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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A tragédia da mineração e a experiência da caravana territorial da bacia do rio Doce: encontro de saberes e práticas para a transformação]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   MARIANA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A trag&eacute;dia da minera&ccedil;&atilde;o e a experi&ecirc;ncia da caravana territorial da bacia do rio Doce: encontro de saberes e pr&aacute;ticas para a transforma&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Marcelo Firpo Porto</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Engenheiro de produ&ccedil;&atilde;o e psic&oacute;logo, pesquisador da Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), coordenador do grupo de trabalho Sa&uacute;de e Ambiente da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Sa&uacute;de Coletiva (Abrasco)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Plagiando Marx em <i>O 18 Brum&aacute;rio de Lu&iacute;s Bonaparte</i> (1852), acidentes, como a hist&oacute;ria, se repetem primeiro como trag&eacute;dias e depois como farsas. Como diria o fil&oacute;sofo franc&ecirc;s Paul Virilio (1), vivemos uma invers&atilde;o da l&oacute;gica aristot&eacute;lica em nossa crise civilizat&oacute;ria contempor&acirc;nea: o acidente, o transit&oacute;rio e o fugaz se transformam, cada vez mais, em caracter&iacute;stica marcante do sistema social, pol&iacute;tico e econ&ocirc;mico. J&aacute; a subst&acirc;ncia, entendida como os valores, os sentidos e os processos do viver humano, seja essa subst&acirc;ncia material ou imaterial, torna-se descart&aacute;vel, inst&aacute;vel, considerada "obsoleta" ou "atrasada".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O capitalismo, em sua fase atual de globaliza&ccedil;&atilde;o, possui uma enorme velocidade de crescimento e expans&atilde;o. A cria&ccedil;&atilde;o destrutiva de Schumpeter (2), por meio de inova&ccedil;&otilde;es e expans&atilde;o de mercados, tende a ser violentamente desequilibrada. O metabolismo social passa a ser um conceito estrat&eacute;gico para a compreens&atilde;o da crise ecol&oacute;gica, dos conflitos ambientais e dos desastres tecnol&oacute;gicos. Ele busca analisar as rela&ccedil;&otilde;es entre os sistemas sociais e econ&ocirc;micos com os sistemas naturais, biof&iacute;sicos ou ecol&oacute;gicos (3). O conceito se refere aos fluxos de energia e materiais que existem na economia atrav&eacute;s dos cinco fen&ocirc;menos ou fases que caracterizam o processo metab&oacute;lico: a apropria&ccedil;&atilde;o; a transforma&ccedil;&atilde;o; a circula&ccedil;&atilde;o; o consumo; e, finalmente, a excre&ccedil;&atilde;o ou produ&ccedil;&atilde;o de dejetos. Riscos ecol&oacute;gicos globais e desastres tecnol&oacute;gicos podem ser percebidos como sintomas desse profundo desequil&iacute;brio entr&oacute;pico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O desastre da Samarco-Vale-BHP, iniciado no dia 5 de novembro de 2015, ficar&aacute; marcado como uma das maiores trag&eacute;dias socioambientais do pa&iacute;s. &Eacute; reflexo de uma crise maior da megaminera&ccedil;&atilde;o e sua recente expans&atilde;o no Brasil. Tratou-se de uma trag&eacute;dia anunciada. Acidentes graves com barragens v&ecirc;m se repetindo em Minas Gerais com frequ&ecirc;ncia: 2001, 2003,2007, 2008, 2014, com mortes e destrui&ccedil;&atilde;o ambiental. A origem da trag&eacute;dia, portanto, est&aacute; diretamente relacionada ao modelo de desenvolvimento pautado na megaminera&ccedil;&atilde;o que fez do Brasil o segundo maior exportador de min&eacute;rio de ferro e a Vale a maior produtora do mundo, sendo a terceira maior mineradora mundial. Temos as maiores minas do mundo em Minas e no Par&aacute; (Caraj&aacute;s), as importa&ccedil;&otilde;es globais de min&eacute;rios cresceram mais de cinco vezes entre 2003 e 2013, e o mercado vol&aacute;til das <i>commodities</i> fazem com que ondas de crescimento sejam seguidas de quedas mais ou menos abruptas que afetam a seguran&ccedil;a e gest&atilde;o ambiental (4).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O modelo da megaminera&ccedil;&atilde;o envolve muito dinheiro com promessas de desenvolvimento e progresso. Mas carrega consigo muitos impactos socioambientais que os economistas denominam de "externalidades": polui&ccedil;&atilde;o, apropria&ccedil;&atilde;o de terras de agricultores, ind&iacute;genas, quilombolas e ribeirinhos; circula&ccedil;&atilde;o de caminh&otilde;es e ferrovias que podem atropelar animais e seres humanos, minerodutos que gastam muita &aacute;gua em tempos de crise h&iacute;drica. Tal cen&aacute;rio de degrada&ccedil;&atilde;o ambiental, viola&ccedil;&atilde;o de direitos e mortes est&aacute; associado a uma gest&atilde;o ambiental extremamente prec&aacute;ria: legisla&ccedil;&atilde;o fr&aacute;gil e n&atilde;o cumprida; licenciamento ambiental acelerado e pouco participativo, com grande fragilidade t&eacute;cnica e pol&iacute;tica dos &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos que fiscalizam; empresas que se autorregulam e "investem" nas campanhas eleitorais de legisladores e gestores que passam a "colaborar" com o "progresso".