedil;&atilde;o de discursos t&eacute;cnicos para desresponsabilizar as empresas causadoras do desastre, tratados no item anterior, s&atilde;o outros elementos que agravam o sofrimento social.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse contexto, iniciativas institucionais distintas v&ecirc;m sendo dirigidas aos atingidos, nenhuma das quais capaz de impor aos agentes corporativos, de forma contundente, medidas para a restaura&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es de vida das comunidades afetadas. Um exemplo foi a instaura&ccedil;&atilde;o de um f&oacute;rum coordenado pelo governo do estado de Minas Gerais no formato de encontros peri&oacute;dicos de negocia&ccedil;&atilde;o, iniciativa logo abandonada por n&atilde;o ter sido legitimada pelas pr&oacute;prias v&iacute;timas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De outra parte, o Minist&eacute;rio P&uacute;blico de Minas Gerais, ap&oacute;s a recusa da Samarco em assinar um termo de compromisso que buscava garantir o ressarcimento das v&iacute;timas e reconstru&ccedil;&atilde;o das comunidades, ingressou com uma a&ccedil;&atilde;o civil p&uacute;blica na Justi&ccedil;a de Mariana, em dezembro de 2015, cujas audi&ecirc;ncias de concilia&ccedil;&atilde;o foram suspensas devido ao questionamento da compet&ecirc;ncia jur&iacute;dica e a possibilidade de transfer&ecirc;ncia da a&ccedil;&atilde;o para a esfera federal. Paralelamente, a Advocacia Geral da Uni&atilde;o costurou com as empresas e os governos dos estados envolvidos um termo de acordo extrajudicial que encerrou diversas a&ccedil;&otilde;es civis p&uacute;blicas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como consequ&ecirc;ncia imediata, os encaminhamentos que vinham sendo adotados entre as promotorias locais e a Samarco andam em passos mais lentos. As reuni&otilde;es ordin&aacute;rias entre empresa, atingidos e Minist&eacute;rio P&uacute;blico n&atilde;o possuem mais o car&aacute;ter deliberativo de antes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">At&eacute; a postura de "maior comprometimento" da empresa se alterou, fato percept&iacute;vel pela pr&oacute;pria modifica&ccedil;&atilde;o na composi&ccedil;&atilde;o da equipe da Samarco, que desde a assinatura do chamado "acord&atilde;o" n&atilde;o conta mais com a presen&ccedil;a ass&iacute;dua de funcion&aacute;rios do alto escal&atilde;o da empresa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um agravante &eacute; a contrata&ccedil;&atilde;o, pela pr&oacute;pria Samarco, de empresas encarregadas do levantamento e dimensionamento dos danos, assim como a identifica&ccedil;&atilde;o das v&iacute;timas a serem indenizadas, sem intermedia&ccedil;&atilde;o de uma inst&acirc;ncia neutra. Como se trata de uma rela&ccedil;&atilde;o comercial entre agentes econ&ocirc;micos, o objetivo das pesquisas se desloca de um levantamento para indeniza&ccedil;&atilde;o justa dos danos materiais e imateriais, ao princ&iacute;pio de redu&ccedil;&atilde;o dos custos para o contratante. Um prestador de servi&ccedil;os contratado pela Samarco, nos meses de dezembro de 2015 e janeiro de 2016, relatou as consequ&ecirc;ncias dessa situa&ccedil;&atilde;o. Os integrantes da sua equipe receberam listas preestabelecidas com nomes de v&iacute;timas. Pessoas que n&atilde;o constavam nas listas, justamente aquelas que n&atilde;o tinham acesso a uma representa&ccedil;&atilde;o formal, n&atilde;o foram identificadas. Assim, foram exclu&iacute;das das medidas emergenciais logo ap&oacute;s o desastre, o que as for&ccedil;ou a abandonarem as suas casas e migrarem para outros lugares.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Enquanto aguardam uma decis&atilde;o final sobre as compet&ecirc;ncias jur&iacute;dicas para tratar do caso, as v&iacute;timas, decorridos mais de seis meses do desastre, continuam recebendo a&ccedil;&otilde;es emergenciais e assistencialistas, sem perspectiva de retomada aut&ocirc;noma de suas vidas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b></font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os enquadramentos conceituais, medidas e a&ccedil;&otilde;es que envolvem a negocia&ccedil;&atilde;o dos efeitos do desastre e que contam com a participa&ccedil;&atilde;o da empresa agravam o sofrimento social. Permite-se que as companhias (Samarco, Vale e BHP Billiton) interfiram no processo da defini&ccedil;&atilde;o de indeniza&ccedil;&otilde;es, como forma de assegurar seus interesses. As v&iacute;timas, por seu turno, mesmo na atual situa&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidade, s&atilde;o obrigadas a lutar para que sejam satisfeitas