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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOT&Iacute;CIAS DO BRASIL    <br> BIODIVERSIDADE</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ca&ccedil;a a mam&iacute;feros amea&ccedil;a bioma da Caatinga</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Giselle Soares </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mesmo ocupando cerca de 11% do territ&oacute;rio brasileiro, com mais de 750 mil km<sup>2</sup>, a Caatinga ainda &eacute;, hoje, um dos biomas menos conhecidos e menos protegidos do pa&iacute;s. A escassez de chuvas, que pode perdurar por at&eacute; onze meses, diminui a disponibilidade de &aacute;gua para plantas e animais e contribui para definir n&atilde;o apenas a paisagem, mas tamb&eacute;m os h&aacute;bitos dos moradores. Apesar de ter sido, durante muitos anos, descrita como um ecossistema pobre em esp&eacute;cies e endemismos, essa vis&atilde;o est&aacute; mudando. Estudos recentes apontam que a Caatinga apresenta uma expressiva riqueza de vertebrados silvestres quando comparada a outras regi&otilde;es semi&aacute;ridas do mundo. Em rela&ccedil;&atilde;o aos vertebrados terrestres, est&atilde;o catalogadas, na regi&atilde;o, 56 esp&eacute;cies de anf&iacute;bios, 117 de r&eacute;pteis, 591 de aves e 153 de mam&iacute;feros.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Uacute;nico bioma exclusivamente brasileiro, com um rico patrim&ocirc;nio biol&oacute;gico, a Caatinga sofre com as consequ&ecirc;ncias do desmatamento (mais de 45% de seu territ&oacute;rio original j&aacute; foi desmatado, segundo dados do Minist&eacute;rio do Meio Ambiente) e de atividades de ca&ccedil;a, fatores que, combinados, contribuem para a extin&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias esp&eacute;cies, sobretudo de aves e mam&iacute;feros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com o objetivo de elaborar um cat&aacute;logo dos mam&iacute;feros de ca&ccedil;a de import&acirc;ncia etnozool&oacute;gica nesse bioma e seus impactos potenciais, um grupo de pesquisadores ligados a universidades da Para&iacute;ba e do Piau&iacute; publicou, no fim de julho, o artigo "Game mammals of the Caatinga biome", no peri&oacute;dico <i>Ethnobiology &amp; Conservation</i>. O estudo, liderado pelo professor R&ocirc;mulo Romeu N&oacute;brega Alves, do Departamento de Biologia da Universidade Estadual da Para&iacute;ba (UEPB), mostra parte dos resultados das teses de doutorado dos bi&oacute;logos Wedson Souto, Raynner Barboza, Hugo Fernandes-Ferreira, al&eacute;m da disserta&ccedil;&atilde;o de Anderson Feij&oacute;. A finaliza&ccedil;&atilde;o do artigo coube aos professores Pedro Estrela e  Alfredo Langguth, especialistas em mam&iacute;feros. Todo o processo durou cerca de quatro anos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ENTENDENDO OS MOTIVOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O trabalho estabelece uma detalhada descri&ccedil;&atilde;o de 41 esp&eacute;cies que s&atilde;o ou eram ca&ccedil;adas na Caatinga para diversos fins. Cerca de 31% dos animais documentados est&atilde;o na "Lista Vermelha de Esp&eacute;cies Amea&ccedil;adas da Uni&atilde;o Internacional para a Conserva&ccedil;&atilde;o da Natureza e dos Recursos Naturais" (IUCN) e na "Lista Nacional das Esp&eacute;cies da Fauna Brasileira Amea&ccedil;adas de Extin&ccedil;&atilde;o", do Minist&eacute;rio do Meio Ambiente. O levantamento cont&eacute;m informa&ccedil;&otilde;es sobre as esp&eacute;cies de mam&iacute;feros, seus usos e as formas de intera&ccedil;&atilde;o com as pessoas. De acordo com Alves, os resultados de suas investiga&ccedil;&otilde;es sugerem que, no caso dos mam&iacute;feros, a ca&ccedil;a &eacute; um fator que tem provocado uma forte press&atilde;o sobre as popula&ccedil;&otilde;es naturais das esp&eacute;cies, principalmente as de grande porte, como a on&ccedil;a-pintada (<i>Panthera onca</i>) e o queixada (<i>Tayassu pecari</i>), presentes em raros pontos do bioma.