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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTES PL&Aacute;STICAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Olhares transformando o lixo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Adriana Menezes </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A arte e o lixo se relacionam como a desafiar o sentido de tudo. Se no passado ambos tinham bem definidos seus significados, cada qual em seus lugares estabelecidos, em certo momento da era moderna esses conceitos se transformam: a arte pode virar lixo e o lixo pode virar arte. E quando o lixo &eacute; tema da obra de arte h&aacute; sempre uma miss&atilde;o: transgredir ou advertir.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O dada&iacute;smo, movimento art&iacute;stico do in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, encontrou no lixo o elemento de transgress&atilde;o que procurava criticar as guerras e a insensatez humana. Em 1913, o franc&ecirc;s Marcel Duchamp instalou uma roda de bicicleta sobre um banquinho. &Eacute; dele tamb&eacute;m <i>A fonte</i>, um urinol de porcelana, considerada uma das obras mais representativas desse movimento art&iacute;stico. Com essas obras, Duchamp desafiava os valores est&eacute;ticos e art&iacute;sticos da &eacute;poca. Para os dada&iacute;stas, qualquer objeto jogado na rua poderia se transformar em pe&ccedil;a art&iacute;stica, lembra Ricardo Cruzeiro, artista gr&aacute;fico e escultor. "H&aacute; um bom tempo existe esta rela&ccedil;&atilde;o de amor e &oacute;dio entre arte e lixo", diz Cruzeiro. "Inicialmente, ela significava uma severa cr&iacute;tica ao fazer art&iacute;stico, mas foi se tornando uma tend&ecirc;ncia e, logo em seguida, um movimento, e depois uma verdadeira ditadura do reducionismo".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n4/a18fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1961, o artista Pietro Manzoni chegou a enlatar as pr&oacute;prias fezes e criou uma embalagem a que deu o t&iacute;tulo de <i>A merda do artista</i>. "Vendeu por uma pequena fortuna", lembra Cruzeiro, sem esquecer ainda da arte <i>povera</i> italiana (arte pobre), do final da d&eacute;cada de 1960, que, com a utiliza&ccedil;&atilde;o de sucata, provocava a reflex&atilde;o sobre como a sociedade usa e descarta os objetos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hoje, exemplos de artistas que introduzem o lixo na arte aparecem em todo canto do mundo. Alguns, como o sergipano Arthur Bispo (1909-1898), mais conhecido como Bispo do Ros&aacute;rio, fazia essa op&ccedil;&atilde;o muito mais devido &agrave; car&ecirc;ncia de recursos. Era no lixo que ele encontrava inspira&ccedil;&atilde;o e sua mat&eacute;ria-prima. Com diagn&oacute;stico de insanidade mental, ele pegava materiais descartados na cl&iacute;nica onde ficou internado por muitos anos para criar roupas e instala&ccedil;&otilde;es. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No per&iacute;odo em que escolheu viver de sua pr&oacute;pria arte, nos sub&uacute;rbios de Nova York nos anos 1970 e 80, o norte-americano Jean-Michel Basquiat (filho de m&atilde;e porto-riquenha e pai haitiano, ex-primeiro ministro daquele pa&iacute;s) buscava no lixo as telas para suas obras. Pintou em papel&atilde;o, madeira de refugo e papel reaproveitado.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DESAFIO EXTRAORDIN&Aacute;RIO </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI, a raz&atilde;o do lixo ser utilizado na produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica relaciona-se principalmente &agrave;s discuss&otilde;es mundiais sobre meio ambiente. &Eacute; nesse contexto que ele passa a ser o foco do olhar do artista que quer mostrar as deforma&ccedil;&otilde;es da sociedade, &eacute; uma forma de protesto e de conscientiza&ccedil;&atilde;o por meio da arte. Um desses artistas &eacute; o brasileiro Vik Muniz, conhecido por combinar o material que usa com o tema de suas obras. Em um de seus trabalhos ele criou uma s&eacute;rie de imagens de grande porte com objetos coletados no aterro de Gramacho, na cidade de Duque de Caxias (RJ). Fechado em 2012, era o maior aterro sanit&aacute;rio a c&eacute;u aberto do mundo. O trabalho art&iacute;stico de Vik Muniz transbordou os limites da obra de arte, transformando-se em um projeto social com os catadores. A hist&oacute;ria dessas pessoas foi tema do document&aacute;rio