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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br> F&Iacute;SICA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Minera&ccedil;&atilde;o de h&eacute;lio-3 na lua</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Victoria Fl&oacute;rio</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Aspira&ccedil;&otilde;es de poder pol&iacute;tico e econ&ocirc;mico, crescimento populacional, efeitos adversos causados por mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas s&atilde;o alguns dos fatores que o ex-astronauta norte-americano Harrison Schmitt aponta como definitivos para a busca de fontes alternativas de energia. Para ele, que foi membro da Apollo 17 (1972), energia &eacute; o cerne da segunda corrida espacial, da qual participam pa&iacute;ses em desenvolvimento como &Iacute;ndia e China, com um elemento novo: as empresas privadas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Schmitt, autor do livro Return to the moon: exploration, enterprise and energy in the human settlement of space (2006), a expectativa &eacute; que, nos pr&oacute;ximos 50 anos, pa&iacute;ses como a China - onde 3/4 da energia consumida vem de usinas de carv&atilde;o -, a demanda de energia aumente quatro vezes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A China tem planos ambiciosos para a explora&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o, incluindo a comercializa&ccedil;&atilde;o de recursos da lua como gelo, metais preciosos e grandes reservas de h&eacute;lio-3, um g&aacute;s raro no planeta Terra, que pode ser utilizado para produzir energia limpa em usinas de fus&atilde;o nuclear. A eletricidade produzida em usinas termonucleares &agrave; h&eacute;lio-3 representaria uma solu&ccedil;&atilde;o para poss&iacute;veis crises de energia, j&aacute; que 40 gramas de h&eacute;lio-3 substituem cinco mil toneladas de carv&atilde;o em termos de energia (dados The New Citizen, mar&ccedil;o de 2016).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas, como aponta Schmitt, para se tornar comercializ&aacute;vel, a energia el&eacute;trica gerada por fus&atilde;o do h&eacute;lio-3 precisaria baratear muito. Qual seria a vantagem dos reatores de fus&atilde;o &agrave; h&eacute;lio-3 em rela&ccedil;&atilde;o a outros processos? Valeria realmente &agrave; pena ir at&eacute; a lua buscar esse elemento raro no planeta Terra? E, quanto &agrave; explora&ccedil;&atilde;o desse recurso na lua, quem chegar primeiro leva?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n4/a07fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>USINAS DE HELIO-3</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com Ricardo Galv&atilde;o, especialista em f&iacute;sica de plasmas da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), a energia nuclear pode ser produzida por dois processos, fiss&atilde;o (bomba at&ocirc;mica) e fus&atilde;o (principal processo atrav&eacute;s do qual estrelas irradiam energia). Neste &uacute;ltimo, dois elementos de pequena massa at&ocirc;mica se fundem, resultando em outro de massa at&ocirc;mica maior, mais part&iacute;culas subat&ocirc;micas, que podem ser n&ecirc;utrons ou pr&oacute;tons, e que carregam muita energia. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O exemplo mais comum da fus&atilde;o &eacute; a de dois is&oacute;topos do hidrog&ecirc;nio, deut&eacute;rio-tr&iacute;tio, que gera n&ecirc;utrons como um dos produtos, o que, segundo Galv&atilde;o, &eacute; um dos aspectos negativos desse processo porque al&eacute;m de ser perigoso &eacute; menos eficiente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A grande vantagem da fus&atilde;o nuclear usando h&eacute;lio-3 (deut&eacute;rio-h&eacute;lio-3) &eacute; que se trata de rea&ccedil;&atilde;o aneutr&ocirc;nica, sem gera&ccedil;&atilde;o de n&ecirc;utrons, mas de pr&oacute;tons (part&iacute;culas eletricamente carregadas que podem ser controladas por campos eletrost&aacute;ticos). Em termos de gera&ccedil;&atilde;o de energia significa mais efici&ecirc;ncia, al&eacute;m de n&atilde;o gerar lixo nuclear. Estima-se um custo de cerca de US$ 6 bilh&otilde;es para o primeiro prot&oacute;tipo comercial de uma usina nuclear de h&eacute;lio-3, e, nesse cen&aacute;rio, explica Schmitt, os investimentos compensariam a partir da implanta&ccedil;&atilde;o de cinco usinas de 1000-megawatts trabalhando juntas (o custo do quilowatt-hora US$ 0,05).