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No caso do rompimento da barragem de Fund&atilde;o, a lama de rejeitos da minera&ccedil;&atilde;o atingiu toda uma bacia hidrogr&aacute;fica at&eacute; sua foz e regi&atilde;o costeira, caracterizando a amplitude e a gravidade da trag&eacute;dia. A bacia do rio Doce &eacute; extremamente importante para a regi&atilde;o e dela depende um amplo e diversificado conjunto de comunidades e popula&ccedil;&otilde;es que consomem e vivem de suas &aacute;guas, seja como bem material ou simb&oacute;lico, caso evidente do significado espiritual do Watu (rio Doce) para o povo Krenak. S&atilde;o muitos os atingidos: agricultores e assentados da reforma agr&aacute;ria, pescadores, ind&iacute;genas, cidad&atilde;os que bebem a &aacute;gua tratada para consumo humano, os que vivem do turismo cultural e ecol&oacute;gico na regi&atilde;o, at&eacute; mesmo surfistas de Reg&ecirc;ncia (ES), um dos melhores locais para a pr&aacute;tica do surfe no pa&iacute;s. Uma grande diversidade de culturas, identidades e paisagens ao longo de centenas de quil&ocirc;metros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse contexto, como articular a luta pol&iacute;tica pela defesa de direitos, influenciar na transforma&ccedil;&atilde;o do modelo de desenvolvimento e produzir conhecimentos numa perspectiva emancipat&oacute;ria? Mais que uma ci&ecirc;ncia objetiva, neutra e produtora de indicadores aos "tomadores de decis&otilde;es", a trag&eacute;dia de Mariana revela a necessidade de uma ci&ecirc;ncia engajada, cidad&atilde; e sens&iacute;vel, antenada com os clamores por justi&ccedil;a e que avance nos processos participativos e compartilhados de produ&ccedil;&atilde;o de conhecimentos e pr&aacute;ticas coletivas. Uma alian&ccedil;a entre grupos cient&iacute;ficos e movimentos sociais que buscam juntos conhecer os territ&oacute;rios, vivenciar solidariamente o drama dos atingidos pelas trag&eacute;dias do desenvolvimento, sistematizar as den&uacute;ncias, mas tamb&eacute;m reconhecer, anunciar e promover experi&ecirc;ncias de transforma&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A proposta da caravana territorial da bacia do rio Doce busca avan&ccedil;ar nessa dire&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SOBRE A CARAVANA TERRITORIAL: UMA FERRAMENTA POL&Iacute;TICO-PEDAG&Oacute;GICA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A caravana territorial &eacute; um instrumento pol&iacute;tico-pedag&oacute;gico constru&iacute;do pelo movimento agroecol&oacute;gico no Brasil, junto com diversas entidades, redes e movimentos sociais. Ela vem sendo trabalhada desde o Encontro Nacional de Di&aacute;logos e Converg&ecirc;ncias entre Agroecologia, Sa&uacute;de e Justi&ccedil;a Ambiental, Soberania Alimentar, Economia Solid&aacute;ria e Feminismo realizado em 2011 (5). No processo de prepara&ccedil;&atilde;o ao III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), ocorrido em 2014, quinze caravanas foram realizadas em diferentes territ&oacute;rios do pa&iacute;s reunindo diversos agricultores, professores, movimentos sociais, pesquisadores, estudantes, coletivos e gestores p&uacute;blicos. Elas tamb&eacute;m t&ecirc;m sido utilizadas por n&uacute;cleos regionais de agroecologia em conjunto com outros instrumentos metodol&oacute;gicos, como as instala&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas e os c&iacute;rculos de culturas (6).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As caravanas s&atilde;o incurs&otilde;es solid&aacute;rias em um dado territ&oacute;rio organizadas por distintas redes, movimentos sociais, ONGs e grupos acad&ecirc;micos engajados. Rotas s&atilde;o constru&iacute;das em torno de experi&ecirc;ncias tanto de an&uacute;ncios - pr&aacute;ticas agroecol&oacute;gicas, feiras alternativas de comercializa&ccedil;&atilde;o, banco de sementes crioulas, economia solid&aacute;ria, sa&uacute;de popular e comunit&aacute;ria etc -, como de den&uacute;ncias e resist&ecirc;ncias. Por exemplo, conflitos ambientais em torno da expans&atilde;o do agroneg&oacute;cio, projetos de minera&ccedil;&atilde;o, constru&ccedil;&atilde;o de hidrel&eacute;tricas, ferrovias, rodovias, minerodutos, dentre outros. Mais que impactos e injusti&ccedil;as socioambientais, as caravanas revelam como a resist&ecirc;ncia organizada de camponeses, ind&iacute;genas, quilombolas, mulheres, trabalhadores/as do campo e das cidades possibilitam o emergir dos conflitos, a visibilidade em torno dos direitos violados e a busca por alternativas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As caravanas realizam-se