ao menos as necessidades m&iacute;nimas para viver. H&aacute; um crescente cansa&ccedil;o, provocado pelo processo de negocia&ccedil;&atilde;o imposto. Acrescente-se a sensa&ccedil;&atilde;o de inseguran&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao direito constitucional &agrave; reconstru&ccedil;&atilde;o da vida comunit&aacute;ria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Constata-se, por fim, a aus&ecirc;ncia de um trabalho de informa&ccedil;&atilde;o e preparo dos(as) atingidos(as) para reconhecimento dos seus problemas e dos seus direitos, a fim de que pudessem elaborar uma pauta m&iacute;nima comum para, numa etapa seguinte, procederem a um processo de dimensionamento e repara&ccedil;&atilde;o de danos materiais e morais junto aos &oacute;rg&atilde;os respons&aacute;veis, respeitando o princ&iacute;pio b&aacute;sico do estado democr&aacute;tico de direito que garante n&atilde;o somente a prote&ccedil;&atilde;o aos plenos direitos privados e coletivos, mas todo um rol de garantias fundamentais baseadas no chamado princ&iacute;pio da dignidade humana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; mister n&atilde;o se perder de vista a constru&ccedil;&atilde;o das narrativas governamental, t&eacute;cnica e empresarial sobre o que &eacute; um desastre. Para este em particular, quanto mais orquestradas pare&ccedil;am ser e, quanto mais herm&eacute;tico for o ambiente decis&oacute;rio sobre compensa&ccedil;&otilde;es, mais evidente ser&aacute; o prop&oacute;sito de legitimar os pleitos da parte forte entre os agentes em disputa. Portanto, oportuna seria a garantia de espa&ccedil;os de autoexpress&atilde;o dos grupos afetados, em toda a sua diversidade sociocultural, com respaldo jur&iacute;dico capaz de recuperar esperan&ccedil;as, cada vez mais escassas, de justi&ccedil;a ambiental.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Zhouri, A. "Mapeando desigualdades ambientais: minera&ccedil;&atilde;o e desregula&ccedil;&atilde;o ambiental". In: Zhouri, A. e Valencio, N. (orgs). <i>Formas de matar, de morrer e de resistir: limites da resolu&ccedil;&atilde;o negociada de conflitos ambientais</i>. Editora UFMG, 2014, pp.111-141.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Oliveira, N. (a). "Minas j&aacute; sofreu com outros rompimentos de barragens". Jornal <i>O Tempo</i>, 05 nov. 2015. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.otempo.com.br/cidades/minas-j%C3%A1-sofreu-com-outros-rompimentos-de-barragens-1.1159501" target="_blank">http://www.otempo.com.br/cidades/minas-j%C3%A1-sofreu-com-outros-rompimentos-de-barragens-1.1159501</a>, &#91;acesso em: 10/04/2016&#93;    .</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. O Termo de Transa&ccedil;&atilde;o e de Ajustamento de Conduta foi homologado no dia 05 de maio de 2016, exatos seis meses ap&oacute;s o rompimento da barragem.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Acselrad, H. "Pref&aacute;cio - Media&ccedil;&atilde;o e negocia&ccedil;&atilde;o de conflitos ambientais". In: Viegas, R. N.; Pinto, R. G. &amp; Garzon, L. N. <i>Negocia&ccedil;&atilde;o e acordo ambiental: o termo de ajustamento de conduta (TAC) como forma de tratamento dos conflitos ambientais</i>. Rio de Janeiro: Funda&ccedil;&atilde;o Heinrich B&ouml;ll, 2014, pp. 5-15.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Nader, L.. "Harmonia coerciva: a economia pol&iacute;tica dos modelos jur&iacute;dicos". <i>Revista Brasileira de Ci&ecirc;ncias Sociais</i>, vol.9, n. 26, 1994.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Zhouri, A.; Laschefski, K.. "Desenvolvimento e conflitos ambientais: um novo campo de investiga&ccedil;&atilde;o". In: Zhouri, A.; Laschefski, K.. (org.). <i>Desenvolvimento e conflitos ambientais</i>. Belo Horizonte: UFMG, 2010, p. 11-33.    <!-- ref --> Ver tamb&eacute;m Acselrad, H. "As pr&aacute;ticas espaciais e o campo dos conflitos ambientais". In: Acselrad, H. (Org). <i>Conflitos ambientais no Brasil</i>. Rio de Janeiro, Relume-Dumar&aacute;, 2004.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Kirsch, S. <i>Mining capitalism: the relationship between corporations and their critics</i>. Berkeley, Los Angeles, London: University of California Press, 2014.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Viana, M. B. "Avaliando Minas: &iacute;ndice de sustentabilidade da minera&ccedil;&atilde;o (ISM)". Tese de doutorado. Centro de Desenvolvimento Sustent&aacute;vel, Universidade de Bras&iacute;lia, 2012.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Ver Valencio, N. "Desastres, ordem social e planejamento em defesa civil: o contexto brasileiro". <i>Sa&uacute;de e Sociedade</i>, v. 19, n. 4, 2010, pp. 748-762;    <!