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entretanto, a fus&atilde;o deut&eacute;rio-h&eacute;lio-3 n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico tipo de rea&ccedil;&atilde;o aneutr&ocirc;nica. Empresas como a norte-americana Tri Alpha Energy, preocupada com os altos custos de explora&ccedil;&atilde;o do h&eacute;lio-3 na lua, concentram-se em alternativas com elementos abundantes na crosta terrestre, como a fus&atilde;o pr&oacute;ton-boro (o boro &eacute; abundante na crosta terrestre).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ambas rea&ccedil;&otilde;es aneutr&ocirc;nicas, no entanto, exigem condi&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas para produzir energia com a mesma efici&ecirc;ncia da rea&ccedil;&atilde;o deut&eacute;rio-tr&iacute;tio, pontua Galv&atilde;o. A fus&atilde;o do deut&eacute;rio existente em uma banheira cheia de &aacute;gua mais o l&iacute;tio de uma bateria de laptop, por exemplo, geraria aproximadamente 8% da eletricidade consumida pela cidade de Guarulhos em um ano (200 mil quilowatts-hora).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TRAZENDO H&Eacute;LIO-3 DA LUA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O h&eacute;lio-3 &eacute; escasso na Terra porque os ventos solares que carregam o elemento s&atilde;o bloqueados pelo nosso campo magn&eacute;tico, e na atmosfera ele &eacute; produzido em pequenas quantidades (bombardeio de raios c&oacute;smicos em &aacute;tomos de h&eacute;lio-4). Mas na lua, onde o h&eacute;lio-3 proveniente de ventos solares consegue se fixar, estima-se que a abund&acirc;ncia seja tal que um peda&ccedil;o de solo lunar com &aacute;rea de dois quil&ocirc;metros quadrados e profundidade de tr&ecirc;s metros, contenha 100 quilos de h&eacute;lio-3, de acordo com Shmitt, volume suficiente para abastecer uma usina de fus&atilde;o 1000-megawatt durante um ano. "Considerando que os foguetes Saturno V, por exemplo, levam uma carga de 50 toneladas, n&atilde;o &eacute; inteiramente descabido imaginar col&ocirc;nias lunares para explorar seu solo, extrair h&eacute;lio-3 e transport&aacute;-lo para a Terra, como quer fazer o governo chin&ecirc;s", afirma Galv&atilde;o. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O grande desafio, segundo Schmitt, ser&aacute; enviar foguetes da Terra para a lua a um custo muito mais baixo do que os que mant&ecirc;m a Ag&ecirc;ncia Espacial Americana (Nasa), por exemplo. Em 2005, o custo de transporte em um foguete como o Saturno V seria aproximadamente US$ 60 mil por quilo. Uma moderniza&ccedil;&atilde;o da Saturno VI dobraria a capacidade de carga e diminuiria custos para US$ 3 mil por quilo (o projeto Saturno come&ccedil;ou na d&eacute;cada de 1960, com o ent&atilde;o presidente Dwight Eisenhower). O professor Ricardo Galv&atilde;o tem d&uacute;vidas e, pessoalmente, considera a empreitada invi&aacute;vel "mesmo considerando a viabilidade dos prot&oacute;tipos reatores deut&eacute;rioh&eacute;lio-3, &eacute; dif&iacute;cil acreditar que haveria interesse em investir em fontes de energia em que o combust&iacute;vel tenha que ser transportado da lua por foguetes!".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TERRA SEM LEI</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Schmitt acredita que um grande diferencial dessa corrida &eacute; a presen&ccedil;a da iniciativa privada. Empresas como a israelense SpaceIL e a norte-americana Moon Express j&aacute; se mobilizam, demarcando terreno na explora&ccedil;&atilde;o espacial. Ambas s&atilde;o participantes no Lunar X-Prize, um pr&ecirc;mio de 30 milh&otilde;es de d&oacute;lares oferecido pela Google a engenheiros, desenvolvedores e inovadores que desenvolvam tecnologia de explora&ccedil;&atilde;o espacial mais barata.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas ser&aacute; que quem chegar primeiro na lua adquire direito de explorar seus recursos? O Tratado do Espa&ccedil;o Exterior (1967), assinado pela Uni&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, pro&iacute;be explicitamente qualquer na&ccedil;&atilde;o de ser dona da lua e de explorar seus recursos para obter lucro, mas n&atilde;o diz claramente se isso se estende a indiv&iacute;duos e companhias privadas. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As tentativas de ratific&aacute;-lo nesse sentido levaram ao Tratado da Lua (1984), que pro&iacute;be a explora&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o, da lua e de outros objetos celestes visando lucro. No entanto, R&uacute;ssia, Estados Unidos e China se recusaram a assinar o tratado. Enquanto isso, a venda de propriedades na lua existe pelo menos desde 1980, com a organiza&ccedil;&atilde;o Lunar Embassy, que se autoproclama l&iacute;der no mercado de venda de terrenos extraterrestres, com mais de cinco milh&otilde;es de membros.</font></p>      ]]></body>
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