por meio de visitas, interc&acirc;mbios, observa&ccedil;&otilde;es, atos p&uacute;blicos, rodas de conversa e troca de saberes entre caravaneiros/as e fam&iacute;lias, grupos, coletivos e moradores que recebem as rotas. Trata-se, como explica o "Caderno do(a) Participante da Caravana Territorial da Bacia do Rio Doce" (7), de exercitar um olhar coletivo e popular sobre o territ&oacute;rio, com suas contradi&ccedil;&otilde;es e os desafios de constru&ccedil;&atilde;o de uma nova sociedade. Ainda segundo o caderno, as experi&ecirc;ncias com diversas caravanas t&ecirc;m revelado a diversidade de situa&ccedil;&otilde;es, contextos, povos, habitats, complexidades, contradi&ccedil;&otilde;es e an&uacute;ncios, desafios e possibilidades de autonomia e participa&ccedil;&atilde;o de grupos subalternizados pela economia dominante e por agentes hegem&ocirc;nicos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Aliado &agrave;s caravanas, outros instrumentos criativos de participa&ccedil;&atilde;o e express&atilde;o t&ecirc;m sido adotados. Por exemplo, as chamadas instala&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas (6), que s&atilde;o cen&aacute;rios constru&iacute;dos para compartilhar viv&ecirc;ncias da caravana, ou mais especificamente de uma rota, para pessoas que n&atilde;o participaram. Costumam ser montadas e apresentadas em momentos de culmin&acirc;ncia de uma caravana quando esta possui v&aacute;rias rotas, ou em algum evento posterior, como no caso III ENA, que se iniciou com uma apresenta&ccedil;&atilde;o simult&acirc;nea de 15 instala&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas que refletiram sobre as 15 caravanas realizadas anteriormente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A instala&ccedil;&atilde;o pedag&oacute;gica apresenta-se como alternativa viva aos m&eacute;todos orais ou textuais cl&aacute;ssicos que predominam fortemente no mundo acad&ecirc;mico, aproximando-se de uma instala&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica em sua dimens&atilde;o est&eacute;tica. Cada instala&ccedil;&atilde;o &eacute; montada coletivamente por aqueles que participaram da rota ou caravana, com uma multiplicidade de s&iacute;mbolos visuais, fotos, performances (por exemplo teatrais, musicais, recita&ccedil;&otilde;es po&eacute;ticas, cantos e dan&ccedil;as tradicionais etc), e a presen&ccedil;a de alguns de seus participantes para falar dos s&iacute;mbolos presentes e dar depoimentos de suas viv&ecirc;ncias. A instala&ccedil;&atilde;o pode ser vista como um cen&aacute;rio privilegiado de interc&acirc;mbio entre diversos saberes (populares, camponeses, ind&iacute;genas) e acad&ecirc;micos, compondo, a partir de elementos da realidade vivenciada, uma ambi&ecirc;ncia problematizadora e suscitadora de reflex&otilde;es. S&atilde;o, portanto, dispositivos dial&oacute;gicos, captados por diferentes sentidos al&eacute;m da raz&atilde;o (como nas chamadas feiras agroecol&oacute;gicas de saberes e sabores), que apresentam e organizam diferentes elementos significativos das realidades vividas, ressignificando-as e gerando novos saberes e reflex&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra ferramenta crescentemente utilizada pelos grupos agroecol&oacute;gicos, organiza&ccedil;&otilde;es e movimentos sociais &eacute; a chamada facilita&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica. Ela pode ser definida como um m&eacute;todo de registro, facilita&ccedil;&atilde;o do trabalho de grupo e compartilhamento sin&oacute;ptico ou hol&iacute;stico de informa&ccedil;&otilde;es e conhecimentos. Consiste no trabalho de um ou mais facilitadores que v&atilde;o registrando s&iacute;nteses publicamente com a utiliza&ccedil;&atilde;o de <i>flip charts</i>, pap&eacute;is largos, murais e outras m&iacute;dias visuais. Vem sendo usada no contexto, de diferentes organiza&ccedil;&otilde;es, voltado &agrave; produ&ccedil;&atilde;o criativa, compartilhamento e divulga&ccedil;&atilde;o de conhecimentos (8). No contexto da agroecologia e dos movimentos sociais, sua aplica&ccedil;&atilde;o tem recebido maior dose de ousadia e liberdade art&iacute;stica, pois diversos facilitadores v&atilde;o compondo, a partir de seus talentos, uma esp&eacute;cie de quadro ou tela com desenhos, imagens e palavras chaves a medida que v&atilde;o vivenciando certa reuni&atilde;o ou trechos de uma caravana (9). A partir do que tamb&eacute;m &eacute; chamado de "colheita" de informa&ccedil;&otilde;es, relatos significativos s&atilde;o transformados por facilitadores sens&iacute;veis em imagens que potencializam a capacidade de compreens&atilde;o de realidades e temas mais complexos e a organiza&ccedil;&atilde;o de ideias. Em vez de ler ou ouvir um relato, trata-se de v&ecirc;-lo, senti-lo, sabore&aacute;-lo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ado&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento de metodologias participativas e