-- ref --> e Quarantelli, E. L. "Uma agenda de pesquisa do s&eacute;culo 21 em ci&ecirc;ncias sociais para os desastres: quest&otilde;es te&oacute;ricas, metodol&oacute;gicas e emp&iacute;ricas, e suas implementa&ccedil;&otilde;es no campo profissional". <i>O Social em Quest&atilde;o</i>, n. 33, ano 18, p.25-36, 2015.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Acselrad, H. "Tecnologias sociais e sistemas locais de polui&ccedil;&atilde;o". In: <i>Horizontes Antropol&oacute;gicos</i>, 2006, 117-138.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. FEAM. <i>Invent&aacute;rio de barragem do estado de Minas Gerais. </i>Funda&ccedil;&atilde;o Estadual do Meio Ambiente. Belo Horizonte: FEAM, 2014. 44 p.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. Instituto Pr&iacute;stino, 2013. Laudo T&eacute;cnico em resposta ao Parecer &Uacute;nico Nº 257/2013 - Descri&ccedil;&atilde;o do fato: an&aacute;lise t&eacute;cnica referente &agrave; revalida&ccedil;&atilde;o da licen&ccedil;a operacional da barragem de rejeitos de Fund&atilde;o - Samarco Minera&ccedil;&atilde;o S/A. IP. 082.2013, Belo Horizonte, 21 de outubro de 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. Segen, J. C. <i>Technological disaster</i>. McGraw-Hill Concise Dictionary of Modern Medicine, 2002. Dispon&iacute;vel online.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14. ONU-Organiza&ccedil;&atilde;o dos Na&ccedil;&otilde;es Unidas - Direitos Humanos. "Desastre mineiro no Brasil: Este n&atilde;o &eacute; o momento para uma postura defensiva" - Especialistas em direitos humanos da ONU. 25 dez. 2016. Dispon&iacute;vel online.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">15. Estado de Minas. "Vale anuncia descoberta de ars&ecirc;nico, chumbo e outros metais no rio Doce", <i>Estado de Minas</i>, 27 nov. 2016. Dispon&iacute;vel online.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">16. Ata da reuni&atilde;o das Comiss&otilde;es das Comunidades Atingidas, em 19/11/2015. Inqu&eacute;rito Civil nº MPMG.0400.15.000342-6.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">17. Ata de reuni&atilde;o entre Minist&eacute;rio P&uacute;blico e atingidos, em 09/12/2015. Inqu&eacute;rito Civil nº MPMG.0400.15.000342-6.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">18. DIP, Juliano. "Proteste J&aacute; - Mariana: Conhe&ccedil;a os bastidores da trag&eacute;dia". Dispon&iacute;vel em: <a href="http://entretenimento.band.uol.com.br/cqc/2015/video/15679565/proteste-ja---mariana-conheca-os-bastidores-da-tragedia" target="_blank">http://entretenimento.band.uol.com.br/cqc/2015/video/15679565/proteste-ja---mariana-conheca-os-bastidores-da-tragedia</a>. Acesso em 10 abr. 2016.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">19. Reuni&atilde;o no Centro de Conven&ccedil;&otilde;es de Mariana, 19/01/2016.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">20.Das, V.; Kleinman, A. &amp; Lock, M. "Introduction". <i>Daedalus. </i>Special Issue on Social Suffering, vol. 125, n. 1, pp. XI-XX, 1996.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">21. Idem.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">22.Silva, T. C. "Eventos cr&iacute;ticos: sobreviventes, narrativas, testemunhos e sil&ecirc;ncios". Trabalho apresentado na 27ª <i>Reuni&atilde;o de Brasileira de Antropologia</i>, 2010.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">23.Ayuero, J. &amp; Swistun, D. <i>Flammable: environmental suffering in an Argentine shantytown</i>. New York: Oxford University Press, 2009.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">24.Oliveira, R.. "A gente tem que falar aquilo que a gente tem que provar: a geopol&iacute;tica do risco e a produ&ccedil;&atilde;o do sofrimento social na luta dos moradores do bairro Camargos, em Belo Horizonte-MG". Tese. Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Sociologia, UFMG: Belo Horizonte, 2014.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">25.International Finance Corporations (IFC).  	Performance Standards on Environmental and Social Sustainability. <i>World Bank Group,</i> January, 2012.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="nt"></a>(<a href="#nta">*</a>) Este artigo &eacute; uma vers&atilde;o reduzida de artigo mais extenso a ser publicado no livro <i>Minera&ccedil;&atilde;o na Am&eacute;rica Latina: neoextrativismo e lutas territoriais</i>, Editora Annablume, a ser lan&ccedil;ado durante a reuni&atilde;o anual da Anpocs, em outubro deste ano.</font></p>      ]]></body><back>
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