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n4/a05fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Das 41 esp&eacute;cies catalogadas, 31 s&atilde;o ou eram capturadas para fins alimentares, 38 para medicina popular, 23 utilizadas como ornamentos, 24 como animais de estima&ccedil;&atilde;o, 31 para fins m&aacute;gico-religiosos (nesses casos, apenas algumas partes dos animais s&atilde;o utilizadas, como chifres, unhas ou pele) e 25 mortas em situa&ccedil;&atilde;o de conflito com seres humanos. Algumas esp&eacute;cies, como a anta (<i>Tapirus terrestris</i>), o tamandu&aacute;-bandeira (<i>Myrmecophaga tridactyla</i>) e o tatu canastra (<i>Priodontes maximus</i>) j&aacute; foram completamente extintas da regi&atilde;o. "Por ser uma atividade que ocorre de maneira clandestina na maior parte da regi&atilde;o, as informa&ccedil;&otilde;es sobre a ca&ccedil;a s&atilde;o escassas, embora sua import&acirc;ncia econ&ocirc;mica e ambiental seja evidente. &Eacute; necess&aacute;rio entender as raz&otilde;es que levam as pessoas a ca&ccedil;ar mesmo em um cen&aacute;rio de clandestinidade. S&oacute; &eacute; poss&iacute;vel pensar em estrat&eacute;gias de conserva&ccedil;&atilde;o se houver informa&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis sobre o problema", explica o professor R&ocirc;mulo Alves. A carne de mam&iacute;feros selvagens constitui uma importante fonte de prote&iacute;na para diversas comunidades rurais e urbanas, especialmente em per&iacute;odos de seca sazonal, quando a colheita se torna escassa e os animais dom&eacute;sticos sofrem com a fome e a sede.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma das esp&eacute;cies mais importantes para a ca&ccedil;a na regi&atilde;o &eacute; o veado-catingueiro (<i>Mazama gouazoubira</i>). Al&eacute;m de muito apreciado pelo sabor e maciez de sua carne, esse animal &eacute;, muitas vezes, alvo de competi&ccedil;&otilde;es, por ser considerado dif&iacute;cil de perseguir. A popula&ccedil;&atilde;o est&aacute; em decl&iacute;nio em diversas localidades, em parte devido &agrave; ca&ccedil;a, mas tamb&eacute;m pela perda de habitat.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outras esp&eacute;cies muito utilizadas como alimento no semi&aacute;rido brasileiro s&atilde;o o moc&oacute; (<i>Kerodon rupestris</i>) e o cateto (<i>Pecari tacaju</i>), tamb&eacute;m usado na medicina popular para tratar doen&ccedil;as como trombose, bronquite e AVC.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O tatupeba (<i>Euphractus sexcinctus</i>), al&eacute;m de consumido como alimento, &eacute;, assim como o cateto, empregado na medicina popular. Fragmentos de cauda pele e gordura s&atilde;o prescritos para tratar feridas, dor de ouvido, asma, dor de garganta, pneumonia, sinusite, surdez , garganta grossa ou para desviar a inveja.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ASPECTOS CULTURAIS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Alves, em uma perspectiva ecol&oacute;gica e conservacionista, a redu&ccedil;&atilde;o da press&atilde;o de ca&ccedil;a representaria o ideal de conserva&ccedil;&atilde;o e estrat&eacute;gia de manejo da fauna. Todavia, essa redu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; vi&aacute;vel na regi&atilde;o, uma vez que a ca&ccedil;a de animais silvestres est&aacute; indissociavelmente ligada a fatores socioecon&ocirc;micos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Ignorar as motiva&ccedil;&otilde;es que levam as pessoas a usarem os produtos da fauna