criativas, como as instala&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas e facilita&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica, v&atilde;o al&eacute;m de m&eacute;todos adotados pelas ci&ecirc;ncias sociais como a observa&ccedil;&atilde;o participante ou mesmo a pesquisa-a&ccedil;&atilde;o. Elas fazem a ponte entre concep&ccedil;&otilde;es, as mais diversas, como a da pedagogia da cria&ccedil;&atilde;o do fil&oacute;sofo e educador norte-americano John Dewey, e autores p&oacute;s-coloniais como Boaventura de Sousa Santos e sua proposta de ecologia de saberes. Caminha na dire&ccedil;&atilde;o do que Guerrero Arias denomina de "corazonar", uma express&atilde;o de origem andina que o autor utiliza para explicar o deslocamento da hegemonia da raz&atilde;o, para um tipo de compreens&atilde;o de que a condi&ccedil;&atilde;o humana constitui-se entre a afetividade e a raz&atilde;o, cujo horizonte &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o de outras propostas epistemol&oacute;gicas e outros sentidos da exist&ecirc;ncia: "(...) corazonar la vida es una respuesta insurgente para enfrentar las dicotom&iacute;as excluyentes y dominadoras construidas por Occidente, que separan el sentir del pensar, el coraz&oacute;n de la raz&oacute;n, seres humanos entre s&iacute; y a estos de la naturaleza y el cosmos" (10).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A CARAVANA TERRITORIAL DA BACIA DO RIO DOCE: RELATOS DE UM CARAVANEIRO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Descrever uma caravana, necessariamente, implica em uma forma particular de relato, que aproxima o relato de viagem, o relato etnogr&aacute;fico, o di&aacute;rio de campo e o ensaio, podendo diluir fronteiras entre ci&ecirc;ncia, literatura e poesia. Como nos prop&ocirc;s Guerrero Arias (10), um relato em que raz&atilde;o, cora&ccedil;&atilde;o e solidariedade se unam para expressar aprendizados e compartilhar experi&ecirc;ncias. Estas podem ser de den&uacute;ncias e resist&ecirc;ncias contra as diversas formas de opress&atilde;o contra as comunidades e a natureza, mas tamb&eacute;m de an&uacute;ncios, de alternativas de como pessoas, organiza&ccedil;&otilde;es, movimentos sociais trabalham e se mobilizam para transformar a sociedade e, de certa forma, a si pr&oacute;prios como sujeitos coletivos e individuais. Como disse um s&aacute;bio campon&ecirc;s com quem conversamos na caravana, uma experi&ecirc;ncia de "meter o p&eacute; na estrada" para "reduzir nossa ignor&acirc;ncia".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo a carta pol&iacute;tica da caravana (11), lida no ato pol&iacute;tico que cruzou as ruas de Governador Valadares na manh&atilde; do s&aacute;bado (16/04/2016), a realiza&ccedil;&atilde;o da caravana foi movida "pelo sentimento de justi&ccedil;a, indigna&ccedil;&atilde;o, luta, resist&ecirc;ncia e vontade de transformar o modelo de sociedade e de desenvolvimento de nosso pa&iacute;s".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A caravana, que foi definida logo ap&oacute;s o rompimento da barragem de Fund&atilde;o - referido na  carta pol&iacute;tica como uma trag&eacute;dia-crime -, envolveu dezenas de organiza&ccedil;&otilde;es nacionais - principalmente as envolvidas no j&aacute; referido Encontro Di&aacute;logos e Converg&ecirc;ncias (5), regionais e locais, com a participa&ccedil;&atilde;o de cerca de 150 caravaneiros e mais de mil pessoas que participaram das in&uacute;meras atividades realizadas. A caravana se dividiu em quatro rotas que percorreram o alto, m&eacute;dio e baixo rio Doce desde o dia 11 at&eacute; o dia 14 de abril de 2016, e nos dias 15 e 16 todas as pessoas se encontraram no chamado ponto de culmin&acirc;ncia na Pra&ccedil;a dos Pioneiros, no centro de Governador Valadares, permitindo que os cidad&atilde;os locais tamb&eacute;m pudessem interagir.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No dia 15 foi feito um interc&acirc;mbio de experi&ecirc;ncias por meio de instala&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas para cada rota, e uma mesa redonda com representantes da comiss&atilde;o de cria&ccedil;&atilde;o do F&oacute;rum Permanente de Defesa do Rio Doce, do povo ind&iacute;gena Krenak, das organiza&ccedil;&otilde;es acad&ecirc;micas presentes na rota, e do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal. No dia 16 de abril deste ano, s&aacute;bado, ao longo de toda a manh&atilde; foi realizado um ato pol&iacute;tico partindo da Pra&ccedil;a dos Pioneiros. Cerca de duzentas pessoas caminharam por mais de duas horas ao longo das ruas de Governador Valadares e, ao final, foi feita a leitura da carta pol&iacute;tica junto &agrave; esta&ccedil;&atilde;o da estrada de ferro Vit&oacute;ria a Minas controlada pela empresa Vale.