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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Conflitos pela posse de terras ind&iacute;genas em Mato Grosso do Sul</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Jorge Eremites de Oliveira</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Antrop&oacute;logo social, arque&oacute;logo e historiador; professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e bolsista produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Mato Grosso Sul foi criado em 1977 e implantado em 1979, durante o regime militar (19641985), a partir do desmembramento de 357.145,532 km<sup>2</sup> de Mato Grosso. Nesta parte do Centro-Oeste est&atilde;o estabelecidas comunidades Atikum, Guarani (&Ntilde;andeva), Guat&oacute;, Kadiw&eacute;u, Kaiow&aacute;, Kamba, Kinikinau, Ofai&eacute; e Terena, dentre outras. Segundo censo oficial realizado em 2010, a popula&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena no estado totalizaria 73.295 pessoas, a segunda maior no pa&iacute;s. Paradoxalmente, a grande maioria vive em espa&ccedil;os diminutos e insuficientes para sua reprodu&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica e cultural.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A realidade apontada favorece ao confinamento de milhares de fam&iacute;lias em pequenas extens&otilde;es de terra, como ocorre em reservas criadas nos anos 1910 e 1920. A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o grave que na reserva ind&iacute;gena de Dourados, institu&iacute;da em 1917, h&aacute; uma popula&ccedil;&atilde;o multi&eacute;tnica de aproximadamente 14 mil pessoas para 3.475 hectares. Trata-se de uma &aacute;rea com alto &iacute;ndice de viol&ecirc;ncia, cujas origens n&atilde;o est&atilde;o relacionadas &agrave; cultura tradicional ind&iacute;gena, mas a a&ccedil;&otilde;es do Estado brasileiro no processo de territorializa&ccedil;&atilde;o dos coletivos ali assentados. Refiro-me &agrave; sua responsabilidade na imposi&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas de opress&atilde;o e discrimina&ccedil;&atilde;o etnicorracial como forma de disciplinamento, explora&ccedil;&atilde;o, subjuga&ccedil;&atilde;o, tentativas de assimila&ccedil;&atilde;o por meio da acultura&ccedil;&atilde;o etc. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por estes e outros motivos, os problemas que atingem os povos ind&iacute;genas em Mato Grosso do Sul ganham destaque nas redes sociais e na imprensa nacional e internacional. Ano ap&oacute;s ano, ininterruptamente, dezenas de pessoas s&atilde;o mortas durante conflitos pela posse de terras ind&iacute;genas e nada &eacute; feito de objetivo para evitar os massacres e solucionar o problema. Vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, prefeitos e governador, mandato ap&oacute;s mandato, salvo honrosas excess&otilde;es, simplificam o problema. Recha&ccedil;am o enfrentamento da quest&atilde;o fundi&aacute;ria, causa maior dos conflitos, e recorrem &agrave; estrat&eacute;gia de culpabilizar institui&ccedil;&otilde;es alhures a eles pelo genoc&iacute;dio em andamento, especialmente contra os Guarani e Kaiow&aacute;: Supremo Tribunal Federal, governo federal, Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal, Conselho Indigenista Mission&aacute;rio, associa&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas, universidades, for&ccedil;as alien&iacute;genas que desejariam se apoderar do aqu&iacute;fero Guarani etc. Utilizam-se de sofismas dos mais variados para distorcer a realidade e formar opini&atilde;o p&uacute;blica contr&aacute;ria &agrave; regulariza&ccedil;&atilde;o das terras ind&iacute;genas (e quilombolas) no pa&iacute;s. Buscam ainda criminalizar pessoas e institui&ccedil;&otilde;es nacionais e internacionais ligadas &agrave; defesa dos direitos humanos. Ami&uacute;de afirmam que &eacute; a Uni&atilde;o, e mais ningu&eacute;m, que pode solucionar os conflitos, desde que o fa&ccedil;a a favor dos fazendeiros, os quais n&atilde;o raramente financiam suas campanhas eleitorais e projetos de poder.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A quest&atilde;o fundi&aacute;ria, por sua vez, &eacute; um antigo problema que remonta aos s&eacute;culos XVIII, XIX e XX, quando teve origem a propriedade privada da terra na regi&atilde;o. Com o final da guerra entre o Paraguai e a Tr&iacute;plice Alian&ccedil;a (18641870), o antigo sul de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul, passou a ser mais rapidamente colonizado por migrantes oriundos de v&aacute;rias partes do Brasil, al&eacute;m de pessoas vindas de al&eacute;m-mar e pa&iacute;ses vizinhos, tidos como os "pioneiros". A partir de ent&atilde;o, o espa&ccedil;o regional passou a ser marcado pela viol&ecirc;ncia armada, sobretudo quando comunidades ind&iacute;genas tiveram seus territ&oacute;rios invadidos por fazendeiros e militares desmobilizados do ex&eacute;rcito imperial. Contudo, sem os povos origin&aacute;rios, essa parte da bacia platina n&atilde;o estaria incorporada ao territ&oacute;rio nacional. Foi gra&ccedil;as &agrave;s alian&ccedil;as com os ind&iacute;genas - verdadeiras muralhas do sert&atilde;o, articuladas desde a segunda metade do s&eacute;culo XVIII -, que Portugal estabeleceu sua hegemonia para al&eacute;m dos limites do Tratado de Tordesilhas, de 1494. No s&eacute;culo XIX, quando o Brasil se tornou Estado nacional, as alian&ccedil;as permaneceram. Exemplo disso foi o protagonismo que os antepassados dos atuais Guat&oacute;, Kadiw&eacute;u e Terena tiveram na defesa do territ&oacute;rio brasileiro durante o referido conflito b&eacute;lico, haja vista que parte da ent&atilde;o prov&iacute;ncia esteve sob invas&atilde;o de tropas paraguaias, entre fins de 1864 e parte de 1867. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ap&oacute;s a guerra, sobremaneira entre as d&eacute;cadas de 1870 e 1940, houve a expans&atilde;o de frentes econ&ocirc;micas da sociedade nacional e, consequentemente, o aumento da titula&ccedil;&atilde;o dolosa de territ&oacute;rios ind&iacute;genas a favor de terceiros. Povos origin&aacute;rios passaram a ter suas terras usurpadas e, via de regra, n&atilde;o tinham a quem recorrer na esfera governamental. Nesse contexto, foi ainda imposto aos Guarani, Kaiow&aacute;, Terena e outros ind&iacute;genas uma forma perversa de explora&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a de trabalho, baseado no sistema do barrac&atilde;o, esp&eacute;cie de escravid&atilde;o por d&iacute;vidas. Nessa condi&ccedil;&atilde;o, trabalharam na derrubada da mata, cria&ccedil;&atilde;o de bovinos, produ&ccedil;&atilde;o comercial de erva-mate e outras atividades. Depois de formadas as propriedades rurais, muitas delas entre as d&eacute;cadas de 1950 e 1970, impulsionadas pela expans&atilde;o do agroneg&oacute;cio no Brasil profundo, a m&atilde;o de obra nativa foi dispensada de muitas fazendas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No horizonte da constitui&ccedil;&atilde;o do Estado brasileiro e da forma&ccedil;&atilde;o da sociedade nacional, portanto, s&atilde;o registradas sucessivas tentativas de explora&ccedil;&atilde;o, domina&ccedil;&atilde;o e exterm&iacute;nio dos povos ind&iacute;genas em Mato Grosso do Sul. Em s&iacute;ntese, &agrave; medida que ali se estabeleceram, fazendeiros incorporaram terras de ocupa&ccedil;&atilde;o tradicional ao seu patrim&ocirc;nio e fizeram fortunas com a explora&ccedil;&atilde;o das &aacute;reas e da m&atilde;o de obra nativa. &Agrave; frente deles emergiu um grupo de propriet&aacute;rios de terra que, aproveitando-se da influ&ecirc;ncia obtida nos governos municipais, estadual e federal, ganhou poderes sobre pessoas e coisas. Constituiu-se, assim, um <i>establishment</i> ruralista com grande influ&ecirc;ncia no Estado brasileiro, inclusive dentro do movimento divisionista que culminou com a funda&ccedil;&atilde;o da unidade federativa. O mesmo grupo est&aacute; ligado ao agrobanditismo local: planeja e executa a&ccedil;&otilde;es de grupos armados contra comunidades em situa&ccedil;&atilde;o de vulnerabilidade social, especialmente Guarani e Kaiow&aacute;. A seu favor est&aacute; a certeza da impunidade, ratificada historicamente nos poderes da Rep&uacute;blica, que estimula a promo&ccedil;&atilde;o de crimes tipificados como genoc&iacute;dio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um dos resultados disso tudo tem sido o assassinato de centenas de pessoas nos &uacute;ltimos anos, ocorrido durante a retomada de terras ind&iacute;genas: Marcos Veron, Kaiow&aacute;, 72 anos (Juti, 13/01/2003); Genivaldo Ver&aacute;, 21 anos, e Rolindo Ver&aacute;, 23 anos, ambos Guarani (Paranhos, 31/10/2009); Oziel Gabriel, Terena, 35 anos (Sidrol&acirc;ndia, 30/05/2013); N&iacute;sio Gomes, Kaiow&aacute;, 69 anos (Aral Moreira, 18/11/2011); Marinalva Manoel, Kaiow&aacute;, 27 anos (Dourados, 01/11/2014); Sime&atilde;o Fernandes Vilhalba, Kaiow&aacute;, 24 anos (Ant&ocirc;nio Jo&atilde;o, 29/08/2015); Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, Kaiow&aacute;, 26 anos (Caarap&oacute;, 14/06/2016). Somam-se &agrave; lista outros tantos homic&iacute;dios, como o do Kaiow&aacute; Nelson Franco, em 1952, e do Guarani Mar&ccedil;al de Souza, no dia 25/11/1983, em Ant&ocirc;nio Jo&atilde;o. O alvo principal dos pistoleiros, organizados ou n&atilde;o em mil&iacute;cias armadas, tem sido as lideran&ccedil;as ind&iacute;genas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A situa&ccedil;&atilde;o tende a piorar em decorr&ecirc;ncia dos recentes retrocessos pol&iacute;ticos verificados no pa&iacute;s e, consequentemente, do maior empoderamento de grupos que atentam contra os direitos fundamentais dos povos e comunidades tradicionais. Tais for&ccedil;as, cujas ideias ecoam no Pal&aacute;cio do Planalto, defendem a Proposta de Emenda Constitucional nº. 215/2000 e outras tentativas de ceifar direitos assegurados na Lei Maior. Neste cen&aacute;rio, Mato Grosso do Sul segue como o mais anti-ind&iacute;gena dos estados brasileiros e, anualmente, disputa a lideran&ccedil;a na classifica&ccedil;&atilde;o dos lugares com o maior n&uacute;mero de mortes de &iacute;ndios no pa&iacute;s e no mundo, dentre outras formas de viol&ecirc;ncia.</font></p>      ]]></body>
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