silvestre implica impor medidas de controle que n&atilde;o funcionam por uma s&eacute;rie de fatores. A prova disso &eacute; que a ca&ccedil;a &eacute; disseminada na regi&atilde;o, e em todo Brasil, apesar de a legisla&ccedil;&atilde;o proibir. Por ser um tema complexo, &eacute; uma atividade que deve ser entendida em suas diferentes nuances para que se possa pensar em estrat&eacute;gias que busquem a conserva&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies, mas tamb&eacute;m a manuten&ccedil;&atilde;o das pessoas que se utilizam desse recurso como fonte de subsist&ecirc;ncia. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os produtos animais s&atilde;o usados para diferentes fins. No caso do uso alimentar, e quando as comunidades locais dependem da atividade para subsist&ecirc;ncia, &eacute; recomend&aacute;vel que sejam planejadas formas de explora&ccedil;&atilde;o sustent&aacute;vel do recurso. Nesse &acirc;mbito, a pr&oacute;pria legisla&ccedil;&atilde;o permite que as comunidades tradicionais possam ca&ccedil;ar para sua subsist&ecirc;ncia. Na maior parte da Caatinga, no entanto, a ca&ccedil;a est&aacute; associada ao aspecto cultural.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitas vezes o indiv&iacute;duo inicia as atividades cineg&eacute;ticas ainda na inf&acirc;ncia, influenciado por parentes. As pessoas envolvidas consideram a pr&aacute;tica como um esporte e &eacute; comum que se re&uacute;nam com amigos nos fins de semana em clima de descontra&ccedil;&atilde;o e aventura", esclarece.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diante dessas realidades distintas, Alves aponta a necessidade de implementar medidas destinadas a garantir a sustentabilidade da ca&ccedil;a regional e minimizar os impactos sobre as popula&ccedil;&otilde;es animais. Como a&ccedil;&otilde;es que poderiam contribuir para equilibrar a situa&ccedil;&atilde;o, os pesquisadores destacam o desenvolvimento de programas educacionais de manejo da vida selvagem (no caso da ca&ccedil;a de subsist&ecirc;ncia), com fortes componentes de legisla&ccedil;&atilde;o ambiental e sua aplica&ccedil;&atilde;o efetiva (no caso de ca&ccedil;a para entretenimento); a cria&ccedil;&atilde;o de canais de comunica&ccedil;&atilde;o entre institui&ccedil;&otilde;es acad&ecirc;micas e governamentais e os envolvidos na ca&ccedil;a e a intensifica&ccedil;&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es de fiscaliza&ccedil;&atilde;o da ca&ccedil;a para entretenimento. Al&eacute;m dessas medidas, o pesquisador afirma que &eacute; preciso considerar tamb&eacute;m o com&eacute;rcio ilegal de animais silvestres, que estimula a ca&ccedil;a e representa um problema ambiental mundialmente reconhecido. Outros fatores, a exemplo da agricultura de corte e queima e a cont&iacute;nua remo&ccedil;&atilde;o da vegeta&ccedil;&atilde;o para a cria&ccedil;&atilde;o de bovinos e caprinos, contribuem para o empobrecimento ambiental da regi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As descri&ccedil;&otilde;es dos mam&iacute;feros de ca&ccedil;a registrados no artigo foram baseadas em amostras de cole&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas, al&eacute;m de dados dispon&iacute;veis na literatura. Os pesquisadores visitaram as cole&ccedil;&otilde;es de mam&iacute;feros da Universidade Federal da Para&iacute;ba (UFPB), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e o Museu de Zoologia da Universidade de S&atilde;o Paulo (MZUSP). O cat&aacute;logo pode ser acessado no endere&ccedil;o <a href="http://ethnobioconservation.com/index.php/ebc/article/view/90/79" target="_blank">http://ethnobioconservation.com/index.php/ebc/article/view/90/79</a>.</font></p>     ]]></body>
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