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A caravana teve quatro rotas: a primeira rota seguiu o caminho da lama de rejeitos a partir de Mariana, revelando o lado mais dram&aacute;tico e tamb&eacute;m mais conhecido da trag&eacute;dia-crime e conhecendo experi&ecirc;ncias de resist&ecirc;ncia e lutas por direitos, com o especial protagonismo das mulheres. A segunda rota, tamb&eacute;m no alto rio Doce, seguiu os afluentes dos rios Piranga e Casca que n&atilde;o foram atingidos pelo rejeito da barragem, embora a trag&eacute;dia-crime tamb&eacute;m tenha influenciado a regi&atilde;o, por exemplo pelo desaparecimento dos peixes que n&atilde;o mais podem fazer a piracema pela morte do rio a jusante. A rota teve como objetivo principal conhecer experi&ecirc;ncias de recupera&ccedil;&atilde;o de nascentes e dos rios, de agricultura agroecol&oacute;gica, de saneamento rural com fossas constru&iacute;das pelas comunidades, da pot&ecirc;ncia das escolas da fam&iacute;lia agr&iacute;cola e projetos de extens&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A terceira rota partiu de Governador Valadares, e teve por foco os afluentes do m&eacute;dio rio Doce, trazendo a perspectiva da interliga&ccedil;&atilde;o dos acontecimentos relativos &agrave; trag&eacute;dia-crime de Mariana e o modelo de desenvolvimento imposto na regi&atilde;o do m&eacute;dio rio Doce, em especial os problemas relacionados aos recursos h&iacute;dricos. Estes j&aacute; eram problem&aacute;ticos antes do desastre devido a empreendimentos como barragens, assoreamento dos rios e  falta de saneamento b&aacute;sico. Com o desastre houve uma redu&ccedil;&atilde;o dr&aacute;stica na oferta de pescado, de &aacute;gua pot&aacute;vel para a popula&ccedil;&atilde;o, e de &aacute;gua para o uso produtivo de agricultores. A popula&ccedil;&atilde;o desconfia dos laudos sobre a qualidade da &aacute;gua que &eacute; distribu&iacute;da pelas prefeituras para as resid&ecirc;ncias". Mas h&aacute; tamb&eacute;m an&uacute;ncios de agricultores da reforma agr&aacute;ria, pescadores e ind&iacute;genas que, em sua resist&ecirc;ncia, lutam por direitos e outras formas de rela&ccedil;&atilde;o com a natureza e a economia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por fim, a quarta rota percorreu a regi&atilde;o do baixo rio Doce desde a foz em Reg&ecirc;ncia at&eacute; Governador Valadares, e no coletivo participaram tamb&eacute;m ind&iacute;genas Tupiniquim, Botocudos e Guarani. Ao longo da rota foram visitadas a Vila de Reg&ecirc;ncia Augusta; comunidades de pescadores de Maria Ortis e Mascarenhas; o assentamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) Sez&iacute;nio Fernandes; e a aldeia ind&iacute;gena Krenak. Al&eacute;m do sofrimento dos pescadores que vivem de um rio sem peixe, da viol&ecirc;ncia policial contra a comunidade do assentamento da reforma agr&aacute;ria, dos impactos dos grandes empreendimentos da ind&uacute;stria da minera&ccedil;&atilde;o e do petr&oacute;leo, os Krenak revelaram com contund&ecirc;ncia uma grave e inaceit&aacute;vel viola&ccedil;&atilde;o de autodetermina&ccedil;&atilde;o de um povo, ferindo a Conven&ccedil;&atilde;o 169 da OIT (Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho) sobre povos ind&iacute;genas e tribais. Segundo Andrea Krenak, "o rio faz parte de n&oacute;s, da nossa cultura, &eacute; como se tivessem tirado um parente nosso".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A ROTA DOS RIOS PIRANGA E CASCA: DA RESIST&Ecirc;NCIA &Agrave; TRANSFORMA&Ccedil;&Atilde;O QUE J&Aacute; COME&Ccedil;OU</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Minha participa&ccedil;&atilde;o na caravana como representante da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Sa&uacute;de Coletiva (Abrasco) ocorreu ao longo da primeira rota, ou rota 1, no alto da bacia do rio Doce, envolvendo os rios Piranga e Casca desde segunda (11/4) at&eacute; quinta(15/4). Fomos cerca de 40 caravaneiros, homens, mulheres e jovens de v&aacute;rias organiza&ccedil;&otilde;es percorrendo as cidades de Desterro de Melo, Paula C&acirc;ndido, Araponga, Vi&ccedil;osa, Ponte Nova e culminando em Governador Valadares. Nos quatro dias de atividades cerca de 300 pessoas tamb&eacute;m se mobilizaram e participaram nos v&aacute;rios momentos de visitas e debates. Nossa alimenta&ccedil;&atilde;o e pernoite ocorreram de forma solid&aacute;ria com a simpatia e dedica&ccedil;&atilde;o de muitas pessoas e organiza&ccedil;&otilde;es. Por exemplo, pernoitei na casa de um presidente de sindicato rural, numa casa paroquial e nas instala&ccedil;&otilde;es de uma ONG agroecol&oacute;gica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A caravana come&ccedil;ou na segunda-feira, no in&iacute;cio da noite, na cidade de Desterro do Melo com o v&iacute;deo-debate <i>Flores vivas</i>, um filme relato realizado pela Confedera&ccedil;&atilde;o Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) sobre a luta de trabalhadores, homens e mulheres, que foram contaminados por agrot&oacute;xicos ao longo da d&eacute;cada de 1980 na empresa