anglo-brasileiro <i>Lixo extraordin&aacute;rio</i>, de 2010. Indicado ao Oscar em 2011 na categoria "Melhor Document&aacute;rio" e vencedor em importantes festivais de cinema, como Sundance e Berlim, o filme chamou a aten&ccedil;&atilde;o do mundo para as p&eacute;ssimas condi&ccedil;&otilde;es de vida dos catadores, ao mesmo tempo em que deu visibilidade para os desafios da deposi&ccedil;&atilde;o de res&iacute;duos s&oacute;lidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O impacto do lixo no meio ambiente tamb&eacute;m &eacute; mote da megainstala&ccedil;&atilde;o <i>True rouge</i> (1997), do artista pernambucano Tunga, exposta em uma das galerias do Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais. A obra impressiona o espectador pela grandiosidade: um conjunto de redes suspensas no teto, recheadas de vidro soprado, p&eacute;rolas de vidro, esponjas do mar, bolas de sinuca, escovas de limpar garrafas, feltro e bolas de cristal, tudo banhado em vermelho que respinga no ch&atilde;o como gotas de sangue. Dramaticidade para lembrar o visitante das feridas no planeta feitas pelo homem e seu lixo. Na obra os objetos parecem ecoar um choro, em uma evoca&ccedil;&atilde;o &agrave;s cren&ccedil;as xinto&iacute;stas japonesas que contam que todas as coisas t&ecirc;m esp&iacute;rito e aquelas que s&atilde;o jogadas fora "choram &agrave; noite na lata de lixo".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outros artistas brasileiros que se destacam na pr&aacute;tica de utilizar o material descartado s&atilde;o Jaime Prades e Henrique Oliveira. Pioneiro na arte urbana brasileira, Prades constr&oacute;i esculturas que evocam &aacute;rvores, utilizando restos de madeira que ele recolhe em ca&ccedil;ambas e na rua. As obras comp&otilde;em um projeto que o artista chama <i>Natureza humana</i>. Henrique Oliveira tamb&eacute;m usa a madeira sucateada. Em obras feitas para ocupar grandes espa&ccedil;os, ele trabalha com texturas, por meio das quais confere &agrave;s suas instala&ccedil;&otilde;es movimento e volume, como se quisesse devolver vida aos materiais descartados.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n4/a18fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Fora do Brasil, &eacute; poss&iacute;vel destacar outros oito artistas, a maioria deles jovens que criam a partir do lixo. A artista japonesa Sayaka Kajita Ganz faz esculturas de animais com pl&aacute;sticos descart&aacute;veis, como copos e colheres.  A norte-americana Ann P.Smith reutiliza pe&ccedil;as de eletroeletr&ocirc;nicos e eletrodom&eacute;sticos descartados para criar esculturas-rob&ocirc; com as quais produz v&iacute;deos em <i>slow motion</i>. Tamb&eacute;m dos Estados Unidos, Erika Iris Simmons faz uma arte figurativa - e menos conceitual - utilizando fitas cassetes para produzir quadros de m&uacute;sicos como John Lennon e Michael Jackson. J&aacute; Sandhi Schimmel Gold usa res&iacute;duos de papel e lixo eletr&ocirc;nico como mat&eacute;ria-prima em seus mosaicos tamb&eacute;m figurativos e coloridos - sempre com tinta n&atilde;o t&oacute;xica. O fot&oacute;grafo californiano Chris Jordan produz belas imagens com tampas de garrafa, latas de alum&iacute;nio, l&acirc;mpadas e qualquer tipo de sucata. Na foto <i>Plastic cups</i> ele utilizou um milh&atilde;o de copos de pl&aacute;stico, o mesmo volume descartado pelas companhias a&eacute;reas americanas em apenas seis horas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na Europa, o pintor alem&atilde;o Nils-Udo e o escultor brit&acirc;nico Andy Goldsworthy optaram por usar res&iacute;duos org&acirc;nicos e elementos da natureza como folhas, galhos, p&eacute;talas, pedras, gelo e at&eacute; frutos. Na Fran&ccedil;a, Bernard Pras reproduz obras de grandes artistas ou imagens marcantes com objetos encontrados em aterros, assim como Vik Muniz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A rela&ccedil;&atilde;o entre arte e lixo mostra como o lixo pode ser transformado a partir do olhar art&iacute;stico, tanto para questionar o pr&oacute;prio fazer art&iacute;stico como para provocar reflex&otilde;es sobre as consequ&ecirc;ncias da gera&ccedil;&atilde;o de lixo para o meio ambiente. Tudo pode ser transformado em arte, o desafio maior &eacute; transformar o modo como nos relacionamos com os objetos, como consumimos e como descartamos o que n&atilde;o serve mais.</font></p>      ]]></body>
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