Brazil Flowers, uma multinacional alem&atilde; que produzia rosas para exporta&ccedil;&atilde;o. Abortos, mal forma&ccedil;&otilde;es e v&aacute;rios casos de c&acirc;ncer acabaram fortalecendo uma articula&ccedil;&atilde;o com t&eacute;cnicos do SUS (Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de) e a Fundacentro/MG, e a empresa acabou sendo for&ccedil;ada a fechar as portas em meados dos anos 1990. A luta contra os venenos levaram v&aacute;rios agricultores e o sindicato de trabalhadores rurais a perseguirem alternativas que levaram &agrave; agroecologia e ao uso da homeopatia na cria&ccedil;&atilde;o de animais. A rela&ccedil;&atilde;o com o setor de sa&uacute;de, al&eacute;m de organiza&ccedil;&otilde;es agroecol&oacute;gicas e universidades como a da Universidade Federal de Vi&ccedil;osa (UFV), t&ecirc;m sido fundamental para apoiar essa transi&ccedil;&atilde;o, que atualmente envolve um profundo trabalho de sensibiliza&ccedil;&atilde;o e difus&atilde;o de experi&ecirc;ncias na regi&atilde;o com o projeto Aliar. Esse projeto decorre do Projeto de Lei 018/14 aprovado pela C&acirc;mara de Vereadores de Barbacena que cria no &acirc;mbito do munic&iacute;pio o Programa Agroecologia e Homeopatia, um an&uacute;ncio de processos locais de transi&ccedil;&atilde;o agroecol&oacute;gica. Tratou-se de uma experi&ecirc;ncia repleta de simbolismos: do sofrimento, principalmente de mulheres que se contaminaram cortando os espinhos das rosas exportadas, forjou-se a luta e a resist&ecirc;ncia de in&uacute;meros agricultores familiares que, com o passar dos anos, germinou o sonho de transforma&ccedil;&atilde;o e floresce, mais e mais, por meio das pr&aacute;ticas agroecol&oacute;gicas e aplica&ccedil;&atilde;o da homeopatia na regi&atilde;o. Mostra tamb&eacute;m o potencial de um SUS diferente, combativo, antenado aos sofrimentos e ao sonho de transforma&ccedil;&otilde;es das popula&ccedil;&otilde;es do campo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No dia seguinte, fomos conhecer a nascente do rio Xopot&oacute;, um dos afluentes do rio Piranga. L&aacute; fizemos uma bela m&iacute;stica onde cantos, poesias e relatos significativos dos presentes evocaram e celebraram o sentido das &aacute;guas como fonte da vida, lugar onde nascemos no ventre de nossas m&atilde;es que comungam com a M&atilde;e Terra, o milagre da vida. Conversamos sobre as principais estrat&eacute;gias de prote&ccedil;&atilde;o das nascentes e de recupera&ccedil;&atilde;o dos rios, a import&acirc;ncia do cercamento das nascentes, o problema da pastagem com a grama braqui&aacute;ria que reduz a biodiversidade, impede a infiltra&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua e facilita a eros&atilde;o. Tamb&eacute;m foi mencionada a falta de agilidade das institui&ccedil;&otilde;es para p&ocirc;r em pr&aacute;tica a&ccedil;&otilde;es h&aacute; muito prometidas, como o cercamento das nascentes da regi&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na parte da tarde conhecemos a propriedade do Sr. Joaquim, um simp&aacute;tico agricultor que nos recebeu com sua fam&iacute;lia. Trata-se de uma grande refer&ecirc;ncia em homeopatia agropecu&aacute;ria na regi&atilde;o que h&aacute; cerca de 5 anos vem tratando com sucesso seu gado. Ainda nesse dia, fomos para o munic&iacute;pio de Paula C&acirc;ndido, recebidos &agrave; noite na casa paroquial com uma apresenta&ccedil;&atilde;o de congado por membros de comunidades quilombolas da regi&atilde;o, sob a guia do Mestre Boi, da comunidade de C&oacute;rrego do Meio. Mestre Boi depois nos acompanhou por toda a rota e, junto com Farinhada, m&uacute;sico popular e militante dos movimentos negro e agroecol&oacute;gico, foram nossos animadores culturais. Caminhamos, cantamos, celebramos e rezamos com Mestre Boi e Farinhada por toda a caravana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na quarta-feira pela manh&atilde;, nos dividimos em tr&ecirc;s grupos para vi-sitar cada qual uma experi&ecirc;ncia na regi&atilde;o de Paula C&acirc;ndido. A primeira foi &agrave; comunidade de S&atilde;o Mateus conhecer a experi&ecirc;ncia com fossas s&eacute;pticas econ&ocirc;micas que v&ecirc;m sendo constru&iacute;das pela pr&oacute;pria comunidade. Foi feita uma demonstra&ccedil;&atilde;o de constru&ccedil;&atilde;o para o grupo, em menos de uma hora de trabalho, mostrando como o saneamento rural pode ser enfrentado com conhecimento t&eacute;cnico e participa&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria. O segundo grupo conheceu a experi&ecirc;ncia de resist&ecirc;ncia na comunidade de Morro do Jac&aacute; frente &agrave; tentativa de constru&ccedil;&atilde;o de um mineroduto pela empresa mineradora Ferrous. Com a autoriza&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via dada pelo governador de Minas Gerais, a empresa come&ccedil;ou a colocar placas por onde o mineroduto iria passar, o que provocou uma ampla rea&ccedil;&atilde;o de comunidades, ampliada pela cria&ccedil;&atilde;o de uma coalis&atilde;o mais ampla, a campanha pelas &aacute;guas e contra o mineroduto, que amplia a luta articulando in&uacute;meras comunidades, cidades, organiza&ccedil;&otilde;es e movimentos sociais. Por fim, foi visitada a comunidade quilombola C&oacute;rrego do Meio em sua luta de resist&ecirc;ncia e titula&ccedil;&atilde;o da terra, al&eacute;m de experi&ecirc;ncias com bioconstru&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda no final da manh&atilde; seguimos para Araponga, onde almo&ccedil;amos na Escola Fam&iacute;lia Agr&iacute;cola (EFA) Puris. L&aacute; o grupo se dividiu novamente para conhecer as experi&ecirc;ncias agroecol&oacute;gicas com jovens na EFA e na propriedade do sr. Paulinho e dona Fia. Vimos o engajamento e aprendizado de jovens na recupera&ccedil;&atilde;o de nascentes, na produ&ccedil;&atilde;o agroecol&oacute;gica de alimentos, na constru&ccedil;&atilde;o de fossas que viabilizam o saneamento rural, mostrando a import&acirc;ncia e efetividade das EFAs e projetos de extens&atilde;o. Tive a alegria de conhecer pessoalmente o sr. Paulinho, um campon&ecirc;s que participa do projeto plantadores de &aacute;gua na recupera&ccedil;&atilde;o das nascentes atrav&eacute;s da recomposi&ccedil;&atilde;o dos agroecossistemas locais. Em certo momento de sua fala, Paulinho nos contou com tristeza sobre a visita de uma professora universit&aacute;ria que, apelando para o futuro dos filhos do agricultor, conclamou-o a abandonar o projeto em curso para plantar mais eucaliptos, ter mais dinheiro e mandar seus filhos para a universidade. Com l&aacute;grimas nos olhos, Paulinho, e todos n&oacute;s, compartilhou a tristeza por vivenciar o que ele denominou uma "ci&ecirc;ncia do mal" que se afasta da natureza, da compaix&atilde;o e s&oacute; pensa numa produtividade voltada ao dinheiro no curto prazo. Uma ci&ecirc;ncia que, com os donos do poder, contribui para um mundo de destrui&ccedil;&atilde;o, tal como o planeta vive hoje, numa situa&ccedil;&atilde;o que se agravar&aacute; mais e mais. E reafirmou seu compromisso com uma agricultura da verdade, da dignidade e da vida, uma li&ccedil;&atilde;o para todos que l&aacute; estavam.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Viajamos ainda na quarta-feira para Vi&ccedil;osa onde o grupo se reuniu para participar no semin&aacute;rio "Minera&ccedil;&atilde;o na bacia do rio Doce: impactos, conflitos e resist&ecirc;ncias" na Universidade Federal de Vi&ccedil;osa (UFV). Com uma plateia de mais de cem estudantes e professores, al&eacute;m da caravana, ouvimos palestrantes que apresentaram trabalhos sobre a contamina&ccedil;&atilde;o da bacia do rio Doce, as origens da trag&eacute;dia da minera&ccedil;&atilde;o pela l&oacute;gica destrutiva de aumentar a produ&ccedil;&atilde;o em busca de lucros, mesmo em tempos de queda dos pre&ccedil;os do min&eacute;rio de ferro, e dos impactos na vida do rio Doce e esp&eacute;cies que ser&atilde;o possivelmente extintas. Aprendemos que a degrada&ccedil;&atilde;o e contamina&ccedil;&atilde;o por metais pesados, como o ars&ecirc;nio do rio Doce, &eacute; anterior ao desastre-crime, e j&aacute; estava relacionada &agrave; atividade mineradora na regi&atilde;o. Depois fomos pernoitar no Centro de Tecnologia Alternativa (CTA) que, desde a d&eacute;cada de 1980, apoia a transi&ccedil;&atilde;o agroecol&oacute;gica na regi&atilde;o, em forte articula&ccedil;&atilde;o com agricultores e a UFV.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na quinta feira, &uacute;ltimo dia de nossa rota, partimos pela manh&atilde; para Ponte Nova. No percurso a caravana parou no encontro do rio Piranga com o rio Carmo que, juntos, formam o rio Doce. Sofremos ent&atilde;o o impacto de ver, pela primeira vez na rota, o rio marrom polu&iacute;do pelo rejeito da trag&eacute;dia. Junto com as pessoas da rota 1 que l&aacute; tamb&eacute;m estavam, ouvimos relatos de resist&ecirc;ncias contra a represa Risoleta Neves, tamb&eacute;m conhecida como Candonga, de propriedade de um cons&oacute;rcio com a participa&ccedil;&atilde;o da Vale para produzir energia el&eacute;trica para a minera&ccedil;&atilde;o, verificamos como a viola&ccedil;&atilde;o de direitos &eacute; um padr&atilde;o comum de v&aacute;rios empreendimentos. Ouvimos o relato da luta da comunidade de Soberbo, cuja maioria negra foi expulsa do lugar e realocada com a indigna&ccedil;&atilde;o de muitos para "Nova Soberbo", constru&iacute;da pelo cons&oacute;rcio respons&aacute;vel pela Barragem. Anos depois, ainda em luta por direitos, as pessoas viram a chegada da lama, de carros, geladeiras e destro&ccedil;os. Caminhamos por pedras e por cima da lama j&aacute; sem os destro&ccedil;os recolhidos, junto da &aacute;gua marrom turvada pela lama da trag&eacute;dia. Nos foi mostrado onde, a poucos metros de onde est&aacute;vamos, foi encontrado o corpo de uma das crian&ccedil;as arrastada por quil&ocirc;metros de dist&acirc;ncia de onde vivia em Bento Rodrigues. Nesse local compartilhamos dores, tristezas de uma trag&eacute;dia enorme e repleta de viola&ccedil;&otilde;es de direitos, mas tamb&eacute;m esperan&ccedil;as por um mundo mais justo e em harmonia com a natureza.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De tarde voltamos &agrave; Ponte Nova para debater, na casa paroquial com militantes, agricultores e sindicalistas, alternativas de recupera&ccedil;&atilde;o ambiental do rio Piranga, um dos principais afluentes do rio Doce, e de enfrentamento mais amplo ao retrocesso pol&iacute;tico do pa&iacute;s. Foi apresentada e discutida a proposta de cria&ccedil;&atilde;o, a partir de projeto municipal de Ponte Nova, da unidade de conserva&ccedil;&atilde;o do rio Piranga, com o apoio da UFV e do N&uacute;cleo de Assessoria &agrave;s Comunidades Atingidas por Barragens (Nacab).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A caravana n&atilde;o terminou. Como est&aacute; no trecho que encerra a carta pol&iacute;tica, no p&oacute;s-caravana seguiremos juntos no apoio ao rec&eacute;m criado F&oacute;rum Permanente em Defesa da Bacia do Rio Doce, na produ&ccedil;&atilde;o de dossi&ecirc;s e materiais que manter&atilde;o acesa a mem&oacute;ria da trag&eacute;dia, a esperan&ccedil;a de recupera&ccedil;&atilde;o da bacia e as lutas por um mundo mais justo e mais solid&aacute;rio. Lutas que ultrapassam Minas Gerais e Esp&iacute;rito Santo: o pa&iacute;s, a Am&eacute;rica Latina e o planeta precisam de uma nova grande transforma&ccedil;&atilde;o, com pequenas e grandes a&ccedil;&otilde;es conectadas pela vida.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Virilio, P. <i>The original accident</i>. Cambridge: Polity, 2007.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Schumpeter J. <i>Capitalismo, socialismo e democracia</i>. Rio de Janeiro: Zahar; 1985.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Para um maior aprofundamento ver: Hornborg, A. et al. <i>Rethinking environmental history: world-system history and global environmental change</i>. Rowman Altamira, 2007.    <!-- ref --> Gonzales de Molina, M. G, &amp; Toledo, V. M. <i>The social metabolism. A socio-ecological theory of historical change</i>. New York: Springer, 2014.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Milanez B. et al. "Antes fosse mais leve a carga: avalia&ccedil;&atilde;o dos aspectos econ&ocirc;micos, pol&iacute;ticos e sociais do desastre da Samarco/Vale/BHP em Mariana (MG)". PoEMAS/UFJF, relat&oacute;rio. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.ufjf.br/poemas/2015/12/10/1055/" target="_blank">http://www.ufjf.br/poemas/2015/12/10/1055/</a>. Acessado em 20/04/2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Para maiores informa&ccedil;&otilde;es deste encontro ver: <a href="http://dialogoseconvergencias.org/" target="_blank">http://dialogoseconvergencias.org/</a>.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Lopes, L. S., et al. "Troca de saberes: vivenciando metodologias participativas para a constru&ccedil;&atilde;o dos saberes agroecol&oacute;gicos". <i>Cadernos de Agroecologia </i>8 (2), 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Barcelos, E.. Caderno do(a) Participante da Caravana Territorial da Bacia do Rio Doce. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://drive.google.com/file/d/0B7W_zAxvffw2aU85SGZhemhObUk/view" target="_blank">https://drive.google.com/file/d/0B7W_zAxvffw2aU85SGZhemhObUk/view</a>. &#91;Acessado em 27/04/2016&#93;    .</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Drago, I. et al. "Metodologias que estimulam o compartilhamento de conhecimento: a experi&ecirc;ncia do Global Forum Am&eacute;rica Latina-GFAL." <i>AtoZ: novas pr&aacute;ticas em informa&ccedil;&atilde;o e conhecimento </i>1(1): 38-49, 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Villar, J. P. et al. "Troca de saberes-construindo di&aacute;logos entre conhecimento cient&iacute;fico e saber popular." <i>Cadernos de Agroecologia </i>6 (2), 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Arias, P. G. "Corazonar el sentido de las epistemolog&iacute;as dominantes desde las sabidur&iacute;as insurgentes, para construir sentidos otros de la existencia (Primera Parte)." <i>Calle14: revista de investigaci&oacute;n en el campo del arte </i>4 (5): 80-95. 2010. Dispon&iacute;vel online.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. Carta pol&iacute;tica da caravana territorial da bacia do rio Doce. Dispon&iacute;vel em: <a href="https://www.abrasco.org.br/site/2016/04/carta-politica-da-caranava-territorial-da-bacia-do-rio-doce/" target="_blank">https://www.abrasco.org.br/site/2016/04/carta-politica-da-caranava-territorial-da-bacia-do-rio-doce/</a> . &#91;acesso em 29/04/2016&#93;    .</font></p>      ]]></body><back>
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